Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 13 de abril de 2010

História de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola) in O Panorama, Viagens Na Africa E Na America. XIX.


Capa

Viagens Na Africa E Na America. XIX. 1854

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Velejemos para Mossamedes. Fique pela pôpa o Sombreiro, a enseada de Monos,  a bahia Farta, as Salinas, ponto bem conhecido, mas de difficil desembarque, a bahia da Torre, a angra de Santa Maria, e suas altissimas montanhas ao longo do mar, o rio Padrão e o ilhéu do Pina, dous elevados picos, que destacam da terra baixa, que corre para o sul até á angra do Negro; fmalmente eis-nos em Mossamedes, o lille fish bay dos inglezes.
Se o leitor não quer fazer por mar este trajecto de Benguella a Mossamedes, acompanhe-nos por terra, que temos para guia da viagem do major Garcia pelo sertão, de que eu tomei apontamentos nas conversações que com elie tive. Crêmos que será isto mais agradavel ao leitor do que um relatorio official, que quando não é mentiroso, é, pelo menos, quasi sempre exagerado.
Depois diremos algumas palavras acerca d'esta nova colonia, do estado em que a conhecemos, e dos progressos que tem feito em treze annos.
XX.
Partindo de Benguella com direcção a Huila, percorrem-se quinze ou dezesseis leguas de terreno arido, sem vegetação nem agua. São dous dias de marcha em rêde, ou mais de tres a pé. Depois encontra-se o rio de S. Francisco (os negros chumam-lhe cuporólo) cujas margens são cobertas de arvoredo, e o terreno começa a ser vegetal até ao nosso prezidio de Quilengues. Antes porém de chegar a este logar, encontra-se outro rio, o Nimbo, que, juntando-se ao de S. Francisco, vem confundido com elle desaguar nas Salinas ao sul de Benguella. No tempo das cheias torna-se difficil a communicação entre as suas margens, e por falta de barcos, atravessam-n'o os negros agarrados ás caudas dos bois. Seguindo a riba esquerda do rio Quitouco, chega-se com sete dias de jornada ao prezidio de Quilengues. Este paiz é sadio, em geral, o que os europeus não suppõem; são apenas vulgares ali as inflammações de olhos, e é tal a fertilidade do seu clima que produz todos os generos da America, como pequenas experiencias tem mostrado. A cultura porém está em total abandono, a provincia de Quilengues participa da sorte geral de todas as nossas colonias. O prezidio está situado sobre uma montanha, entre dous rios, tem uma fortaleza de madeira, com quatro baluartes de entulho e quatro fortins exteriores, que communicam com a praça; foi concluida em 1835. Um chefe portuguez, com 30 soldados de linha, uma companhia movel, e 4 bocas de fogo, eis toda a defeza daquella posição sertaneja. Entre os habitantes encontram-se alguns homens brancos.
De Quilengues a Huila ha cinco dias de marcha (quarenta leguas), quasi tudo deserto; porém, ao cabo d'esta penosa viagem, encontra-se um paiz saudavel, temperado, cortado de riachos de excedente agua, aonde até, na estação invernosa, chega a nevar. D'aqui ao Jau são tres leguas de terreno fertil; e o caminho que até ahi fôra, proximamente, ao SSE., começa a declinar para o SSO. até Faiôna, e de lá para Mossamedes segue quasi a oeste. Saindo do Jau, desce se o grande despenhadeiro de Quiácuto, todo matizado de arvoredo, com muita urzella, depois estende-se uma grande planicie, fertil e amena, aonde, por muitos dias de caminho, se encontram rios, arvores de fructo, e innumero gado, até chegar  a Faiôna, que é uma povoação importante d'aquelles sertões. D'ahi para o poente o terreno torna a ser arido, e apenas se encontra arvoredo ao aproximar de um rio, que vae lançar se na bahia de Mossamedes. Ao sul d'este ponto estende-sc um mar d'areia.
XXI.
O clima de Mossamedes, isto é, do logar em que está a residencia do governador, a fortaleza e a igreja (incompletas) e algumas barracas de moradores, é saudavel, e até pouco quente, porque quotidianamente sopra ahi uma viração agradavel, mas logo na extremidade da bahia, para o norte, se encontram sitios doentios nas margens do rio dos Mortos.
Por fins do anno de 1840 aportei eu a Mossamedes. Haviam apenas ali algumas palhoças, em uma das quaes morava o commandante do prezidio, e estava começada a fortaleza de S. Fernando. Foi a guarnição do nosso brigue que levantou a primeira casa de pedra e cal n'aquelles areaes, e que cultivou com successo uma pequena horta, perto do rio, a qual todavia foi fatal a mui tus dos agricultores.
Hoje é difterente. Com a chegada dos colonos de Pernambuco em 1849, e ulteriores providencias do governo da melropole, tem não só crescido consideravelmente o numero de habitações, e o commercio de marfim, gado, urzella, rêra, e gomma copal com o interior, mas as communicações com o sertão tera-se tornado mais frequentes, e os proprios colonos avançam as suas plantações de assucar, algodão e mandioca até 35 leguas distante de Mossamedes com feliz resultado; o café é que não produz bem n'este terreno.
Crêmos que, com algum sacrificio da parte da metropole, para se desenvolver em maior escala a colonisação, e prudencia nos meios de a encaminhar, por parte do governador dodistricto, se tornaria este ponto de grande importancia agricola e commercial, util a si e a nós todos.
Não e aqui logar de desenvolver as idéas de colonisação com brancos não degradados, porque seria longo, e provavelmente não passaria de uma repetição do muito que já se tem dito sobre o objecto; é porém de absoluta necessidade que, entre as oppostas opiniões de tantos que tem visitado Mossamedes, se escolha a que merecer preferencia; e se essa for favoravel ao progresso da colonisação, o governo empregue a maior energia em fazer desenvolver na maxima escala possivel a agricultura d'aquelles ferteis sertões, por onde se chega ao Jau e á Huila, e aos nossos saudaveis prezidios de Quilengues e Cacunda, muito mais depressa e por melhores terrenos, do que partindo de Benguella, que era até agora o centro do commercio daquellas paragens.
E este um objecto digno da maior attenção dos governantes.

