Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Aves de S. João do Sul no rio Coroca e Porto Alexandre



POR J. V. BARBOZA DU BOCAGE
Volume 1 (e-Livro Google)
SEGUNDA LISTA 1

As aves que temos agora a mencionar são o resultado da proveitosissima exploração do sr. Anchieta, e teem diversas procedencias; foram colligidas umas em S. João do Sul no rio Coroca e Porto Alexandre, regiões do littoral do districto de Mossamedes; outras, ultimamente recebidas, em Capangombe, mais no interior. Pareceu-nos mais conveniente respeitar a distribuição geographica das especies, repartindo-as por duas listas distinctas.
A. Aves de S. João do Sul no rio Coroca e Porto Alexandre
Para darmos uma idéa da physionomia especial e das condições faunicas d'esta região, não podemos fazer melhor do que transcrever a parte da carta do nosso illustrado explorador em que nol-as descreve. Diz assim o sr. Anchieta:
«Desde o dia 19 de março que me occupo da exploração zoologica de S. João do Sul no rio Coroca, situado no plano littoral a cinco horas de viagem do Porto Alexandre. É este o logar mais ao sul dos colonisados n'este districto, por isso recommendavel para o conhecimento da geographia zoologica da provincia d'Angola. Aqui a fauna, posto que interessantissima, é muito desegual. Em mammiferos é pobre.

Só tenho1 Veja-se o num. II d'este Jornal, pag. 129. noticias de se encontrar a hyena, o adibe, uma antilope, poucos ratos que não pude ainda obter e os morcegos de que faço remessa. Em aves é só abundante em ribeirinhas e palmipedes; das outras ordens poucos representantes se encontram. Em reptis é mediocre: á excepção de alguma serpente, poucas especies espero alcançar além das que remetto. Peixes só tenho visto de duas familias, Siluroides e Cyprinoides. De insectos não se encontra abundancia de generos, como n'outras localidades. De arachnideos e myriopodos poucas especies, de crustaceos só alguns cloportideos.»
«As aves que remetto são principalmente dos generos Ardea, Tantalus, Ibis, Himantopus, Porphyrio, Rallus, Fulica, Pelecanus, Graculus e Anas. Não levam os nomes mocorocas, porque este gentio, timido e desconfiado mais que qualquer outro, evadia-se a responder-me a todas as perguntas que lhe fizesse sobre quaesquer productos do seu territorio; além de que a lingua que falia esta pequena e limitada tribu, emigrada de pontos mui distantes, é absolutamente differente de todas as que se faliam no sertão d'este districto, e teem sons difllcilimos de pronunciar e impossiveis de escrever com as nossas lettras. Em Mossamedes é que pude indagar de alguns soldados oriundos do sertão d'Angola os nomes por que eram ali conhecidas estas aves, e todos unanimemente não só deram os mesmos nomes, mas deixaram de os dar ás que os não levam escriptos, por as não conhecerem d'aquelle sertão.»

