Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 26 de abril de 2011

Boi-cavalo o meio de tranporte utilizado pelos colonos fundadores de Mossâmedes (Moçâmedes-Angola). 1862.

Legenda:  Colono de Mossamedes montado n'um boi-cavallo




O BOI-CAVALO foi o meio de transporte para montado e tracção adoptado na labuta agrícola nos primórdios da colonização, para além da machila, da tipoia e das carroças puxadas por manadas de bois, introduzidas no sul de Angola pelos boers. Sobre o boi-cavalo conta Bernardino Abreu e Castro numa das suas cronicas que à chegada dos colonos, em 1849,  para procederem à distribuição e medição dos terrenos as autoridades, sob o rigor do sol, percorriam-nos montados em bois-cavalos. E Ponce Leão escrevia no Jornal de Mossâmedes em 1884 que Francisco Maia Barreto, da 1ª colonia de 1849, sempre que havia eleições dirigia-se de véspera escarchado no seu boi-cavalo até às Hortas e Quipola, onde arengava profusamente aos agricultores para obter votação em determinada lista, e no dia seguinte entrava na vila com ar triunfante sob espessa nuvem de poeira, à frente de um esquadrão de 30 a 40 cavaleiros que seriam, como supunha, outros tantos votantes da mesma lista, montados em belos e ligeiros bois-cavalos que abundavam na região.

O BOI-CAVALO, ainda muito antes das carroças boers, era o transporte utilizado por alguns colonos fundadores de Mossâmedes, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850, nas suas deslocações às Hortas ou à Quinta dos Cavalleiros, como seria o caso de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.

A designação boi-cavalo causava uma certa sensação de surpresa no visitante que, chegado à povoação, se persuadia de ir ver um animal de nova espécie, produto híbrido da raça bovina e cavalar, quando na realidade se tratava de um boi, como tantos outros. A utilização do boi-cavalo como meio de transporte foi uma prática comum a muitos povos de África e foi seguida pelos colonos que se viam obrigados a percorrer grandes distancias, sem terem acesso a cavalos ou outros meios de transporte, substituindo-as pelos bois.

Segue um texto a este respeito retirado do livro "45 dias em Angola":
 
"...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola: para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e à quinta dos Cavalleiros. Este nome de — boi-cavallo — produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma diferença fazia dos outros bois. Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual à dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do — passo do boi — . Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo; mas a espora e o chicote tem de trabalhar continua-mente para lhes recordar o seu dever. Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem vai a Mossamedes não deve deixar de dar. "

Refere  também o autor do livro "45 Dias em Angola" , 1862, que quasi todos os proprietários da "Praia", designação que os moradores davam à povoação de Mossâmedes,  principalmente os donos de quintas ou hortas, tinham o seu boi-cavalo, escolhendo de preferência para esse efeito bois machos, furando-lhes a membrana que separa as narinas e introduzindo no furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quase idêntica  à dos cavalos, e por esse meio os orientam e lhes reprimem os ímpetos. Um selote com retranca, ou selim raso com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado afeito a este serviço, andava com uma velocidade pouco própria do passo do boi e, como refere o autor após ter percorrido umas sete léguas nesses bois,  a sua andadura não lhe pareceu pior do que a de um cavalo, sendo contudo que a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para os fazer avançar.

Outro meio de transporte utilizado era a machila, "...espécie de palanquim suspenso, servido por dous pretos.", é referido pelo mesmo autor:

"...Farei a descripção d'este traste, que faz parte de todas as mobilias, e que não deixa de apparecer em todos os leilões, que frequentemente se fazem, tanto por motivo de retirada, como de fallecimento. A base que serve de assento pôde comparar-se á de um canapé de palhinha, de metro e meio de comprido, e setenta centímetros de largura. N'uma das extremidades, mas de um só lado, e no sentido longitudinal, tem um apoio tal qual o dos nossos camapés, para servir d'encosto ao braço. De cada uma das extremidades partem cinco cordões, que atravessam a grade de madeira, e vão reunir-se, na altura de pouco mais de um metro, a umas argolas que se introduzem em dous ganchos fixados n'um tronco de palmeira, a que chamam tunga, e que é digna de reparo pela sua solidez e notável leveza. Sobre ella prende um docel, de dimensões pouco maiores que as da base, guarnecido em volta de um bambolim, para esconder os arames em que correm duas cortinas de chita adamascada de cores muito vistosas. Os pretos põe aos hombros as extremidades da tunga e como então o assento fica apenas arredado do chão uns trinta centímetros, tem a gente de se baixar para entrar para a machilla, onde se senta com as pernas estendidas, como quem está n'um banho de tina. Os pretos carregadores marcham um diante do outro, mas nunca de modo que o de traz siga as pisadas do que vai na frente. Quem estiver no meio d' uma rua e veja ir uma machilla diante de si, descobre perfeitamente os dous carregadores, e até quem vai dentro d'e11a. Os pretos gostam muito de trazer na mão uma chibalinha, ou um cacetinho curto, principalmente os carregadores, que parece ao andar equilibrarem-se com elle, levando-o de braço erguido como uma espada. Alguns usam um pau curto com uma bola na extremidade, e que nas suas mãos é uma arma terrivel, atirando-a a grandes distancias tão certeiramente, que chegam a matar caça. A primeira vez que entrei n'uma machilla senti grande repugnância ao vêr-me transportado por dous homens alagados em suor, tremendo-lhes as pernas, com o corpo exposto ao sol ardente, apenas resguardado por uma tanga, e com os hombros retalhados pelo varal : saltei indignado fora d'ella, e segui a pé para a cidade alta. O balanço que se sente ao andar é agradável como o de um catre, a bordo de uma embarcação; comtudo este meio de locomoção não deixa também de ter seus inconvenientes. Se por ventura um prelo tropeça e cáe, ou que a tunga quebra, tem a gente de sofrer não só a queda, mas também a pancada do varal n'um hombro, ou na cabeça. Já não fallo nos terríveis encontrões que se leva ao subir as fortes rampas da cidade alta, devidos à pequena altura entre o chão e o assento da machilla. "



Informações colhidas in "Quarenta e cinco dias em Angola. Apontamentos de viagem", de autor desconhecido, editado em 1862

MariaNJardim

Talvez interesse este texto  Voz de Angola em Tempo de Ultimato , by Aida Freudenthal

Sem comentários:

Enviar um comentário