Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 29 de outubro de 2011

Relatório Por Angola: Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, governador geral. 1861-1862

Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, governador geral. 1861-1862
 
"...  E este o estado em que ficou a colonia a meu cargo no fim do anno, a que este relatorio se refere. Se não ha grandes resultados obtidos, alguma cousa todavia me parece poder notar-se com vantagem em relação ao que por mim foi encontrado, e sobretudo mais alguma cousa ha a esperar da semente qne lancei á terra, e que é de crer que germine e fructifique.... 
                                                                 -----------------------------


     Poderia concluir aqui o meu trabalho; parece-me porém conveniente levar ao conhecimento de Sua Magestade o meu juizo sobre o futuro da provincia, assim como as minhas vistas sobre o modo de promover o seu desenvolvimento e prosperidade.

Os dominios portuguezes d'esta parte da África comprehendem, como já demonstrei, uma immensa extensão de territorio, que pôde adiantar-se extraordinariamente para o interior. Esse territorio é cortado de rios, que correm para a costa occidental, e os seus valles são notavelmente ferteis, assim como as entranhas da terra se mostram ricas de metaes. Podem portanto esses dominios offerecer valiosos recursos, e a metropole deve aproveita-los. É essa com effeito uma lhes e irrefutavel. O que resta é determinar os meios para se alcançar o fim. 

Este paiz jaz sob o sol dos tropicos, e é habitado por pretos. Estes, se não são em geral uma raça inferior, são-no porventura em especial, e os de Angola são talvez da especialidade; mas quando o não sejam, acham-se em completo estado de rudeza.

Estes pretos conservam-se quasi completamente no estado da natureza, a preta é como escrava e obrigada aos trabalhos mais rudes, não conhecem as necessidades da civilisação, e as naturaes, n'esta zona, em que são muilo mais limitadas, e onde a terra produz, quasi espontaneamente, o sufficiente em relação á sua população, póde dizer-se que as satisfazem sem trabalho. Por outro lado o calor tropical, se não mesmo a sua propria natureza, convida os pretos á indolencia e ao ocio. E portanto muito preguiçosa toda essa população indigena, e muito diminuta relativamente á immensa extensão de territorio.

    Como pois aproveitar os recursos d'esta terra, se os seus habitantes não offerecem os precisos meios de trabalho? Dir-se-ha que importando no paiz a raça branca com a sua intelligencia, energia, amor e habitos de trabalhar. Mas os valles de Angola, onde se produzem os generos coloniaes, não permiltem o trabalho aos brancos; e se com o devido resguardo ahi poderiam viver e fazer cultivar a terra dirigindo o trabalho dos pretos, falta-lhes a precisa acção sobre elles pela quasi completa isenção do trabalho forçado. E nos pontos elevados da provincia, onde, dizem uns, e suppõem outros, que o branco vive bem, ou não se produzem os generos coloniaes, ou ficam a tão grande distancia que o preço do transporte torna sem valor a cultura, resta é determinar os meios para se alcançar o fim. 
    Quando porém com mais ou menos sacrificios a colonisação branca fosse possivel, d'onde havia de vir essa colonisação? O reino e as ilhas adjacentes, que gente poderão dar annualmente para colonisar a nossa África? Não é bem sabida a escassez de braços, que a emigração para o Brazil ahi tem produzido? Ainda que se dirigisse para Angola toda essa emigração (o que não devia tentar-se, porque uma parte d'ella será mais util á metropole no Brazil, do que em Africa), não era isso um grão de areia lançado annualmente n'esse vasto deserto? E a emigração da Europa, emquanto estiverem ermos os sertões da America do norte e da Australia meridional, tão saudaveis como os valles europeus, e os sertões do Brazil mais saudaveis que os de Angola, poderemos nós ter a pretensão de a chamar aqui?
    Dir-se-ha que não se tem ainda explorado este paiz á luz da sciencia ou mesmo da inteligencia, que ainda se não fizeram esforços de colonisação e aclimatação, de modo que possa deduzir-se, que lhes da impossibilidade do trabalho dos brancos está demonstrada. Suppondo, mas não concedendo que assim seja, estamos nós em circumstancias de arriscar gente e dinheiro em experiencias, que pelos argumentos àpriori não devem dar bom resultado ? Deveremos despovoar o sul do reino, o Minho e os Açores para correr o risco de inutilisar colonos nos nossos sertões africanos?
Mal guiadas vão pois, quanto a mim, as idéas d'aquelles que pensam no grande impulso agricola que dizem poder e dever dar-se á provincia de Angola, enviando meios e gente do reino. Eu não posso ter illusões a esse respeito, em vista do conhecimento que pessoalmente adquiri d'esta provincia, e da de Cabo Verde, percorrendo a costa e o interior.

A agricultura dos brancos em Angola, em generos coloniaes, póde dizer-se impossivel sem o trabalho forçado; e mesmo assim nunca será tão productiva como em S. Thomé, na Havana, no Brazil e Estados Unidos, pela facilidade que têem os pretos de subtrahir-se á acção dos brancos, fugindo para onde não é possivel ir busca-los, o que não succede nos paizes citados.
Trabalho livre dos pretos, prestado aos brancos pela remuneração, que o producto da agricultura dos tropicos permite dar, é um sonho, ao menos por ora. Os pretos que, por excepção, forem laboriosos, trabalham para si, que de pouco carecem, e não para os agricultores brancos; cultivam a sua propriedade tão facil de obter, e que lhe dá mais lucro com relação ás suas necessidades, que o salario do lavrador, do qual não supportam a sujeição, incómmoda aos seus habitos e desnecessaria ás suas limitadas aspirações; quanto aos preguiçosos, podarão agricultor dar-lhes salario que os convide?
Como os precedentes do governo de Sua Magestade são todos contrarios ao trabalho forçado nas colonias africanas, seria ocioso fazer indicações em tal sentido, e pelo mesmo motivo cumpre dizer, que se não deve ter illusões a respeito do seu grande desenvolvimento agricola.
Partindo d'estas bases, e sendo taes as minhas convicções, é claro que sou de opinião, que as vistas do governo se devem dirigir particularmente sobre a exploração commercial d'este paiz, e sobre os meios de educar e aportuguezar a raça preta, pois que será com ella e por ella, que poderá levar, se é possivel, n'um futuro mais ou menos remoto, este paiz ao gremio da civilisação. Não digo que se despreze a agricultura, onde ella seja verdadeiramente util e productiva, e a distancia que possa facilmente proteger-se, e receber o impulso da intelligencia e esforço dos europeus que venham estabelecer-se n'esta provincia. Para isso bastará, durante muitos annos, ulilisar os terrenos proximos da costa e o dos valles dos rios, que são os mais promettedores e os que merecem consideração.
É de primeira necessidade tomar os nossos limites legaes n'esta colonia, e occuparmos devidamente a costa entre 5° e 12', e 18° de latitude, de modo que passe pelas nossas alfandegas todo o commercio de importação e exportação que n'ellas se faça, e assim cessará o trafico entre o Ambriz e Molembo, onde estou convencido que não acaba senão com essa occupação pela nossa parte. Devemos estabelecer communicações para o interior pelos rios como o Cunene, que constituirá ao sul a nossa fronteira, não convindo estender a occupação pela costa alem da sua foz por um paiz deserto e esteril; e tambem seguir pelo Zaire, que constituirá ao norte uma grande linha commercial, garantida pela occupação da cosla até 5° e 12' de latitude meridional (1).

