Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Os Portuguezes em Africa, Asia, America e Oceania, ou Historia chronologica dos descobrimentos, navegações, viagens e conquistas dos Portuguezes nos paizes ultramarinos desde o principio da monarchia até ao seculo actual

Deste livro segue este texto, na parte que toca à "colónia de Mossãmedes". Para os interessados no livro, bastará clicar acima.
"...185o — Em Angola entretanto concentrava-se com sobeja razão a attenção do governo nos territorios ao sul da província. Um dos exploradores que mais se empenharam em percorrer e em descrever essa região foi Bernardino José Brochado que desde 1847 andava visitando os povos do Humbe, Camba, Mulondo, Quanhama, Aymbire, Terra de Bale, Uanda, Cuffima, Dongo, Mucuancallas, Quamba, Ganjella, Quamattui, etc. A descripção das suas viagens, datada de Gambos de i85o, figura nos Annaes do Conselho Ultramarino.


Em 1845, como dissemos já fundara-se uma colonia na Huila, em 1849 lançaram-se os fundamentos da colonia de Mossamedes; a portaria de 3o de abril de 1849 assignada pelo visconde depois conde de Castro dava instrucções desenvolvidas ao official da marinha Sergio de Sousa, depois visconde de Sergio de Sousa, que foi o encarregado de transportar para Mossamedes uma colonia que se devia ir buscar ao Brazil; a lei de 3 de julho de 1849, referendada pelo visconde de Castellões, auctorisava o governo a gastar 18 contos de réis com o estabelecimento da colonia agricola de Mossamedes, a portaria de 25 de julho creava o logar de facultativo effectivo da colonia. Comtudo só n'este anno de 1850 se fundou definitivamente essa colonia a que está reservado tão prospero futuro.

Como, porém, seguimos o systema de não mutilar a historia dos acontecimentos importantes do Ultramar, subordinando-os á divisão chronologica que nos é imposta pelo plano primitivo d'este livro, narral-os-hemos todos em 185o para darmos um quadro completo destes importantes acontecimentos, cujos preliminares acabamos de referir.
"Em Mossamedes existia já no sitio das Hortas, quando o tenente Garcia veio fundar o presidio, e quando Pedro Alexandrino da Cunha veio com a corveta Isabel Maria estudar a costa, uma feitoria pertencente a Jacome Filippe Torres, em 1840 fundou outra feitoria um Clemente Eleuterio Freire, em i841foi outra fundada por Bernardino José Brochado, em 1843 outra por Fernando José Cardoso Guimarães, e tempo depois outra ainda por João Antonio de Magalhães. Estas feitorias e o presidio, uma força militar e degredados, eram o nucleo da futura villa.
"Foi a agitação politica de Pernambuco, de que estavam sendo victimas os colonos portuguezes, que fez com que se sollicitasse do governo de Lisboa a protecção que era devida aos seus subditos. Essa pretenção foi deferida, como já vimos, e no dia 4 de agosto de 1849 chegavam a Mossamedes, tendo partido de Pernambuco em maio do mesmo anno, o brigue Douro e a barca Tentativa Feli%, transportando familias e homens solteiros, tudo á custa do governo. Quem era o chefe d'essa colonia, o cidadão prestantissimo que tomára a iniciativa d'essa idéa, e que tudo sacrificou ao seu desenvolvimento e prosperidade, era Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, cujo nome deve ser sempre lembrado com profundo reconhecimento por todos os que prezam o desenvolvimento colonial do nosso paiz.
Apezar de todas as precauções do governo, esses primeiros colonos acharam-se n'uma situação verdadeiramente desgraçada. Tinham tido logo uma secca espantosa que esterilisára completamente os terrenos. Os colonos achavam-se quasi nus, o sustento que se lhes dava, e que se compunha de má farinha de mandioca e de feijão podre, desenvolvia as doenças, e concorria para que se considerasse como detestavel o clima de Mossamedes, hoje considerado e justamente por todos como um dos melhores climas africanos, a ponto de ter Mossamedes obtido a denominação de Cintra africana. O desanimo era profundo, a exasperação tamanha que muitos dos colonos acceitavam como um beneficio o sentarem praça ao lado dos degredados. As noticias enviadas de Mossamedes para o Brazil pela escuna Maria eram tendentes a paralysar a emigração. Mandava-se dizer que o clima era pessimo, que elles eram tratados como degredados, que não podiam sair da colonia senão depois de uma permanencia de dez annos, e que aquillo era muito peior que a ilha de Fernando de Noronha, etc., etc. Apezar d'isso, graças á actividade e ao zelo de Bernardino Freire de Figueiredo, a emigração não desanimou, como vamos ver.
No dia 26 de novembro d'este anno chegou a Mosamedes a chamada segunda colonia, composta ainda de portuguezes residentes em Pernambuco, e que vinham auxiliados por uma patriotica subscripção que se abrio n'essa cidade. Traziam-n'a o brigue Douro e a barca Bracharense. Achavam os novos colonos os seus antecessores n'um estado desesperador. Ainda chegou nova remessa de colonos, vindos d'esta vez do Rio de Janeiro e Bahia. Foi a ultima; as noticias enviadas para o Brazil, apezar de se saber que eram exaggeradas, tinham inspirado um profundo desanimo com que não podera luctar a energia de Bernardino Freire de Figueiredo.
Comtudo, trabalhava-se ardentemente para se obviar a esses inconvenientes ; o director da colonia foi a Loanda, levando em sua companhia Francisco da Maia Barreto, que foi ao Bengo buscar as primeiras sementes de canna; o plantador Fernando José Cardoso Guimarães tambem mandou vir sementes. Começou então a estabelecer-se uma tal ou qual agricultura.
Alguns colonos, que, movidos pela exasperação, tinham ido para a colonia de Huilla, lá padeceram tambem tantas privações, que fugiram e voltaram para Mossamedes, onde ficaram. Effectivamente, apenas os colonos de Mossamedes começaram a ter um sustento regular e sadio, as doenças desappareceram e começou a manifestar-se o clima de Mossamedes tal como hoje todos o conhecem.
Devemos apontar tambem n'este anno um facto importante, que foi o principio da ida dos paquetes transatlanticos á ilha de S. Vicente em Cabo Verde. A povoação, que n'essa ilha recebera o nome pomposo de Mindello, era apenas uma aggregação de pobres casas disseminadas nas margens do Porto Grande. Quando, porém, em i85o se estabeleceu a primeira carreira de paquetes entre a Inglaterra e o Brazil, paquetes que deviam tocar nos portos de Lisboa, Madeira, Tenerifíe e S. Vicente de Cabo Verde, o governo comprehendeu logo a importancia que essa ilha tinha de assumir, e assim o manifestou no preambulo da portaria de 7 de dezembro de i85o, que mandava crear uma alfandega na ilha de S. Vicente, e em que o visconde de Castellões dizia:

