Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 14 de agosto de 2011

Francisco Newton nas terras altas de Mossâmedes (Huila): 1880 e 1885

 

Francisco Newton. "Retrato tirado na Ilha do Fogo, em 3 de Novembro de 1889, depois da ascensão ao grande vulcão". In Duarte Silva.



EXPLORAÇÃO NA ÁREA
 DO GOLFO DA GUINÉ
 

Percorremos durante esta jornada toda a distância que vai da Pedra Providência
à fazenda Nascente, na margem do rio Munhino.
É seu proprietário um cavalheiro chamado Nestor, afamado caçador de leões,
que até à presente data tem, ao que diz, livrado a zona que habita
de vinte e seis destes ferozes animais.
Entre várias peripécias sucedidas a este senhor (que têm sido muitas, 
pondo por vezes em risco a vida deste segundo Gerard), 
ouvimos contar uma que pelo ridículo merece apontar-se.

H. Capelo & R. Ivens
De Angola à Contracosta 

A primeira vez que Newton esteve no planalto de Huila, aí por 1880 e tantos, ia êle em companhia de um titular belga, riquíssimo, muito neurasténico, que procurava, em contínuas viagens, lenitivo para os males que o torturavam e tiveram epílogo trágico, no suicídio, a bordo do paquete em que ambos regressavam à Europa, escreve Duarte Silva. O biógrafo militar de Newton não identifica o lorde que, em Ferreira, se chama Elssen, e em aparência se suicida em terra angolana, obrigando Newton a seguir para o Congo, a ver Stanley, e só depois a regressar à Europa.
Aí por 1880 e tantos não é 1882. Admitamos que a primeira vez que Newton esteve na Huíla foi em 1883, apesar de Gossweiler subentender que no périplo angolano ele só explorou Moçâmedes, além de percorrer toda a costa, desde o Zaire a Cabo Frio. Cabo Frio era então limite meridional das nossas possessões na costa ocidental de África, a meio da costa do Sudoeste Africano. 
Segundo Duarte Silva, Francisco ficou hospedado em casa de Nestor[1], famoso caçador de leões, o que é extremamente original. O maior leão africano era Leo, Leopoldo da Bélgica. Nestor, além de sobrevivente do massacre de toda a sua família, nos poemas de Homero, é nome de uma localidade do planalto da Huíla. É também, por feliz acaso, nome de um navio alemão que atracava em Lisboa com carregamentos de carvão proveniente de Cardiff.[2]
Newton logo quis participar numa caçada. Nestor, para o atemorizar, contou então terríveis histórias sobre a ferocidade dos animais, confessando que até ele, que já tinha morto centenas, tremia de medo diante deles. À noite, mandou instalar-lhe debaixo da cama duas crias de uma fêmea que abatera dias antes, cativas sob uma celha. Os leõezinhos dormiram sossegados e F. Newton também. Pela madrugada, o sossego acabou, quando as crias acordaram e se puseram a rosnar debaixo da cama. Nessa altura foi a vez de Newton acordar toda a gente, aos gritos de que tinha feras no quarto.
São inúmeras as anedotas que se contam acerca dele, esclarece o seu biógrafo militar, que além disso considera Newton bom bebedor de cerveja, um boémio, tal como Anchieta, que tocava violino enquanto ia descarnando umas aves e metendo em álcool uns crustáceos, na Caconda. Leu Augusto e António Nobre,[3] como nós. E que mais? Rabelais? Para nossa consternação, Duarte Silva esquece-se das fontes e de relatar as tais anedotas[4].
E entretanto, a acreditar em Bettencourt Ferreira (1895), Newton regressa à pátria com vinte anos:
 Neste momento historico, em que o continente africano, completamente desvendado pelos exploradores de todas as nacionalidades é objecto de todas as ambições, a Inglaterra pelo British Museum manda-lhe um convite para entrar ao seu serviço. Do outro lado a Associação Internacional Africana convida-o para ir do Congo ao Alto Nilo.
 Lorde Mayo também pretende a sua colaboração, segundo Bettencourt Ferreira. 
A respeito do convite da Associação nada sabemos, excepto que já décadas antes o Reverendo Livingstone fizera esse percurso, mas ao contrário, descendo do Alto Nilo a Luanda, e negando que tivessem sido os portugueses a descobrir o Congo. Também nada sabemos do de Lorde Mayo. Já acerca do convite do British Museum vamos prestar alguns esclarecimentos, colhidos em Júlio Brandão.
Antes da partida de Newton para África, um grupo de jovens intelectuais do Porto ofereceu-lhe um jantar no restaurante Floresta das Camélias, no qual o senhor Leitão servia, sem dó nem piedade, um vinho que era uma perfeita zurrapa[5], mas os nossos clientes, tirados de um retrato de A Família Inglesa, preferiam cerveja, e ale. Entre outros amigos, estavam presentes Augusto Nobre e o irmão, o poeta António Nobre, João Novais, Aureliano Cirne, Carlos Ehrardt, Hamilton de Araújo, irmãos Artayet, João Barreira, Morais Rocha, Eduardo Sequeira e o próprio Júlio Brandão. Grupo dito da boémia romântica do Porto, de que se salientaram republicanos como Artayet e João Barreira, além de um dos nossos maiores poetas.
Por alturas da sobremesa, o Jau subiu a escada para também ele confraternizar. O Jau, um jerico, recebeu pomposos discursos de homenagem. Por incrível coincidência, Jau, como Nestor, é uma localidade da Huíla.[6] E se Nestor[7] é um herói da epopeia homérica, Jau era escravo do nosso épico.
