Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 12 de julho de 2011

Primeira divisão da nova esquadra russa do Báltico na Baía dos Tigres em Angola: 6 de Dezembro 1904



Esquadra Japonesa em Tsushima






Tsushima: A Batalha Decisiva

Quando a 6 de Dezembro 1904, pelos 8 horas da manhã, os japoneses chegam por fim ao cimo da colina 203 para iniciarem logo no dia seguinte o bombardeamento e destruição final dos restos da esquadra russa do Pacífico, a primeira divisão da nova esquadra russa do Báltico entrava na Baía dos Tigres em Angola onde se encontrava a canhoneira portuguesa Limpopo sob o comando do tenente Silva Pereira, que, de imediato se dirigiu ao couraçado Kniaz Suvarov para interpelar o almirante-comandante da esquadra Rozhestvenski aí embarcado, dizendo-lhe que estava em águas portuguesas.

O almirante russo negou tal facto, pois estaria é certo na Baía dos Tigres, mas a mais de três milhas da costa. O oficial português respondeu que as águas nacionais começavam na linha que unia os extremos da baía. Após uma longa pausa, o almirante russo pediu 24 horas de permanência de acordo com as cláusulas do Direito Internacional, o que lhe foi concedido pelo tenente Silva Pereira, como escreveu no seu relatório.

Para o historiador alemão Frank Thiess, a pequena canhoneira Limpopo terá levantado ferro e navegado para Moçamedes onde estaria o cruzador britânico Barroso. Para o comandante J. Bouteille de um navio mercante não russo que integrava a esquadra russa, a Limpopo terá ameaçado disparar contra a poderosa 1ª Divisão russa se permanecesse em águas portuguesas mais de 24 horas. O que é certo é que a esquadra russa levantou os seus ferros dentro do prazo regulamentar, navegando depois para a ilha de St. Marie na costa oriental de Madagáscar primeiro e depois para o porto de Diego Suarez do extremo norte da então maior colónia insular francesa, onde esperava encontrar-se com os navios mais pequenos que nas cercanias de Tanger se separaram para seguirem a rota do Mediterrâneo, canal de Suez e Mar Vermelho até ao Índico. Tratava-se da 2ª Divisão comandada pelo almirante Barão Foelkersam.
 Nessa época a França era aliada da Rússia, enquanto a Grã-Bretanha tinha uma espécie de aliança com o Japão. Por razões diplomáticas impostas pelos ingleses que não gostaram nada de ver tantos navios de guerra em mares que consideravam quase como seus, aquela 2º Divisão foi obrigada a aportar à baía de Nosy Bé, na costa ocidental, a norte de Madagáscar, para onde se dirigiu o almirante Rozhestvenski com o intuito de impor alguma disciplina às respectivas guarnições debilitadas pela longa viagem e com os grupos propulsores dos navios frequentemente avariados e pela doença do respectivo almirante. Só na ilha de St. Marie é que o almirante russo tomou conhecimento pelos jornais que Porto Artur caíra nas mãos dos japoneses e a 1ª Esquadra do Pacífico estava integralmente afundada. O almirantado em São Petersbourg não se dera sequer ao trabalho de informar atempadamente Rozhjestvenski pelo telégrafo. As comunicações com a esquadra eram difíceis, a TSF dos navios tinha então um alcance muito curto. Era necessário telegrafar até ao extremo da linha telegráfica em Diego Suarez que liga Antananarivo, vindo a linha de Majunga na costa ocidental de Madagáscar onde liga o cabo submarino de Lourenço Marques, pela qual passa o cabo de Zanzibar e Paris que está ligada a S. Petersbourg. Enfim, na colónia francesa, a linha telegráfica passava por centena de quilómetros de floresta quase virgem, sempre sujeita a cortes e avarias. Os navios russos permaneceram na baía de Nosy Bé por mais de dois meses, perdida que estava a corrida para se encontrarem com a esquadra russa do Pacífico. Preferiram esperar por uma 3º Divisão de navios diversos e auxiliares armados à pressa em S. Petersbourg, constituída pelos cruzadores ligeiros Oleg e Isumrud e alguns navios auxiliares que não tardaram a surgir.

 O almirante russo teve de negociar longamente com a companhia alemã Hamburg-Amerika-Linie que queria terminar aí o abastecimento da esquadra com o carvão transportado nos seus navios. Os alemães tinham um contrato para fornecerem 340 mil toneladas de carvão à esquadra russa, mas receavam que os japoneses viessem até ao Índico ou ao longo das costas chinesas enfrentar os navios russos. Ao cabo de longas conversações, os alemães acabaram por aceitar carregar carvão pela última vez em Cam Rahn na então Indochina francesa. Antes disso, a esquadra iria meter carvão na baía de Luderitz na colónia alemã do Sudeste Africano, hoje Tanzânia. O combustível metido dava para 2.100 milhas, mas os navios navegaram no início com os convés quase a rasar o nível do mar e aguentaram assim uma borrasca que provocou alguns danos.

A esquadra do almirante Rozhestvenski tinha zarpado de Libau, na então província russa da Curlândia no Báltico, a 15 de Outubro de 1904 quando ainda havia a esperança de manter Porto Artur e os navios da 1ª Esquadra do Pacífico. Rozhestvenski levava consigo 7 couraçados, 2 velhos cruzadores protegidos, 4 cruzadores ligeiros, 7 contratorpedeiros e um certo número de navios auxiliares, nomeadamente paquetes armados em cruzadores de segunda classe e um navio hospital.

