Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Bernardino Fernandes Fraga

  Foto do livro de Paulo Salvador "Recordar Angola"



Quem foi Bernardino Fernandes Fraga, ou Manuel Joaquim de Carvalho? (conforme a situação assim mudava de nome)

Segundo descreveu o capitão Henrique Galvão era um individuo que tinha "muito amor ao dinheiro e pouco amor à vida" 

A sua história começou quando espancou até à morte um negro embriagado, por este ter estoirado numa acidental explosão,  a máquina de fabricar aguardente da fazenda  que desde 1900 possuia nas cercanias da serra da Chela. Processado criminalmente em Moçâmedes, face ao receio de ser condenado ao degredo, pôs-se em fuga levando consigo uma trouxa de roupa nas mãos e uma mala às costas e refugiou-se no Humbe, onde passou a usar o nome de Manuel Joaquim de Carvalho. E, para evitar vir a ser identificado pela autoridade, acabou internando-se no mato e passou a servir de intermediário no negócio entre brancos e negros, trocando fazendas por bois a alto preço e escoando em grande parte o negócio para os comerciantes de Moçâmedes. E assim, de fugitivo Bernardino Fernandes Fraga acabou por se transformar num destemido funante, ou seja em comerciante ambulante, desenvolvendo com o interior toda uma série de negócios, sem regras, desde pólvora a aguardente, que não raro acabava em banho de sangue. Eram os funantes os únicos brancos que se atreviam a internarem-se no mato para desenvolver trocas comerciuais entre a população branca e as tribos angolanas.

Mas a sua coragem e o seu poder de argumentação eram muito apreciados, incluso pelos negros. Viajava de dia dormia à noite para evitar ser detectado, e colocava uma toalha molhada na boca do seu cavalo para que ele não relinchasse e chamasse a atenção para a sua pessoa quando passava. 
Em 1911 corriam noticias da venda cartuchos roubados perto do Humbe,  e o Fraga, então dando-se pelo nome de Manuel Joaquim Carvalho, foi acusado e levado à presença de um  militar que o prendeu mas ao qual prestara alguns favores, e este, ao ter conhecimento da sua verdadeira identidade acabara por se quebrar ante a sua retórica, jamais se provando a história de tais cartuchos. 

Talvez devido aos favores, talvez devido à fama do Fraga até o crime acabou por ficar esquecido, ainda que tivesse perdido a licença de venda o que colocara mercê dos comerciantes de Moçâmedes . Travou relações com Cuanhamas, criou boas relações com o Rei Nande, a quem sucedeu Mandume seu sobrinho, verdadeiro terror para as forças portuguesas, símbolo do orgulho agressividade e poder cuanhama. Quando a guerra se espalhou pelo territorio apenas os funantes mantinham suas incursões perigosas, e o Fraga era um deles, até ganhou respeito do temido Mandume. E quando da guerra pela ocupação do Cuanhama os serviços de Fraga foram requisitados pelo General Roçadas que lhe pediu para disfarçado de comerciante, espiar Mandume e seus homens. Lá foi  montado no seu cavalo Sultão tendo o guerreiro o recebido a titulo de excepção já que na altura em que estavam proibidos os funantes. Alertado Mandume pelo Secretário que via no Fraga um espião, inda assim recebeu-o, e reconhecendo-lhe coragem perguntou-lhe: "Conta lá o que queres saber?", ao que Fraga  respondeu estar alí para uma proposta de pacificação, enquanto Mandume fingia acreditar. Conta-se que Fraga ao se afastar,  seu cão, o Turco teria se envolvido em luta feroz com o cão de Mandume acabando por o matar, ao que Mandume  terá dito: "Esta é que vai ser, mais tarde ou mais cedo a morte do Cuanhama". Fraga  demorar-se-ia mais três dias no acampamento findos os quais regressou ao Cunene, contudo emissários de Mandume mandam-no regressar a Ongiva, tendo um deles lhe segredado para o não fazer, que o iam matar. Mas Fraga foi, e, confrontando-se com Mandume  pergunta-lhe : "Sempre quero saber se és capaz de me matar?". Mandume abraçou-o e enalteceu sua coragem dizendo ter reconhecido nele o Fraga de outros tempos. Bastante mais tarde, em 1937, Bernardino Fernandes Fraga, meio cego, vivia perto de Capelongo, (Matala, Huila) saudoso do reino do Cuanhama e de Mandume . 

