Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 20 de novembro de 2011

A Companhia de Mossâmedes


A "Mossamedes Society", ou Companhia de Mossâmedes era uma empresa de responsabilidade limitada criada em 1894, pela Royal Society, contudo a maioria do capital era francês, com sede em Paris. Esta empresa terá nascido do tratado assinado entre França e Portugal, em Maio de 1886, por altura da assinatura do Mapa Cor-de-Rosa, pelo qual era assegurado o exercício da influência e soberania do Estado Português no território descoberto pelos oficiais da Marinha Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens entre 1884 e 1885, no seguimento das iniciativas de exploração destinadas a conhecer a zona que separava as colónias de Angola e Moçambique. Contudo, o interesse pela zona de Moçâmedes, hoje Namibe, estava já fundamentado pelas explorações realizadas nos anos 1870 e pela colonização iniciada nos anos 1840, quer com colonos idos do Brasil quer com colonos madeirenses e do Algarve, nomeademente de Olhão. A Companhia de Mossâmedes tinha como principal objectivo promover o desenvolvimento de infra-estruturas, nomeadamente a construção da ferrovia, a implantação e desenvolvimento da produção agrícola, bem como a exploração de recursos minerais. Instalada na Angola, os seus funcionários eram na maioria franceses. H. Guilmin era o diretor da companhia, Bryant, um engenheiro e Emile Van der Kellen eram seus funcionários.
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A instalação da companhia no terreno proporcionou a Portugal grandes serviços pois com as expedições feitas pela empresa para examinar o seu território foram chamados vários especialistas, de prospetores a engenheiros, biológos e agronomos.

Sobre esta Companhia, encontrámos algumas referências no Boletim Geral das Colónias nr. 88 de 1932,  dedicado à visita do Ministro das Colónias de Salazar, Dr. Armindo Monteiro, nesse ano, a Mossâmedes.  Trata-se de um discurso proferido no decurso de um jantar oferecido ao Ministro por Torres Garcia. e esposa, na histórica fazenda de Santo Antonio do Munhino, propriedade daquela  Companhia,de que era administrador.

Torres Garcia fez o historial daquele local que considerou histórico, situado na zona conhecida por Serra abaixo, no Concelho do Bumbo, que abrangia o Munhino, Santa Tereza, Gimba, Capangombe, Tampa, Bruco e Bumbo, então  reduzido a ruinas e a escombros, mas que durante muitos anos fora o centro produtor de algodão de Angola, chegando a exportar mais do que o trigo da actual exportação, onde "trabalharam 62 agricultores brancos com mais de 12.000 trabalhadores indígenas", sendo a  produção escoada para o litoral em carros de bois, que tinham de transpôr mais de 100 quilómetros de deserto. Torres Garcia  com todo o respeito e simpatia com que recebeu o governante,  foi claro e acutilante nas críticas que então teceu à administração da portuguesa colónia, fazendo sentir ao Ministro o descontentamento das gentes do sul de Angola: Eis algumas passagens do seu discurso:

"Nesta Fazenda desenvolvida pelo esforço do colono José Luiz, da colónia de 1851,  passaram todos os militares que subiam e desciam do planalto recebendo do proprietário pousada e auxilio desinteressado. Além das instalações que a Companhia de Mossâmedes explora nesta região,  possui outras e mais importantes nas regiões do Otchinjau, Palanca, Ediva,  Dongoena, Dongue e Caculovar, guarnecidas com mais de dez mil cabeças."

"Esta Companhia, criada em 1894,  sob a influência do princípio das grandes empresas magestáticas , não chegou a sê-lo, mas nos actos preparatórios da sua instalação prestou altos serviços ao País, pois foram os seus prospectores, engenheiros, agronomos, e veterinários, que puseram ao serviço do País os seus trabalhos na questão da Barotze, fornecendo os elementos que nos deram a vitória"  "vitimas de ausência de planos governamentais e da descontinuidade de execução, desejamos viver em regime claro e imperativo no campo da conduta social e económica. Não falo de conduta politica, porque seria sacrilégio falar em tal nas colónias. Aqui somos servidores da Nação e as ideologias politicas guardamo-la no fôro íntimo da nossa consciência, como elemento disciplivador de uma conduta apenas filosófica."