A ponta de lança da esquadra era constituída pelos 4 novos e poderosos couraçados, cujo desenho foi inspirado nos planos franceses para a construção do Tsarevitch. Eram o Imperator Alexander III, o Borodino , o Orel e o Kniaz Suvaroz. Desta classe, só um navio não partiu para o Oriente por ainda estar em estaleiro. Deslocavam normalmente 13.500 toneladas, mas chegaram a carregar 2.450 toneladas de carvão, pelo que o deslocamento chegou às 16.800 toneladas. Com estas unidades seguia o couraçado Osliabya muito inferior em todos os aspectos e outros navios. Teoricamente, a esquadra russa não era inferior à japonesa quando a enfrentou no estreito de Tsushima, até tinha um poder de fogo um pouco superior, para onde seguiu em linha recta após o último reabastecimento na Indochina, mas os nipónicos jogavam em casa, a poucas milhas das suas bases e estavam altamente treinados, principalmente os seus artilheiros. As suas máquinas propulsoras estavam em óptimas condições e tinham reforçado a protecção das suas superstruturas com muitos sacos de areia, o que é perfeitamente visível em muitas fotografias e gravuras da época. Os russos, pelo contrário, tinham feito uma viagem esgotante de vinte mil milhas e não puderam treinar eficazmente os seus artilheiros para não gastar munições, além de virem excessivamente carregados de carvão, portanto, com uma altura metacêntrica muito baixa com grande parte das cinturas blindadas dos cascos debaixo de água. Rozhestvenski decidiu-se pela rota mais curta até Vladivostok, ou seja, pelo estreito da Coreia que separa este país do Japão com a meio a pequena ilha de Tsushima que acabou por dar o nome à batalha travada nas suas cercanias. O almirante russo queria reduzir o combate ao mínimo indispensável, o que é sempre o prelúdio das grandes derrotas.

Os japoneses adivinharam o pensamento do almirante russo e esperaram na zona a chegada da esquadra inimiga, nunca tendo admitido que os russos resolvessem antes contornar o seu arquipélago e entrar no Mar Interior pelo norte, apesar de Rozhestvestki ter mandado dois cruzadores auxiliares navegarem para leste, a fim de dar a impressão que toda a esquadra faria o mesmo. Pelas 5 horas da madrugada do dia 27 de Maio de 1905, o navio auxiliar japonês Shinano Maru descobriu a esquadra russa a navegar em duas colunas na rota NE e avisou logo a esquadra de Togo que pairava ao largo da Coreia. Começou por ver o navio hospital Orel que vinha todo iluminado, como mandavam os regulamentos da época, o que foi uma asneira. Teoricamente, a esquadra russa era superior em poder de fogo com os seus sete couraçados contra os quatro japoneses, os Mikasa, Shikishima, Fuji e Asahi. Os russos podiam disparar com 26 peças de 305 mm contra 16 dos nipónicos; 12 de 254 mm contra 5 japonesas; 4 de 228 mm contra 0; 8 de 203 mm contra 26 e 109 de 152 mm contra 190 japonesas. Se em couraçados havia uma apreciável superioridade da parte dos russos, em cruzadores a situação era inversa. Os japoneses tinham mais cruzadores e um pouco mais modernos, já que ao almirante russo foram atribuídas algumas unidades extremamente velhas e de andamento lento que prejudicaram a manobra da esquadra. Foi uma opção resultante da campanha de um publicista naval que tudo fez para que o Almirantado russo enviasse os navios que ficaram no Báltico para reforçarem a esquadra que esperou dois meses cansativos no clima tropical e doentio de Madagáscar. O almirante russo bem telegrafava a dizer que queria menos navios, mas mais manobráveis e rápidos.

A única vantagem proporcionada pelos velhos cruzadores e contratorpedeiros foi ter vindo num deles 44 telémetros Barr & Strout, os primeiros a serem utilizados em combate. Mas, os russos não puderam estudá-los devidamente e fazer treino intenso de tiro com os mesmos, tão ocupados estavam com a navegação. Os visores ópticos e os medidores de distâncias só foram instalados nas torres principais dos couraçados da classe Borodino; os respectivos artilheiros não chegaram a praticar tiro real com os mesmos. Por outro lado, não foi possível instalar um conveniente sistema de comunicações entre os operadores dos telémetros e os artilheiros, pelo menos, à prova do ruído ensurdecedor da batalha. Na maior parte dos navios russos não havia telefones; apenas apitos, tambores e sinais visuais para as comunicações internas nos navios, as quais começaram a falhar logo no início da batalha. As sessões de tiro de treino e de manobra de navios em esquadra não foram suficientes para formar uma força operativa de grande valor; não havia munições de reserva em quantidade suficiente nem carvão e, além disso, não se podia gastar excessivamente as máquinas propulsoras dado não haver bases russas nas proximidades. Nesse aspecto, os japoneses utilizaram com muita eficácia os seus visores e telémetros, principalmente na pontaria contínua das suas peças de tiro rápido.Para o almirante russo, os melhores telémetros eram as peças de 152 mm, avaliando a distância pelo impacto das respectivas granadas. E até foram essas peças que mostraram uma maior eficácia.

Nada disso acontecia com os japoneses que combatiam juntos aos seus arsenais, não necessitando de estarem sobrecarregados de carvão e tinham tudo afinado à perfeição. Togo estudou a táctica para alcançar um vitória decisiva, isto é, que destruísse a força inimiga uma vez por todas. E acrescente-se que batalhas navais decisivas só se registaram três no Século XX: Tsushima em 1905, Midway em 1942 e Filipinas em 1944. A primeira marcou a ascensão do Japão a grande potência naval e as duas outras acabaram definitivamente com o marinha de guerra japonesa e com o Japão militar, dando o controlo dos mares e oceanos aos EUA até hoje. Parecendo que não, os cinco minutos do ataque da esquadrilha do capitão-tenente McClusky, levado a cabo a 4 de Junho de 1942, perto da ilha de Midway, foi o golpe mais decisiva de toda a história naval, pois os nipónicos perderam aí a espinha dorsal de porta-aviões que nunca mais puderam recuperar. Curiosamente, não conheço nenhum grande navio da armada americana com o nome do capitão-tenente McClusky. O valente piloto não deve ter chegado a almirante e provavelmente morreu na guerra, daí não ser recordado. A batalha do mar das Filipinas foi apenas o estertor final de uma marinha já derrotada; foi o funeral do Japão militar.

Raramente a História regista mais que uma a duas batalhas navais decisivas por Século; Lepanto em 1571, a destruição da Invencível Armada em 1588 e Trafalgar em 1805. Todas as outras batalhas navais não foram decisivas, na medida em que não alteraram fundamentalmente o rumo dos acontecimentos, nem sequer Pearl Harbour que não determinou mais que seis meses de supremacia nipónica.