1 Em 2 de dezembro de 1861 foram pedidos ao governo dois botes de ferro, para com eltes se proceder ao reconhecimento do rio Lucatla. Estes botes acham-se hoje em Loanda. O Lucatla (em grande desenvolvimento desde as terras da Ginga até á sua confluencia em Massangano com o rio Quanza; e poderá tatvez tornar-se uma grande via industrial, aindaque a navegação aio se verifique, senão passando os generos por terra em curtas distancias do plano superior para o plano inferior das cachoeiras ou obstaculos; o que é facil, mandando estabelecer nos pontos adequados povoações, que se prestarão a esse trabatho, mediante diminuto salario.
Em seguida cumpre chamar os pretos ás nossas relações e sujeição pelo bom trato, sem vexames, ou exigencias pecuniarias, como signal de vassallagem. Sejam as alfandegas a fonte de receita da provincia. Se pois nos não temos gente (nem a teriam outras nações) para colonisar a provincia e explora-la agricolamente desde já; e so pelo systema indicado da occupação, o commercio viria espontaneamente aos nossos estabelecimentos, não lendo outra parte onde comprar e vender; segue-se que as occupações no interior, pelo centro, não deverão estender-se alem de certos limites, porque o contrario será nocivo e perigoso, ao passo que é desnecessario. Temos uma linha de occupação no interior, já em verdade bastante avançada, desde S. Salvador do Congo, ao pé do Zaire, até ao Humbe sobre o Cunene, interrompida, comojámostrei, por grande extensão de territorio, não guarnecido, entre o districto do Golungo Alto e o do Ambriz ao norte, entre o mesmo districto e o de Benguella no centro, e entre este ultimo e o de Mossamedes ao sul. Conservar essa linha, senão mesmo reduzi-la a limites convenientes, e em qualquer dos casos fortifica-la e guarnece-la, estabelecendo n'ella colonias militares, e collocar n'estas Iodos os degradados, que podérem e deverem ser dispensados do serviço militar, entendo ser uma medida de grande alcance para o futuro d'esta provincia. Não se deve exceder esta linha: contentemo-nos com a zona comprehendida entra ella e a costa, sendo bem occupada e defendida, e com os interesses do commercio, que o gentio do interior não pôde deixar de entreter comnosco.

Já demonstrei que as occupações do interior de Mossamedes não tem valor. So a do Humbe o poderá vir a ter mui remotamente, quando subirmos, como devemos, pelo valle do Cunene, em cuja margem assenta o posto que occupâmos. N'este ponto julgo devermos tomar por limite a serra da Chella, cuja uba occidental, e o valle de Capangombe e Bumbo, offerecerão, durante muilo tempo, espaçoso campo á actividade dos colonos e emprehendedores.

    Com a exposta ordem de idéas va e de accordo a fortificação que ordenei em Maiange, centro da linha interior; está em harmonia com ellasacolonisação que procuro estabelecer em Caconda; e n'essas vistas tenciono, logo que se me offereça occasião, abrir as communicaçoes para o Bcmbe por Encoge, ligando assim os concelbos populosos-e bem avassallados dos valles do Quanza, Bengo e Dande com o norte da provincia, assim como entendo que, logoque seja possivel, se deve trabalhar no mesmo sentido, correndo de Pungo Andongo para o sul até Caconda, através do territorio, nãooccupado, do Libolo, Bailando e Bibé, e d'abi até os limites do sul do lado do Humbe.
   Devo comtudo observar que os pontos occupados n'essa linha, e as colonias militares ali estabelecidas, deverão ler por fim tomar pontos estrategicos para segurar a dominação, crear estancias para o commercio do sertão interior, e estabelecer centros de população branca, ou mesmo preta educada ao contacto dos brancos, como fóco de civilisação, sem que deva pensar-se, quanto a mim, em d'ahi tirar resultado para agricultura de generos coloniaes, a não ser em futuro muito distante.
   Occupada assim a provincia, tomadas por este modo n'esse immenso tracto de terreno as couve
mo n Ies linhas delimite, com sujeição e dominio effectivo, conviria actuar sobre a sua população para educa-la. Como porém realisar tão ardua empreza?
Já acima disse, e é obvio, que só o contacto dos brancos, e as suas relações podem educar os pretos, que convem chamar e afagar, fazendo-lhes ver que o nosso dominio não é pesado, para que elles o não evitem. É mister que o preto conheça que a auctoridade do funccionario branco é mais suave e mais benefica que a do sóba preto.
   Cumpre portanto mudar de systema, acabar com as camaras, as juntas de parochia, as com missões municipaes, os juizes ordinarios, e os subdelegados, que não têem sido no interior senão fontes perennes de vexames para os prelos. Eu mesmo observei em todo o sertão, que essas administrações e justiças de brancos desempenhadas pelos pretos, como são e não podem em geral deixar de ser, eram absolutamente odiosas tanto aos brancos como aos mesmos pretos. (Doe. n.° 25.)
É preciso dar uma boa posição aos chefes, e empregar os meios para se lhes fazer effectiva toda a responsabilidade dos seus actos, e, concentrar n'elles toda a auctoridade; podendo assim esperar-se os effeitos da acção benefica e mando que se lhes confia.
O chefe para a administração, e o padre para a instrucção e educação intellectual, moral e religiosa, eis-aqui lodo o funccionalismo que convem conservar n'esse sertão.
O chefe será juiz de paz e ordinario, será administrador e commandante militar; mas não será collector, pois entendo que essa entidade deve ser desconhecida no sertão, onde não convem pedir ao preto um real de imposto. Toda a população da provincia pagará bem o seu tributo na alfandega, concorrendo assim, mais ou menos directamente, para a producção ou para o consumo.
    Exceptuando os concelhos, onde os costumes dos pretos tenham já sido muito alterados pelo trato com os brancos, e raros são elles n'esta provincia, é minha opinião que a instituição dos sobas deve ser conservada, pois como auctoridade tradicional, é, e será sempre, a mais respeitada de todas.
   Que um grande concelho composto de muitos sobas seja dividido em divisões, e que o commandante da divisão seja o chefe dos sobas da sua circumscripção, pôde por excepção admiltir-se; mas que os prelos se entendam directamente com os sobas. Se houver alguns brancos estabelecidos nos sobados, ou gente de cor e mesmo pretos que se possam dizer educados e civilisados, esses que dependam directamente do chefe, ou do commandante da divisão, quando o haja, e não do soba; e so convirá dispensar o valor d'esta instituição quando o numero d'aquelles se tornar grande, e a sua força moral e influencia dominar a dos sobas.
    Julgo dever lembrar aqui que 5 Inglaterra e a Hollanda, habeis nações coloniaes, lêem sempre seguido com proveito o systema de utilisar, quanto possivel, as instituições dos indigenas, como já remotamente outros povos dominadores ensinaram e praticaram cm suas vastas conquistas.
   Não posso tambem dispensar-me de apresentar uma idéa que considero capital a respeito do assumpto de que se trata. Se é conveniente aceitar c aproveitar a instituição e auctoridade dos sobas, é tambem preciso educa-los e aos seus macotas; indispensavel aportugucza-los, c, como um poderoso meio de o conseguir, devemos ensinar-lhes a ler, escrever e contar em portuguez. Saibam portuguez, quanto possivel, os grandes de um sobado, que os pequenos o irão aprendendo. Se Portugal não pôde quasi com certeza crear aqui uma nação da sua raça, como creou do outro lado do Atlantico, ao menos eduque um povo que falle a sua lingua, e tenha mais ou menos a sua religião e costumes, a fim de lançar mais este novo cimento na causa da civilisação do mundo, e de tirar depois mais partido das suas relações e esforços humanitarios.
Demos pois aos pretos boas auctoridades na pessoa dos chefes, bons mestres e directores na pessoa dos padres, não imponhâmos aos sobas senão a obrigação de dar soldados para a força militar, e de ensinar a ler, escrever e contar a seus filhos,  aos de seus parentes e macotas; e deixemos que o tempo, a religião e a instrucção façam o seu dever.
Do que fica exposto, vê o governo de Sua Magestade que eu voto pela maior simplificação possivel da administração no interior da provincia, e nem podia deixar de assim pensar em vista do estado intellectual e moral da sua população. E um povo na infancia, portanto deve dar-se-lhe, mais ou menos, uma organisação patriarcha. O regimen municipal e as justiças ordinarias poderão apenas convir em dois ou tres pontos do litoral; e ainda ahi a auctoridade administrativa local deve presidir á municipalidade. Nem estão menos em desaccordo com o estado selvagem da provincia as franquezas eleitoraes. que lhe foram concedidas, dando em resultado, por um lado a decepção e a burla, por outro a desmoralisação.
E preciso pois retrogradar; não tenho duvida em affirma-lo ao governo de Sua Magestade, e sou insuspeilo, porque desde muilo moço combati pela causa das instituições que nos regem. Não posso convencer-me de que aos povos selvagens dos serlões de Africa se devam applicar as garantias e conceder as immunidades constitucionaes implantadas em Portugal em 1834, nem tambem creio que a pouca e vacillante população europea, que habita Angola, e a diminuta população indigena, que se considera civilisada, em Loanda ou Benguella, aprecie essas instituições e saiba fazer uso d'ellas.
   Julgo necessario fazer-se uma grande reforma politica e economica em Angola. Feita ella, ficarão lançados os alicerces da prosperidade da colonia, e cessarão os sacrificios por parte da metropole, ou serão de pequena importancia os que haja de fazer para realisa-la.
   Essa grande reforma deverá ser acompanhada de differentes providencias, entre as quaes passarei a enumerar as seguintes: 

