Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 12 de julho de 2011

REVISTA COLONIAL 25 Nov. 1913, nr. 11 : II cultura do algodão em Mossamedes

Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa, 1º visconde de Giraúl

Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa, 1º visconde de Giraúl
 

REVISTA COLONIAL

II cultura do algodão em Mossâmedes

A Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, chefe da primeira colonia. que, vinda de Pernambuco, às praias de Mossamedes aportou em 4 de Agosto de 1849, se deve a introducção d'esta preciosa planta no districto. Distribuiu elle a semente de que se munira no Brazil pelos seus companheiros e ainda hoje, decorridos cerca de 64 annos, a maioria das plantações de algodão proveem da semente brazileira.

Chegou a cultura ao seu auge no anno de 1872 em que se exportaram pelo porto de Mossâmedes 355 toneladas ; mas tendo-se seguido uns annos de seccas e havendo o preço do algodão declinado quasi repentinamente de dois mil duzentos e cincoenta réis o kilo a 260 e 169 réis, a maioria das plantações, quasi na totalidade, foram abandonadas, o que originou o encerramento de duas fabricas de tecidos que existiam nesta cidade, uma a vapor, pertencente a Eugenio Wherlin, francez, e outra, com teares manuaes, de Luiz José de Oliveira, teares que ainda hoje existem, uns numa arruinada casa pertencente
á Missão Catholica de Huilla e outros na casa da viuva do citado Oliveira .

Devido ás causas que apontámos, dedicaram-se os agricultores, quasi exclusivamente, á cultura da canna saccharina para fabrico de aguardente que se produzia em 35 destillações mais ou menos bem montadas . O maximo da producção, dizem-nos, jámais excedeu á totalidade de 1500 pipas cujo va-
lor póde computar-se em 1 20 .000000 .

Desde a conferencia de Bruxellas, começaram a acastellar-se perigos ameaçando a já então prospera cultura á qual Mossamedes deveu muito do seu desenvolvimento . O decreto de 27 de Maio de 191 t, como é de todos sabido, veiu, de vez, pôr cobro á cultura da canna, porque, havendo uma unica fabrica de assucar em todo o districto, actualmente encerrada,e sendo as principaes plantações bastantes kilometros distantes d'ella (pois é sabido, quanto mais distantes as destillações se encontravam do littoral mais proximas estavam dos centros da consumo) não podia aproveitar-se senão uma pequena parte . Felizmente os agricultores e legisladores, mal viram despontar o perigo que ameaçava o fabrico do alcool, de novo estimularam a cultura do algodão, conseguindo-se que ella reapparecesse em alguns valles do districto e se desenvolvesse um pouco mais em propriedades onde não chegára a desapparecer
por completo. Todas ellas embora muito lentamente e com sorte varia se vão desenvolvendo, não obstante a falta de mão d'obra que de ha muito assoberbava a agricultura e industria do Districto e, ultimamente, por motivos de todos conhecidos, se tem aggravado um pouco. Esta falta, se não se conseguir uma forte e voluntaria corrente de emigração de trabalhadores de Huilla, por bastante tempo se fará ainda sentir . -Mas, se se fizer a occupação militar do districto que vimos preconizando desde a primeira vez que na qualidade de Inspector do 6 .0 grupo de Circumscripções Civis de Angola, visitámos a de Capangombe cuja substituição por postos Militares alvitrámos, por ser a unira occupação com razão de ser nas terras d'aquella região, hoje englobadas na circumscripção civil de Mossamedes, a qual, em consequencia da séde escolhida, ainda tem menos razão de existir que tinha a de Capangombe, que algo de aproveitavel ia já produzindo, dispensavel se tornará essa corrente de emigração, pois é positivo que Chella abaixo ha mais do que os trabalhadores necessarios para a manutenção e desenvolvimento da agricultura e industrias de Mossamedes .


Mas, deixemo-nos de considerações sobre o problema da mão de obra, que longe, nos levariam, tanto mais que, apesar da sua capital importancia para a economia do districto elle é de facil solução, bastando, como já dissemos na colunnas d'esta «Revista» uma simples companhia indigena de infan-
taria para o conseguir e, passemos a tratar do algodão que produz a agricultura do districto, do que pode produzir e do papel que este districto, em que muitos persistem em ver apenas uma colonia de povoamento quando pode e deve voltar a  ser uma colonia de plantação, poderia representar na economia metropolitana .