Pelas 13h45, da ponte do Mikasa, o almirante Togo viu as duas colunas russas caírem lentamente para bombordo e iniciou logo uma manobra ousada. Mudou o seu rumo de 12 quartas para se colocar numa posição paralela ao seu adversário. Os russos abriram logo fogo a sete mil metros de distância, causando alguns estragos nos navios japoneses, enquanto Rozhesteveski ordena a reorganização da esquadra numa só linha com os quatro couraçados da classe Borodino à frente, entre os quais o seu navio, o Kniaz Suvarov, que fazia de ponta de lança. Mas, os japoneses aproximaram-se mais mil metros para abrirem um fogo mais rápido, concentrando-o à boa maneira tradicional nos dois navio-chefe das duas divisões, o referido couraçado de Rozhesteveski e o Osliabya no qual seguia o corpo do almirante Fokersam falecido de doença dias antes. Togo aproveitou a sua maior velocidade e ligeireza dos seus navios com as carenas impecavelmente limpas para formar um arco com os seus navios mais próximos uns dos outros para tocar no arco russo com uma certa superioridade de fogo, concentrando-o primeiro no Kniaz Suvarov que rapidamente perdeu uma chaminé, um mastro e a torre da ré, sofrendo, além disso, um incêndio que o deixou desamparado com o almirante Rezhesteveski muito ferido para ser transferido pouco tempo depois para um contratorpedeiro.
O navio-chefe da 2ª Divisão, o couraçado Osliabya, foi atingido pelos cruzadores protegidos de Togo que na ocasião combatiam como se fossem couraçados, dado que os japoneses só dispunham de quatro couraçados. Carregado até mais não de carvão, o Osliabya tinha a cintura blindada muito submersa pelo que ficou muito vulnerável às granadas do Shimoze. Togo pensou como Nelson em Trafalgar, deixou o inimigo disparar a grande distância, convencido que não faria grandes estragos e foi-se aproximando, mesmo com os cruzadores que foram os primeiros a dispararem. A precisão dos primeiros tiros nipónicos desmoralizou os comandos da esquadra russa e feriu mesmo gravemente o almirante-em-chefe que, pelas 14h25, ainda deu ordem para mudar de rumo para evitar a tentativa de cruzamento em T pelos navios japoneses mais rápidos.

Togo tinha feito toda uma volta para apanhar o bombordo da formação russa com a sua vantagem de 2 a 3 nós. Ao contrário da linha russa que era liderada pelos couraçados, a esquadra de Togo começava por quatro cruzadores seguidos pelos seus quatro couraçados. Ambas as linhas navegaram durante algum tempo em dois arcos quase paralelos a uma distância de 5 mil e quinhentos a 6 mil metros.

Sempre que a visibilidade permitia, as esquadras disparavam com tudo o que podiam; o cruzador japonês Asama recebeu um tiro de 305 mm que destruiu a máquina do leme, deixando-o praticamente desgovernado; outro tiro russo de 305 mm atingiu o cruzador Nishin, provocando a destruição de uma torre de peças de 203 mm. Depois de dissipados os fumos dos primeiros tiros, os russos procuraram aumentar a distância em relação à linha nipónica, mas fizeram-no muito tarde; o Osliabya recebeu mais um impacto no costado que provocou entrada de água, fazendo-o virar-se completamente. Ao mesmo tempo, o Kniaz Suvarov saía da linha de batalha desgovernado também com a máquina do leme destruída. O fogo japonês passou então a concentrar-se no couraçado seguinte, o Alexander III que assumira a liderança da formação russa.

Os couraçado Borodino e Orel, além dos Oliabya a afundar-se, passaram a ser os grandes alvos da esquadra nipónica, cujos grandes navios nada tinham sofrido ainda porque deixaram a primeira divisão de cruzadores sofrer os primeiros estragos para manterem intacto todo o potencial de fogo dos seus quatro couraçados.

Pelas 15h00, o comandante Bukvostv do Alexander III guinou para bombordo a fim de cruzar a ré da formação japonesa, enquanto os torpedeiros e os cruzadores ligeiros russos tentavam lançar os seus torpedos contra os navios russos. Togo virou também para bombordo para evitar o cruzamento e lançou os seus cruzadores ao assalto ao Alexander III, obrigando-o a virar para estibordo, enquanto a segunda divisão de cruzadores protegidos nipónicos cercava o Kniaz Suvarov que resistia com denodo. Pelas 15h07, os japoneses conseguem fazer o cruzamento em T de estibordo para bombordo, abrindo fogo sobre o Alexander III que quase submergia sob o dilúvio de fogo, mas as suas blindagens iam aguentando os impactos dos canhões de Togo. Os russos disparavam da pior maneira possível, pelo que os japoneses ousaram aproximar-se até a uma distância de uma milha da formação russa. O Mikasa chegou a tentar um ataque com os seus torpedos, mas sem êxito. Por fim, Togo ordenou o afastamento da sua linha, fazendo duas voltas para sudoeste, enquanto os seus cruzadores continuavam a bater no Kniaz Suvarov com as suas peças de 203 e 153 mm, já tendo destruído todas as superstruturas frágeis como mastros, chaminés e ventiladores. O cruzador Chihaya ainda tentou lançar dois torpedos, mas sem acertar no alvo.

Depois, a segunda divisão de contratorpedeiros nipónicos tentou mais um ataque a torpedo, mas foi sempre repelida pelas peças de pequeno calibre do Kniaz Suvarov. Pelas 14h00, os russos ainda tinham intactos três couraçados da classe Borodino que tentaram, por sua vez, cruzar a linha japonesa em T, aproveitando o facto de os nipónicos se aproximarem do navio-chefe a dispararem, apesar do navio estar meio destruído e já não ter intactos telémetros e visores ópticos. O couraçado teimava em manter-se a flutuar e a disparar apesar dos incêndios a bordo. As granadas de alta deflagração japonesas causaram grande número de mortos e feridos, os quais já não cabiam na enfermaria, sendo tratados no camarote do comandante e do almirante. Os muitos estilhaços obrigavam os médicos de bordo a operarem rapidamente sem anestesia com clorofórmio por manifesta falta de tempo. Pela primeira vez foi utilizado a bordo de um navio em combate um aparelho de Raios X para observar a posição dos estilhaços nos corpos dos feridos. Um homem ferido no cérebro teve uma grave perturbação psicótica, pelo que teve de ser metido num colete-de-forças. Nas zonas protegidas do couraçado, o ar tornava-se irrespirável por estarem avariados os ventiladores e todas as escotilhas terem de estar fechadas. Enfim, um inferno de sangue, dor, gritos e calor. Só nos curtos intervalos da batalha é que se podia operar convenientemente. Muitos marinheiros tinham sido treinados para se tornarem enfermeiros auxiliares, mas não tiveram a possibilidade de utilizarem os seus conhecimentos por estarem igualmente feridos.