"...O Governo ficou de início participante no capital e na administração da Companhia. Pois apesar dessa razão moral e dos trabalhos que tem feito no melhoramento do meio físico, com  a abertura de cacimbas, construção de barragens, estábulos e edificações, coma exportação de reprodutores charoleses e herefordes, que, só nos anos 1930-33 custaram mais de 600 contos, tem sido desacreditada, perseguida pelo representante do Governo da Huila, o seu Governador, que orientado e guiado por mesquinho ódio pessoal,  tem esquecido o que deve às suas altas funções, tornando-se um elemento perturbador do trabalho dos particulares e da economia do Distrito que administra."
 

"Nasci, Exa, nos contrafortes de penhascos da Serra da Estrela, inde a água corre em torrentes, caudalosa e impetuosa, límida mas tumultuária. Pedra lascada, bruta e informe, desprendi-me das serras altaneiras, irreverente, insultante mesmo, perante as nulidades a dobrez de carácter, a insignificância arvorada em mérito, a morbidez acanalhante do carácter humano. Se critico, se ataco, é porque tenho razão, e escondo as razões morais do meu ataque, para que não caia nesta festa, tão formosa e animadora, uma nódoa aviltante escorrida da falsa compreensão dos seus deveres por parte de um alto funcionário do Estado."

"Não poderá V. Exa., mesmo que ponha toda a energia moça que o anima na execução das suas ideias e dos seus planos, realizar obra duradoira se não guarnecer a colónia de um funcionalismo cheio de fervor patriótico e de dedicação profissional. Estes são os executantes e nunca se viu produzir obra sólida apenas sobre bons planos; é necessário que os obreiros não comprometam a formosura dos projectos com a falta de solidez e de estabilidade de construção. A Colónia tem de ser guarnecida por um funcionalismo sempre dominado pela insatisfação do dever sumprido, que se julgue sempre em dívida com a Nação,  e não possa dormir tranquilo quando deixa atrás de sí um protesto, uma queixa, uma negligencia.. Soldados ou funcionários, com os colonos, no momento do renascimento do labor colonial, sob a égide de um governo enérgico e inexorável,  para os patifes, para os ladrões e para os especuladores, far-se-ão milagres."


Estamos certos de que a estada de V. Exª em Angola obrigará a esse milagre, e que a administração deixará de ser feita cegamente do antro negro e mefítico do Terreiro do Paço, onde já me queimei numa hora obscura de reacção e combate.  Os sucessores de V. Exª. terão de vir às  colónias também. Já não será possível arredarem-se dessa obrigação."

O Ministro das Colónias ouviu com atenção todas as passagens do discurso e quando o Administrador Torres Garcia terminou, tomou a palavra para referir laconicamente, que "o Ministro não estava em condições para se comprometer com ninguém"...  (1)
                                                  
                                                          ********************

Ficara claro para o Ministro das Colóniaa,  Dr. Armindo Monteiro, que em Angola sequer existiam pontes e  estradas e que as infra-estruturas eram alí uma ficção. Pouco adiantaram as lamúrias do Administador porque o Governo-Geral de Angola tinha os cofres vazios...

Foi então que o Ministro das Colónias de Salazar, Dr. Armindo Monteiro, de figura de proa da União Nacional, ao aperceber-se da situação, tornou-se num opositor do Estado Novo e em 1936 foi para o exílio dourado em Londres, como embaixador de Portugal no Reino Unido. Era assim que se revolviam os problemas. Antes de ir para o governo de Salazar, O Ministro era professor universitário. Integrou um dos primeiros governos do Estado Novo, em 1929, como subsecretário de Estado das Finanças. Depois foi ministro das Colónias, ministro dos Negócios Estrangeiros .

(1) Para consultar este Memorial, clicar AQUI

 Ainda sobre esta Companhia fomos encontrar o seguinte numa busca pela net:

 PDF] 

N." 124- 29 DE MAIO DE 1911 POI' ÔBGNWI 11° 26 11° 00i'i'0iit0 ...

www.dre.pt/pdf1s%5C1911%5C05%5C12400%5C22832283.pdf
 http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k57228560/f315.image.r=MOSSAMEDES.langEN
 http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k58045746/f176.image.r=mossamedes.langEN


                                                               *******************
 
A Companhia de Moçâmedes,  era uma companhia de responsabilidade limitada criada Royal Society, com sede em Paris em 1894, de responsabilidade limitada, principalmente com capital francês, equipada com direitos soberanos, cuja principal tarefa foi o de promover o desenvolvimento de infra-estruturas, particularmente a construção da ferrovia, a construção e melhoria da produção agrícola e a exploração de recursos minerais. Expedições feitas pela empresa para examinar seu território para o seu valor agrícola.
 