1.a, a exploração scientifica da provincia, melhorando-a, no que for possivel, quanto á aclimação dos brancos nos pontos mais proprios para o estabelecimento d'estes, e com relação aos recursos mineralogicos; 

2.° uma lei que facilite inteiramente a acquisição de terras, dando, com as menores formalidades que for possivel, ao cultivador a propriedade do baldio que tiver cultivado, e ao pesquisador a da mina que houver descoberto e pozer em exploração; 

3.° providencias tendentes a facilitar a emigração espontanea do reino e ilhas, apresentando-a com as vantagens que offerece a do Brazil, e proporcionando tambem os meios á reemigração do imperio, aos que ali se acharem descontentes, adiantando a passagem nos navios de commercio, e dando-a gratuitamente nos do estado; 

4.° uma lei de melhoramento na situação actual dos funccionarios, assegurando-lhes também um futuro, sem o que a administração central não tem força no mando, nem podem aproveitar as suas mais justas e necessarias disposições, nem tão pouco se pôde esperar que o funccionario se a ÍTei coe á colo n ia, e n'el Ia se estabeleça, como convem aos interesses do paiz1

5.° uma disposição que facilite a introducção, o derramamento, a creacão e a conservação de animaes que auxiliem as differentes industrias; 

6.° a creação de um banco em Loanda, e do estabelecimento de navegação a vapor particular á costa, medida de grande auxilio geral, mas especialmente para o commercio; 

7.° a construcção de algumas estradas auxiliares das communicações fluviaes, e grande desenvolvimento de obras publicas, boje largamente possivel com o producto do imposto de 3 por cento ad valorem;  

8.° a educação e instrucção da população, attendendo a que na provincia não é possivel grande applicação ás sciencias, nem aos europeus nem mesmo aos indigenas, pois apenas convirá organisar aqui um bom lyceu, alem de algum collegio para a infancia; e os padres serão mais bem educados nos seminarios de Portugal, ficarão mais portuguezes, e continuarão a sê-lo voltando ao seu paiz, e aprenderão melhor a lingua, que depois devem aqui ensinar; 

9.° a troca de recrutamento de pretos entre Angola, S. Thomé, Cabo Verde, e mesmo Moçambique, unico meio de ter bons soldados pretos de 1.a linha n'esta provincia,,visto a propensão dos nativos para a deserção, a facilidade de a realisar, e a difficuldade de a punir, e porque, resistindo os brancos difficilmente á vida de soldado, seria esta a maneira de dispensar mais ou menos completamente o seu serviço militar, empregando-os mais utilmente, tendo tambem em attenção o preciso augmento de força de 1.a linha em harmonia com o augmento do numero dos pontos occupados na provincia, e ouIras circumstancias que o reclamam; 

10.° uma organisação geral dos diferentes serviços publicos tendente á sua maior simplificação possivel, de maneira que se empregue o menor numero de individuos, pela extrema dificuldade de os obter idoneos, a cujo respeito não me dispenso de indicar a suppressão das delegações de fazenda, substituindo-lhe o systema que vigora em Cabo Verde;

11.º, uma providencia combinada com differentes nações a bem da causa da humanidade, se este sentimento é real e unanime, prohibindo a venda de armas e polvora, objectos que alimentam o trafico da escravatura, exclusivamente fornecidos pelos inglezes e americanos, com o que ficará segura a obediencia dos prelos avassallados, e inoffensivo o gentio diante da nossa força armada; 

12.°, especialmente uma reforma no serviço judicial, de modo que os empregados do juizo de paz sejam muito interessados nas conciliações, e que n'este juizo se terminem a maxima parto dos pleitos, deixando aos sóbas decidir as questões entre filhos (vassallos) até certa alçada, embora com a conservação de prejuizos, que só o tempo e a educação poderão acabar; e deixar aos chefes, como juizes ordinarios que são na maxima parte dos concelhos(1), o decidir a maior parte das causas crimes, de modo que ás instancias superiores não subam a infinidade de processos, que hoje sobem, com grave prejuizo publico, e borrorosos vexames e injustiça para as partes; 

(1)  A antiga instituição do julgamento summario em tribunal composto pelo chefe, como juiz, do escrivao e do tendala (interprete) com voto consultivo, compreeendia a do juizo de paz, era e é adequada áquelle povo e estima por elle ; offerece as precisas garantias de justica ao paiz que tanto a carece, ordem e paz a administracao e forca ao governo.

13.°, o estabelecimento de uma estação naval a vapor, que possa auxiliar a administração nas suas relações entre os postos da costa, e que de accordo com as auctoridades dos differentes pontos responda, perante o paiz, pela completa execução das leis contra ò trafico, que comtudo pôde dizer-se acabado no territorio avassallado, salvo alguma muito rara transgressão, e que assim se poderia dizer cxtincto em toda a costa, desde 5° e 12' até 18°, cessando a humilhação que muitas vezes soffremos dos estrangeiros; estação naval, que bem organisada e bem dirigida não causaria muito maior despeza que essa abi sustentada inutilmente, porque o trafico so se faz ao norte do Ambriz,e geralmente em navios com bandeira que os cruzeiros não podem deixar de respeitar; 

14.°, a melhor organisação do serviço de saude, de sorte que abundem na colonia os facultativos e os pbarmaceuticos, animando assim os brancos a procurar aqui fortuna, certos de que se o clima não é salubre, Ibes não faltarão os recursos para se tratarem em suas molestias; 

15.°, a adopção de uma pauta geral das alfandegas, apropriada á provincia, desprendendo-se o governo de principios que, por incontestáveis que sejam na sua applicação á Europa civilisada,  são da mais duvidosa vantagem, se não de reconhecida inapplicação, na Africa selvagem; 
 
16.°, e finalmente essa grande reforma deve ser acompanhada, como medida da mais subida transcendencia, da fixação da boa intelligencia das leis e tratados sobre o transporte de escravos e libertos por mar entre os portos da provincia, e entre ella e a de S. Thome, a fim de que não subsista a interpretação erronea que se deu ao n.° 4.* do artigo 5.° do tratado de 3 de julho de 1842, com grave prejuizo publico, e particular das duas colonias.
Outras providencias de menor importancia poderia lembrar, que não apresentarei agora para não tornar este relatorio demasiadamente extenso, convindo apenas especialisar o estabelecimento de alguns pontos fortificados na costa, segundo o indicar um bem entendido systema de defe/a, habilitar a provincia com o material de guerra preciso e apropriado, que hoje não possue, e constituir devidamente a auctoridade elevando-a e centralisando a sua acção, porque a auctoridade-é a maior força productora em Africa. O governo da metropole deve empregar o maior cuidado na escolha do seu delegado no governo geral, e depositando n'elle toda a confiança, e demittindo-o, quando não a mereça, deve julgar e obrar pelas informações officiaes, por via de regra mais desinteressadas e sempre responsaveis, e não por indicações e insinuações incompetentes, senão malevolas e interesseiras; nem tão pouco pelas representações suspeitas, dirigidas por vias incompetentes.
   Tenho pois exposto o meu juizo e as minhas vistas a respeito da provincia que governo; e segundo ellas dirigirei portanto a minha administração, excepto quando contrariarem as disposições da lei, e as ordens do governo de Sua Magestade, que me cumpre respeitar, executando-as, ou representando respeitosamente, quando assim convier aos interesses publicos.