Contra tudo e todos, o couraçado russo Kniaz Suvarov continuava a flutuar e a navegar a 10 nós. Os japoneses flagelavam o navio com as suas peças de 152 mm e pouco conseguiam com os grandes canhões de 305 mm. Num calor infernal, o pessoal das caixas de fogo continuavam a alimentar as caldeiras com quanta força tinham os seus braços. Togo reconheceu então que errava ao tentar com os seus couraçados destruir o navio-chefe russo, deixando a formação inimiga passar, pelo que alterou o rumo para Norte, a fim de apanhar os três outros couraçados russos e enfrentá-los decisivamente, mas mandou as suas flotilhas de torpedeiros tentarem acabar com o Kniaz Suvarov Um deles conseguiu acertar um torpedo no navio russo, fazendo-o adornar uns 10º. O combate do Kniaz Suvaroz permitiu afastar os cruzadores e torpedeiros japoneses dos navios auxiliares e transportes da esquadra russa que assim puderam retroceder e salvar-se de uma destruição certa. Apenas o rebocador Rus foi afundado por engano pelos tiros dos próprios russos, enquanto o transporte armado Ural abalroa outro navio russo, acabando por ser destruído pelo fogo dos couraçados japoneses, impossibilitado como estava de navegar.

O comando da esquadra russa passa para o almirante Nebokatov embarcado no Borodino que dirige uma linha formada pelo Orel, Imperator Nikolai I, Apraksin, Seniavin, e Ushakov. O couraçado Imperator Alexander III ficava para trás debatendo-se com as avarias e meio desgovernado. Atrás ainda vinham os pequenos couraçados Sissoi Veliki, Navarin e Admiral Nakhimov. Os transportes armados Anadir, Irtish e Korea seguiam a estibordo com os cruzadores Almaz e Svetlana. A bombordo, Nebokatov organizou uma linha de cruzadores com o Aurora, o Donskoi¸o Monomask, o Yemtchung e o Izumrud. Os contratorpedeiros russos navegavam entre as duas linhas. O Imperator Alexander III era agora o grande castigado, enquanto algum fogo japonês começou a concentrar-se no Borodino. Togo deixou o Orel disparar à vontade a seis mil metros de distância, sem qualquer resultado aparente. Mesmo assim, o couraçado japonês Shikishima foi atingido num dos mastros com uma granada de 75 mm. O Mikasa levou um tiro de 152 mm. O Nishin também teve de encaixar um impacto de 203 mm. Os japoneses pouco preocupados com os tiros recebidos continuavam a desmantelar o Imperator Alexander IIII, a táctica era um por um; concentrar sempre o fogo de todos os navios japoneses numa só unidade inimiga, de preferência um navio-chefe. Pelas 18h50, o Imperator Alexander III decai para bombordo e inclina-se rapidamente até voltar-se e ir para o fundo com 30 oficiais e 806 marinheiros. Apenas quatro homens sobreviveram.ORIGEM



Linha de Ataque Japonesa.jpg

 

1904: O Começo das Guerras Imperialistas

A paz reinante em 1900 durou apenas até 1904, quando os japoneses atacaram de surpresa a frota russa em Porto Artur, desencadeando a primeira das guerras das novas potências contra aquilo que poderíamos chamar de antigas potências como os impérios russo, britânico, francês, holandês, português e belga. Entre as novas potências cheias de apetite territorial contava-se o Japão, a Alemanha e a Itália e os EUA que já tinham conquistado uma boa parte do México.

No fundo, as guerras do Século XX tiveram como motivação principal a ascensão da Alemanha e do Japão à condição de potências imperialistas com um atraso de séculos relativamente a outras como a Grã-Bretanha e todas as nações europeias detentoras de impérios. As primeiras queriam o seu “império” e as segundas nada queriam ceder e viam nas potências em ascensão um perigo para o seu poderio.

Com a técnica e os seus conhecimentos de física, os homens organizados em estados mais ou menos populosos transformaram-se em dinossauros pelas suas armas e em células “cancerosas” pela sua multiplicação por todo o planeta com efeitos tão nefastos para o ambiente que se admite como possível morte do doente, o nosso pequeno planeta Terra.

O Japão teve um percurso notável desde que em 1853 a esquadra do almirante norte-americano Perry obrigou os nipónicos a abrirem os seus portos ao comércio internacional e abandonarem assim mais de dois séculos de total isolamento relativamente ao mundo exterior. O país estava então técnica e politicamente ao nível da Idade Média. Não conhecia mais que a velha espingarda que os portugueses trouxeram no Século XVI e, em termos navais, apenas dispunham de alguns juncos. Viviam sob uma espécie de ditadura militar, feudal e hereditária dos Shoguns, enquanto o imperador era mantido, como um deus vivo afastado, dos negócios políticos.

Com a chegada dos navios fumegantes e cheios de canhões do almirante Perry, os japoneses perceberam que a velha espingarda portuguesa de 1543 não permitia a sua defesa e, para tal, tinham de dotar-se dos mesmos navios e possuírem a técnica moderna, principalmente de natureza militar.

Essa tomada de consciência do seu atraso provocou uma autêntica revolução.
Em 1869, o novo imperador Mutsu-Hito inicia a época denominada “Meiji” de abertura ao Mundo, depois de ter um ano antes jurado fidelidade a uma constituição liberal e moderna do tipo europeu e derrotado numa sangrenta guerra civil as forças do restabelecimento feudal.

Não deixa de ser interessante a razão de tão prolongado isolamento do Japão. Tudo leva a crer que isso se deve aos portugueses, mais concretamente aos padres franciscanos que pregaram os ensinamentos de Cristo como vem na Bíblia, portanto uma doutrina revolucionária de igualdade de todos os homens perante Deus, esquecendo-se de explicar que isso não era para ser levado totalmente à letra e que haveria sempre uns filhos e uns enteados do Nosso Senhor e que a Cristandade conviveu durante quase dois milénios com as mais diversas formas de escravatura e servidão, apesar de as condenar como matéria de princípio.

