Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ponta do Pau do Sul ou Noronha, um miradouro sobre a baía e a cidade. Brito Aranha e a costa maritima de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola,)

[Eu,+Betinha+e+Gracietinha+no+mirante.jpg]
Eu e amigas, na Ponta do Pau do Sul, um miradouro sobre a cidade. 1956

NAMIBE

Por tê-lo assim tão perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.
E viver ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.

Angola 1968

Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»
*****
Ponta do Pau do Sul ou Noronha
 
Ponta do Giraúl
Mossâmedes: centro histórico e Avenida. Anos 1930

 As pescarias, a baía  e a cidade como pano de fundo. 1955


As pescarias da Torre do Tombo antes da construção da marginal e cais.1950


De Brito Aranha in Archivo pittoresco, Volume 10, p. 11:

«...Fica a bahia de Mossamedes (nome que lhe foi posto em 1785 pelo tenente-coronel de engenheiros L. C. C. P. Furtado, quando foi estudar toda essa costa), antiga Angra do Negro, e em lingua do gentio Mussungo Bittoto, entre as pontas do Girahúlo, (cabo Euspa) e a Grossa ou do Noronha.

«...Estende-se a ponta do Girahúlo, que é rasa, pouco saida e muito cortada a pique, em 15° 11' 30'' S. (1). e 21° 12' 30" E. Muito perto dessa ponta, e em linha que vae d'ella á fortaleza, se pruma em 30m,5, e se encontram depois, successivamente, 24, 82, 92, 99, 55, 238 e 293 metros.

Falésia a norte do farol do Giraul

«...Segue d'alli a heira-mar, toda pedrada e negra, obra de 3 milhas para SE 4 1/4 S. até á ponta Redonda, a qual tira o nome do feitio que tem, e é tão alta e tão ingreme, que se acham 36 metros, fundo de pedra, nas suas visinhanças; cresce muito rapidamente o fundo para 84 SE. d'essa ponta, e tanto que se pruma em 261 metros a milha d'ella; mais para S., n'esse mesmo alinhamento, se acham 20 c 14 metros perto da costa meridional.


A baía vista da falésia norte do farol do Giraúl

«...Pouco para E. da ponta Redonda se abre o Saco do Girahúlo, enseada com praia de areia, e depois se vae arqueando a bahia para S., e formando um reconcavo, todo guarnecido tambem de praia de areia, até á ponta Negra. Sobre esta, que é alta, pedregosa e escura, se levanta a fortaleza de S. Fernando, começada a construir em 1840, e que pode montar 8 peças.

A Fortaleza em finais do século XIX
O morro da Torre do Tombo e pescarias primitivas em finais do século XIX

«...Vae arenosa e de meã altura toda a costa desde a ponta Negra, e se encurva para formar o Saco do S., enseada que termina pela banda de 0. na ponta Grossa ou do Noronha. No recanto do Saco, onde começa a terra de subir, se levanta a chamada Torre do Tombo, morro argilloso, macio e talhado a pique para a banda do mar, onde se lêem os nomes de vários navios que tem aportado a Mossamedes, e os de muitas pessoas que visitaram aquelle sitio 2.
Uma das famosas grutas nas inscrições do Morro da Torre do Tombo. No vapor Índia chegaram em 1884 os 1ºs colonos madeirenses rumo ao Lubango. No vapor Sado desembarcou em Mossâmedes uma colónia de alemães e alunos da Casa Pia, em 1857.
Na base da falésia (Morro*) da Torre do Tombo, com as obras do cais e marginal e aterros em execução. 1956


«...Segue-se a ponta do Noronha, que é alta, pedregosa, cortada a prumo, amarellada e sita a 2 milhas e tres decimos da ponta Grossa; sobre ella, e em 15° 13' 30", torreia uma guarita com o seu pau de bandeira.

«...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, e forma uma enseada, que termina da banda ponta da Annunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e so a custo se percebe do mar. Fica esta em 15° 16'.

[Amilcar+Betinha+e+Gracietinha+Pau+do+Sul.jpg]
Sobre a ponta do Noronha (Pau do Sul),  familiar e amigas vislumbrando o Canjeque e a Praia Amélia... 1956

«...Milha e seis décimos para O1/2 NO. da ponta de Noronha fica o extremo septentrional do baixo da Amélia (nome que lhe foi posto por ter naufragado alli, em 1842, a escuna de guerra portugueza Amélia), muito perigoso por quebrar so de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns tres metros de agua, e 0m,9 em alguns sitios, É todo de rocha e argila, tem na falda Occidental 2m,2, 3m,5, 4m,5 de agua, e 7m,9 e 11 na septentrional; perto d'elle e da banda do O. se encontram 22 metros e mais, e separa-o do continente um canal por onde so devem navegar lanchas. Ha, porém, quem afirme ter visto navios de guerra inglezes passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira: julgámol-o, porém, muito arriscado, assim por poder acalmar alli o vento e encostarem as aguas para cima do baixo, como por haver sempre seu rolo de mar.
O Canjeque e pescarias, por ocasião das grandes calemas de 1955

«...Dilata-se o baixo da Amelia por entre 15° 14' e 15° 18' S., e vae até a umas tres milhas da costa.