«Devendo começar no proximo mez de janeiro a carreira dos paquetes de vapor entre Inglaterra e o Brazil, com escala por Lisboa, Ilhas da Madeira, Teneriffe e S. Vicente, demorando-se os vapores maior espaço no porto d'esta ultima ilha afim de ahi se abastecerem de carvão, e sendo natural que alli hajam de tomar refrescos, e assim por este motivo como por commodidade do commercio se desejar praticar alguns actos commerciaes, e especialmente o desembarque de fazendas e encommendas levadas tanto de Londres como de Lisboa e Madeira, etc.»
Assignalava-se, pois, esse anno de 185o por dois factos importantissimos para a prosperidade das nossas colonias; a fundação da colonia de Mossamedes, a que apenas se preludiára, por assim dizer, no anno anterior, e a attenção prestada á ilha de S. Vicente de Cabo Verde, que se ia desenvolver de anno para anno com a passagem dos paquetes transatlanticos.
No anno immediato de i85i Fortunato José Barreiros, novo governador de Cabo Verde, fundava a autonomia administrativa da ilha que até ahi estivera dependente da visinha ilha de Santo Antão.
i85i—Vamos terminar este capitulo porque vamos entrar n'um periodo novo de actividade colonial, ainda bem debil e bem frouxo, mas que é já um symptoma de renascimento. Não tem seguido comtudo esse renascimento uma progressão geometrica; arithmetica quando muito se pôde ella apenas considerar. Tem havido momentos de impetuoso progresso, mas depois cae tudo de novo na apathia e na indolencia.
Como acabamos de ver, já alguma coisa se fizera para conseguir que as colonias africanas resurgissem do abatimento profundo em que as deixára a extincção do trafico da escravatura. Em Angola Pedro Alexandrino da Cunha mostrava uma energica iniciativa; á sua influencia immediata e mediata se deve o começo da colonisação do sul. Elle mesmo fundou a colonia de Huila, e foi do presidio de Mossamedes que elle fez nascer o nucleo da colonia de Mossamedes. Em Cabo Verde, João de Fontes Pereira de Mello occupára-se tanto quanto possivel de melhorar as condições do archipelago, e a escolha pela companhia de paquetes inglezes transatlanticos do porto de S. Vicente para porto de escala ia levar a esta ilha, e por conseguinte á provincia, elementos de prosperidade. A nova importancia que adquirira a ilha de S. Vicente fazia com que o governo regenerador decretasse em i7 de setembro de i85i a divisão judicial do archipelago de Cabo Verde em duas comarcas, a de Barlavento e a de Sota-Vento, sendo a sede de uma d'ellas S. Vicente.
....
Foi n'esse anno de i853 que se promulgou a lei que applicava a um fundo especial de colonisacao os direitos pagos em cada provincia ultramarina pelo vinho e aguardente de Portugal. O preambulo d'essa lei que foi promulgada em i853 mas que tem a data de 3o de dezembro de i85a diz o seguinte: Sendo indispensavel crear um capital com que possa dar-se começo á colonisaçao das provincias africanas com individuos d'este reino e das ilhas adjacentes, distrahindo por este modo a grande emigração, que de uma e outras tem logar para paizes estrangeiros, e promovendo o desenvolvimento da agricultura e industria nas mesmas provincias, etc.
 