O cristianismo perturbou muito os velhos senhores feudais, habituados como estavam a viver numa sociedade altamente hierarquizada em que uns eram gente e outros quase nada.

O shogunato, ou seja, o poder do primeiro-ministro, aproveitou-se bem da espingarda portuguesa para unir o Japão, mas de seguida proíbe o cristianismo em 1614 com medo que a ideia da igualdade pudesse afectar a estrutura social extremamente hierarquizada da sua sociedade.

Com a era “Meiji” aparece pela primeira vez uma burguesia que ascende ao poder por via do estudo das técnicas europeias. Os japoneses correram quase em massa para a Europa para estudarem tudo; foram aprendizes nas mais lúgubres fundições, operários nos estaleiros, alunos das escolas militares e das universidades, etc.

Na Europa como então no Japão, e tal como sucedia em parte no Portugal dos descobrimentos, a classe dita burguesa caracterizava-se pela ideia de projecto de vida pessoal e nacional sem a servidão feudal nos campos e daí a ideia de expansão, comércio e indústria, ao contrário do nobre que se julga alguém simplesmente por ter nascido.
Em princípio, o burguês, principalmente o oriundo das classes trabalhadoras da cidade (burgo), é educado no trabalho e até no estudo, fazendo passar essa ideia para o todo nacional e concebendo o Estado-nação como um projecto político de progresso e daí o enorme desenvolvimento industrial dos Séculos XIX e XX.

Infelizmente, a ideia de tirar o que é dos outros passou das aristocracias para as burguesias e tornou-se parte dessa noção de projecto nacional, o que produziu as terríveis guerras do Século XX. Até os partidos que pretendiam ser do proletariado puro também foram infectados pelo mesmo vírus mental da tal apropriação do que a outros pertence, principalmente territorialmente.

Em 1903, o Japão tinha acrescentado à sua marinha de guerra quatro novos couraçados, 16 cruzadores, 23 contra-torpedeiros, além de numerosas unidades mais pequenas. Sentia-se tão forte que seria o primeiro país asiático a atacar uma potência europeia, o Império Russo do Czar Nicolau II. Fundamentalmente queria obter o domínio da Coreia e conquistar a península de Kwuantung com a cidade fortaleza de Porto Artur que lhe tinha sido retirada por via do Tratado de Shimonoseki que deu por finda a guerra sino-japonesa de 1895.

Os russos conseguiram instalar-se aí em força e decididos a nunca mais de lá saírem. Loshun crismada de Porto Artur pelos russos, ao contrário de Vladivostok, mais a norte e a oriente da península coreana, era um porto aberto todo o ano; o único de águas quentes com saída oceânica do imenso império continental que era a Rússia de então. Tinha, todavia, o defeito de estar muito assoreado na maré baixa, o que fazia com que os navios ficassem bloqueados no porto interior ou então tivessem que ancorar ao largo, frente à península dos Tigres.

Quando começou o conflito, os russos tinham em Porto Artur e Vladivostok sete couraçados, quatro cruzadores couraçados, catorze cruzadores pesados e ligeiros, duas canhoneiras couraçadas e 27 contra-torpedeiros e torpedeiros de alto mar. Uma esquadra valiosa se tivesse em boas condições técnicas de manutenção e dotada de guarnições bem treinadas, o que não acontecia, dada a ineficácia do supremo comandante e governador da Sibéria Oriental, o príncipe general-almirante Eugénio Alexeiev, filho do anterior Czar Alexandre II, enfim, um homem de carácter excessivamente burocrático e despótico. Nada se fazia sem autorizações por escrito e requerimentos prévios e qualquer decisão levava semanas a ser tomada.

A guarnição de Porto Artur era já de 38 mil homens e mais de 90 mil militares russos estavam acantonados na fronteira com a Manchúria. Mas, para além dos números, faltava quase tudo; até espingardas, para não falar em munições e, mesmo, comida. O transiberiano tinha ainda uma só via e um intervalo de 100 milhas no lago Baical que tinha de ser atravessado de barco. Um batalhão completo levava mais de um mês para chegar ao Extremo-Oriente russo.

O Japão aproveitou o facto de uma companhia russa ter iniciado a exploração e corte de árvores a sul do rio Yalu, portanto, dentro da zona que os nipónicos consideravam de sua influência, apesar de a Coreia ser um estado independente, ou quase. Um empresário russo tinha obtido do governo coreano uma concessão para esse tipo de exploração em 1896, conseguindo emitir um grande número de acções colocadas na bolsa de S. Petersbourg com tanto êxito que até o Czar Nicolau II se tornou um importante accionista da empresa Bjesobarow.

Pouco antes do início da guerra russo-japonesa, o marquês nipónico de Ito visitou S. Petersbourg e tentou negociar então com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Conde Lamsdorff, uma delimitação de zonas de influência no Extremo-Oriente entre as duas potências e, com isso, manter relações pacíficas. A Manchúria com a Península de Kwuantung e Porto Artur ficariam sob a influência russa, enquanto a Coreia, a sul do rio Yalu, passaria para a esfera nipónica.

O então ministro das Finanças do Império Russo, Conde Witte, estava de acordo, mas como o autocrata Nicolau II possuía acções da empresa do especulador Bjesobarow, pessoa muito influente na corte, a proposta não foi aceite e ninguém explicou ao Czar a imensa vantagem de uma expansão pacífica pela Manchúria, bem como a posse definitiva de Porto Artur, e a falta de preparação das suas forças, além de que a Coreia não tinha interesse para o Império Russo e, menos ainda, uma simples exploração madeireira.

Nicolau II tinha imensos poderes; não havia sequer primeiro-ministro e, menos ainda, um parlamento ou um conselho alargado. O autocrata ocupava simultaneamente os cargos de chefe de Governo e do Estado, além da chefia das Forças Armadas, mas não era particularmente inteligente, nem sequer gostava de política. Era um bom pai de família, um homem cortês e até modesto e bem intencionado, mas não tinha a mais pequena sensibilidade para os problemas materiais, nomeadamente dos militares ou da população e daí ter conduzido o Império de desastre em desastre até ao triste fim que ele e a sua família sofreram.