Ao nome scientiflco e procedencia das especies juntamos a indicação do nome vulgar, cor da iris, dos tarsos, carunculas etc., sempre que pelo sr. Anchieta nos são fornecidos estes utilissimos esclarecimentos.
1. Ceblepjris phoeniceus. Lath.
Um exemplar S. Iris parda. Rio Coroca.
2. Corvus scapulatus. Daud.
Um exemplar j. Iris parda. Rio Coroca. Nome vulgar Kilambalembo. 
A maior parte dos ornithologistas consideram especies distinctas o C. scapulatus. Daud. representado na est. 53 de Levaillant (Histoire naturelle des oiseaux d'Afrique) e o C. curvirostris. Gould identico ao C. leuconotus. Swains. (Birds ofwest. Africa, t. I, pl. 5), e dão como caracter distinctivo das duas especies a maior extensão da cor negra que no primeiro cobre, além da cabeça, a parte superior do pescoço, em quanto que no segundo desce até á base d'este. Pretende-se tambem que o C. scapulatus vive mais exclusivamente na Africa austral, ao passo que o C. curvirostris habita a Africa Occidental e oriental. Temos presentes exemplares de Cabinda, S. Paulo de Loanda, Benguella, Mossamedes, Cabo da Boa-Esperança e Abyssinia, e podemos affirmar que se é n'elles ora mais ora menos extensa a cor negra da cabeça e collo, não concordam por fórma alguma taes variantes com as localidades d'onde procedem. Um exemplar do Cabo, comprado ha annos á casa Verreaux de Paris e etiquetado como C. scapulatiis pelo distincto ornithologista e nosso amigo Jules Verreaux, é perfeitamente identico a outro dá Abyssinia que o professor Schimper nos offerecera em 1859 e que o sr. Jules Verreaux considerou como C. curvirostris. 
Havia muito tempo já que nos inclinavamos a ver uma só especie nas duas geralmente admittidas, quando se nos deparou uma autoridade a nosso favor, em presença da qual entendemos que não deviamos vacillar em expor a nossa humilde opinião. O sabio director do Museu de Leyde, na obra magistral que está actualmente publicando com o titulo de Museum des Pays-Bas, diz a tal respeito o seguinte:
«Cet oiseau a été observe depuis la Nubie et la Senegambie jusquau Cap de Bonne-Espèrance, les iles de Mayotte et Madagascar, et ne presente point de différences suivant ces différentes localités, les différences indiquées par les auteurs étant purement accidentelles.»
Entendemos por tanto que o C. curvirostris. Gould -. C. leuconotus. Sw. devem figurar na synonimia do C. scapulatus. Daud., designação que tem por si o direito de prioridade.
3. Vidua paradisca. L.
Um exemplar S. Iris parda. Interior de Mossamedes. Nome vulgar Kilacatembo.
4. Centropns supercilliosns. Rúpp.
Um exemplar S. Iris vermelha. Rio Coroca. Nome vulgar Slocuco.
5. Numida mitrata. Pall.
Dois exemplares $ e j. Iris parda, face azul clara, pelle nua do alto da cabeça vermelha, parte nua do pescoço azul-arroxado, barhilhões desta ultima cor com o apice vermelho. Rio Coroca. Nome vulgar Manga.
6. Plcniistes Sclaterii. Nov. sp. (Est. VI)
Pileo nigricante fusco: capitis lateribus et superciliis albis, regione parotica fuscescente; collo albido maculis longitudinalibus nigris; dorsi jugnlique plumis et tectricibus alae cinereo-fuscis, maculis lanceolatis et scapis brunneis; dorso imo uropygioque magis rufescentibus; pectore, abdomine, hypochondriis, crisso et sub caudalibus sordide albis, maculis magnis longitudinalibus fusco-nigris, scapis nigris; rcmigibus primariis lotis fuscis, margine externo pallidiori, pogonio interno unicolori; cauda rufo-brunnea fusco vermiculata, rectricibus duabus mediis obscurioribus; rostro, regione peri-ophthalmica, gutture, pedibusque rubris; iride brunnea. 
Long. tot. 0m,26,— rostri a rictu 0m,22,— alae 0m, 155, — tarsi 0,ш45, —dig. med. c. u. 0m,040.
Habitat: Mossamedes.
Um só exemplar 5. Nome vulgar Guari. 
Dedicamos ao distincto ornUhologista inglez, o sr. Sclater, digno secretario da Sociedade Zoologica de Londres, esta especie que reputamos nova.
É nas dimensoes muito inferior aos Pt. nudicollis. Gm. e rubricollis. Rüpp. Com o primeiro fóra em todo o caso impossivel confundil-o, attenta a diversidade 'das cores: do segundo approxima-se sem duvida mais no aspecto geral e cores, porém differe essencialmente na maneira por que estas se acham distribuidas. O Pt. rubricollis, de que temos presentes exemplares dos dois sexos, é malhado de branco tanto superior como inferiormente, e as malhas brancas occupam a parte central de cada penna, sendo a haste tambem branca; no Pt. Sclaterii o dorso nâo é malhado de branco mas de pardo-escuro, e estas malhas occupam o centro das pennas e abrangem as suas hastes. Além d'isso, n'aquella especie as 5 011 6 pennas primarias das azas teem na lamina interna uma extensa malha branca, em quanto que n'esta sâo todas dum pardo-escuro uniforme.

O Pt. Humboldtii. Peters ', descoberto em Tete pelo erudito director do Museu de Berlim, é a especie a que mais incontestavelmente se assemelha. Tivemos porém recentemente occasiâo de ver exemplares d'esta especie nos museus de Londres e de Berlim, e de
1 Vcja-sc Monatsb. Akad. Wissens. Berlim. 1854, p. 134.

Continua...

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