O algodão exportado produzido no districto nos ultimos tres ermos, incluindo o actual, em que novos embarques se farão ainda, foi o seguinte : ,
1911 - Viuva Bastos & Filhos . . . 6478 kilos»
-- Duarte de Almeida & C.a 4440 » »
-Souza & Reis 1096»
1912 - Figueiredo & Almeida . , . 9 i 9 »
1913 - Viuva Bastos & Filhos . , .3760 »»
- Duarte de Almeida & C:.a 22312 »
- Figueiredo & Almeida . . . 201,0»

Em 1912 e 1913 foram exportados 2 :420 kilos de algodão produzidos neste districto, por individuos não agricultores, que englobámos nos numeros acima indicados. A Companhia de Mossamedes exportou em 191 I, 35799 kilos e, em 1912, 4.221 para mercados nacionaes. Em 1913 exportou 5 :000 kilos para estes mercados e 28 :800 kilos para Hamburgo. Não mencionámos estes numeros na producção do districto porque a Companhia de Mossamedes não tem aqui propriedades agricolas . Como atrai dissemos, muito brevemente seguirão para Hamburgo mais umas dezenas de toneladas de algodão produzidas por esta Companhia e pela firma Duarte d'Almeida & C.a

Vê-se, pois, que para quinze milhões de kilos de que o nosso paiz carece annualmente, poderia Mossamedes ter concorrido com 27:587, o que ainda assim não fez por a producção se ter destinado quasi integralmente á Allemanha por causas absolutamente extranhas á vontade dos agricultores, causas de que adiante trataremos e que só revelam o desconhecimento, do que por aqui se passa e tanto deve interessar aos industriaes de fiação do nosso paiz e ás Associações Commerciaes .

A media da producção do algodão «caravonia», tem sido de 200 . kilos por hectare, sendo, portanto necessarios 75 :000 hectares de cultura, admittindo que se não consigam sementes mais productivas que forneçam o algodão necessario para o consumo portuguez. Poderá Mossamedes produzil-o ?

Affigura-se-nos que sim, pois só no extincto concelho de Capangombe, com terrenos e clima eminentemente proprios para todas as culturas, especialmente a de algodão, existiram em tempos idos 57 propriedades algodoeiras ; e, revendo os diplomas de concessões de terrenos para algodão, vê-se que de 1863 a 1892 foram ali concedidos cento e quarenta e sete mil quatrocentos e dezoito hectares, á margem de varios rios. De tamanha area,havendo ainda muitos terrenos proprios que jamais foram requeridos, estão hoje sendo aproveitados, e bem mal, apenas umas centenas de hectares com varias culturas, quasi exclusivamente mantimentos. Afóra a area citada existem no districto terrenós na posse das principaes firmas que podem avaliar-se em 16 :000 hectares proprios para algodão, de que só uma pequena parte contém esta planta .


Todo exportado para portos nacionaes . Excepto 435 kilos que se destimnram a portos nacionaes
toda a producçáo foi exportada para Hamburgo.  São do conhecimento de todos os que um pouco se dedicam a questões coloniaes, os exforços empregados pelas varias nacionalidades para se emanciparem da esmagadora tutela da America do Norte que, só á sua parte, produz dois terços do algodão consumido nos mercados mundiaes. Desses exforços resultaram, como se sabe, entre outras, associações como a British Cotton Crowing Association, Associação Algodoeira Franceia e Associação Germano-Levantina . Nós, infelizmente, apesar de ainda hoje ocuparmos o quarto legar entre as nações coloniais, nada mais temos produzido, alem de muitos decretos e portarias, é crivei que muito patrioticas e bem intencionadas, mas, positivamente, de resultados quasi miles, entre os quass é justo destacar o decreto de 2 de Setembro de 1901, cujo prazo convem prolongar, no tocante a impostos e premios.

E, o que é mais: anullamos a propria iniciativa particular incitando os agricultores a venderem o algodão, de que carecemos em absoluto, á Allemanha, porque, não obstante os exforços empregados pelos Governos do districto e da provincia, e, ainda, os do Agente da Empreza Nacional de Navegação
para que esta Empreza faça a redacção de tarifas para o seu transporte, ella continha, certamente esquecida de que o Estado no intuito unico de a beneficiar sobrecarrega com maiores direitos de exportação as mercadorias transportadas pelas marinhas estrangeiras, continua cobrando 25 000 réis por tonelada de algodão emquanto a «Woerman Linie» leva só iz ooo réis. E, como se fóra pequeno o incentivo á exportação para o Estrangeiro, emquanto o algodão de Mossamedes é cotado nos mercados nacionaes a 350 réis o kilo, na praça de Hamburgo logra a cotação de 450 réis!

O facto de até agora nada termos produzido, comparativamente com o muito que poderia estar feito, obriga-nos a recuperar o tempo perdido, pois podemos e devemos, repetimos, só neste dristricto ultramarino, produzir todo o algodão de que carecemos para a nossa industria .

Evidentemente, sem a realização de tão dispendiosas como remuneradoras obras de arte, como barragens, canalizações, poços nos leitos dos rios, etc., sem a acquisição de charruas, desgranadeiras, arranca-cepas, machinas de apanhar algodão e enfardadeiras a vapor, que substituam quanto possível
o braço indigena, obras e acquisições estas que poderão custar, talvez, para cima de um milhar de contos, não é facil conseguir agricultar toda: a area que se torna indispensavel para conseguir esse desideratum.