Nicolau II limitava os seus contactos pessoais aos ministros, a familiares e a uns tantos aristocratas. Gostava de viver num pequeno palacete nos arredores de S. Petersbourg e adorava o seu estúdio instalado numa cabana de caça. Quando estalou a Revolução de 1905, só o seu dentista é que lhe pôde dar algumas informações práticas sobre a vida do povo e sobre os intelectuais de esquerda que proliferavam por toda a parte.

Como acontecia com toda a nobreza herdeira de muitas gerações do Poder, desconhecia o sentido logístico da vida pelo que tinha a ideia que tudo se arranjava por si próprio; os servos e os súbditos tinham a obrigação de prover todos os bens materiais, o que não era muito difícil quando se tratava de abastecer um corte e umas tantas famílias nobres com um pequeno grupo de burocratas.

Outra coisa era, sem dúvida, encontrar os meios para satisfazer grandes exércitos e esquadras. Para isso, a nobreza não servia, era necessária a capacidade de organização dos melhores das classes médias, o que passava naquela época pela instituição de um regime liberal e parlamentar como o japonês e instrução pública para quase toda a população.

Saliente-se aqui que no Japão como na Alemanha e noutros países, os ditos regimes parlamentares das burguesias industriosas serviram para equipar grandes exércitos e marinhas e, uma vez resolvido o problema logístico, foram quase todos postos de parte. Os generais e almirantes aristocratas ou snobes deitaram-nos fora como trapos inúteis e meteram-se em guerras sem conta de vitória em vitória até às derrotas totais.

Recusadas as propostas do marquês de Ito, este firmou em 1902 uma aliança de cinco anos com a Grã-Bretanha. Na Rússia, o Czar entrega a política do Extremo-Oriente a um comité chefiado pelo corrupto Bjesobrawov com alguns amigos do Czar que não pararam de tentar avançar o mais possível para a outra margem do Yalu e, assim, acicatar ainda mais os ânimos dos nipónicos. Logo após a nomeação de Alexeiev para governador, tomou-se mesmo a decisão de ir para a guerra com o Japão, se necessário fosse.

Claro, o imenso Império Russo não temia o Japão, dada a correlação global de forças, mas em S. Petersbourg ninguém entendia a questão do poder regional e o facto de o Japão querer ser uma barreira à expansão da Rússia ainda mais para Oriente.

Na verdade, a Rússia de 1904 tinha mais de 145 milhões de habitantes e estendia-se desde a Polónia ao Estreito de Behring, incluindo a Finlândia, os actuais países bálticos, a Ucrânia, Bielo-Rússia, Moldávia e todos aqueles países orientais que agora se tornaram quase independentes. Enfim, uma área terrestre superior 14 milhões de quilómetros quadrados, tanto como 152 vezes a superfície de Portugal.
Os japoneses, por sua vez, ainda não eram mais que uns trinta milhões e o seu território era uma ínfima parte do russo.

A guerra surge de facto sem que os russos estivessem preparados para o combate, até porque a dada altura deixaram de acreditar que os japoneses quisessem mesmo ir para uma guerra. O próprio Czar chegou a mandar um telegrama a Alexeiev para nada fazer no caso de os japoneses desembarcarem tropas a sul de Seul e que seria aconselhável que não fossemos nós a iniciar as hostilidades.

 Um Século de Guerra no Mar de Dieter Dellinger
  * À margem: onde se refere tenente Silva Pereira deve ler-se "João Carlos da Silva Nogueira". Especialista em hidrografia fez várias campanhas de levantamento costeiro nas possessões ultramarinas portuguesas, com destaque para a produção das cartas dos portos, barras e enseadas de Moçambique. Notabilizou-se pelo denodo como ao comando da canhoneira Limpopo, um pequeno vaso de guerra, em 6 de Dezembro 1904 se opôs à entrada primeira divisão da esquadra russa do Báltico na Baía dos Tigres em Angola na Baía dos Tigres, em Angola. A entrada apenas foi autorizada depois de formalmente pedida, implicando um reconhecimento explícito da soberania portuguesa sobre a área[2]. Wikipédia

REVISTA COLONIAL 25 Nov. 1913, nr. 11 : II cultura do algodão em Mossamedes

Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa, 1º visconde de Giraúl

Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa, 1º visconde de Giraúl
 

REVISTA COLONIAL

II cultura do algodão em Mossâmedes

A Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, chefe da primeira colonia. que, vinda de Pernambuco, às praias de Mossamedes aportou em 4 de Agosto de 1849, se deve a introducção d'esta preciosa planta no districto. Distribuiu elle a semente de que se munira no Brazil pelos seus companheiros e ainda hoje, decorridos cerca de 64 annos, a maioria das plantações de algodão proveem da semente brazileira.

Chegou a cultura ao seu auge no anno de 1872 em que se exportaram pelo porto de Mossâmedes 355 toneladas ; mas tendo-se seguido uns annos de seccas e havendo o preço do algodão declinado quasi repentinamente de dois mil duzentos e cincoenta réis o kilo a 260 e 169 réis, a maioria das plantações, quasi na totalidade, foram abandonadas, o que originou o encerramento de duas fabricas de tecidos que existiam nesta cidade, uma a vapor, pertencente a Eugenio Wherlin, francez, e outra, com teares manuaes, de Luiz José de Oliveira, teares que ainda hoje existem, uns numa arruinada casa pertencente
á Missão Catholica de Huilla e outros na casa da viuva do citado Oliveira .

Devido ás causas que apontámos, dedicaram-se os agricultores, quasi exclusivamente, á cultura da canna saccharina para fabrico de aguardente que se produzia em 35 destillações mais ou menos bem montadas . O maximo da producção, dizem-nos, jámais excedeu á totalidade de 1500 pipas cujo va-
lor póde computar-se em 1 20 .000000 .