A área da empresa estendeu para o sul de Angola, na fronteira com a colónia alemã do Sudoeste, agora Namíbia entre Porto Alexandre e Kunene, em seguida, o Kubango seguintes mais direto para o Zambeze. 

Como uma companhia emitiram seus próprios títulos. Foi nomeado após o angolano sul porto Mossamedes, (agora Namibe). Às vezes era nos anos vinte do Reichsbank alemão e também no Deutsche Bank planos de participar na sociedade, a fim de passar por eles ao câmbio.
alemão: Mossâmedes Society, era uma colônia Português de Angola, sob a forma de
Sociedade colonial portuguesa f fundada Karte des Gebietes der Compagnie de Mossamédes (Angola) . Origem PDF] 

Agora da
………………REVISTA COLONIAL.
1º anno  nr 11 LISBOA, 25 DE NOVEMBRO DE 1913
….Director : Dom. SOUSA RIBEIR©
Antigo Secretario Geral
do Governo da província de S. Thomé e Príncipe
e do Governo Geral de Moçambique


úteis que conviria fazer, avulta a do estudo attento da
questão indígena ; pois talvez por isso mesmo é aquella

LISBOA, 25 DE NOVEMBRO DE 1913 N.° I
Editor : ANTONIO NUNES SEQUEIRA
REDACÇÃO E ADMINISTRAÇÃO-2, Rua Paiva d'Andrada (ao (hlaih)
Telegr. : «Agex,ial» LYSBOA
Teleph. 2079
Composto e impresso na Typograplria do Annuario Commercial - Prata dos Restauradores, 21

                                                                        


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II cultura do algodão em Mossamedes




A Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, chefe da primeira colonia . que, vinda de Pernambuco, ás praias de Mossamedes aportou em 4 de Agosto de 1849, se deve a introducção d'esta preciosa planta no districto . Distribuiu elle a semente de que se munira no Brazil pelos seus companheiros e,ainda hoje, decorridos cerca de 64 annos, a maioria das plantações de algodão proveem da semente brazileira .


Chegou a cultura ao seu auge no anuo de 1872 em que se exportaram pelo porto de Mossamedes 355 toneladas ; mas, tendo-se seguido uns annos de seroas e havendo o preço do algodão declinado quasi repentinamente de dois mil duzentos e cincoenta réis o kilo a 260 e 169 réis, a maioria das plantações, quasi na totalidade, foram abandonadas, o que originou o encerramento de duas fabricas de tecidos que existiam nesta cidade, uma a vapor, pertencente a Eugenio Wherlin, francez, e outra, com teares manuaes, de Luiz José de Oliveira, teares que ainda hoje existem, uns numa arruinada casa pertencente á Missão Catholica de Huilla e outros na casa da viuva do citado
Oliveira .

Devido ás causas que apontámos, dedicaram-se os agricultores, quasi exclusivamente, á cultura da canna saccharina para fabrico de aguardente que se produzia em 35 destillações mais ou menos bem montadas . O maximo da producção, dizem-nos, jámais excedeu á totalidade de 1500 pipas cujo valor
póde computar-se em i 20 .000000.

Desde a conferencia de Bruxellas, começaram a acastellar-se perigos ameaçando a já então prospera cultura á qual Mossamedes deveu muito do seu desenvolvimento . O decreto de 27 de Maio de 191 t, como é de todos sabido, veiu, de vez, pôr cobro á cultura da canna, porque, havendo uma unira fabrica


de assacar em todo o districto, actualmente encerrada, e sendo as principaes plantações bastantes kilometres distantes d'ella (pois é sabido, quanto mais distantes as destillações se encontravam do littoral mais proximas estavam dos centros da consumo) não podia aproveitar-se senão uma pequena parte.