E agora, aindaque, como disse acima, os precedentes do governo são contrarios ao trabalho forçado nas colonias de Africa, tendo declarado, que sem elle julgo impossivel a grande agricultura colonial por emprehendimento dos europeus, a cultura civilisadora, intelligente, e verdadeiramente productiva, parece-me que não devo deixar de apresentar aqui, em conclusão do meu trabalho, algumas indicações sobre o assumpto. Se o governo de Sua Magestade se decidir a reconsiderar, como disse que seria mister, sobre muitas das providencias ultimamente adoptadas, talvez lambem se decida a adoptar algumas disposições com relação a este assumpto, onde não é por ventura indispensavel que retrograde.
 
Já indiquei como era difficil, senão é impossivel, que os colonos ou os indigenas emprehendedores podessem aqui estabelecer emprezas agricolas com trabalho livre, porque as contingencias da cultura e os lucros que produzem os generos coloniaes não lhes permiltem dar salarios que convidem a população indolente e preguiçosa a fornecer-lhes o trabalho, que precisam; assim como disse, que os poucos pretos que porventura forem laboriosos, trabalharão para si e não para estranhos. Tenho esta asserção como irrefutavel. A escravidão acha-se abolida por lei, e não é de crer que reviva, porém a lei admilte a condição de liberto, ou preto livre obrigado a dez annos de serviço em favor d'aquelle que o remiu da escravidão. Talvez d'esta sorte, apesar do praso ser curto (1), possa haver ainda uma esperança para a agricultura, se o colono ou emprehendedor agricola podér contar com esses dez annos de trabalho do liberto. Segure-se ao emprehendedor de trabalhos agricolas, mais ou menos completamente, o trabalho do escravo que remiu, sempre que esteja valido, durante o praso que a lei concede, e poderá ainda haver em Angola agricultura com algum valor. Terá porém o colono seguro o trabalho do liberto no estado actual das cousas? Não tem, porque o preto, vindo do sertão, sabe o caminho d'esse sertão, e na primeira occasião opportuna foge, ou para ali, ou para o primeiro motolo (couto de bandidos), que encontra, ou para qualquer ponto do gentio não avassallado, que não dista muito da estancia do agricultor, a quem deve o serviço (1).

1 O preto de menor idade, resgatado da escravidão no gentio, fica livre quando está educado e em estado de prestar algum servico.
   1 Veja-se a nota inseria a pag. 19 relativamente á fuga de 111 pretos, pertencentes ao cultivador de Cazengo Costa Magalhães.
A difficuldade, o problema a resolver para que haja agricultura nesta provincia, consiste em segurar ao agricultor o trabalho do seu liberto. Não será promettendo distincções honorificas, isentando os productos agricolas de todo o imposto de exportação, fornecendo utensilios, machinas e sementes, ou offerecendo valiosos premios pecuniarios; será dando aos emprehendedores segurança de braços para o trabalho que o governo de Sua Magestade promoverá a agricultura das colonias do continente africano.
Mas actualmente não ha meio de evitar tão grande mal. Não se tendo interpretado o tratado de 3 de julho de modo a não comprehender o transporte de escravos por mar entre os portos d'esta costa, nas disposições que no tratado se estatuiram a respeito das ilhas de S. Thomé, como é evidente que não são comprehendidos pela letra do tratado, e se alem d'isto se não houvesse ampliado infundamentadamente a sua applicação lilleral, comprehendendo n'ella os libertos, quando no tratado só se falia de escravos, ainda se poderia remediar, trocando os individuos do norte com os do sul. N'este caso todavia ainda a questão ficava sem resolução completamente satisfactoria para o centro da provincia, que é a parte mais importante, e os emprehcndedores ou não apparecerão, ou alguns raros que tentem, esmorecerão e abandonarão promplamente em presença de tacs difficuldades e embaraços.

Emquanto não passar muito grande numero de annos, e esse territorio comprehendido entre a costa e a linha interior de occupação acima descripta, não for domado complctamentc, e mais ou menos assimilado, emquanto ao menos os motolos, e o gentio não avassallado não deixarem de existir no meio do territorio sujeito, os libertos, vindos do interior, não offerecem ao emprehendedor agricola trabalho certo e seguro como elle precisa, e portanto não podem affluir para Angola esses emprehendedores.
O governo de Sua Magestade teria ainda um meio proficuo de promover a agricultura permittindo que os emprehendedores agricolas possam trazer libertos de paizes para onde elles não fujam, e de raças e linguas que os tornem estranhos ao gentio d'esta provincia. Foi por se darem estas circumstancias com os pretos transportados para a America, que ali se creou a agricultura tropical. Se em troca fossem trazidos para Angola indigenas americanos, ter-se-ia ella, naturalmente, estabelecido aqui do mesmo modo.
É portanto um grande meio civilisador permitlir que as provincias de Angola e Moçambique possam trocar libertos pela via maritima. Não ha n'isto a menor offensa ao tratado de 3 de julho de 1842, nem ao decreto de 14 de dezembro de 1854 e mais legislação em vigor, não ha a menor derrogação dos principios recebidos entre as nações, poisqtie se é licilo engajar pretos em África com obrigação de certo tempo de serviço, e leva-los para as colonias francezas (Doe. n.° 53), ou engajar colonos ou coolis na índia e na China com a mesma obrigação, e leva-los para as colonias francezas, hespanholas e inglezas; é ainda mais licito trazer, de uma colonia portugueza para outra da mesma nação, pretos obrigados por lei a certo lempo de serviço, findo o qual, ficam desembaraçados e poderão tomar o expediente que lhes convier.
É este um assumpto a cujo respeito o governo de Sua Magestade é livre de obrar como lhe aprouver, sem otfensa dos principios de justiça e de equidade, e pôde proceder desassombradamente sem receio de merecer censura. Assim como se trocam recrutas para o exercito, tambem se podem trocar esses recrutas para o trabalho agricola, o mais poderoso, talvez, o unico meio efficaz de civilisação para as selvagens raças africanas. Entendo pois, considerando e estudando detidamente o assumpto, que poderá talvez d'esta sorte com a legislação existente haver desenvolvimento agricola n'esta provincia.
  Aproveito esta occasião para dizer que de quasi igual medida depende todo o desenvolvimento agricola que promette o archipelago de S. Thomé e Principe. Ali so se precisa de braços, libertos, se por outro meio melhor se não obtêem, e Angola fornecer-lhe-ha largamente dos que não pôde utilisar. Deve advertir-se que Angola interessa no desenvolvimento agricola d'aquelle archipelago, porque, quando ali tenha chegado a certa altura, ha de refluir poderosa e beneficamente sobre este continente.
    Quanto porém á troca de libertos entre Angola e Moçambique, devo ainda reflectir, que este expediente so pôde ser proficuo quando em ambas as provincias haja gente pecuniosa, ou se organisem emprezas poderosas dedicadas á agricultura. Com os meios de que dispõem as pessoas, que em ambas as provincias podem hoje tentar trabalhos agricolas não lhes é possivel negociar em larga escala o serviço dos libertos trocados entre ellas, em consequencia do preço a que se elevaria a despeza de transporte; nem os armadores se animarão, como convinha, a dedicar os seus navios a tão longa navegação.
     Quando haverá porém nas duas provincias essas pessoas e essas emprezas poderosas? Tarde, sem duvida, por falta de meios, e sobretudo de impulsão protectora. Para fomentar agricultura valiosa na nossa África, na continental pelo menos, haverá inquestionavelmente necessidade de tomar-se uma medida rasgada de organisação do trabalho da população indigena, adoptando, por exemplo, um conveniente systema de servidão, do que já ha n'esta provincia uma similhança nos chamados forros, que é uma tutela rasoavel em troco de protecção condicional.

