Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 20 de abril de 2011

Naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo"



 Naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo"

"Um brigue brasileiro Feliz Animozo naufragando na peninsula dos Tigres, o capitão e parte da tripulação chegou em uma lancha a Mossamedes reclamando soccorro para salvar vinte e tantas pessoas que ainda tinham ficado na praia. A escuna Nympha, que se achava fundeada em Mossamedes, recebeu o capitão e alguns marinheiros, e fazendo-se de vella para o lugar indicado salvaram o resto da tripulação, a carga que se pode transportar, bem como o massame, e chegando a Mossamedes Pedro Alexandrino da Cunha devendo fazel-a seguir com os objectos salvados para a Alfandega de Loanda, como a unica mais regularmente constitituida em toda aquella costa, praticou totalmente o inverso, fez desembarcar todas as fazendas, e mais artigos do navio naufragado, ficando tudo exposto ás humidades e rigores da estação. Ao mesmo tempo foram esses objectos considerados mais um meio de satisfazer a ambição, e contra os interesses dos carregadores ou dos seguradores foram mandados por á venda em hasta publica na praia de Mossamedes, onde não existia nem sombras d'Alfandega, e nem se quer um commerciante (além do chefe do estabelecimento) que os podesse avaliar ; mas foi por est'arte que o capitão e caixa teve de presenciar a venda de todas as fazendas por um preço insignificantissimo sem que podesse reclamar, e protestar contra tão formal violencia e illegalidade em pura perda dos interessados, por isso que a ordem para a venda delas dimanara do omnipotente Alexandrino, que para esse fim fez desembarcar a guarnição da curveta Izabel do seu commando, e conjunctamente com o destacamento da intitulada fortaleza foram os arrematantes dos salvados, que depois entregaram directa ou indirectamente aos que os haviam mandado representar nesta farça, recebendo mais alguma cousa como lucro da fecticia transação, e por este modo gradualmente satisfeitas todas as ambições."

Imagem colhida na Net.

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NAUFRÁGIO NA BAÍA DOS TIGRES

Encontrei algures esta imagem que sugere o naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo", numa fase imediatamente anterior à fundação de Moçâmedes. Procurando saber o que de facto se passou, encontrei este texto que a seguir transcrevo na íntegra:

Naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo"
"... O brigue brasileiro Feliz Animozo naufragando na peninsula dos Tigres... O capitão e parte da tripulação chegou em uma lancha a Mossamedes reclamando soccorro para salvar vinte e tantas pessoas que ainda tinham ficado na praia. A escuna Nympha, que se achava fundeada em Mossamedes, recebeu o capitão e alguns marinheiros, e fazendo-se de vella para o lugar indicado salvaram o resto da tripulação, a carga que se pode transportar, bem como o massame, e chegando a Mossamedes Pedro Alexandrino da Cunha devendo fazel-a seguir com os objectos salvados para a Alfandega de Loanda, como a unica mais regularmente constitituida em toda aquella costa, praticou totalmente o inverso, fez desembarcar todas as fazendas, e mais artigos do navio naufragado, ficando tudo exposto ás humidades e rigores da estação. Ao mesmo tempo foram esses objectos considerados mais um meio de satisfazer a ambição, e contra os interesses dos carregadores ou dos seguradores foram mandados por á venda em hasta publica na praia de Mossamedes, onde não existia nem sombras d'Alfandega, e nem se quer um commerciante (além do chefe do estabelecimento) que os podesse avaliar ; mas foi por est'arte que o capitão e caixa teve de presenciar a venda de todas as fazendas por um preço insignificantissimo sem que podesse reclamar, e protestar contra tão formal violencia e illegalidade em pura perda dos interessados, por isso que a ordem para a venda delas dimanara do omnipotente Alexandrino, que para esse fim fez desembarcar a guarnição da curveta Izabel do seu commando, e conjunctamente com o destacamento da intitulada fortaleza foram os arrematantes dos salvados, que depois entregaram directa ou indirectamente aos que os haviam mandado representar nesta farça, recebendo mais alguma cousa como lucro da fecticia transação, e por este modo gradualmente satisfeitas todas as ambições."
In Demonstração geografica e politica do territorio portuguez na Guiné inferior ... Por Joaquim Antonio Menezes
1846, pgs 75 a 94
Imagem colhida na Net.



Nota:
Este livro foi publicado no Rio de Janeiro, em 1848, um ano antes da chegada a Moçâmedes dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, Brasil, ali desembarcados em 04 de Agosto de 1849, e é mais um livro crítico da acção governamental levada a cabo pelo governo português em relação a Angola. Por esta altura, o governo português procurava, com grande dificuldade e ausência de meios, implementar em Angola o Decreto Lei de 10 de Dezembro de 1836, de Sá da Bandeira, que punha fim ao tráfico escravos, medida acolhida por uns e mal recebida por outros, interessados na continuidade do vil negócio. Na Metrópole tinham chegado ao fim a chamadas "patuleias", ou seja, o conjunto de lutas entre cartistas e setembristas, e viviam-se os derradeiros momentos do cabralismo. Ora, desde a revolução de 1820 em diante, passando pelo triunfo do liberalismo (1934), e pelas disputas que se seguiram no seio do liberalismo, até à Regeneração (1851), os sucessivos governos não conseguiram um momento de paz para poder legislar. E no período que se seguiu todas as atenções foram voltadas para a Metrópole, ficando as colónias praticamente ao abandono. Angola passou a viver uma situação de anarquia governativa que perdurou por todo o constitucionalismo monárquico e se estendeu à implantação da 1ª República, em 1910.

O livro é uma crítica demolidora a esta fase da História de Portugal  em que se assiste à fundação de Moçâmedes, ou seja, a esse período de pré-colonização por que passou a "Angra do Negro»", em que o autor não poupa críticas à acção governativa de figuras  que nos habituamos a ver, em outras obras, aureoladas de grande prestígio, como foi o caso do Comandante da fragata "Isabel Maria" Pedro Alexandrino da Cunha, que participou na exploração da costa do sul de Benguela, e se empenhou na repressão do tráfico ilícito de escravos, sendo nomeado Governador-Geral Província de Angola entre 1845 e 1848, e que surge aqui como um tirano, incompetente, protegido do regime, catalogado de "ultra-setembrista", cuja "vontade tem sido sempre mais soberana que a Lei", não apenas pelo acto acima descrito, mas também por outras situações que o autor atrás referido refere. O mesmo autor avança também algumas referências a outra personalidade ligada a esta fase da formação de Moçâmedes, o "astuto capitão-tenente Francisco António Cardoso,  comandando o brigue Audaz..."
Enfim, sendo a História algo vivo e não estático, a sua compreensão não dispensa uma análise comparada de textos, sobretudo quando sobre um mesmo acontecimento, somos confrontados com duas posições antagónicas, mas cujos factos apontados de uma e de outra parte nos poderão levar a outras leituras, ajudando a compreender um pouco mais, no campo da pesquisa que nos propusermos levar a cabo, sobretudo dessa fase de passagem para um novo paradigma colonial coincidente com a fundação de Moçâmedes.
MariaNJardim


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