 Ainda sobre o mesmo Fraga, encontrei na Net este texto  que transcrevo a seguir:
"DEZEMBRO 1911 – A situação económica e social era porém bastante melindrosa. Além da fome, foi também um ano de epidemia de varíola na região dos Ganguelas. Os Ovimbundos vêem-se, na necessidade de se sujeitarem ao "domínio do branco" e de aceitarem o trabalho que mais lhe convinha nas suas explorações agrícolas, pecuárias ou industriais, bem como aos Serviços Públicos, principalmente na abertura ou arranjo das estradas. Os reis nativos já não eram mais do que pequenos chefes, com pouca ou nenhuma autoridade sobre as populações, as quais haviam evoluído lentamente, convivendo cada vez mais com os seus então companheiros europeus, também por vezes sujeitos à exploração de alguns outros "europeus", oportunistas gananciosos, sendo assim, em muitos casos, "companheiros da desgraça", dos maus caminhos, doenças e perigos do sertão! No BAILUNDO e no BIÉ os comerciantes pararam os seus negócios da borracha que havia sofrido uma grande baixa de preço. Uma outra alternativa, a produção de álcool, atra­vessava mau período; as Convenções Internacionais haviam proibido o seu fabrico no Ultramar, além da aguardente e de qualquer outra bebida alcoólica. Nas cercanias da serra da CHELA, desde 1900, um dos grandes fabricantes de aguardente de cana sacarina, era o fazendeiro BERNARDINO FERNANDES FRAGA, cujo negócio estoirara numa acidental explosão, pela qual condenou um dos seus empregados nativos, que por sua vez também rebentou com a muita pancada dada pelo enfurecido FRAGA! Fugindo à justiça ou às represálias, desaparecera para os lados do HUMBE, disfarçado de funante e tendo mudado o seu nome para MANUEL JOAQUIM DE CARVALHO! Bem depressa conquistara a simpatia dos nativos e mesmo a amizade dos sobas que então confraternizavam com os missionários e agentes alemães do Sudoeste e com os quais o anterior soba, NANDE, negociarão seu próprio território (1910)! FRAGA, ou por outra, CARVA­LHO, era sempre recebido com honrarias pelo sobrinho e substituto, o jovem soba, MANDUME.» in www.camacupa.com


Bernardino Fernandes Fraga esteve também representado em meio aos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca, qual troféu valioso que ostenta com orgulho. E  em 1938, quando da visita do Presidente da República Óscar Fragoso Carmona a Moçâmedes, vamos encontrá-lo em meio a esses velhinhos que ali se fixaram e de que nasceram outras gerações. Vejamos o que sobre Fraga vem referido no Boletim da Agência Geral das Colonias , XIV vol 16,  dedicado à visita do Presidente Carmona a Moçâmedes, em 8 de Agosto de 1938: 

"Além, na ponte, formava a tropa. Indígenas dançam. Vêem-se pretos do N’giva, da Namacunda, compondo um soberbo friso de bárbara beleza, quarenta cavaleiros cuanhamas, para os quais foi preparada uma aldeia. Os demais negros, agitam bandeirolas das cores nacionais. Quanto aos brancos que acudiam a receber o Chefe de Estado, formavam considerável multidão. Além da gente de Moçâmedes, viera povo do Lubango, e doutras partes. Estavam, por isso, cheias e apresentavam um rumoso e animado aspecto as ruas, todas embandeiradas e engalanadas de arcos e plintos com os escudos como os de Môngua  Naulila. Há expectadores até nos telhados, sôbre «marquises». Uma nota comevedora, - aponta um jornalista, é dada pelos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca que êles amam como um troféu valioso e que ostentam com orgulho. E no meio desses velhinhos, que são um grupo encantador de gente rústica e boa, gente da terra e que para a terra vive, que aqui se fixaram e de que nasceram outras gerações, há dois que, modestamente, como envergonhados ainda de terem sido heróis, ostentam no peito o colar da Torre de Espada do Valor, Lealdade e Mérito.  São Wellen Venter e Bernardino Fernandes Fraga, ambos portugueses, a quem a Pátria deve serviços inestimáveis nas campanhas do Sul de Angola."

 "Quanto aos brancos que acudiam a receber o Chefe de Estado, formavam considerável multidão. Além da gente de Moçâmedes, viera povo do Lubango, e doutras partes. Estavam, por isso, cheias e apresentavam um rumoso e animado aspecto as ruas, todas embandeiradas e engalanadas de arcos e plintos com os escudos como os de Môngua  Naulila. Há expectadores até nos telhados, sôbre «marquises». Uma nota comevedora, - aponta um jornalista, é dada pelos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca que êles amam como um troféu valioso e que ostentam com orgulho. E no meio desses velhinhos, que são um grupo encantador de gente rústica e boa, gente da terra e que para a terra vive, que aqui se fixaram e de que nasceram outras gerações, há dois que, modestamente, como envergonhados ainda de terem sido heróis, ostentam no peito o colar da Torre de Espada do Valor, Lealdade e Mérito.  São Wellen Venter e Bernardino Fernandes Fraga, ambos portugueses e a quem a Pátria deve serviços inestimáveis nas campanhas do Sul de Angola. Das janelas e varandas, pendem vistosas colgaturas."


Alguma bibliografia sobre Bernardino Ferndes Fraga:

- Boletim da Agência Geral das Colonias , XIV vol 16,  dedicado à visita do Presidente Carmona a Moçâmedes, em 8 de Agosto de 1938

-"Outras terras, outras gentes" de Henrique Galvão  

- Colecção pelo Império, "Sertanejos de Angola"Edição 98




Pesquisa e texto de MariaNJardim

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