Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 2 de dezembro de 2011


 
 Lago do Arco. Koroka
 
 
 
Crónicas do Kandimba - Por Sebastião Coelho

CRÓNICA II - Angola País de Contrastes
 
Benvindo meu amigo ! Sabia que voltavas e cheio de curiosidade. Como é Angola ? A sua situação geográfica bem no coração de África parece determinar que seja um país tropical. Teoricamente é certo, mas apenas isso. Na prática é um país tão vasto que possue diferentes climas que variam em função da latitude e da altitude, da existência do deserto ou da floresta, da proximidade do mar ou a da continentalidade das regiões. Também influem outros factores circunstanciais, como a existência moderadora da Corrente Fria de Benguela.

Dum modo geral, o trópico sente-se apenas na faixa costeira e atinge a sua maior intensidade em Cabinda, onde o clima é quente, com temperaturas médias que rondam os 30 graus, havendo abundância de chuvas. Este tipo de clima sente-se, igualmente, nalgumas regiões e vales da margem esquerda do rio Congo, abrangendo o interior das províncias do Zaire, Uije e Bengo, também caracterizadas pela floresta, mas começa a modificar-se à medida em que caminhamos para sul. Até à cidade do Sumbe a franja litorânea abrange uns 100 quilómetros de largura, é quase plana e regista altitudes inferiores aos 200 metros. A sul do Sumbe a faixa costeira é mais estreita e o clima, desértico.

A altitude média do território ronda os mil e duzentos metros. As montanhas de altitude superior 1.500 metros encontram-se entre os rios Cuanza e Cunene. Aqui se situa, afastado do mar cerca de 200 quilómetros, o cordão montanhoso que acompanha a costa e chega no morro do Moko a 4000 metros de altitude. No planalto o clima é frio e seco, registando-se na zona da serra da Chela temperaturas inferiores a zero graus centígrados, em determinadas épocas do ano. A região montanhosa termina sensivelmente a oriente do meridiano do Cuito e partir daí começa um declive que se vai acentuando para o leste até coincidir com as enormes planícies africanas, as chamadas chanas ou anharas, de clima extremamente seco.

Em Angola existem apenas duas estações, a época das chuvas, que se estende de 15 de Agosto a 15 de Maio e o tempo do cacimbo ou do frio ou da seca, que vai de 15 de Maio a 15 de Agosto. A sul de Benguela, na zona litorânea, um sub-deserto transforma-se, aos poucos, no deserto do Namibe. A sul do Tômbua acentuam-se as condições desérticas e ao cruzar-se a fronteira sobre o rio Cunene, entra-se em território da República da Namíbia, onde começa o deserto do Kalahari ou da Namíbia.

Como enunciei no começo, a corrente fria de Benguela constitue um dos mais importantes factores de moderação climática do país. Como funciona este assunto ? De maneira bem simples. Um dos braços da corrente quente do Brasil, que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Começa então a desviar-se para nordeste, em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se corrente fria de Benguela. Arrastando grandes blocos de gelo, avança com eles em direcção à costa de Angola. Cada icebergue é um zoológico ambulante onde navegam grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Tômbua e Namibe.

A diversidade de climas e regiões implica a existência de uma flora e fauna riquissimas. A teca e o pau rosa são duas das mais caras e lindas madeiras que se conhecem e podes encontrá-las em Angola. Quanto a animais, depois de tudo o que te contei, espero que não te surpreendas se te digo que à rica fauna angolana, da qual fazem parte leões e elefantes, hipopótamos, girafas e rinocerontes e outros mamíferos de grande porte, tens que juntar as focas e os pinguins.

Quando se cita a fauna angolana, quase nunca se fala da sua existência, mas nos meses de Junho ou Julho, podes ver focas e pinguins, esguios e velozes, sulcando as águas das baías do sul de Angola, ou, refastelados nas areias das praias, tomando sol como qualquer bacana. Na mesma época também é usual verem-se famílias de golfinhos brincalhões, exercitando o seu costume de salvar náufragos, porque, para eles, qualquer humano nadando junto à praia, é um náufrago potencial que deve ser empurrado para terra e nem sempre com muita delicadeza.

A partir da antiga Angra do Negro ou Moçâmedes, que hoje se chama Namibe, os albatrozes ou alcatrazes voam baixinho à espera da companhia dos barcos que viajam para sul. A sua presença deve-se também à corrente fria de Benguela, modeladora do clima e modeladora da costa. A ela se deve a existência das várias ilhas e penínsulas sedimentares que se localizam sempre a norte da foz dos grandes rios. O Cunene, que demarca a fronteira sul, dá origem à península que conforma a Baía dos Tigres. Mais ao norte a restinga do Lobito é consequência dos aluviões transportados pelo rio Catumbela. A península do Mussulo e ilhas que a acompanham, derivam dos sedimentos do rio Cuanza. São bonitos lugares de praias maravilhosas.

Sobre a foz do Zaire, que as divide e arrasta para o meio do oceano, as águas frias da corrente de Benguela chocam-se com as águas quentes que descem do Golfo da Guiné. Na zona de encontro formam-se duas bolsas térmicas, com importância e influência na ictiologia. Os peixes de água fria não cruzam a barreira da água quente e os peixes de água quente detestam penetrar nas águas frias. Este fenómeno justifica a riqueza piscícola de Angola, hoje muito depedrada por abusos de pesca, falta de fiscalização e falta de consciência ecológica de empresas e pescadores que não pensam no dia de amanhã.

Antes da independência, em 1975, a pesca de Angola tinha importância no mundo, porque o país ocupou, alguma vez, o segundo lugar na escala dos maiores produtores, logo a seguir à República do Perú. Como riqueza, deu origem a vários episódios de que me recordo e que são estranhos e surpreendentes capítulos da história. Não faltes ao próximo encontro. Assim te conto.

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