   Dou por concluido o meu trabalho. Oxalá que o governo de Sua Magestade julgue que cumpri, e n'elle encontre indicações e propostas, que mereçam ser consideradas e possam ser adoptadas com proveito da provincia e do paiz.
   Deus guarde a v. ex.a Loanda, 31 de janeiro de 1862. — Ill.mo e ex.mo sr. ministro e secretario de estado dos negocios da marinha e ultramar.= Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, governador geral.

 

terça-feira, 18 de outubro de 2011

PERNAMBUCO E ANGOLA (Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe)

PERNAMBUCO E ANGOLA  O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes.

Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros,no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo. O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22;
no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro:

"Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".

Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956.


BIBLIOTECA VIRTUAL José Antônio Gonsalves de Mello · http://www.fgf.org.br/bvjagm
Proibida a reprodução sem prévia autorização.

domingo, 16 de outubro de 2011

OS LANDINS EM MACAU
"da leitura das estrelas ao pragmatismo"
 de Pedro Dá Mesquita, em Lisboa
Revista Nam Van nº 23 - 1 de Abril de 1986



Quis o destino que os landins, povo aliado com os deuses, que o fizeram feiticeiro, se tornasse no exemplo mais acabado de soldado africano ao serviço do exército colonial português.

Estávamos em 1904 e pelo regulamento assinado pelo comissário régio de Moçambique, Mousinho de Albuquerque, todos os homens válidos seriam sujeitos a uma inspecção, a ter lugar de dois em dois anos, para servirem nas companhias expedicionárias e nas companhias de indígenas, estas integradas exclusivamente por elemento landins.

Da passagem de uma vida que se perdia na memória dos tempos, feita pela leitura das estrelas, dos ventos e das nuvens, colocando cada landim numa posição superior e desta superioridade vivendo, a história militar portuguesa coloca estes homens de sorriso permanente e de selváticas paixões, numa alta estima a julgar pelo testemunho do próprio herói do aprisionamento do Gungunhana, que escreveu a dado passo no seu livro «Moçambique» que os landins eram de todas as tropas de negros ao serviço de Portugal as que revelaram «maior instinto guerreiro».

Com tão boas referências, depressa estes homens deixaram a sua terra para servirem em Angola, Timor e Macau, tendo chegado a este último território no ano de 1911, marcando nas cinco décadas seguintes uma presença regular naquele enclave, então colónia portuguesa.

Para quem conhecesse os landins por alturas dos finais do século passado, dificilmente imaginaria que este povo orgulhoso se tornasse alguma vez num soldado disciplinado, temerário, ao serviço de um exército regular.

Armado de escudo, adornado de peles e com zagaias, com as quais desferiam o primeiro golpe em direcção aos rins da vítima, os landins eram uma das etnias mais temidas e conhecidas de todo o Moçambique.

Contam as crónicas que qualquer número de landins, por mais insignificante, que passasse por qualquer aldeia, por mais pobre que ela fosse, quase que por magia - não fossem eles feiticeiros surgia logo farinha para fabricarem o seu pão favorito, sempre acompanhado por um bom número de cabritos e galinhas

As principais vítimas desta pilhagem permanente era o povo quiteve, que para além de se ver despojado de boa parte dos seus bens, era obrigado a carregar todos os mantimentos dos landins, pois estes nunca tinham «pegado em cargas».

Aliás, conta-se uma história bem curiosa sobre os costumes deste povo que fez um pacto com o céu.

Nas suas permanentes deambulações, os landins conceberam uma forma assaz curiosa de tributação: abriam um furo no alto da cobertura cónica das palhotas circulares, obrigando depois a enchê-Ias até que estas se recusassem a receber mais.

Esta tendência de acumular veio a manifestar-se bem mais tarde em Macau, embora já a nível individual e sob a forma de pré (2 mil escudos em 1950) por todos os elementos voluntários que estiveram em comissão de serviço no território, ficando célebre um desembarque em Lourenço Marques, em 1932, que vinha de tal forma provido de mercadoria que pagou 18 contos de réis em direitos aduaneiros, e isto não obstante a «vista grossa» por parte dos funcionários da alfândega.


O primeiro par de botas

Providos de uma excelente compleição física - cuja média ultrapassava o metro e setenta de altura - com uma boa capacidade de aprendizagem, com um bom espírito combativo e de tempera­mento alegre, os landins foram considerados as melhores tropas coloniais portuguesas.

Após um recenseamento, eram sujeitos a uma recruta de três a seis meses onde lhes era ministrado o manejo das armas, o aprumo mili­tar e uma instrução mínima. De­pois eram enviados para Angola, Timor e Índia na situação de obrigatoriedade, tendo sido recrutados mais de cem mil entre 1916 e 1918, durante a I Grande Guerra.

O primeiro contigente a embarcar para Macau deixou Lourenço Marques em 11 de Dezembro de 1911 com a 8ª Companhia Indígena, acompanhada de uma secção de bateria mista.

Com um par de botas - as primeiras que calçavam na sua vida - um capacete de ferro, que lhes dava um ar muito mais marcial, e com um uniforme do qual ressaltavam uns largos calções, cerca de duas centenas de landins desembarcaram em Macau nos primeiros dias de 1912, deixando desde logo uma forte impressão, quer na comunidade portuguesa, quer mesmo na chinesa ao realizarem um batuque no qual teve papel importante o manejo das terríveis zagaIas.

Devido ao facto de serem tropas muito bem treinadas e muito disciplinadas, e de serem - segundo Mousinho que as utilizou em primeiro lugar - «umas sentinelas admiráveis» foram colocados nas Portas do Cerco, ponto nevrálgico, sobretudo após a implementação da República Chinesa e onde se tinham registado alguns incidentes.




A coronhada landim

Com fortificações que permitiam a presença de uma companhia, a unidade estacionada nas Portas do Cerco estava sujeita a um trabalho violento, quer no aspecto físico, devido às constantes vigias nas 24 horas do dia, quer pelos incidentes que se repetiam quase diariamente com as tropas colocadas do outro lado da fronteIra.

O dia começava com o retirar dos cavalos-de-frisa pelas 8 horas, que eram colocados a cerca de 30 metros diante das Portas do Cerco, seguindo-se-Ihe o manejo de armas, colocação nos postos e instrução vária. A tarde, os soldados estavam encarregados de diversos melhoramentos nas instalações, encerrando a fronteira pelas 18 horas.

Equipados com espingardas de bom alcance, bazucas, canhões, anti-tanques e várias metralhadoras, as tropas landins colocavam-se em menos de três minutos nos seus postos após soar o alarme, facto que acontecia nas ocasiões mais díspares para manter a eficiência da unidade.

Após a natural apreensão relativamente à recepção que iriam dar aos landins, estes foram bem aceites pelas três comunidades em questão (portuguesa, chinesa el colegas de armas).

Depressa ganharam fama de soldados disciplinados, não só através das inúmeras histórias mas também pelas anedotas que se contavam a seu respeito. Uma delas conta o sucedido com um soldado landim que estava de serviço à residência do governador de Moçambique e deu uma forte coronhada num director dos caminhos de ferro do Transval, que na ocasião (uma greve) insistiu em transpor uma vedação, e que mais tarde iria provocar certos dissabores ao próprio Mousinho. Instado a defender-se por ocasião de um breve inquérito que ficou arquivado e das razões que o tinham levado a tomar aquela atitude, o soldado limitou-se a responder: - «Faça, alto, palavra de honra, faça fogo».

