Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 8 de novembro de 2011

Vida Humana no deserto do Namibe: ONGUAIA: Expedição à Manga das Areias, (CUROCA, Porto-Alexandre, Tombwa) em 22 de Setembro de 1839

Cuissis
Mondombes
Himbas, Hereros

Vida Humana no deserto do Namibe: ONGUAIA


"...Sessenta e nove anos depois, em 22 de Setembro de 1839, aportava à manga das Areias a corveta D. Isabel Maria, comandada pelo capitão-tenente Pedro Alexandrino da Cunha, que trazia consigo o civil António Joaquim Guimarães Júnior, ambos membros de uma expedição destinada a explorar a costa ao sul de Benguela, o primeiro como geógrafo e roteirista, o segundo como comerciante que haveria de ajuizar da probabilidade de se instalarem aí feitorias comerciais. Do mesmo empreendimento fazia parte o tenente Gregório José Garcia, que, por terra, se dirigiu a Moçâmedes, aprazado lugar de encontro. Há-de dizer-se que a iniciativa parece ter sido do GUIMARÃES JÚNIOR -ele o afirma, pelo menos- moço audacioso, que, com 20 anos apenas, obteve do governo da metrópole os meios necessários para realizar uma tal empresa. Toda a informação que se segue nos vem da notabilíssima e pouco aproveitada Memória sobre a Exploração da Costa ao Sul de Benguela na África Ocidental e Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Moçâmedes, que ele próprio escreveu e publicou em Lisboa no ano de 1842.

Os primeiros vestígios humanos que encontraram foram "ossos de baleia queimados e uma espécie de embarcações, feitas de um pau muito leve chamado bimba", o que evoca a antiga notícia de DUARTE PACHECO PEREIRA (0). Dias depois apareceram negros e em dias seguintes trouxeram para trocar milho, feijão e abóboras, algum marfim, pouco gado, e pontas de cabra de mato curiosas pelo seu comprimento". Viviam os Negros perto e GUIMARÃES decidiu ir ter com eles à sua povoação, o que não faria sem grande perigo, dado que não consentiam que homem branco entrasse nela (T). Mas tudo correu bem e o explorador dá noticia de "um exten-síssimo vale, todo cultivado de milho maiz, feijão, abóboras e uma espécie de milho miúdo", com margens «guarnecidas além d'imensa quantidade d'arbustos e de plantas parasitas,por duas ordens de palmeiras, que se estendem até onde se pode alcançar a vista e que parecem continuar muito para o centro". E diz mais que "Do lado direito destes arimos ficava uma espécie de seio formado por algum rio, que no tempo das chuvas naturalmente ali desagua, conservando-se agora subterrâneo, pois cavando até dois palmos de profundidade encontra-se agua magnífica, de que os indígenas se servem para beber e à qual é devida a imensa e linda vegetação de que se acha coberta toda aquela planície". Com a singela mas exacta descrição do lugar, note-se que especificadamente se mencionam o milho maiz e o milho miúdo, o segundo dos quais será talvez a actual massambala. E aí estavam os renques de palmeiras que os nossos olhos ainda hoje podem ver por toda a Camilunga, nome por que agora se apelida a antiga fazenda de S. Bento do Sul. Eram os Negros governados por um soba e GUIMARÃES tinha-os por povos «de nação mucubal» e de «vida pastoral», designando-os de Mocorocas, «por habitarem um lugar a que chamam Coroca». E prosseguindo na sua informação escreve: «Sua vida muito pacífica não deixa de ser singular pela sua predilecção pelas mulheres, que escondem com a maior cautela, especialmente dos Brancos, sendo igualmente muito ciosos do seu gado, cuja carne é magnífica e de que possuem grande quantidade de duas espécies, vacum e ovelhum São os Mocorocas muito dados ao exercício da caça e alguns dentre eles ao da pesca crêm muito em feitiços e almas dos seus defuntos; não gostam d'aguardente e preferem o tabaco que eles lã fabricam duma forma singular [similar?] ao de rolo do Brasil; são muito amigos de missanga branca, azul, preta e igualmente estimam muito facas e arcos de ferro para fabricarem flechas e azagaias, enxadas de ferro dumas que fabrica uma nação do interior do sertão, contígua a Benguela, por nome Nanos (o que na cidade de S. Filipe constitui um ramo de negócio); de fazendas preferem zuarte azul, baeta da mesma cor e cobertores, não fazendo apreço de chitas e outras fazendas de cores claras.»

Repare-se que GUIMARÃES os julga «de nação mucubal» e esta filiação fã-lo-à dizer que têm «vida pastoral», por ser esta a ocupação tradicional dos Mucubais. Mas a verdade é que estamos em presença de uma população sedentária, ciosa de arcos de ferro para enxadas, praticando uma agricultura variada; em suma, uma população agrícolo-pastoril. E se estes Mocurocas são aqueles que PILARTE DA SILVA
encontrou -GUIMARÃES não se refere aos estalos identificadores -, é de estranhar que o sertanejo não tivesse achado entre eles, 70 anos antes, vestígios de agricultura.

O relatório elaborado por PEDRO ALEXANDRINO DA CUNHA coincide, no geral, com o de GUIMARÃES, o que não admira. Nem por dizer que os Curocas serão «colónias de Mondombos, dos quais têm a linguagem e os costumes» (8) se afasta da filiação referida por GUIMARÃES: os Mucubais não terão outra origem-também Hereros saídos dos Mondombos das terras do sul de Benguela (9).