 
Note-se que já em agosto de i852 o Conselho Ultramarino dizia em officio assignado pelo seu presidente, o grande Sá da Bandeira.
«Um dos negocios mais graves que actualmente occupam a attencão do governo ultramarino é a organisação e proposta de providencias que tendam a cortar, ou pelo menos a diminuir, a emigração dos habitantes da Madeira e Açores para a Guyana ingleza e Brazil, emigração que progressivamente tem augmentado, e que dá grandes cuidados pela diminuição que traz á população d'estes reinos, e pelo desgraçado fim que vae ter uma grande parte dos infelizes, que, illudidos, procurando riquezas imaginarias, vão encontrar nova especie de escravidão pelos contractos que são obrigados a fazer, acontecendo tambem que nas margens insalubres dos rios de Guyana, onde são compellidos a trabalhar, um grande numero perece victimas de doença, como se demonstra pelas estatisticas de Demerara, nas quaes se vê que figura em espantosa escala a mortalidade das colonias portuguezas.
«Entre as providencias que lembram a este conselho para diminuir ou obviar a tão grande mal, apresenta-se-lhe como a mais senão unica efficaz, a de dirigir a emigração d'aquelles povos para as colonias portuguezas de Africa, onde elles, sendo uteis ao seu paiz, nem estariam sujeitos a contractos que eifectivamente os tornam escravos por longo periodo de tempo, como succede na Guyana ingleza e no Brazil, nem soffreriam o estrago que aquelle clima produz na sua vida, havendo o cuidado de o escolher saudavel».
 
Mas effectivamente a creação do conselho ultramarino teve uma influencia altamente benefica nas nossas colonias, e esse conselho trabalhou muito, pelo menos nos primeiros tempos da sua existencia, para o nosso desenvolvimento colonial.

Houve n'este período um certo empenho em cuidar das colonias. Esse anno de 1853 é por esse motivo famoso. Foi então que Silva Porto concluiu a sua primeira viagem de exploração, foi n'esse anno que o anstriaco Ladislau Magyar fez uma viagem ao interior de Angola, viagem interessante de que deu conta ao governador da provincia, sendo incumbido de continuar as suas explorações na Africa Austral, foi n'esse anno finalmente que se principiaram em Angola as explorações scientificas do grande botanico allemão, dr. Frederico Welwitsch, explorações que enriqueceram tanto o jardim botanico de Coimbra, e tornaram conhecida do mundo inteiro a nossa flora angolense. Durante sete annos esteve o dr. Frederico Welwitsch em Angola, percorrendo o littoral desde a foz do Quanza até Quizembe, e seguindo pelo interior ao longo do Quanza até Banca de Quizonde, e transpondo na sua observação uma area de 2:5oo milhas quadradas, percorrendo as regiões de Ambaca, Ambriz, Golungo Alto, Ambaca, Pungo Andongo e Cambambe, as margens do rio Loge, Lipure, Dande, Bengo e Quanza, as serras das Pedras de Guengue, as mattas de Quipude e Condi, e ainda Benguella, Mossamedes e Huilla. Os seus trabalhos foram apreciadissimos em Portugal, e talvez muito mais no estrangeiro. Em Inglaterra instavam muito com elle para que publicasse o resultado das suas observações, o que elle não quiz fazer, sem accordo com o governo portuguez, a quem devia todo o fructo do seu trabalho.
Com a sua colheita se enriqueceram os jardins botanicos portuguezes, e o nome d'este estrangeiro illustre está ligado indelevelmente á historia da nossa provincia de Angola, como á historia botanica ficou esse nome ligado, porque justamente se deu o seu nome—Welwitschia—a uma planta que descobriu em Angola, e que é curiosissima. Ao genero que essa planta representa quiz Welwitsch dar o nome de Tamboa, derivado de Tambo que é o nome indígena do sueco da planta, mas o grande botanico inglez Hooker entendeu que devia protestar contra essa modestia, dando ao genero o nome de Welwttschia e á planta em especial o nome de Welwitschiamirabilis e Hooker dizia o seguinte:
«Tenho o prazer de commemorar por esta forma os trabalhos botanicos do infatigavel e bem conhecido explorador da Africa tropical, o dr. Welwitsch, ligando o seu nome á sua propria descoberta, que não hesito em considerar a mais importante, debaixo do ponto de vista botanico, que tem sido feita no presente seculo, pelo abalo que imprime a muitos dos principios reputados fundamentaes e axiomaticos da sciencia, pelas anomalias manifestadas na estructura, exercício funccional e modo de desenvolvimento d'esta especie vegetal.»