O prestígio junto das comunidades em Macau foi subindo à medida que eles se iam integrando na vida normal da cidade, sendo vistos nos dias de folga, sempre em grupos, invadindo as lojas centralizadas na Rua Almeida Ribeiro numa azáfama em adquirirem um conjunto mais ou menos fixo de bens: bicicletas, fatos, máquinas fotográficas, arcas em cânfora e outros objectos que afanosamente guardavam como penhor de dois anos de comissão de serviço voluntário em Macau com um bom pré (2 mil escudos em 1950) e isto numa altura em que Macau tinha uma vida mais barata do que em Moçambique ou Portugal.

Por outro lado, um dos passatempos favoritos dos landins ao chegarem a Macau - conforme nos relata o coronel Pedro Barcelos que comandou uma companhia dej landins nas Portas do Cerco entrei Junho de 1951 e Setembro de 19521 - era o de se fazerem transportar nos riquexós, já que parece que «lhes dava um grande prazer o serem levados a custa de braço, pelas ruas de Macau e perante um clima tão extenuante.



A fotografia de rectaguarda

Fora disso e para além de umas visitas esporádicas à rua da Felicidade (ninguém poderia ter escolhido um nome mais sugestivo...), o seu relacionamento foi sempre muito bom, sendo somente de recordar, pelo seu aspecto caricato, um episódio ocorrido em 1931, quando um grupo de dez soldados e 2 cabos landins foi escolhido para representar as forças expedicionárias de Moçambique na exposição colonial de Paris.

Como já dissemos, os landins são dotados de uma excelente estatura física, tendo sido escolhido um deles para servir de soldado tipo para uma fotografia que iria incentivar os seus conterrâneos por altura do recrutamento.

A semelhança do que se fez para o «poster» do recrutamento, foi escolhido um grupo que estava estacionado em Macau, que por tradição recebia os melhores homens; só que na foto em que se via o oficial branco no meio dos soldados o seu tamanho era nitidamente mais baixo do que o dos seus subordinados, o que, de acordo com a mentalidade da época, era visto como uma prova de inferioridade.

A solução encontrada foi simples: preparou-se uma segunda foto, tirada no campo onde se vê uma coluna seguindo na frente os landins e na rectaguarda o guia, dando assim maior corpulência ao europeu.

Mas a vida dos landins não foi só este ritual de compras e de actividade militar, facilmente notado pelo «Bayte», uma saudação tipicamente landim, uma espécie de mistura de sinais que fazem lembrar um aceno e uma continência e que servia como factor de unidade na vida civil, já que todos os antigos soldados se cumprimentavam deste modo, o que dava ainda mais animação as já animadas ruas de Macau.

Na sequência de incidentes fronteiriços o comando militar de Macau achou por bem transferir para uma unidade estacionada na ilha da Taipa a companhia que tinha estado envolvida, não só para desanuviar a situação como também para evitar futuros incidentes com uma unidade já por si excitada.

Até ao final, a companhia limitou-se a fazer missões de observação e de defesa da ilha e a participar, com o acostumado brilho, na cerimónia do 10 de Junho por ocasião do juramento de bandeira de vários recrutas de Macau, onde realizavam exercícios físicos e demonstrações militares, completados com um concerto dado pela orquestra de corda e de um coro formado inteiramente por landins, tudo isto com o mesmo aprumo com que combatiam.

Para definir estes homens alegres damos a voz ao coronel Pedra Barcelos: «o landim é um pragmático, cumpre sempre à risca aquilo que lhe dizem», daí talvez o facto de muitos deles terem dado coronhadas na cabeça de muitos imprevidentes transeuntes, que fugindo ao sol estival numa procura de uma árvore passavam por detrás das guaritas instaladas nas Portas do Cerco...



Vértices de uma presença

Rua da Felicidade, cachaça, danças tribais

A partir de 1948, os contingentes africanos (da Guiné, Angola e Moçambique) recrutados para Macau, totalizavam, entre praças e cabos, cerca de 500 elementos, e estavam aquartelados na Fortaleza da Guia, em Mong-Há, na Ilha Verde e nas ilhas de Coloane e da Taipa.

Entre as 15 e as 18 horas, isto é, durante o período de licença, os soldados africanos, ou visitavam a Rua da Felicidade, ou passeavam pelas ruas de Macau, nos riquexós (alguns já bastante afectados pela cachaça).

À noite, no quartel, e quando as circunstâncias o permitiam, acendiam uma fogueira, onde uma conversa algarviada tentava evocar, sem desânimo, os horizontes longínquos da terra natal.

Apesar disso, o soldado tentava adaptar-se à vida ocidental. Uma forma de aculturação - e talvez a principal- terá sido a religião já que quase todos estavam baptizados, ou pelo catolicismo, ou por tendências cristãs protestantes. Ambas as tendências tiveram muito sucesso na sua influência junto das tropas africanas.

No que diz respeito aos católicos, havia em todos os quartéis uma delegação da Legião de Maria e na Gruta de Nossa Senhora de Fátima, cantava-se o terço todas as noites. Saliente-se também que alguns africanos chegavam a catequizar os seus conterrâneos.

As suas funções no quartel consistiam, para além dos exercícios militares diários, em trabalhos de faxina e de conservação de estradas.

Apesar das doenças que, muitas vezes faziam abater ao afectivo em tantos soldados africanos, estes ficavam em Macau normalmente durante o período duma comissão de dois anos.

Em 1974 já não existiam referências à sua presença e em 1975 é extinto o Comando Territorial Independente de Macau, apagando-se, assim, todos os traços da mentalidade africana que foi utilizada para diversos propósitos, mas que também nunca abdicou da sua originalidade e tradições. (P.J.L.)

* PMM: o autor do último artigo identificou-se apenas através das iniciais P.J.L.


Revista Nam Van foi uma publicação do Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau
Nossos Agradecimentos

Publicação Agosto 2010

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ponta do Pau do Sul ou Noronha, um miradouro sobre a baía e a cidade. Brito Aranha e a costa maritima de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola,)

[Eu,+Betinha+e+Gracietinha+no+mirante.jpg]
Eu e amigas, na Ponta do Pau do Sul, um miradouro sobre a cidade. 1956

NAMIBE

Por tê-lo assim tão perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.
E viver ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.

Angola 1968

Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»
*****
Ponta do Pau do Sul ou Noronha
 
Ponta do Giraúl
Mossâmedes: centro histórico e Avenida. Anos 1930

 As pescarias, a baía  e a cidade como pano de fundo. 1955


As pescarias da Torre do Tombo antes da construção da marginal e cais.1950


De Brito Aranha in Archivo pittoresco, Volume 10, p. 11:

«...Fica a bahia de Mossamedes (nome que lhe foi posto em 1785 pelo tenente-coronel de engenheiros L. C. C. P. Furtado, quando foi estudar toda essa costa), antiga Angra do Negro, e em lingua do gentio Mussungo Bittoto, entre as pontas do Girahúlo, (cabo Euspa) e a Grossa ou do Noronha.

«...Estende-se a ponta do Girahúlo, que é rasa, pouco saida e muito cortada a pique, em 15° 11' 30'' S. (1). e 21° 12' 30" E. Muito perto dessa ponta, e em linha que vae d'ella á fortaleza, se pruma em 30m,5, e se encontram depois, successivamente, 24, 82, 92, 99, 55, 238 e 293 metros.

Falésia a norte do farol do Giraul

«...Segue d'alli a heira-mar, toda pedrada e negra, obra de 3 milhas para SE 4 1/4 S. até á ponta Redonda, a qual tira o nome do feitio que tem, e é tão alta e tão ingreme, que se acham 36 metros, fundo de pedra, nas suas visinhanças; cresce muito rapidamente o fundo para 84 SE. d'essa ponta, e tanto que se pruma em 261 metros a milha d'ella; mais para S., n'esse mesmo alinhamento, se acham 20 c 14 metros perto da costa meridional.