Ocupação portuguesa desta área só se iniciou de Dezembro de 1854 por diante, com a instalação de uma fortaleza num ponto alto, iminente à baía de Alexandre. O capitão de fragata JOÃO MÁXIMO DA SILVA RODOVALHO, que tomou parte no empreendimento, também se deslocou a uma das aldeias dos Curocas, a oito milhas da foz, em 10 de Dezembro do mesmo ano de 1854. Confirma que têm soba, são tratáveis, possuem gado vacum e arimos de milho e abóboras «de que se sustentam» (1°). Logo no mês seguinte esteve entre os Curocas o navegador e viajante inglês WILLIAM MESSUM. Sentando-se à sombra de uma palmeira e podendo repousar os olhos no verde das hortas, sentia-se recompensado dos vários meses de aridez ao longo da costa: «Aqui me deleitei pela primeira vez, depois de muitos meses que tinha deixado o Cabo, de achar alguma coisa como vegetação, porque os naturais têm em considerável extensão hortas cultivadas de milho, grãos e abóboras Era um regalo, depois de tanta areia, sentar-se à sombra de uma palmeira». E noticia ainda: «As choupanas desta gente pareciam construídas para aturar e eram habitações cómodas. Os naturais possuem numerosos rebanhos de gado grosso e miúdo. Tinham também marfim de elefante e de cavalo marinho Vi maças feitas de corno de rinoceronte e grande abundância de mel e cera de abelha Festejamos muito algum leite, milho e bolos feitos não sei de quê, com mel Perguntaram por aquadenti mas quando lhe dei alguma, depois de a provarem, não quiseram beber» (“).

E acaba aqui o que podemos chamar a história antiga do povoamento do Baixo Curoca, uma história cheia de hiatos, de dúvidas, de perplexidades. Pelo que os textos nos dizem-e não esqueçamos sua imprecisão e mutismo -, uma população mal definida de pescadores, no'início do século XVI; de pescadores, caçadores ou pastores e provavelmente agricultores no último quartel do século XVII; de pastores e recolectores (caça e apanha de vegetais) nos fins do século XVIII; de pastores, agricultores, pescadores e caçadores na primeira metade do século XIX. E a que etnias pertenciam e que etnias hoje lhes correspondem? São todos negros; os de Duarte Pacheco (século XVI) porventura Cuissis, antepassados dos actuais recolectores Cuissis, na opinião de ESTERMANN; os de Joseph Rosa (1681) falam por cliques e ESTERMANN quere-os da raça Khoisan, misturados com Cuissis, hipótese arriscada a que já aludimos, e serão ascendentes dos poucos Cuepes que sobrevivem; os de PILARTE DA SILVA (1770) parecem ser a mesma gente de Joseph Rosa e aquele sertanejo designa-os de Macorocas; GUIMARÃES, ALEXANDRINO DA CUNHA (1839), RODOVALH0 (1854) e MESSUM (1855) chamam também aos seus visitados Mocorocas; o primeiro diz que são de nação mucubal e o segundo de origem mondombe, todos, portanto, Hereros. Cabe perguntar se os Macorocas de PILARTE DA SILVA são os Mocorocas de GUIMARÃES, CUNHA, RioDovALHo e MESSUM. E se sim, temos então de admitir que estes associavam já à pastorícia a prática da agricultura, a menos que na mesma região houvesse pastores-agricultores concorrendo com pastores, todos apelidados de Mocurocas, por viverem junto do rio; os primeiros naturalmente Hereros (12) e os segundos, os tais antepassados dos Cuepes. Mas se é cómodo libertar assim os Cuepes da agricultura, 0 que seria conforme ao depoimento de PILARTE DA SILVA e conclusões de ESTERMANN e estaria de acordo com a actual tradição dos poucos Cuepes existentes que afirmam terminantemente que aprenderam a arte de cultivar a terra com os Brancos, não se fica em menor constrangimento em relação com Hereros: também estes são tidos por puros pastores e só recentemente lavradores.

Mas conceber no Baixo Curoca ainda outra etnia, agora de bantos agricultores, é que ultrapassará a legitimidade das conjecturas. De tudo isto, e com as reservas que já pus, me parece poder concluir-se o seguinte: desde épocas recuadas povoaram o vale inferior do Curoca populações de diferentes origens,
provavelmente Cuissis, Hereros e Cuepes. Se em perí0d0S recuados da sua História foram recolectores e pastores, vieratodos a cultivar a terra, sob a influência de povos agricultores, o que ja aconteceria no referido século XVII. E não é mista a civilização dos Hereros, na qual se caldeiam pastores camitas com plantadores bantos (““) '? Se língua, crenças e instituições sociais bantas invadiram os domínios dos pas-
tores camitas, porque não aceitar que cedo tenham recebido dos plantadores negros as técnicas da agricultura? E em uma vale de terras aluviais e água abundante, como é o do Curoca, como não responder adequadamente às solicitações do ambiente? E os Cuepes, vizinhos dos Hereros, imita-los-iam, se por outras vias lhes não chegou este modo de vida. E o viverem em aldeamentos mais ou menos fixos parece também conferir à cultura dos Mocurocas uma forte e antiga base rural. Tipos puros de civilização existem mais na imaginação dos estudiosos do que implantados na terra. Mas passemos a moderna história da ocupação do vale.
Continua...
In Vida Humana no deserto do Namibe: ONGUAIA
M. Viegas Guerreiro- vol 8 n 11 (1971)
Imagens de  postais e de IICT




Ver também VIDEOS: 

Missão Antropológica de Angola: Conjunto de imagens recolhidas em Angola pela Missão Antropológica de Angola, retratando nativos nos seus modos de vida, características físicas, hábitos e costumes.

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