Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 17 de abril de 2011

Subsidios para a História do Namibe, Moçâmedes, Mossâmedes, Angola: BERO, o "RIO DAS MORTES"; BERO. o "NILO" de MOSSÂMEDES


Rio Bero, o "Rio das Mortes"

Rio Bero, o "Rio das Mortes" como lhe chamou Pinheiro Furtado, por ter alli o gentio assassinado o tenente Sepúlveda e o cirurgião da fragata Luanda  e mais dois marinheiros. Eis o que a este respeito disse Furtado para o governador, barão de Moçâmedes:
"... Em 5 de agosto 1785 deu ella a fragata fundo na grande enseada do Negro, em 15 graus,  que achamos com a lastimável noticia de ter sido assassinado o tenente de artilheria José de Sousa Sepúlveda, e o cirurgião Francisco Bernardes, no dia 29, com dois marinheiros, por 34 negros do paiz. Este, muito imprudentemente, sem necessidade e mesmo contra a ordem recebida, costumava ir para terra e por entranhar-se n'ella, com o desacordo de incendiar por duas diferentes vezes as cabanas dos negros que encontrou desertas: estes negros se apresentaram, e com apparencias de sincero trato e venda de gados por fazenda, os seduziram e mataram na praia com azagaias, despojando-os dos vestidos. O tenente ainda pode retirar-se para a lancha, |porém mortalmente trespassado polo peito, e expirou logo n'ela... Os negros tinham vindo effectivamente á praia nos dias antecedentes, com carneiros que queriam trocar por facas, pannos, e ferro para azagaias, o que tudo foi referido e confirmado por dois soldados qne andavam com os assassinados e conseguiram salvar-se. "  (1)



Rio Bero, o "Nilo" de Moçâmedes

Ainda sobre este rio "de cujas águas brotou a ressurreição de Mossâmedes" (1)  conforme vem referido na obra de José Bento Duarte -Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos- Editorial Estampa - Lisboa – Portugal, foi grande o desapontamento que tiveram os primeiros colonos vindos de Pernambuco, Brasil, fugidos da revolução praieira, quando, ao entrarem na baía de Moçâmedes, a bordo da barca brasileira "Tentativa Feliz",  em 04 de Agosto de 1849,  enxergaram angustiados, as "fugidias pinceladas de vegetação da foz do rio Bero" e a "monotonia dos areais sem fim" dos quais sobressaia o "recorte severo da fortaleza de S. Fernando", onde lhes estava destinado erguerem os seus novos lares, que de início não foram mais que "meia dúzia de choupanas de pau-a-pique e alguns barracões de paredes de madeira e coberturas de palha". 

O  baixo Bero, de corrente hídrica irregular, de margens bastante largas rodeadas de areia, com uma grande percentagem de aluvião, mantinha quase permanentemente água no subsolo (salvo as devidas proporções) um pouco à semelhança do Rio Nilo. Esta particularidade vai ser fundamental para o nascimento da povoação e para a sua evolução.






Repartindo-se de imediato pelos campos marginais do rio Bero, o "Nilo de Mossamedes", como lhe chamara Bernardino Freire de Abreu e Castro, procuravam os terrenos mais aptos para as culturas, e, informados das suas inundações periódicas, exteriorizaram algum optimismo sobre as possibilidades da região e começaram as lides agrícolas, mantendo com os cuvales das vizinhanças relações de uma cordialidade distante" e esquadrilharam meticulosamente os subúrbios da povoação. Mas o triénio de 1850 a 1852 foi um período de calores sufocantes e águas escassas, as primeiras águas, empurradas do planalto, desapareceram com celeridade no chão martirizado, o Bero tornou-se numa língua de areias crestadas, com as margens revestidas por uma crosta acastanhada de lodo velho e seco, e dos céus, patrulhados por ruidosas esquadrilhas de corvos, não se despegava um sinal de chuva, enquanto os homens vagueavam abatidos por ali acima, até muitas léguas da foz, remediando-se com cacimbas escavadas nas proximidades ou nos quintais das residências. Cobertos de andrajos e com os víveres esgotados, os colonos sobreviviam graças à caridade dos seus compatriotas de Benguela e Luanda. Foi este o quadro em que a povoação viu, apesar de tudo, ampliada a sua população branca: a 26 de Novembro de 1850 desembarcaram na baía mais cento e sete colonos oriundos de Pernambuco. Outros núcleos, mais reduzidos, se lhes seguiram, provenientes do Rio de Janeiro e da Baía. Cerca de três centenas de refugiados procuravam dar corpo ao projecto português no Sul de Angola. As águas, abundantes, chegaram de um dia para o outro, escoadas das distantes cadeias montanhosas. Juntamente com o húmus providencial vieram na correnteza algumas exóticas novidades - carcaças de elefantes, búfalos, antílopes e outros animais, arrebatados ao sertão pela violência das enxurradas.














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