A baía vista da falésia norte do farol do Giraúl

«...Pouco para E. da ponta Redonda se abre o Saco do Girahúlo, enseada com praia de areia, e depois se vae arqueando a bahia para S., e formando um reconcavo, todo guarnecido tambem de praia de areia, até á ponta Negra. Sobre esta, que é alta, pedregosa e escura, se levanta a fortaleza de S. Fernando, começada a construir em 1840, e que pode montar 8 peças.

A Fortaleza em finais do século XIX
O morro da Torre do Tombo e pescarias primitivas em finais do século XIX

«...Vae arenosa e de meã altura toda a costa desde a ponta Negra, e se encurva para formar o Saco do S., enseada que termina pela banda de 0. na ponta Grossa ou do Noronha. No recanto do Saco, onde começa a terra de subir, se levanta a chamada Torre do Tombo, morro argilloso, macio e talhado a pique para a banda do mar, onde se lêem os nomes de vários navios que tem aportado a Mossamedes, e os de muitas pessoas que visitaram aquelle sitio 2.
Uma das famosas grutas nas inscrições do Morro da Torre do Tombo. No vapor Índia chegaram em 1884 os 1ºs colonos madeirenses rumo ao Lubango. No vapor Sado desembarcou em Mossâmedes uma colónia de alemães e alunos da Casa Pia, em 1857.
Na base da falésia (Morro*) da Torre do Tombo, com as obras do cais e marginal e aterros em execução. 1956


«...Segue-se a ponta do Noronha, que é alta, pedregosa, cortada a prumo, amarellada e sita a 2 milhas e tres decimos da ponta Grossa; sobre ella, e em 15° 13' 30", torreia uma guarita com o seu pau de bandeira.

«...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, e forma uma enseada, que termina da banda ponta da Annunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e so a custo se percebe do mar. Fica esta em 15° 16'.

[Amilcar+Betinha+e+Gracietinha+Pau+do+Sul.jpg]
Sobre a ponta do Noronha (Pau do Sul),  familiar e amigas vislumbrando o Canjeque e a Praia Amélia... 1956

«...Milha e seis décimos para O1/2 NO. da ponta de Noronha fica o extremo septentrional do baixo da Amélia (nome que lhe foi posto por ter naufragado alli, em 1842, a escuna de guerra portugueza Amélia), muito perigoso por quebrar so de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns tres metros de agua, e 0m,9 em alguns sitios, É todo de rocha e argila, tem na falda Occidental 2m,2, 3m,5, 4m,5 de agua, e 7m,9 e 11 na septentrional; perto d'elle e da banda do O. se encontram 22 metros e mais, e separa-o do continente um canal por onde so devem navegar lanchas. Ha, porém, quem afirme ter visto navios de guerra inglezes passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira: julgámol-o, porém, muito arriscado, assim por poder acalmar alli o vento e encostarem as aguas para cima do baixo, como por haver sempre seu rolo de mar.
O Canjeque e pescarias, por ocasião das grandes calemas de 1955

«...Dilata-se o baixo da Amelia por entre 15° 14' e 15° 18' S., e vae até a umas tres milhas da costa.

«...Afoitamente se pode navegar por aquellas paragens, em quanto estiver a ponta Negra descoberta da do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito decimos de milha para N. d'elle.
A ponta do Canjeque, entre a Ponta do Noronha e a Praia Amélia

«...Indo do S. em demanda do ancoradoiro de Mossamedes, monte-se a ponta da Annunciação á distancia de 3 milhas e meia, e siga-se para N., sem chegar á terra, até descobrir a ponta Negra; deite-se depois para esta, ou um tanto para N. d'ella, a fim de ir pelos 24 metros de fundo nas visinhanças da do Noronha, e não por menos, porque póde acalmar o vento á sombra da ponta.

«...Indo do N. deve-se dar resguardo á ponta do Girahúlo, por encostarem muito para lá as aguas e não se poder fundear.
A ponta do Noronha (Pau do Sul), a baía, a ponte, navios de carga, palhabote, batelões,
barcos de pesca. Início do século XX

«...Ha quatro ancoradoiros na bahia de Mossamedes: o dos navios de guerra e navios em franquia, em 26 metros, no alinhamento das pontas Grossa e do Noronha, a egual distancia das duas, e a meia milha da terra mais proxima: é bom sitio para velejar, pois se póde sair de bordada. Diminue muito gradualmente a fundura desde esse surgidoiro até a uns dois decimos de milha da terra, onde se encontram 5m,4.»

«...Embarcacões que tencionem demorar-se muito podem fundear a quarto de milha da praia, pouco para N. da Torre do Tombo, e.em 9 metros ou 6m,4.»

«...Acha-se terceiro ancoradoiro, bom para os navios mercantes que tiverem de carregar ou descarregar, em 16 ou 18 metros perto da praia onde se levanta a povoacão.»
As antigas pescarias em 1950

«...Há, finalmente, o fundeadouro das embarcações de pesca, e outras de pequeno lote, quasi no rolo da praia fronteira á villa.»

A Praia da Miragens, a ponte os carris de ferro, o piquete da guarda fiscal, os barcos no mar e na praia, algumas construções, entre elas o edifício dos Caminhos de Ferro (em fase de construção) e o Observatório Metereológico. O antigo colegio das Madres, as casuarinas, e ao fundo...a foz do Bero

«...No recanto NE. despeja, em tempo de chuvas, o rio Béro ou das Mortes, cujo leito atravessa o sitio das Hortas. Correm com tal velocidade as aguas d'este rio, em algumas occasiões de grande cheia, que se levam para cima de 8 milhas por hora. Do extremo da margem esquerda do rio Bero parte para NO. um baixo com perto de milha de comprido. Tem o rio agua de beber, e sem custo a deixa tomar, quando calema: será, porém, necessario ir recehel-a de manhã cedo, antes de calar a viração, porque mais tarde açoita o mar aquellas paragens e é custoso de voltar ao surgidoiro: devem as embarcações que a empregarem na faina da aguada fundear perto da foz do Béro e da banda do N E. da restinga. Acha-se tambem optima agua abrindo cacimbas no terreno das Hortas.»

http://geologicalintroduction.baffl.co.uk/wp-content/uploads/2009/01/desertcanyon1.jpg
Mesetas no Deserto do Namibe

«...Nas alturas de Mossamedes se erguem as banquetas chamadas Mesas dos Cavalleiros ou dos Carpinteiros, parecidas com outras que se prolongam desde o parallelo de 14° 30' para S., mas distinctas por serem tres e eguaes. São boas marcas para navio que estiver amarrado.»

«...Por sobre a terra alta visinha da fortaleza, e pelo areial para E. da ponta Negra, se avista a villa de Mossamedes.»
A cidade de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe), no início do século XX

«...Ja no areial é que fica a maior parte das casas, bem alinhadas, quasi todas de um andar so e em ruas espaçosas. Entre a fortaleza e a Torre do Tombo estão a egreja, um hospital militar, pequeno mas aceiado, e outros edificios.»
Palácio, Igreja e Hospital na Avª Felner, Mossâmedes

«...Rapido ha sido o desenvolvimento da villa, o que em grande parte se deve attribuir á bondade do clima, muito parecido com os mais sadios da Europa. Sente-se alli frio, anuvia-se o tempo e são humidas as noites em julho e agosto, mezes em que a altura média barometrica anda por 76O a 765 millimetros. De annos a annos desaba alli fortissimo terral de E., que traz grande copia de po muito incommodo e produz graves doenças.
Uma aldeia indígena

«...Nas suas visinhanças, e especialmente para o lado do NE., se levantam muitas libatas de negros, quasi todas mucubaes, cultivando especialmente o milho, e possuindo grandes manadas de gado vaccum.