1854. — Continuou n'este anno o empenho do governo e do conselho ultramarino, em darem impulso ás nossas provincias ultramarinas e em lhes desenvolverem a exploração.
Em Cabo Verde fizeram-se concessões de terreno a Antonio Cezar Correia, a Antonio José Duarte Nazareth, a Manuel Joaquim Affonso, tratou-se de dar desenvolvimento ás estradas, para Angola mandaram-se sementes de algodão, de sésamo do Egypto, de tabaco, concedeu-se a José Maria Mattoso da Camara privilegio para a feitura de cabos de ife, animou-se o desenvolvimento da colonia de Mossamedes, mandaram-se alguns colonos portuguezes para esse lado, satisfazendo-se assim um pouco as indicações do Conselho Ultramarino, occupou-se o porto de Pinda, auctorisou-se a junta de fazenda de Angola a comprar durante dois annos gomma elastica no sertão da provincia para a vender depois no mercado de Lisboa.
Pouco era isto, mas em todo o caso assim começaram as pequenas industrias agricolas que hoje teem um certo desenvolvimento em Angola. Foi assim que em 1837 Francisco Batalha descobriu a urzella no sertão de Angola, e a fez conhecida dos mercados europeus, o que lhe valeu n'este anno de 1854 um testemunho de reconhecimento do governo pelos serviços que elle assim prestára. O conselho ultramarino, presidido por Sá da Bandeira, não fazia então senão preparar o que o proprio Sá da Bandeira depois faria quando subisse ao ministerio.
N'esse mesmo anno se decretaram as pautas das alfandegas da Guiné e de S. Thomé e Principe como no anno anterior se decretára a de Moçambique. Esta de i8 d'outubro de 1853 estabelecia como principio geral que os generos nacionaes importados na provincia pagariam 4°/o, os generos estrangeiros importados em navio nacional 6°/o, em navio estrangeiro 12°/o. A de S. Thomé e Principe decretada a 2 de setembro de 1854 mantinha a importação de 4 °/o para as mercadorias nacionaes e impunha i2°/o aos generos estrangeiros importados em navio nacional, 2o°/o aos importados em navio estrangeiro, a da Guiné decretada em 27 de dezembro de 1854 ordenava que os generos nacionaes em navios nacionaes pagassem 8°/o, os estrangeiros, quer em navio estrangeiro, quer em navio nacional, 12°/o. Muitos generos pagavam tributos differentes, quando estavam expressamente especificados na pauta.
Estes direitos difterenciaes não foram vantajosos para as provincias. Não favoreceram a exportação nacional, e prejudicaram o bem estar das colonias.
Era impossivel evitar comtudo que o conselho ultramarino, apezar de ser composto de homens de valor e que tinham desempenhado com louvor funcções importantes nas provincias ultramarinas, como eram João de Fontes Pereira de Mello que tão bom governo fizera em Cabo Verde, José Ferreira Pestana que se distinguiu no governo da índia, Domingos Fortunato do Valle que prestára, como vimos, excellentes serviços em Moçambique, cedesse um pouco a theorias. Foi tambem isso o que aconselhou a abolição dos prasos da coroa em Moçambique decretada em i854, e que nunca se levou a effeito, como se não levaram a eifeito eguaes providencias tomadas em i880. É um excellente principio o da extincção dos prasos da coroa, mas não se pôde applicar bruscamente sem ferir muitos interesses poderosos, e sem quebrar uma forte organisação que tem valido muitas vezes á provincia.
Angola estava sendo mal governada pelo visconde de Pinheiro, D. Miguel Ximenes, que praticou uns actos pouco dignos, consentindo que na provincia se abrisse uma subscripção a favor d'elle, subscripção que, segundo dizem, foi por elle mesmo estimulada. D'ahi resultou ser o visconde demittido, e substituído interinamente pelo governador de Benguella, José Rodrigues Coelho do Amaral, que administrava o seu districto com acerto, como tambem prestára largos serviços em Mossamedes o novo governador Fernando da Costa Leal, cujo nome é ainda hoje lembrado com saudade por aquella colonia. Foi Fernando da Costa Leal que mais impulso deu á agricultura e á industria n'aquella colonia, tratando ao mesmo tempo de explorar o rio Cunene, a que deu o nome de rio dos Elephantes, por ter encontrado nas suas margens alguns d'esses animaes. Pode-se dizer que foi o verdadeiro fundador da colonia de Huilla, de que aliás já tinham sido lançadas as bases por colonos de Mossamedes. Não se contentando com a exploração do Cunene, explorou todos aquelles sertões de Quipengo, dos Gambos, e conseguiu affastar os gentios cujas incursões ameaçavam continuadamente a segurança da colonia.