Noutra altura, e felizmente Júlio Brandão esquece-se das datas, ou teríamos de inserir este científico episódio em 1892, o cônsul inglês Honorius Grant procurou Augusto Nobre, para obter variedades de moscas, solicitadas pelo British Museum. Augusto Nobre sugeriu Newton, muito capaz do exercício e necessitado de dinheiro. Acordou-se meia libra por dia para a exploração das moscas de Portugal. Se bem que ainda menino e moço, Newton morava então no Hotel Lusitano, e não em casa dos seus pais. Para satisfação da encomenda, apanhou todas as moscas lusitânicas que havia no hotel e enviou-as em tubos para Londres. Augusto Nobre é que recebeu o ultimato britânico, lá desculpou o incansável explorador, que encheu os museus da Europa com valiosas colecções, e não teve outro remédio senão arranjar explorador que fosse realmente para o Quadraçal, Alfeite (Quinta do Infantado, onde apareceram os três únicos exemplares de Certhilauda duponti  var. lusitanica, coligidos em Janeiro, Julho, Setembro, Novembro e Dezembro, como esplendidamente contam pelos dedos os ornitólogos), Cortegaça, Esmoriz, Rio Mattosinhos e profundidades submarinas de Setúbal, caçar moscas selvagens.  
@ 
Posto isto, por onde andou Francisco Newton entre 1880 e 1885?
As únicas considerações que desejo fazer são as seguintes:
- As fontes dão-nos uma imagem de percurso sem princípio nem fim: antes de nascido, já Newton era um naturalista competente; a morte não o detém, uma vez que morre três vezes. Por isso ele nunca está pela primeira vez em dado local: antes de nomeado para o Golfo da Guiné, já tinha andado por S.Tomé, Príncipe e Fernando Pó; antes de nomeado para a Guiné, já tinha andado por Orango e Bolama; antes de nomeado para Timor, já tinha ido várias vezes a Timor; antes de nomeado para Angola, já tinha andado por Angola; antes de nomeado para Cabo Verde e Guiné, já tinha andado em Cabo Verde e na Guiné.
- O seu currículo, subscrito por um colectivo científico internacional, é uma paródia que obedece a um plano e ao conhecimento de técnicas subversivas, como a língua das aves.
- O que conhecemos de Newton - exemplares de plantas classificadas de origem, boa técnica de colheita e preparação, desenhos[8] - permite dizer que a sua educação como naturalista prático era muito boa.
- Newton andou realmente por África, pela Indonésia e por Macau[9], deve ter ido à América e à Índia, mas não saberia dizer quando, porque a principal venda que oculta os seus movimentos é a data em que os realizou. A segunda é a da identidade: o facto de ter anexado Frank, Reesetán, Aguiar, etc., a Francisco Newton, não quer dizer que tenha esgotado a lista dos heterónimos; e também não quer dizer que possa atribuir a Francisco as acções executadas pelos seus duplos. 
- O inverso também pode ter acontecido, embora pareça improvável: Francisco Newton ter sido apenas capa das actuações de outros naturalistas e agentes, nada tendo feito na vida além de gozar Miss Ale. E nessa altura as colecções terão sido reunidas por Bayão, Welwitsch, Frank Newton, Padre Antunes, Anchieta, Craveiro Lopes, Capelo, Ivens, Serpa Pinto, Leyguarde Pimenta, Sisenando Marques, tantos outros. Todos coligiram antes de Newton, excepto no Daomé, em que sem dúvida foi pioneiro, e talvez em Ano Bom. Os exemplares estavam nos museus, bastou à retaguarda atribui-los a Newton - de preferência só em textos publicados. E as colecções de Newton foram subtraídas ao domínio público, como a de Ano Bom, só parcialmente publicada por Sobrinho, já nos nossos tempos. Noutras colecções, como as de vertebrados do Museu de Coimbra (Themido), Newton nem sequer figurava como colector. Ele é um dos últimos exploradores do século XIX, já transita para o nosso. Não só todos lhe tomaram a dianteira como ele se toma a dianteira a si mesmo, ao explorar por nomeação o que já tinha visitado sem ela. Ora é muito simples introduzir animais, plantar e semear o que não havia antes em dada região, e depois colher os frutos. Estes frutos, se não forem espécies novas para a ciência, são pelo menos espécies novas para essa área geográfica.
 E é altura de não ajudar o leitor a responder a esta pergunta, que só abarca uma parcela do enigma: que tipo de pessoa é aquela que viaja muito, mas nunca se sabe onde está em dada altura, cujo paradeiro amigos influentes ocultam sob falsa e contraditória informação, que não se sabe exactamente o que faz, para quem trabalha, nem que instrução tem além da aparente?
Antes de desencadeada a quixotesca Operação Dulcineia, Henrique Galvão[10] fez constar que estava hospitalizado em Lisboa. O seu amigo Humberto Delgado deu aos jornais a notícia de que se encontrava em Paris. Henrique Galvão, quando uns o julgavam em Paris e outros em Portugal, estava escondido num hotel de Caracas, na Venezuela, América do Sul, à espera de embarcar no Santa Maria. Terá embarcado sob a sua própria identidade? 

