Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 26 de março de 2011

" PLANOS E REALIZAÇÕES"(de "SOURREIA" - Jornal "a Huila" nº 754 - (Editorial) - 27 de Agosto de 1955 -


" PLANOS E REALIZAÇÕES"


 Depois de largos anos de quase uma apatia contaminosa e prejudicial, começo o sul de Angola, toda esta vasta e rica região da Huila, a ser olhada com mais carinho, a serem compreendidas as suas necessidades urgentes e imprescindíveis. O planalto da Huila é talvez a melhor região de Angola para a instalação dos colonos chegados da Metrópole distante, satisfazendo em parte o seu problema de excedência demográfica, sem que todavia se possam ou se devam esquecer as necessidades e exigências locais. De clima bastante saudável, esta terra maravilhosa e rica em recursos naturais, encravada no interior sertanejo da negra África, estava como que condenada a continuar nessa aflitiva situação ainda por mais tempo, atrofiando-se e extinguindo-se as boas vontades representadas por esses valorosos e esforçados colonos que há sete dezenas de anos trepararam esforçada e denodadamente esta tão majestosa quanto ardilosa Chela, aqui assentaram arraiais e prosseguiram na luta. E, hoje, é com justificado orgulho e vaidade que todos nós vemos amparados e prosseguindo em acelerado ritmo os sonhos das gentes de antanho, as necessidades imediatas das gentes do presente. Não se podia levar ávante um plano de colonização, de civilização dos naturais instalados ou refugiados no sertão inóspito, sem se procurarem beneficiar e aproveitar convenientemente as condições naturais das diversas regiões, na maioria férteis e fáceis de cultivar. Surgiu então o grandioso plano de irrigação de uma grande parte da região sul, aproveitando-se esses mananciais de água que correm sem proveito, descansada e orgulhosamente superiores à vontade dos homens, mas que muito em breve se precipitarão em cachoeiras ruidosas, movendo poderosos geradores que hão de fornecer energia eléctrica a preços mais acessíveis numa extensa linha, correndo depois então através de canais dirigidos às melhores regiões agrícolas que estavam condenadas a uma fauna agreste, onde reinassem as feras, mas que, mercê da lúcida e boa compreensão de quem nos dirige,se hão-de tornar em magníficos campos de agricultura, onde vivam pacificamente as gentes lusitanas, quer vindas do continente distante, quer os naturais da região, nascidos e criados para a luta e cultivo da terra e que a amam tanto quanto ao que têm de mais querido. Directamente ligado com o problema da irrigação e fornecimento de energia eléctrica para os mais variados usos, desde os industriais aos domésticos, apresentava-se o problema dos transportes que escoassem para o litoral portuário os produtos do interior. As estradas rodoviárias não eram suficientes, nem podiam satisfazer as condições económicas, atendendo ainda às desvantagens que surgem na época das chuvas. Por tal, o Caminho de Ferro de Moçamedes, vindo daquela cidade até á capital do planalto, tinha de seguir mais ávante, atravessando essas regiões agrícolas e pecuárias, indo mesmo além fronteiras, escoando desse modo e em sentidos diversos, não só os produtos do interior de que necessitam as vizinhas colónias estrangeiras, como ainda dando vazão com o mesmo destino, à riqueza piscatória de Moçamedes,Porto Alexandre e Baía dos Tigres. Era um sonho que se alimentava esperançosamente, que se enraizou em todos nós, e que, finalmente, podemos dizer, se realizou. Esses trilhos, largos e metálicos, suportados por resistentes madeiras das nossas florestas, correm pelo interior cortando o seio bravo e espinhoso desta estranha África! Vão-se melhorando as condições de vida das gentes e vão surgindo paralelamente às linhas gémeas, lindas e progressivas populações. Iniciado o plano de irrigação e melhorando o dos transportes, em grande escala e baixo custo, a região da Huila entra decididamente no verdadeiro caminho da exploração agro-pecuária e, consequentemente, no ramo industrial, na transformação e aproveitamento dos produtos naturais,passando da produção e consumo à venda em larga escala para os mercados mundiais, favorecido ainda pela maior capacidade e facilidade de embarque do novo porto acostável de Moçamedes. Hão-de surgir muitas e novas populações, centros de colonização branca; hão-de tomar vulto e desenvolvimento as cidades do sul, mais directamente beneficiadas pelo programa e trabalhos que se estão realizando.Mas toda a Província de Angola será influenciada por esses melhoramentos, beneficiada pelas produções intensas, beneficiada mesmo até certo limite pelo aproveitamento hidro-eléctrico da Matala ou de outras barragens que estão em planos, na transformação eficiente e económica de seus produtos, no desenvolvimento intenso e modernizado das suas indústrias. Venceram-se barreiras, reduziram-se dificuldades, e dia a dia, a nova linha vai avançando; hoje, Vila Artur de Paiva, amanhã Matala e depois, mais além, até á fronteira ! Dia a dia as gentes vibram de entusiasmo e choram de comoçaão e alegria ao ouvirem vibrar o silvo estridente da fogosa máquina, ecoando pelos montes, e ao verem pela primeira vez, sulcando os trilhos metálicos, essa mesma e gigantesca "Garratt", atrelada a modernas e amplas carruagens, a modernos Wagons que transportarão os seus produtos e dar-lhes-ão um melhor nível de vida. Para finalizar, recordemos esta parte do feliz discurso de S. Exa. o Governador-Geral de Angola, Sr. Capitão Silva Carvalho, quando da inauguração do 1º troço da linha sul (na Chibia), no prolongamento do Caminho de Ferro de Moçamedes : ..." Hoje, mais um troço de linha férrea; amanhão, mais uma estrada, mais uma escola,mais uma igreja, um novo cais, novas riquezas extraídas do solo, novas produções arrancadas á terra, novas facilidades aos colonos, novos núcleos de população indígena levada á civilização latino-cristã. E é um novo país que surge, menos rápidamente do que pede o nosso desejo, mas num ritmo seguro, persistente, fatal, de quem apenas prolonga, no espaço e no tempo, as linhas estruturais do nosso destino de Nação".