Tambem a Inglaterra, que tanto blasonava da guerra que fazia á escravatura, não podia facilmente protestar contra a occupação do Ambriz, porque os factos provaram exuberantemente que o Ambriz estava sendo um centro de commercio de escravos. Coelho do Amaral encontrou depois da occupação em barracões 15o pretos destinados ao trafico. E notou elle que ninguem appareceu a dizer-se proprietario d'esses escravos. Envergonharam-se provavelmente os negociantes inglezes de reclamar semelhante propriedade.

Continuavam entretanto as tentativas para desenvolver o ultramar, devemos dizer porém que muitas vezes ficavam infructiferas, ou se resumiam em decretos que não passavam do papel. Occupou-se o porto de Pinda para baixo de Mossamedes, mas nunca se tornou esta occupação verdadeiramente effectiva, abriu-se em Moçambique o porto de Angoche ao commercio, mas só em 1 86 1 se subjugou o sultão d'essas paragens e se es tabeleceu o districto que bem pouco tem prosperado. continuaram-se a conceder terras em Cabo Verde, em Angola, em Moçambique, mas a maior parte d'essas concessões caducaram, mandou-se abrir uma estrada que de Lourenço Marques ou de Inhambane se dirigisse á fronteira do Transwaal onde ia adquirindo incremento a nova republica dos boers, mas só trinta annos depois essa estrada se chegou a concluir, concederam-se em Angola as minas do Bembe a Francisco Antonio Flores, auctorisou-se o governador de Angola a dar ao concessionario uma força militar que lhe garantisse a occupação. Deu-se-lhe a forca, fez-se A occupação, mas as minas ficaram por explorar.
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A colonia de Pemba não tardou a dispersar-se, não só porque estava mal organisada, porque fora estabelecida em terreno ingrato, mas porque tambem se compunha de elementos detestaveis. Além d'isso não devemos occultar que Sá da Bandeira, que tão perfeitamente comprehendêra as altissimas vantagens da colonisação, que tanto se esforçou em a fazer progredir, não procedeu com um methodo rigoroso á execução do seu plano, dispersou muito os seus esforços, e muitas vezes procurou realisar verdadeiras utopias.
Assim ao mesmo tempo que tratava da colonia de Pemba, mandava 29 colonos allemães para Mossamedes, recommendando ao governador que formasse com elles uma aldeia a que daria o nome de Krus, por ser esse o nome do homem que os contractára; auctorisava por portaria de i5 de julho de i857 a despeza feita pelo governador de Cabo Verde com uma colonia que se devia fundar na Guiné no territorio do Rio-Grande, onde já houvera uma povoação portugueza denominada Santa Cruz. Nada d'isso foi por diante como não foi por diante a concessão feita a uns allemães em i858 de terrenos na Zambezia tambem para fundação de colonias.
Concebeu também a idéa sympathica, mas impraticável nas condições do nosso exercito e principalmente do exercito ultramarino, de fundar colonias militares, uma em Angola em Huilla, outra na Zambezia no districto de Tete, e ainda outra na provincia de Satary na índia.

Na colonia de Huilla especialmente empenhou o marquez de Sá todos os seus esforços absolutamente infructiferos. A portaria de 26 de dezembro de i857 ordenava que se organisasse em Lisboa, com soldados europeus casados, lavradores ou artifices, a i.a companhia do 3.° batalhão de caçadores de Angola que devia formar o nucleo da colonia militar. N'outra portaria da mesma data, e nas de 3 de fevereiro, i0 de julho, 27 e 3o d'agosto de 1858, reconhecendo que parecia
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