Felizmente os agricultores e legisladores, mal viram despontar o perigo que ameaçava o fabrico do alcool, de novo estimularam a cultura do algodão, conseguindo-se que ella reapparecesse em alguns valles do districto e se desenvolvesse um pouco mais em propriedades onde não chegára a desapparecer
por completo. Todas ellas embora muito lentamente e com sorte varia se vão desenvolvendo, não obstante a falta de mão d'obra que de ha muito assoberbava a agricultura e industria do Districto e, ultimamente, por motivos de todos conhecidos, se tem aggravado um pouco. Esta falta, se não se conseguir uma forte e voluntaria corrente de emigração de trabalhadores de Huilla, por bastante tempo se fará ainda sentir . Mas, se se fizer a occupação militar do districto que vimos preconizando desde a primeira vez que na qualidade de Inspector do 6 .0 grupo de Circumscripções Civis de Angola, visitámos a de Capangombe cuja substituição por postos Militares alvitrámos, por ser a unira occupação com razão de ser nas terras d'aquella região, hoje englobadas na circumscripção civil de Mossamedes, a qual, em consequencia da séde escolhida, ainda tem menos razão de existir que tinha a de Capangombe, que algo de aproveitavel ia já produzindo, dispensavel se tornará essa corrente de emigração, pois é positivo que Chella abaixo ha mais do que os trabalhadores necessarios para a manutenção e desenvolvimento da agricultura e industrias de Mossamedes .

Mas, deixemo-nos de considerações sobre o problema da mão de obra, que longe, nos levariam, tanto mais que, apesar da sua capital importancia para a economia do districto elle é de facil solução, bastando, como já dissemos na columnas d'esta «Revista» uma simples companhia indigena de infantaria para o conseguir e, passemos a tratar do algodão que produz a agricultura do districto, do que pode produzir e do papel que este districto, em que muitos persistem em ver apenas uma colonia de povoamento quando pode e deve voltar a ser uma colonia de plantação, poderia representar na economia metropolitana .


O algodão exportado produzido no districto nos ultimes tres ermos, incluindo o actual, em que novos embarques se farão ainda, foi o seguinte : ,


191 1 - Viuva Bastos & Filhos . . .6478 kilos


» -- Duarte de Almeida & C .a 4440 »

» -- Souza & Reis 1096 »

1912 -- Figueiredo & Almeida . , . 9 i 9 »

1913 -- Viuva Bastos & Filhos . , . 3760 »

» - Duarte de Almeida & C : .a 22312 »

- Figueiredo & Almeida . . . 201,0 »


Em 1912 e 1913 foram exportados 2:420 kilos de algodão produzidos neste districto, por individuos não agricultores, que englobámos nos numeros acima indicados .


A Companhia de Mossamedes exportou em 191 I, 35799 kilos e, em 1912, 4.221 para mercados nacionaes . Em 1913 exportou 5 :000 kilos para estes mercados e 28:800 kilos para Hamburgo . Não mencionámos estes numeros na producção do districto porque a Companhia de Mossamedes não tem aqui propriedades agricolas . Como atrai dissemos, muito brevemente seguirão para Hamburgo mais umas dezenas de toneladas de algodão produzidas por esta Companhia e pela firma Duarte d'Almeida & C .a


Vê-se, pois, que para quinze milhões de kilos de que o nosso paiz carece annualmente, poderia Mossamedes ter concorrido com 27 :587, o que ainda assim não fez por a producção se ter destinado quasi integralmente á Allemanha por
causas absolutamente extranhas á vontade dos agricultores, causas de que adiante trataremos e que só revelam o desconhecimento, do que por aqui se passa e tanto deve interessar aos industriaes de fiação do nosso paiz e ás Associações Commerciaes.

A media da producção do algodão «caravonia», tem sido de 200. kilos por hectare, sendo, portanto necessarios 75:000 hectares de cultura, admittindo que se não consigam sementes mais productivas que forneçam o algodão necessario para o consumo portuguez . Poderá Mossamedes produzil-o ? Affigura-senos que sim, pois só no extincto concelho de Capangombe, com terrenos e clima eminentemente proprios para todas as culturas, especialmente a de algodão, existiram em tempos idos 57 propriedades algodoeiras ; e, revendo os diplomas de concessões de terrenos para algodão, vê-se que de 1863 a 1892 foram ali concedidos cento e quarenta e sete mil quatrocentos e dezoito hectares, á margem de varios rios . De tamanha area, havendo ainda muitos terrenos proprios que jamais foram requeridos, estão hoje sendo aproveitados, e bem mal, apenas umas centenas de hectares com varias culturas, quasi exclusivamente mantimentos . Afóra a area citada existem no districto terrenós na posse das principaes firmas que podem avaliar-se em 16:000 hectares proprios para algodão, de que só uma pequena parte contém esta planta .