«...Afoitamente se pode navegar por aquellas paragens, em quanto estiver a ponta Negra descoberta da do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito decimos de milha para N. d'elle.
A ponta do Canjeque, entre a Ponta do Noronha e a Praia Amélia

«...Indo do S. em demanda do ancoradoiro de Mossamedes, monte-se a ponta da Annunciação á distancia de 3 milhas e meia, e siga-se para N., sem chegar á terra, até descobrir a ponta Negra; deite-se depois para esta, ou um tanto para N. d'ella, a fim de ir pelos 24 metros de fundo nas visinhanças da do Noronha, e não por menos, porque póde acalmar o vento á sombra da ponta.

«...Indo do N. deve-se dar resguardo á ponta do Girahúlo, por encostarem muito para lá as aguas e não se poder fundear.
A ponta do Noronha (Pau do Sul), a baía, a ponte, navios de carga, palhabote, batelões,
barcos de pesca. Início do século XX

«...Ha quatro ancoradoiros na bahia de Mossamedes: o dos navios de guerra e navios em franquia, em 26 metros, no alinhamento das pontas Grossa e do Noronha, a egual distancia das duas, e a meia milha da terra mais proxima: é bom sitio para velejar, pois se póde sair de bordada. Diminue muito gradualmente a fundura desde esse surgidoiro até a uns dois decimos de milha da terra, onde se encontram 5m,4.»

«...Embarcacões que tencionem demorar-se muito podem fundear a quarto de milha da praia, pouco para N. da Torre do Tombo, e.em 9 metros ou 6m,4.»

«...Acha-se terceiro ancoradoiro, bom para os navios mercantes que tiverem de carregar ou descarregar, em 16 ou 18 metros perto da praia onde se levanta a povoacão.»
As antigas pescarias em 1950

«...Há, finalmente, o fundeadouro das embarcações de pesca, e outras de pequeno lote, quasi no rolo da praia fronteira á villa.»

A Praia da Miragens, a ponte os carris de ferro, o piquete da guarda fiscal, os barcos no mar e na praia, algumas construções, entre elas o edifício dos Caminhos de Ferro (em fase de construção) e o Observatório Metereológico. O antigo colegio das Madres, as casuarinas, e ao fundo...a foz do Bero

«...No recanto NE. despeja, em tempo de chuvas, o rio Béro ou das Mortes, cujo leito atravessa o sitio das Hortas. Correm com tal velocidade as aguas d'este rio, em algumas occasiões de grande cheia, que se levam para cima de 8 milhas por hora. Do extremo da margem esquerda do rio Bero parte para NO. um baixo com perto de milha de comprido. Tem o rio agua de beber, e sem custo a deixa tomar, quando calema: será, porém, necessario ir recehel-a de manhã cedo, antes de calar a viração, porque mais tarde açoita o mar aquellas paragens e é custoso de voltar ao surgidoiro: devem as embarcações que a empregarem na faina da aguada fundear perto da foz do Béro e da banda do N E. da restinga. Acha-se tambem optima agua abrindo cacimbas no terreno das Hortas.»

http://geologicalintroduction.baffl.co.uk/wp-content/uploads/2009/01/desertcanyon1.jpg
Mesetas no Deserto do Namibe

«...Nas alturas de Mossamedes se erguem as banquetas chamadas Mesas dos Cavalleiros ou dos Carpinteiros, parecidas com outras que se prolongam desde o parallelo de 14° 30' para S., mas distinctas por serem tres e eguaes. São boas marcas para navio que estiver amarrado.»

«...Por sobre a terra alta visinha da fortaleza, e pelo areial para E. da ponta Negra, se avista a villa de Mossamedes.»
A cidade de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe), no início do século XX

«...Ja no areial é que fica a maior parte das casas, bem alinhadas, quasi todas de um andar so e em ruas espaçosas. Entre a fortaleza e a Torre do Tombo estão a egreja, um hospital militar, pequeno mas aceiado, e outros edificios.»
Palácio, Igreja e Hospital na Avª Felner, Mossâmedes

«...Rapido ha sido o desenvolvimento da villa, o que em grande parte se deve attribuir á bondade do clima, muito parecido com os mais sadios da Europa. Sente-se alli frio, anuvia-se o tempo e são humidas as noites em julho e agosto, mezes em que a altura média barometrica anda por 76O a 765 millimetros. De annos a annos desaba alli fortissimo terral de E., que traz grande copia de po muito incommodo e produz graves doenças.
Uma aldeia indígena

«...Nas suas visinhanças, e especialmente para o lado do NE., se levantam muitas libatas de negros, quasi todas mucubaes, cultivando especialmente o milho, e possuindo grandes manadas de gado vaccum.

«...Ha bom desembocadoiro no areial fronteiro á povoação baixa, e ao abrigo da ponta Negra: deve-se, porém, fugir de uma lagoa que fica ao lume d'agua e pela parte de dentro d'aquella ponta.»

by Brito Aranha.

Archivo pittoresco, Volume 10 Redigir

* O morro da Torre do Tombo, famoso pelas grutas escavadas a punho na rocha branda, e pelas inscrições ali deixadas impressas em tempos remotos por mareantes que por alí passavam e alí vaziam aguada, ou seja, abasteciam-se de agua e descansavam, e que mais tarde serviram para abrigar alguns colonos fundadores da cidade, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e1850, bem como algarvios que a partir de 1861 deram início a umas corrente migratoria que se estendeu por todo o sáculo XX .


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