Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 13 de agosto de 2011

O negócio de gado em Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola).1862

 Gado Cuvale no Deserto do Namibe. 1935-1939. Fotog.de Elmano Cunha Costa. ICCT


Carlos José Caldeira in "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa", dá-nos uma panorâmica dos povoados indígenas existentes no distrito de Mossâmedes nos primórdios da colonização, em meados do século XIX, bem assim como o negócio que alí se ia fazendo de gado, sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão, missangas, fazendas, etc, factor aproximação entre brancos e negros, e de incremento económico da região: 

"...Habituados a ver no gado factor de consideração do individuo de acordo com o numero de cabeças que o mesmo possue", "os povos próximos criam muitos gados, que já se vão costumando a vender, e os mais distantes os vendem até mesmo com preferância á cera e marfim, o que produz muita abundância e barateia de carnes, que se exportam para abastecimento da estação naval, e consumo em Loanda, propondo-se agora alguns especuladores a seccar a carne á maneira do Brasil, o que se pôde tornar um importante ramo de exportação. Um boi grande custa, termo médio, 5:000 rs. no interior, e 9:000 rs. na povoação, onde regularmente se vende a carne de consumo a 1:000 rs. a arroba, ou a pouco mais de 600 rs. fortes. Ultimamente tentava-se fabricar manteiga, o que se pode fazer em ponto grande, principalmente nos Gambos, onde ha prodigiosa abundância de leite.
 
D'antes muitos dos negros dos arredores recusavam-se, e ainda alguns se recusam a vender gados em maior quantidade, porque parece que os tem na mesma conta dos nossos bens vinculados, sendo regulada a importância e consideração do individuo pelo numero de cabeças que possue. Em algumas partes só matam os bois, e lhes comem a carne por occasião dos casamentos e óbitos, fazendo com as caveiras e pontas uma espécie de monumentos fúnebres.

Além dos gados commercia-se com o gentio em sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão."

"...Da Huila ou do Jau seguindo depois para o nascente encontra-se o Hui, terreno fértil em pastos, mas sêcco, porque nenhum rio o atravessa ; abunda porém em gados, e feijão, creado na estação chuvosa: a tribu que o habita é muito antiga, e pouco numerosa.

Caminhando quasi sempre a leste se chega aos Gambos, a umas 100 legoas de Mossamedes, paiz rico em gados, cereaes, e bem povoado", tendo muitos caçadores de elefante e abada.

Todos os povos mencionados, que habitam para além da serra de Xela, parecem da mesma origem , e tem quasi os mesmos costumes, chamando-se geralmente Munhenhecas, porque cortam a carapinha, e ao contrario os Mondombes a deixam crescer, formando na cabeça uma espécie de esfera, variando aliás muito na forma do penteado.

Às referidas terras foram vistas pelo dito colono Bernardino, segundo elle diz, accrescentando que, apesar da difficuldade de obter informações claras de gente tão rue, pôde saber mais o seguinte ácerca d'aquelles desconhecidos sertões. Tomando os Gambos por ponto de partida, ao norte fica Quilata, ao nordeste Quipungo, a leste Molondo, ao sueste Camba, ao sul o Humbe, e a oeste os cubaes dos Gambos, abundantíssimos em gados.

Segundo exactas informações que obtive, o colono Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que tem ido ao interior do paiz, dá as seguintes noticias:

Seguindo para o nascente a torrente Bero até á sua origem a oeste dos Gambos, encontram-se uns 14 sovados pouco consideráveis, cujos povos se chamam Mondombes, ou filhos do Dombe, nómades que vivem de caça e do gado que pastoream.

Seguindo também para o nascente a torrente Giraul, encontra-se um estéril deserto, cortado de cordilheiras, em cujos valles ha pequenas arvores que criam urzella, e que se julga darão gomma copal. Passam-se umas 20 legoas até chegar ao Bumbo, onde o gentio é pouco, fraco, mal conformado, e muito industrioso no modo de aproveitar as aguas para regas: o terreno é riquíssimo em pomposa vegetação e muito boas madeiras, tendo dois valles fertilisados pela torrente do Bruque, que dimana da serra depois da Umpata. Estes dois valles são susceptíveis de muita cultura, e n'um d'elles ha uma plantação de canna, algodão, e mandioca, pertencente a José Leite de Albuquerque, e já acima mencionada: o clima porém d'estes logares é muito insalubre.

Subindo a serra de Xela pelo Bruque, encontram se duas veredas; a da direita conduz ao Jau, e a





lo poente jaz o Bumbo), e a sua origem nos largos cam
esquerda e Umpata, sovado dependente do Jau, e d'ahi á Huila, cujo sova é hamba ou espécie de imperador , á auctoridade do qual se subtrahiram o Jau , Umpata, Bumbo, e todos os cubaesde origem Mondombe, em consequência d'uma revolução que teve logar no corrente século.

O Jau, Umpata, e Huila ficam entre os 14 e 16° de lat. sul: pela serra de Xela se desce para estes territórios, que são cortados de rios e riachos, tendo fertilifisimos campos abundantes em pastos, e que produzem bem o milho, feijão e batata, não porém a canna, por causa do frio, que em maio alli chega a gelar a agua. Estas terras são salubres, e julga-se que n'ellas poderá prosperar a raça branca. O gentio commercia com Mossamedes em gados, cêra, e algum marfim.
(...)

Na margem direita do rio Cunene, que divide o Humbe e a Gamba do Cuanhama, fica o sovado d'este nome, que é onde até hoje tem chegado os feirantes brancos. Seguindo depois para o sueste já os cafuzes  pretos que negociam com fazendas que vão buscar a Benguela tem chegado ao Mocusso, abundante mercado de marfim, que se julga distar umas legoas de Mossamedos. Além do Mocusso, no sertão dos Ambuellas, caminhando para o nascente ha um rio caudaloso, que corre de nascente a poente, a que chamam Liambege ou Diambege, sendo talvez o Zambeze, que vai a Quilimane. As missangas alli usadas pelo gentio, dizem que não são as que se introduzem pelo commercio na costa occidental, mas sim as que lhe vão da contra-costa.

Para o norte de Quipungo ficam os Monnanos, em cujas terras temos o presidio de Caconda; e ao sueste e sul da Camba os Muximbas e Mocimbos, povos errantes, com muito gado, e muitos caçadores de elefantes, parecendo que chegam a divagar até ao paiz dos Hottentotes.

Por esta rápida e imperfeita idéa de taes paizes, se pode julgar da sua importância, e quanto poderá avultar o commercio com elles, uma vez attrahido ao bom e salubre porto de Mossamedes, cuja situação é excellente a respeito d'estes sertões, dos quaes darei melhor e mais circunstanciada noticia no capitulo seguinte.

In "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa", Volumes 1-2
By Carlos José Caldeira 1862

Ritos e costumes povos Angola AQUI

Sem comentários:

Enviar um comentário