São do conhecimento de todos os que um pouco se dedicam a questões coloniaes, os exforços empregados pelas varias nacionalidades para se emanciparem da esmagadora tutela da America do Norte que, só á sua parte, produz dois terços do algodão consumido nos mercados mundiaes . Desses exforços resultaram, como se sabe, entre outras, associações como a British Cotton Crowing Association, Associação Algodoeira Franceia e Associação Germano-Levantina . Nós, infelizmente, apesar de ainda hoje ocuparmos o quarto legar entre as nações


coloniais, nada mais temos produzido, alem de muitos decretos e portarias, é crivei que muito patrioticas e bem intencionadas, mas, positivamente, de resultados quasi miles, entre os quass é justo destacar o decreto de 2 de Setembro de 1901, cujo prazo convem prolongar, no tocante a impostos e premios .E, o que é mais : anullamos a propria iniciativa particular incitando  os agricultores a venderem o algodão, de que carecemos  em absoluto, á Allemanha, porque, não obstante os exforços empregados pelos Governos do districto e da provincia, e, ainda, os do Agente da Empreza Nacional de Navegação para que esta Empreza faça a redacção de tarifas para o seu transporte, ella continha, certamente esquecida de que o Estado no intuito unico de a beneficiar sobrecarrega com maiores direitos de exportação as mercadorias transportadas pelas marinhas estrangeiras, continua cobrando 25 000 réis por tonelada de algodão emquanto a «Woerman Linie» leva só iz ooo réis . E, como se fóra pequeno o incentivo á exportação para o Estrangeiro, emquanto o algodão de Mossamedes é cotado nos mercados nacionaes a 350 réis o kilo, na praça de Hamburgo logra a cotação de 450 réis!

O facto de até agora nada termos produzido, comparativamente com o muito que poderia estar feito, obriga-nos a recuperar o tempo perdido, pois podemos e devemos, repetimos, só neste dristricto ultramarino, produzir todo o algodão cie que carecemos para a nossa industria . Evidentemente, sem a realização de tão dispendiosas como remuneradoras obras de arte, como barragens, canalizações, poços nos leitos dos rios, etc ., sem a acquisição de charruas,


desgranadeiras, arranca-cepas, machinas de apanhar algodão e enfardadeiras a vapor, que substituam quanto possível o braço indigena, obras e acquisições estas que poderão custar, talvez, para cima de um milhar de contos, não é fácil conseguir agricultar toda: a area que se torna indispensavel para conseguir esse desideratum . Não ha no districto capitaes para empreza de tal magnitude, embora sobeje, por honra nossa, iniciativa para obras de maior vulto. Mas, o que os agricultores daqui não podem fazer, tem a Companhia de Mossamedes (que pelas clausulas do seu contracto se obrigou a plantar cem mil hectares de algodão, tendo até á data, ao que nos dizem, bem mal tratados por signal, apenas mil hectares) obrigação de o fazer ou, pelo menos, tentar, organizando uma Companhia Algodoeira que tal nome mereça, com poucos ou nenhuns directores na metropole, tendo em Africa os technicos escolhidos de que careça, para muito trabalharem, como se tornaria necessario e, até uma fabrica para produzir o algodão tecido de que carecesse  a Provincia de Angola .

Dissémos e não nos cançaremos de o repetir, que aquella Companhia incumbe essa iniciativa . Restando-lhe, segundo consta de dados ophiciaes que temos presentes, 1 :141 .9218883 réis do seu capital, tem fundos de sobejo para o fazer, absolutamente dentro das clausulas do seu contracto . Gastou ella em
Africa, vê-se de documentos ofliciaes que o affirma, a fabulosa somma de 1 :979 .953$117 reis . . . Em qué será facil provai-o, pois tudo, absolutamente tudo o que possue nos dois districtos do Sul de Angola, bem vendido, não produzirá cousa que se pareça com cem contos de reis .