 XXII.
Vou terminar estas noticias de Africa, reminiscencias dos tres annos, que por ali vagueei. Grande parte d'esse tempo estive em Loanda, porém fui cinco vezes a Benguella, duas a Mossamedes, duas a Novo Redondo, e uma ao Ambriz, afora os cruzeiros na costa, durante um dos quaes aprezamos o patacho Nereyda, que se destinava ao trafico da escravatura. O capitão e o piloto deste navio, tendo sido encarcerados na fortaleza de S. Miguel, d'ahi fugiram com a sentinella da prizão e o cabo da guarda!
Fóra de Loanda não ha diversões. No resto da provincia, ha apenas os grandes jantares e ceias, tantas vezes fataes aos convivas! Na capital ha algumas reuniões, e se não fòra a intriga que reina sempre entre os bandos rivaes de commerciantes, podia ser um logar de agradavel residencia. São poucas, é verdade, as mulheres, tanto europeas como nativas, que ahi se encontram, e que se possam chamar de boa sociedade, e a falta d'este elemento civilisador não deixa amaciar a grosseria dos costumes africanos, e torna menos attrahente para o europeu esta bonita cidade; porém, se não fora a intriga, e quasi sempre a prepotencia das auctoridades, ainda assim Loanda seria um logar de grata recordação para o forasteiro.
Agora, vamos collocar toda a largura do oceano entre estas paragens e as que vamos demandar. A America nos convida a encetar debaixo de seu gigantesco arvoredo a segunda parte deste trabalho, tão humilde, quanto despido de pretenções. Se a alguem agradou o que escrevemos acerca da Africa, não lhe desagradará por certo este novo passeio pelas margens do rio da Prata, pelo imperio do Brazil, e ilhas dos Açores; se porém não merecemos a complacencia dos leitores só nos resta lamentar a nossa gauchinie, o papel que inutilizámos ao Panorama.

In O Panorama: semanario de litteratura e instruccão, Volume 11 Por Sociedade Propagadora dos Conhecimentos

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