Desde a conferencia de Bruxellas, começaram a acastellar-se perigos ameaçando a já então prospera cultura á qual Mossamedes deveu muito do seu desenvolvimento . O decreto de 27 de Maio de 191 t, como é de todos sabido, veiu, de vez, pôr cobro á cultura da canna, porque, havendo uma unica fabrica de assucar em todo o districto, actualmente encerrada,e sendo as principaes plantações bastantes kilometros distantes d'ella (pois é sabido, quanto mais distantes as destillações se encontravam do littoral mais proximas estavam dos centros da consumo) não podia aproveitar-se senão uma pequena parte . Felizmente os agricultores e legisladores, mal viram despontar o perigo que ameaçava o fabrico do alcool, de novo estimularam a cultura do algodão, conseguindo-se que ella reapparecesse em alguns valles do districto e se desenvolvesse um pouco mais em propriedades onde não chegára a desapparecer
por completo. Todas ellas embora muito lentamente e com sorte varia se vão desenvolvendo, não obstante a falta de mão d'obra que de ha muito assoberbava a agricultura e industria do Districto e, ultimamente, por motivos de todos conhecidos, se tem aggravado um pouco. Esta falta, se não se conseguir uma forte e voluntaria corrente de emigração de trabalhadores de Huilla, por bastante tempo se fará ainda sentir . -Mas, se se fizer a occupação militar do districto que vimos preconizando desde a primeira vez que na qualidade de Inspector do 6 .0 grupo de Circumscripções Civis de Angola, visitámos a de Capangombe cuja substituição por postos Militares alvitrámos, por ser a unira occupação com razão de ser nas terras d'aquella região, hoje englobadas na circumscripção civil de Mossamedes, a qual, em consequencia da séde escolhida, ainda tem menos razão de existir que tinha a de Capangombe, que algo de aproveitavel ia já produzindo, dispensavel se tornará essa corrente de emigração, pois é positivo que Chella abaixo ha mais do que os trabalhadores necessarios para a manutenção e desenvolvimento da agricultura e industrias de Mossamedes .


Mas, deixemo-nos de considerações sobre o problema da mão de obra, que longe, nos levariam, tanto mais que, apesar da sua capital importancia para a economia do districto elle é de facil solução, bastando, como já dissemos na colunnas d'esta «Revista» uma simples companhia indigena de infan-
taria para o conseguir e, passemos a tratar do algodão que produz a agricultura do districto, do que pode produzir e do papel que este districto, em que muitos persistem em ver apenas uma colonia de povoamento quando pode e deve voltar a  ser uma colonia de plantação, poderia representar na economia metropolitana .

O algodão exportado produzido no districto nos ultimos tres ermos, incluindo o actual, em que novos embarques se farão ainda, foi o seguinte : ,
1911 - Viuva Bastos & Filhos . . . 6478 kilos»
-- Duarte de Almeida & C.a 4440 » »
-Souza & Reis 1096»
1912 - Figueiredo & Almeida . , . 9 i 9 »
1913 - Viuva Bastos & Filhos . , .3760 »»
- Duarte de Almeida & C:.a 22312 »
- Figueiredo & Almeida . . . 201,0»

Em 1912 e 1913 foram exportados 2 :420 kilos de algodão produzidos neste districto, por individuos não agricultores, que englobámos nos numeros acima indicados. A Companhia de Mossamedes exportou em 191 I, 35799 kilos e, em 1912, 4.221 para mercados nacionaes. Em 1913 exportou 5 :000 kilos para estes mercados e 28 :800 kilos para Hamburgo. Não mencionámos estes numeros na producção do districto porque a Companhia de Mossamedes não tem aqui propriedades agricolas . Como atrai dissemos, muito brevemente seguirão para Hamburgo mais umas dezenas de toneladas de algodão produzidas por esta Companhia e pela firma Duarte d'Almeida & C.a

Vê-se, pois, que para quinze milhões de kilos de que o nosso paiz carece annualmente, poderia Mossamedes ter concorrido com 27:587, o que ainda assim não fez por a producção se ter destinado quasi integralmente á Allemanha por causas absolutamente extranhas á vontade dos agricultores, causas de que adiante trataremos e que só revelam o desconhecimento, do que por aqui se passa e tanto deve interessar aos industriaes de fiação do nosso paiz e ás Associações Commerciaes .

A media da producção do algodão «caravonia», tem sido de 200 . kilos por hectare, sendo, portanto necessarios 75 :000 hectares de cultura, admittindo que se não consigam sementes mais productivas que forneçam o algodão necessario para o consumo portuguez. Poderá Mossamedes produzil-o ?

Affigura-se-nos que sim, pois só no extincto concelho de Capangombe, com terrenos e clima eminentemente proprios para todas as culturas, especialmente a de algodão, existiram em tempos idos 57 propriedades algodoeiras ; e, revendo os diplomas de concessões de terrenos para algodão, vê-se que de 1863 a 1892 foram ali concedidos cento e quarenta e sete mil quatrocentos e dezoito hectares, á margem de varios rios. De tamanha area,havendo ainda muitos terrenos proprios que jamais foram requeridos, estão hoje sendo aproveitados, e bem mal, apenas umas centenas de hectares com varias culturas, quasi exclusivamente mantimentos. Afóra a area citada existem no districto terrenós na posse das principaes firmas que podem avaliar-se em 16 :000 hectares proprios para algodão, de que só uma pequena parte contém esta planta .


Todo exportado para portos nacionaes . Excepto 435 kilos que se destimnram a portos nacionaes
toda a producçáo foi exportada para Hamburgo.  São do conhecimento de todos os que um pouco se dedicam a questões coloniaes, os exforços empregados pelas varias nacionalidades para se emanciparem da esmagadora tutela da America do Norte que, só á sua parte, produz dois terços do algodão consumido nos mercados mundiaes. Desses exforços resultaram, como se sabe, entre outras, associações como a British Cotton Crowing Association, Associação Algodoeira Franceia e Associação Germano-Levantina . Nós, infelizmente, apesar de ainda hoje ocuparmos o quarto legar entre as nações coloniais, nada mais temos produzido, alem de muitos decretos e portarias, é crivei que muito patrioticas e bem intencionadas, mas, positivamente, de resultados quasi miles, entre os quass é justo destacar o decreto de 2 de Setembro de 1901, cujo prazo convem prolongar, no tocante a impostos e premios.

E, o que é mais: anullamos a propria iniciativa particular incitando os agricultores a venderem o algodão, de que carecemos em absoluto, á Allemanha, porque, não obstante os exforços empregados pelos Governos do districto e da provincia, e, ainda, os do Agente da Empreza Nacional de Navegação
para que esta Empreza faça a redacção de tarifas para o seu transporte, ella continha, certamente esquecida de que o Estado no intuito unico de a beneficiar sobrecarrega com maiores direitos de exportação as mercadorias transportadas pelas marinhas estrangeiras, continua cobrando 25 000 réis por tonelada de algodão emquanto a «Woerman Linie» leva só iz ooo réis. E, como se fóra pequeno o incentivo á exportação para o Estrangeiro, emquanto o algodão de Mossamedes é cotado nos mercados nacionaes a 350 réis o kilo, na praça de Hamburgo logra a cotação de 450 réis!