Não ha no districto capitaes para empreza de tal magnitude, embora sobeje, por honra nossa, iniciativa para obras de maior vulto. Mas, o que os agricultores daqui não pódem fazer, tem a Companhia de Mossamedes (que pelas clausulas do seu contracto se obrigou a plantar cem mil hectares de algodão, tendo até á data, ao que nos dizem, bem mal tratados por signal, apenas mil hectares) obrigação de o fazer ou, pelo menos, tentar, organizando uma Companhia Algodoeira que tal nome mereça, com poucos ou nenhuns directores na metropole, tendo em Africa os technicos escolhidos de que careça, para muito trabalharem, como se tornaria necessario e, até ; uma fabrica para produzir o algodão tecido de que carecesse a Provincia de Angola.

Dissemos e não nos cançaremos de o repetir, que aquella Companhia incumbe essa iniciativa . Restando-lhe, segundo consta de dados ofplciaes que temos presentes, 1 :141 .9218883 réis
do seu capital, tem fundos de sobejo para o fazer, absolutamente dentro das clausulas do seu contracto . Gastou ella em Africa, vê-se de documentos ofliciaes que o affirma, a fabulosa somma de 1 :979 .953$117 reis . . . Em qué será facil provai-o, pois tudo, absolutamente tudo o que possue nos dois districtos do Sul de Angola, bem vendido, não produzirá cousa que se pareça com cem contos de reis. A Companhia da Zambezia, que oflìcialmente tem sido accusada de não cumprir o seu contracto, com um dispendio em África _de 1 .182:686 8oz réis, gastou cerca de cem contos, na occupação de alguns prazos -- regimen que muito desejaríamos vér applicado a Mossamedes e Huilla --; construiu um caminho de ferro de 28 kilometros de extensão ; adquiriu uma pequena esquadrilha de vapores para o rio Zambeze ; levantou explendidos edifcios, fabricas a vapor para tratamento do cairo e limpeza do arroz, oficinas, igualmente a vapor, que não se envergonham das que o Estado possue, fez uma estrada na qual, pelas grandes dificuldades do traçado gastou cerca de 17 contos, de Villa Bocage á Serra da Morrumballa, onde tem uma plantação de 73:000 pés de café das mais afamadas procedencias ; fez salinas, dedicou-se ao apuramento do gado bovino, de que possue cerca de cinco mil cabeças, e ainda lhe sobrou capital e iniciativa, apesar de pagar generosamente aos seus empregados talvez por isso mesmo, para ter em plena producção cerca de 400:000 coqueiros, 330 :000 plantas de agave e 4 :000 palmeiras de coconote, além de muito importantes culturas intercalares e viveiros de cacau, ficus elastica, castiloas, sansiviera cylindrica, sapium, kapok, etc., que occupam, destinados a experiencias, algumas dezenas de hectares. Afóra isto, no dizer duma auctoridade insuspeita, o consul de Inglaterra, ha longos annos residente em Moçambique, conseguiu o melhor typo deadministrador e o melhor typo de subordinado . . .

Assim tem procedido uma Companhia, com bons fundamentos, accusada de não ter cumprido o seu contracto. Que a Companhia de Mossamedes ponha os olhos nella ou nas suas congeneres d'aqueila fertilíssima e formosa região, e emprehenda a creação :d'uma Companhia Algodoeira de Mossamedes, adquirindo todos os terrenos proprios para algodão existentes no districto, o que julgamos poderá fazer com o dispendio maximo de duas centenas de contos, parte dos quaes poderia, talvez, pagar em acções . E abandone as pouco importantes plantações do planalto, a cerca de 500 kilometros do littoral, dos quaes 300. feitos por carros boers, estabelecendo-se em Mossamedes onde as plantações podem ser servidas pelos 176 kilometros de Caminho de Ferro já construidos e pelos portos e bahias com que a Natureza tão prodigamente dotou este districto . Todas as dificuldades com que lactam os agricultores do disiricto as tem ella no planalto, accrescidas ainda com as dos transportes aqui desconhecidas, e é positivo que as terras onde se estabeleceu são de inferior qualidade, comparadas com as do Munhino, Bibala, Bentiaba, Bambe, Coroca ou S. Nicolau.

Ao que nos consta, o Senhór Visconde do Giraul está envidando exforços para a creação d'uma companhia algodoeira . Oxalá elle, a Companhia de Mossamedes, os agricultores da colonia ou os industriaes da metropole portugueza, tão interessados no caso, o conseguissem! mas, emquanto tal se não fizer, que ao menos coadjuvem os exforços dos srs . Governadores deste districto e da Provincia para que as tarifas da Empreza Nacional acompanhem as da «Woerman Linie» e as cotações do algodão em Portugal não sejam inferiores ás de Hamburgo, pois é anti-patriotice além de irracional que as
colonias portuguezas exportem para o Extrangeiro productos que a nossa industria se vé forçada a adquirir por qualquer preço, onde os encontre. Taes são os nossos votos .
by
VIEIRA BRANCO 

*Coronel-medico, fundador das Cias Cuanza do Sul e Sul de Angol, Comendador da Ordem de NSCVV, Oficial da Ordem de Avis. Cavaleiro da Ordem de Cristo e da Coroa Real da Prussia.

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