[1] Nestor é usado como nome iniciático.
[2] Diário de Notícias, 6 de Junho de 1895.
[3] António Nobre - Alicerces, seguido de Livro de Apontamentos. Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, Lisboa, 1983. Leitura, prefácio e notas de Mário Cláudio. O poema Miss Ale, dedicado a Francisco Newton, vem no conjunto Alicerces, datado de 1882-1886.
[4] A literatura de viagens é muito popular, quem faz história da História Natural portuguesa leu os livros de Serpa Pinto, Capelo e Ivens. Esta seria pelo menos uma boa desculpa para a omissão, se as obras fossem atribuídas aos seus verdadeiros autores.
[5] O Correio do Porto, 12 de Julho de 1886.
[6] Jau é aportuguesamento de Injau ou N’jau, nome do sobado.
[7] Capelo e Ivens contam uma divertida história deste famoso caçador de leões, que se passa na cozinha, não debaixo da cama onde não dormiu Francisco Newton.
[8] Não me refiro a esboços feitos nas cartas, inócuos, sim a desenhos de plantas, existentes no Herbário do Jardim Botânico de Lisboa, e ao da Tyrophorella, publicado por Girard. Nos Carbonários, interpretámos como signos de guerra os nomes de espécies críticas formados a partir de tiro, e de facto são. Mas não se trata de tiro, sim de Tiro, a pátria de Hiram, o herói fundador do mito encenado no ritual do terceiro grau da maçonaria. Neste sentido, a função é igual à dos nomes Didus e Ennea. Ninguém sabe nada, actualmente, da Tyrophorella, um caracol com duas conchas, ou um univalve bivalve, tal como a Welwitschia, ao mesmo tempo criptogâmica e fanerogâmica - algo como o filho de um cogumelo e de uma rosa. 
P.S. Recebemos informação de Angus Gascoigne, biólogo residente em S. Tomé, de que a Tyrophorella foi recentemente redescoberta: http://www.ecofac.org/Canopee/N0

Eis o seu e-mail:

Estela

O Thyrophorella existe! Eu redescobri este caracol ha oito anos. Depois eu te mando uma referencia onde podes ver um foto do animal vivo.

Um outro animal de ST muito interessante é o morcego Myonycteris brachycephala que e o unico mammifero com um formula dental asimetrico!

Angus

E tambem Pelusios castaneus existe em ST.

        [9] Declara-se para os devidos effeitos que se apresentou n’esta secretaria geral, em 18 do corrente mez, o explorador zoologico Francisco Newton encarregado de estudar a fauna da ilha de Timor. Secretaria geral do governo em Macau, 21 de Dezembro de 1895. Alfredo Lello (Boletim official do governo da provincia de Macau e Timor, 21.12.1895).
[10] O capitão Henrique Galvão, naturalista e caçador, foi quem convidou A. Ricardo Jorge a representar o Museu Bocage na Exposição do Mundo Português. Ficou célebre o seu rapto do paquete Santa Maria, como acção subversiva ao governo fascizante de Salazar. O mais curioso é que em Lisboa havia autoridades a quem tinha sido denunciado o verdadeiro local onde se encontrava, mas, no meio de tanta informação contraditória, não acreditaram que fosse em Caracas (Capitão Miguel Garcia, comunicação pessoal).


In TRIPOV

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