O facto de até agora nada termos produzido, comparativamente com o muito que poderia estar feito, obriga-nos a recuperar o tempo perdido, pois podemos e devemos, repetimos, só neste dristricto ultramarino, produzir todo o algodão de que carecemos para a nossa industria .

Evidentemente, sem a realização de tão dispendiosas como remuneradoras obras de arte, como barragens, canalizações, poços nos leitos dos rios, etc., sem a acquisição de charruas, desgranadeiras, arranca-cepas, machinas de apanhar algodão e enfardadeiras a vapor, que substituam quanto possível
o braço indigena, obras e acquisições estas que poderão custar, talvez, para cima de um milhar de contos, não é facil conseguir agricultar toda: a area que se torna indispensavel para conseguir esse desideratum.

Não ha no districto capitaes para empreza de tal magnitude, embora sobeje, por honra nossa, iniciativa para obras de maior vulto. Mas, o que os agricultores daqui não pódem fazer, tem a Companhia de Mossamedes (que pelas clausulas do seu contracto se obrigou a plantar cem mil hectares de algodão, tendo até á data, ao que nos dizem, bem mal tratados por signal, apenas mil hectares) obrigação de o fazer ou, pelo menos, tentar, organizando uma Companhia Algodoeira que tal nome mereça, com poucos ou nenhuns directores na metropole, tendo em Africa os technicos escolhidos de que careça, para muito trabalharem, como se tornaria necessario e, até ; uma fabrica para produzir o algodão tecido de que carecesse a Provincia de Angola.

Dissemos e não nos cançaremos de o repetir, que aquella Companhia incumbe essa iniciativa . Restando-lhe, segundo consta de dados ofplciaes que temos presentes, 1 :141 .9218883 réis
do seu capital, tem fundos de sobejo para o fazer, absolutamente dentro das clausulas do seu contracto . Gastou ella em Africa, vê-se de documentos ofliciaes que o affirma, a fabulosa somma de 1 :979 .953$117 reis . . . Em qué será facil provai-o, pois tudo, absolutamente tudo o que possue nos dois districtos do Sul de Angola, bem vendido, não produzirá cousa que se pareça com cem contos de reis. A Companhia da Zambezia, que oflìcialmente tem sido accusada de não cumprir o seu contracto, com um dispendio em África _de 1 .182:686 8oz réis, gastou cerca de cem contos, na occupação de alguns prazos -- regimen que muito desejaríamos vér applicado a Mossamedes e Huilla --; construiu um caminho de ferro de 28 kilometros de extensão ; adquiriu uma pequena esquadrilha de vapores para o rio Zambeze ; levantou explendidos edifcios, fabricas a vapor para tratamento do cairo e limpeza do arroz, oficinas, igualmente a vapor, que não se envergonham das que o Estado possue, fez uma estrada na qual, pelas grandes dificuldades do traçado gastou cerca de 17 contos, de Villa Bocage á Serra da Morrumballa, onde tem uma plantação de 73:000 pés de café das mais afamadas procedencias ; fez salinas, dedicou-se ao apuramento do gado bovino, de que possue cerca de cinco mil cabeças, e ainda lhe sobrou capital e iniciativa, apesar de pagar generosamente aos seus empregados talvez por isso mesmo, para ter em plena producção cerca de 400:000 coqueiros, 330 :000 plantas de agave e 4 :000 palmeiras de coconote, além de muito importantes culturas intercalares e viveiros de cacau, ficus elastica, castiloas, sansiviera cylindrica, sapium, kapok, etc., que occupam, destinados a experiencias, algumas dezenas de hectares. Afóra isto, no dizer duma auctoridade insuspeita, o consul de Inglaterra, ha longos annos residente em Moçambique, conseguiu o melhor typo deadministrador e o melhor typo de subordinado . . .

Assim tem procedido uma Companhia, com bons fundamentos, accusada de não ter cumprido o seu contracto. Que a Companhia de Mossamedes ponha os olhos nella ou nas suas congeneres d'aqueila fertilíssima e formosa região, e emprehenda a creação :d'uma Companhia Algodoeira de Mossamedes, adquirindo todos os terrenos proprios para algodão existentes no districto, o que julgamos poderá fazer com o dispendio maximo de duas centenas de contos, parte dos quaes poderia, talvez, pagar em acções . E abandone as pouco importantes plantações do planalto, a cerca de 500 kilometros do littoral, dos quaes 300. feitos por carros boers, estabelecendo-se em Mossamedes onde as plantações podem ser servidas pelos 176 kilometros de Caminho de Ferro já construidos e pelos portos e bahias com que a Natureza tão prodigamente dotou este districto . Todas as dificuldades com que lactam os agricultores do disiricto as tem ella no planalto, accrescidas ainda com as dos transportes aqui desconhecidas, e é positivo que as terras onde se estabeleceu são de inferior qualidade, comparadas com as do Munhino, Bibala, Bentiaba, Bambe, Coroca ou S. Nicolau.

Ao que nos consta, o Senhór Visconde do Giraul está envidando exforços para a creação d'uma companhia algodoeira . Oxalá elle, a Companhia de Mossamedes, os agricultores da colonia ou os industriaes da metropole portugueza, tão interessados no caso, o conseguissem! mas, emquanto tal se não fizer, que ao menos coadjuvem os exforços dos srs . Governadores deste districto e da Provincia para que as tarifas da Empreza Nacional acompanhem as da «Woerman Linie» e as cotações do algodão em Portugal não sejam inferiores ás de Hamburgo, pois é anti-patriotice além de irracional que as
colonias portuguezas exportem para o Extrangeiro productos que a nossa industria se vé forçada a adquirir por qualquer preço, onde os encontre. Taes são os nossos votos .
by
VIEIRA BRANCO 

*Coronel-medico, fundador das Cias Cuanza do Sul e Sul de Angol, Comendador da Ordem de NSCVV, Oficial da Ordem de Avis. Cavaleiro da Ordem de Cristo e da Coroa Real da Prussia.