«...Ha bom desembocadoiro no areial fronteiro á povoação baixa, e ao abrigo da ponta Negra: deve-se, porém, fugir de uma lagoa que fica ao lume d'agua e pela parte de dentro d'aquella ponta.»

by Brito Aranha.

Archivo pittoresco, Volume 10 Redigir

* O morro da Torre do Tombo, famoso pelas grutas escavadas a punho na rocha branda, e pelas inscrições ali deixadas impressas em tempos remotos por mareantes que por alí passavam e alí vaziam aguada, ou seja, abasteciam-se de agua e descansavam, e que mais tarde serviram para abrigar alguns colonos fundadores da cidade, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e1850, bem como algarvios que a partir de 1861 deram início a umas corrente migratoria que se estendeu por todo o sáculo XX .


domingo, 9 de outubro de 2011

Pioneiros do Lubango (Angola) e descendentes: JOSÉ MARIA RODRIGUES

1Estudantes da Missão da Huila

 

sefaEstudantes da Missão Católica da Huila. Ao centro: Irmão Menezes; ao seu lado direito: António Rosa e José Maria

 Missão da Huila
Estudantes da Missão da Huila

"A Missão da Huíla fundou-se em 8 de Dezembro de 1881 (...). Sob a direcção do Padre José Maria Antunes, botânico de nomeada, coadjuvado pelos missionários Carlos Duparquet e Carlos Wunenburger e pelos irmãos auxiliares Geraldo, Rodrigo e Lúcio (...) Nascem a partir daqui as Missões do Jau, em 1891, do Tchivinguiro, e, 1892, da Quihita, em 1894, e do Munhino, em 1898, a que se ligaram para sempre os nomes dos Padres Bonnefoux e Lecompte."
(in Boletim da CMSB, nº 25, 1969)


A partir de 1885 foram recrutados na ilha da Madeira futuros colonos para o planalto da Huíla, no Sul de Angola. Nesse ano tiveram lugar duas viagens a que a história chama de “colónias” e, na primeira ou na segunda, não se sabe ao certo, seguiu uma viúva de nome Maria Gonçalves Panasco – cujo marido fora Manuel Rodrigues Panasco – juntamente com cinco filhos: Maria, Manuel, João, Maria José e José. Julga-se que estes dois últimos nasceram depois da viuvez, fruto de uma ligação com um homem de origem inglesa. 

 O João tinha entre os 8 e os 10 anos, talvez, de idade e, quando chegou a adulto, casou em 1903 na Missão Católica da Huila com Maria José. Esta era filha de Baltazar Rodrigues, alfaiate, natural de Rio de Mel – Trancoso, inocentemente condenado e deportado para Angola para onde foi acompanhado por um filho de nome Augusto deixando outro em Lisboa por à última hora se ter negado a seguir com o pai, cujo motivo da pena foi um crime a si atribuído mas que mais tarde o tribunal em Portugal reconheceu a sua inocência dando-lhe oportunidade de regressar à terra mas que desgostoso já não quis, e de Delfina de Jesus natural de Serra de Água, Madeira, que também fizera parte duma “colónia” madeirense, os quais tiveram quatro filhos: José, a citada Maria José, Ermelinda e Emília. Do casal João Rodrigues Panasco e Maria José Rodrigues resultaram 12 filhos que se indicam a seguir, um dos quais, o primogénito, foi José Maria Rodrigues.

Dados biográficos e escola

José Maria Rodrigues nasceu em 11.Janeiro.1905, às 9H30, na povoação da Huíla, freguesia católica de Nª Srª da Conceição, situada a cerca de 25 km da cidade do Lubango (antigamente Sá da Bandeira), que estava e está inserida no município do Lubango. A cidade de Sá da Bandeira era a capital do antigo distrito da Huíla e hoje, com o nome de Lubango, é a sede do município com igual nome e capital da província da Huíla.

Filho de João Rodrigues Panasco – o tal que ainda criança foi da Madeira onde nasceu no Funchal em 1877, acompanhando a mãe e mais 4 irmãos, como já se referiu - também conhecido apenas por João Rodrigues, ou João Panasco, agricultor, falecido na Huíla em 12.Dez.1943, aos 66 anos, onde está sepultado, e de Maria José Rodrigues, como se indicou atrás, nascida na povoação da Huíla em 31.Julho.1887, costureira, arte que aprendera com seu pai, e falecida em Caluquembe em Maio.1972, aos 84 anos, em cujo cemitério repousa. Neto paterno pois de Manuel Rodrigues Panasco e de Maria Gonçalves Panasco e neto materno de Baltazar Rodrigues e de Delfina de Jesus, também já referidos.

1º Emprego – Lubango e saída

Aos 11 ou 12 anos de idade, isto é, por volta de 1916, demandou a ainda Vila do Lubango para um primeiro emprego no comerciante Manuel Ricardo, emprego de sol a sol como ele dizia, como empregado de comércio. Consta, ou diz-se que, seduzido por mulher casada, receou vinganças passionais imprevisíveis caso houvesse descoberta dessa relação - que “ele nos perdoe...” se estamos a revelar segredos inconfessáveis - e aos 15/16 anos “emigrou” para Caluquembe – localidade inserida a partir de certa altura no antigo distrito, hoje província da Huíla - e situada a cerca de 200 km a Norte da cidade do Lubango, ex-Sá da Bandeira, e a outro tanto do Huambo, ex-Nova Lisboa. Calculamos que aquela mudança ocorreu por volta de 1920 ou 21, viajando, não se sabe em que meio de transporte, na companhia de um homem branco de nome Manuel Galo (de quem deriva um sítio que nesta vila de Caluquembe se chama “Tchicondombolo” que quer dizer mesmo “galo” em umbundo, o dialecto da zona). Caluquembe era sede dum posto administrativo, integrado no concelho de Caconda, mas em 1965 foi elevado à categoria de concelho também.

Os primeiros tempos em Caluquembe

Começou por ser “funante”, termo que quer dizer vendedor ambulante e que mais tarde, se tornou ilegal para protecção dos comerciantes estabelecidos. Vendia bugigangas e outros diversos artigos. Depois tornou-se agricultor em terrenos propriedade de Manuel Jesus. Contava também que por essa época fazia as suas deslocações a pé ou talvez a boi-cavalo ou a cavalo.

Solteiro e rapaz, era quase inevitável o que em Angola frequentemente acontecia antes dos casamentos: foi pai de um filho em 1923, tinha ele apenas 18 anos, que se chamou António, cuja mãe de nome Mumbanda era filha de um negro de nome Cachar, oriundo do Sul de Angola. Passou a viver consigo a partir dos 8 anos, mais ou menos, isto é, desde o 1º casamento, mas um ralhete talvez exagerado, quem sabe, fizeram com que António ficasse sentido e em 1941 fosse para terras de Benguela, onde praticamente sempre viveu, até aos 60 anos, quando faleceu em 1982, perdendo-se assim infelizmente o contacto próximo com o pai e meios-irmãos; todavia nos anos 70 ainda morou algum tempo em Caluquembe, mesmo até um pouco depois da independência (1975) em casa de seu tio Jorge e da meia-irmã Lucília mas acabando por regressar a Benguela.

Com um guarda-livros de nome Valdez, José Maria aprendeu contabilidade no tempo em que se escrevia manuscritamente em livros e se exigia boa letra. Dotado de uma rara e primorosa caligrafia que aperfeiçoou com brio, não lhe foi difícil efectuar escritas contabilísticas e deslocou-se para a Chicuma ou Ganda, município do distrito (hoje província) de Benguela, onde trabalhou para Gouveia Mendes & Cª. Foi aí que provavelmente conheceu Valentim Reis que trabalhava para essa mesma firma e de quem viria a ser cunhado quando veio a casar com sua única irmã, solteira, como à frente se descreve.

Em virtude da sua vida em contacto com a população sobretudo quando foi agricultor, fotógrafo e mais tarde comerciante, aprendeu e falava bem o dialecto da região de Caconda/Caluquembe: umbundo (etnia ovimbundu).

 

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