Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O vazio monetário em Angola no quadro do Estado Novo: a ausência de instituições bancárias, as limitações ao acesso ao crédito, o caso "Alves dos Reis",



Fig Nota de cinco angolares. Angola esteve sempre com deflação monetária (falta de capitais e de dinheiro em espécie), talvez porque Salazar tinha pavor de “muito dinheiro” um trauma originado pelo célebre caso Alves dos Reis(ver mais adiante). Isto notava-se no dia a dia dos africanos trajando miseravelmente e com pouco poder de compra. Refira-se, no entanto, que a comida era abundante e barata, uma das “medalhas de ouro” da colonização portuguesa. Além de pouco, o dinheiro chegava a desfazer-se. Mau papel, ausência de moedas (só existiam até 5 tostões -meio angolar-). Uma das grandes âncoras dos colonos e dos africanos eram os vales e os livros dos débitos. “Debitar ou apontar” ou “passar um vale” eram as unicas saídas para os “encalacrados”. Apesar de tudo os comerciantes acabavam por reaver grande parte dos débitos, havia etica no dia a dia. Ter uma letra protestada era uma vergonha! Só por manifesta falta de dinheiro é que se não resgatavam os vales.
Fig Frente e verso de uma das célebres”ritas” emitidas por Norton de Matos durante o seu segundo consulado de 1921 a 1923. Norton de Matos queria desenvolver, rapidamente,a colónia de Angola. Mas a resistência em Lisboa era tenaz. Os bancos metropolitanos não queriam( ou não podiam?) abrir agências em Angola; o recurso a bancos estrangeiros, especialmente da União Sul-Africano (actual África do Sul) estava liminarmente vedado,e esteve sempre, durante o período colonial.Desesperado, com a faculdade de ser Alto-Comissário, resolveu emitir moeda mandando imprimir notas de valor baixo, pensando no consumo dos “indígenas”: nasciam as célebres “ritas”, uma alusão popular e depreciativa ao nome da filha de Norton de Matos. Um empregado do meu pai, no Chinguar, foi à estação do caminho de ferro buscar dois caixotes pesadíssimos. Ele julgava que eram alfaias agrícolas. Depois de abertos ficou estupefacto: traziam milhares de “ritas”. Este “ersatz”(simulacro de dinheiro) deflagrou uma inflação que se prolongou até 1933, ano em que Salazar impôs medidas austeras sobre a moeda. Os governos posteriores a Norton de Matos agravaram a situação de tal maneira que em 1930 Angola caminhava para a bancarrota. A voz comum, em jeito de piada, dizia que em Angola não haveria bancarrota porque já estava instalada uma bancarrita, uma alusão às célebres cédulas de Norton de Matos.



Fig Nota de 500 escudos com a efígie de Vasco da Gama, mais conhecidas por “camarão”. Esta nota foi o produto da maior burla de dinheiro, mesmo à escala mundial, devida ao seu ineditismo.
Alves dos Reis, segundo as teorias modernas, seria possuidor de um elevado QI (quociente de inteligência). Ele nasceu em Lisboa em 1896. Com 20 anos foi para Angola, como engenheiro, com um diploma falsificado passado por um hipotético Instituto Politécnico de Oxford.Duas falsificações! Este nome mágico (Oxford) abriu todas as portas e eliminou todas as dúvidas. Uma actuação fulgurante e teatral alcandorou-o a um alto escalão em Angola:dirigiu uma locomotiva, (sem nunca ter”pilotado”uma máquina a vapor) sobre uma ponte metálica, que ele comprou na Inglaterra, que suscitava dúvidas sobre a sua segurança. Com este feito foi ungido como director das Obras Públicas em Angola. Em 1921 regressou a Portugal. A seguir falsificou cartas do Banco de Portugal em que este pedia aos fabricantes de notas na Inglaterra para fazerem uma emissão repetida das notas de 500 escudos. Motivo: destinavam-se a Angola, em Lisboa iriam receber um carimbo com a palavra Angola.Os “ingénuos” ingleses acreditaram. Alves dos Reis, logo que recebeu parte desta emissão, começou a branquear o dinheiro, rapidamente, de modo a assenhorear-se do Banco de Portugal para poder apagar todas as pistas.Para isso fundou um banco-Banco Angola e Metrópole-, que o povo,ironicamente, apelidava de “Banco Engole a Metrópole”. Um tesoureiro de um banco no norte de Portugal, com aquela argúcia conseguida com muitos anos de prática, descobriu duas notas com o mesmo número. Rebentava o escândalo. O julgamento demorou 6 anos; foi condenado a uns anos de prisão. Nesta burla não houve falsificação mas apenas clonagem. Foi a primeira clonagem monetária no mundo, uma proeza digna do Guiness.Diga-se,a título de comparação, que esta burla não lesou ninguém, a não ser o próprio Banco de Portugal.
O episódio das “ritas” e esta clonagem devem ter provocado em Salazar a aversão que ele tinha por grandes circulações fiduciárias, origem de quase todas as inflações. O vazio monetário em Angola pode filiar-se nesta aversão, tanto mais que os governantes em Lisboa perfilhavam a ideia de que em terras africanas “se fica pirado ao fim de 10 anos de trópicos” Não convinha que houvesse muito dinheiro na mão dos colonos e, muito menos, na mão dos africanos. Marcelo Caetano deixou expresso em uma conferência, realizada no Porto em 1953:« A experiência demonstra que os salários muito altos dos produtos da lavra indígena podem ter consequências desastrosas para a população nativa».

retirado DAQUI

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