(de "SOURREIA" - Jornal "a Huila" nº 754 - (Editorial) - 27 de Agosto de 1955  


Sobre o autor: , natural de MOÇÂMEDES (ANGOLA), com ascendência Afro-Luso-Brasileira(Minas Gerais). Frequentou as Escolas Primárias Nº60,“LUÍS DE CAMÕES”,no LUBANGO (SÁ DA BANDEIRA)e Nº 67,"PINHEIRO CHAGAS", na CHIBIA; depois, o Liceu Nacional “DIOGO CÃO”(sendo um dos seus professores o escritor e capitão GASTÃO DE SOUSA DIAS) e o Colégio “INFANTE SAGRES”, em SÁ DA BANDEIRA, (tendo neste como professor, o etnólogo e escritor, padre CARLOS ESTERMANN; mais tarde frequentou o Instituto Industrial de Nova Lisboa (Curso de Química Laboratorial e Industrial -– não concluído). Ainda estudante e, posteriormente, foi colaborador dos seguintes jornais: “A HUILA” (sendo mesmo e durante um certo período, seu redactor, em horas extras), “NOTÍCIAS da HUILA”,“O NAMIBE”,“A VOZ DO PLANALTO”, “A PROVÍNCIA DE ANGOLA” e do “JORNAL DE ANGOLA”, da ASSOCIAÇÃO AFRICANA (em Luanda, de que foi ainda membro da direcção e colaborador da LIGA NACIONAL AFRICANA), usando sempre o seu pseudónimo “Sourreia”. Nos Jogos Florais das “Bodas de Prata” do Liceu “DIOGO CÃO” -(1954)- obteve o 2º lugar (“Malmequer de Prata”) na modalidade de “Prosa” e recebeu ainda a única menção honrosa atribuída na modalidade de “Quadra”. Nessa altura, escreveu e publicou algum tempo mais tarde (1956), com o mesmo pseudónimo, a sua primeira obra literária “ASSIM SOMOS TODOS”. Foi colaborador e fundador do "CENTRO DE TURISMO DA HUILA" e do "NÚCLEO FILATÉLICO DE NOVA LISBOA"; colaborador dos "VICENTINOS" para a recuperação e construção da nova "CASA DOS RAPAZES DE CAMACUPA". Ingressou nos Serviços da Fazenda Pública (Finanças) em 1956 tendo prestado serviço (sucessivamente) em: Nova Lisboa, Luanda, Camacupa, Porto Alexandre, Chinguar, Silva Porto, Bailundo, Nova Lisboa e Camacupa. Em 1974 ingressou no Quadro Geral de Adidos, retirando-se para Portugal na “Ponte Aérea” de Nova Lisboa. Foi ainda colocado na Direcção Distrital de Finanças de Coimbra, tendo-se aposentado posteriormente. Prestou alguma colaboração (em Portugal)ao Jornal “O DIA” (artigos e reportagens) e "O LOBITO"(este um antigo Jornal de ANGOLA)e nalguns outros diários. A partir de 1990 publicou diversas obras literárias sobre a História de Angola: Para saber mais : Blog de Roberto Correia

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