Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 13 de agosto de 2011

Francisco Maria Bordalo passou por Mossâmedes em 1840 na sua viagem a Angola...


 «...No principio de 1840 Francisco Maria Bordalo  partiu para Angola,  e durante esta estação visitou repetidas vezes a cidade de Benguela, onde adoeceu, o presidio de Novo Redondo e diversas povoações. Em Moçamedes esteve sete meses. Neste ano foi promovido a segundo tenente, por despacho de 26 de Novembro. In Wikipedia


«...No principio de 1840 partimos para Angola. Vi então pela «primeira vez esse soberbo continente africano, que os esforços «de nossos avós fizeram conhecido do mundo. Não foi sem terror que descobri os areaes da Libia., aonde cresce em liberdade «a palmeira; mas houve para mim uma grande compensação na «chegada a tão insalubres plagas — abracei o meu amigo Correia.»

Durante a estação de Angola visitou Bordallo repetidas vezes a cidade de Benguella, aonde adoeceu das febres intensas do paiz, o presidio de Novo Redondo, e as povoações, rios, e surgidouros, mais ou menos abrigados, da Catumballa, Sobito, Egipto, Quicombo, Benguella velha, Cuanza, Corimba e Bengo.
Ambriz, Cabinda e Molembo, ainda n'essa época não arvoravam a bandeira portugueza.
Em Mossamedes deteve-se sete mezes. N'esse tempo a povoação começava a erguer-se de algumas humildes barracas de palha. A fortalesa achava-se em principio. Á guarnição do brigue Tejo coube a honra de lançar os alicerces da primeira casa de pedra construida n'aquelle deserto areal. Á sahida do navio já morava n'ella o governador.

Contava desanove annos de idade, e já o anno de 1840 declinava para o seu termo, quando foi promovido ao posto de segundo tenente por despacho de 26 de novembro. Seriam optimos auspicios se a nossa marinha de guerra oflerecesse vantagens e estimulos; mas no fim de dez annos Bordallo ainda não tinha subido mais um só grau .  Parou ali esperando que os incidentes usuaes, e as taboas da mortalidade lhe abrissem caminho. Só em 1850 (a 12 de novembro) alcançou as dragonas de primeiro tenente!

Eis o quadro, que nos deixou de Angola e do seu estado. N'elle o observador e o escriplor em traços rapidos, e com as verdadeiras cores, nao só o aspecto das localidades, mas a physionomia da sociedade tão mudavel e ardua de colher na sua expressão natural:

«O viver n'aquellas paragens é monotono. Não se encontra nenhuma das distracções dos povos civilisados, á excepção dos «grandes jantares, que podiam muito bem passar para o dominio dos selvagens! Vêem-se ali homens febricitantes os quaes a sede do oiro «arrastou áquellas regiões, e que morrem abraçados ao dinheiro pensando ainda n'uma especulação de escravos na hora da «agonia! —Enxergam-se bandos de faccinoras, que a justiça para «ali enviou em degredo, e que enriquecidos por novos crimes, e ás vezes mesmo protegidos pela auctoridade, olham com despreso para o pobre que ali aporta, e tratam os negros como o «mais vil animal da creacão!!!
«Quadros risonhos não ha ali — só alguma bellesa de paisagem «como nas vicejantes margens do Bengo e do Cotumbella — tão «pouco sadios apesar da formosura do sitio. Como ha de haver «sociedade se faltam mulheres civilisadas, se a morte se encarrega de juntar a miudo no sepulchro a pobre europêa, que dá «á luz um filho, e o tenro fructo do seu amor! l!

....
Era assim que Francisco Maria Bordalo retratava Angola nesse tempo, 1840, anterior ao da fundação de Mossâmedes! Muita coisa iria mudar em termos de humanização da paisagem , com a chegada dos colonos vindos do Brasil, de Olhão e da Madeira... (acrescento meu)

Revista contemporanea de Portugal e Brazil, Volume 3 

Ensaios sobre a statistica das possessões portuguezas na Africa occidental e ... By José Joaquim Lopes de Lima, Francisco Maria Bordalo


 

Sem comentários:

Enviar um comentário