A Companhia da Zambezia, que oflìcialmente tem sido accusada de não cumprir o seu contracto, com um dispêndio em África _de 1 .182 :ó86 8oz réis, gastou cerca de cem contos, na occupação de alguns prazos -- regimen que muito  desejaríamos vér . applicado a Mossamedes .e Huilla --; construiu um caminho de ferro de 28 kilometros de extensão ; adquiriu uma pequena esquadrilha de vapores para o rio Zambeze ; levantou explendidos edifcios, fabricas a vapor para tratamento do cairo e limpeza do arroz, oficinas, igualmente a vapor, que não se envergonham das que o Estado possue, fez uma estrada na qual, pelas grandes dificuldades do traçado gastou cerca de 17 contos, de Villa Bocage á Serra da Morrumballa, onde tem uma plantação de 73 :000 pés de café  das mais afamadas procedencias ; fez salinas, dedicou-se ao apuramento do gado bovino, de que possue cerca de cinco mil cabeças, e ainda lhe sobrou capital e iniciativa, apesar de pagar generosamente aos seus empregados talvez por isso mesmo, para ter em plena producção cerca de 400 :000 coqueiros,

330:000 plantas de agave e 4 :000 palmeiras de coconote, além de muito importantes culturas intercalares e viveiros de cacau, ficus elastica, castiloas, sansiviera cylindrica, sapium, kapok, etc ., que occupam, destinados a experiencias, algumas dezenas de hectares . Afóra isto, no dizer duma auctoridade insuspeita, o consul de Inglaterra, ha longos annos residente em Moçambique, conseguiu o melhor typo de administrador e o melhor typo de subordinado . . .

Assim tem procedido uma Companhia, com bons fundamentos, accusada de não ter cumprido o seu contracto . Que a Companhia de Mossamedes ponha os olhos nella ou nas suas congeneres d'aqueila fertilíssima e formosa região, e emprehenda a creação :d'uma Companhia Algodoeira de Mossamedes, adquirindo todos os terrenos proprios para algodão existentes no districto, o que julgamos poderá fazer com o dispêndio maximo de duas centenas de contos, parte dos qúaes


poderia, talvez, pagar em acções .. E abandone as pouco importantes plantações do planalto, a cerca de 500 kilometros do littoral, dos quaes 300. feitos por carros boers, estabelecendo-se em Mossamedes onde as plantações podem ser servidas pelos 176 kilometros de Caminho de Ferro já construidos e pelos portos e bahias com que a Natureza tão prodigamente dotou este districto . Todas as dificuldades com que lactam os agricultores do disiricto as tem ella no planalto, accrescidas ainda com as dos transportes aqui desconhecidas, e é positivo que as terras onde se estabeleceu são de inferior qualidade, comparadas com as do Munhino, Bibala, Bentiaba, Bambe, Coroca ou S . Nicolau .

Ao que nos consta, o Senhór Visconde do . Giraul está envidando exforços para a creação d'uma companhia algodoeira . Oxalá elle, a Companhia de Mossamedes, os agricultores da colonia ou os industriaes da metropole portugueza, tão interessados no caso, o conseguissem! mas, emquanto tal se não fizer, que ao menos coadjuvem os exforços dos srs . Governadores deste districto e da Provincia para que as tarifas da Empreza Nacional acompanhem as da «Woerman Linie» e as cotações do algodão em Portugal não sejam inferiores ás de Hamburgo, pois é anti-patriotice além de irracional que as colonias portuguezas exportem para o Extrangeiro productos que a nossa industria se vé forçada a adquirir por qualquerpreço, onde os encontre .Taes são os nossos votos .


(ass) VIEIRA BRANCO .

Ver tb AQUI 


 .....

Capa

Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5, 1898

Em anexo: Exploração geográfica e mineralógica no Distrito de Mossâmedes em 1894-1895, J. Pereira do Nascimento, médico da Armada Real, encarregado da Companhia de Mossâmedes de um estudo do território do ponto de vista das suas riquezas, agricola, industrial e mineralógicas, vias de comunicação com o interior, portos do litoral, fauna, flora, climas, recursos e riquezas mineralógicas da parte meridional da Provincia de Angola, etc. Especialmente mineralógicas.  Inclui Diário da expedição Mossâmedes a Porto Alexandre em 23 de Agosto de 1894.  E também à Baia dos Tigres. Ver aqui:

https://books.google.pt/books?id=y-czAQAAMAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-PT#v=onepage&q&f=false

 


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