Segundo descreveu o capitão Henrique Galvão era um individuo que tinha "muito amor ao dinheiro e pouco amor à vida"
A sua história começou quando espancou até à morte um negro, por este, embriegado, ter estoirado numa acidental explosã, com a máquina de fabricar aguardente na fazenda que desde 1900 possuia nas cercanias da serra da Chela. Processado criminalmente em Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe), face ao receio de ser condenado ao degredo, pôs-se em fuga levando consigo uma trouxa de roupa nas mãos e uma mala às costas e refugiou-se no Humbe onde passou a usar o nome de Manuel Joaquim de Carvalho, e, para evitar vir a ser identificado pela autoridade, acabou internando-se no mato e passou a servir de intermediário no negocio entre brancos e negros, trocando fazendas por bois a alto preço e escoando em grande parte o negócio para os comerciantes de Moçâmedes. E assim, de fugitivo Fraga acabou por se transformar em funante, ou seja em comerciante ambulante desenvolvendo com o interior toda uma série de negócios, sem regras, desde pólvora a aguardente, que não raro acabava em banho de sangue. Mas a sua coragem e o seu poder argumentação eram muito apreciados incluso pelos negros. Viajava de dia dormia à noite para evitar ser detectado e colocava uma toalha molhada na boca do seu cavalo para que ele não relinchasse e chamasse a atenção para a sua pessoa.
Em 1911 corriam noticias da venda cartuchos roubados perto do Humbe, e o Fraga, então dando-se pelo nome de Manuel Joaquim Carvalho foi acusado e levado à presença de um militar que o prendeu mas ao qual prestara alguns favores e este ao ter conhecimento da sua verdadeira identidade acabara por se quebrar ante a sua retórica jamais se provando a história de tais cartuchos.
Talvez deviso aos favores, talvez devido à fama do Fraga até o crime acabou por ficar esquecido, ainda que tivesse perdido a licença de venda o que colocara mercê dos comerciantes de Moçâmedes . Travou relações com Cuanhamas, criou boas relações com o Rei Nande a quem sucedeu Mandume seu sobrinho, verdadeiro terror para as forças portuguesas, simbolo orgulho agressividade e poder cuanhama. Quando a guerra se espalhou territorio apenas os funantes mantinham suas incursões perigosas e o Fraga era um deles até ganhou respeito do temido Mandume. E quando da guerra pela ocupação do Cuanhama os serviços de Fraga foram requisitados pelo General Roçadas que lhe pediu para disfarçado de comerciante para espiar Mandume e seus homens, lá foi montado no seu cavalo Sultão tendo o guerreiro recebido a titulo de excepção já que na altura estavam proibidos os funantes. Alertado Mandume pelo Secretário que via no Fraga um espião, inda assim recebeu-o e reconhecendo-lhe coragem perguntou-lhe: "Conta lá o que queres saber?" ao que Fraga respondeu estar alí para uma proposta de pacificação, enquanto Mandume fingia acreditar. Conta-se que Fraga ao se afastar, seu cão, o Turco teria sse envolvido em luta feroz com o cão de Mandume acabando por o matar, ao que Mandume terá dito: "Esta é que vai ser, mais tarde ou mais cedo a morte do Cuanhama." Fraga demorar-se-ia mais tres dias no acampamento findos os quais regressou ao Cunene, contudo emissários de Mandume mandam-no regressar a Ongiva tendo um deles lhe segredado para o não fazer que o iam matar. Mas Fraga foi e confrontando-se com Mandume perguntara-lhe : "Sempre quero saber se és capaz de me matar?» Mandume abraçou-o e enalteceu sua coragem dizendo ter reconhecido nele o Fraga de outros tempos.
Bastante mais tarde, em 1937, Fraga, meio cego vivia perto de Capelongo, (Matala, Huila) saudoso do reino do Cuanhama e de Mandume . Fraga esteve também representado, em meio aos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca qual troféu valioso que ostentam com orgulho. E em 1938, quando da visita do Presidente da República Oscar Fragoso Carmona a Moçâmedes, vamos encontrá-lo em meio a esses velhinhos que ali se fixaram e de que nasceram outras gerações. Vejamos o que sobre Fraga o texto a seguir refere:
"Além, na ponte, formava a tropa.
Indígenas dançam. Vêem-se pretos do N’giva, da Namacunda, compondo um
soberbo friso de bárbara beleza, quarenta cavaleiros cuanhamas, para os
quais foi preparada uma aldeia. Os demais negros, agitam bandeirolas
das cores nacionais. bQuanto aos brancos que acudiam a receber o Chefe de Estado, formavam
considerável multidão. Além da gente de Moçâmedes, viera povo do
Lubango, e doutras partes. Estavam, por isso, cheias e apresentavam um rumoso e animado aspecto as
ruas, todas embandeiradas e engalanadas de arcos e plintos com os
escudos como os de Môngua Naulila. Há expectadores até nos telhados,
sôbre «marquises». Uma nota comevedora, - aponta um jornalista, é dada
pelos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca que êles
amam como um troféu valioso e que ostentam com orgulho. E no meio desses
velhinhos, que são um grupo encantador de gente rústica e boa, gente
da terra e que para a terra vive, que aqui se fixaram e de que nasceram
outras gerações, há dois que, modestamente, como envergonhados ainda
de terem sido heróis, ostentam no peito o colar da Torre de Espada do
Valor, Lealdade e Mérito. São Wellen Venter e Bernardino Fernandes
Fraga, ambos portugueses e a quem a Pátria deve serviços inestimáveis
nas campanhas do Sul de Angola. "Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16
Ainda sobre o mesmo Fraga, encontrei na Net este texto que transcrevo a seguir:
"DEZEMBRO 1911 – A situação económica e social era porém bastante melindrosa. Além da fome, foi também um ano de epidemia de varíola na região dos Ganguelas. Os Ovimbundos vêem-se, na necessidade de se sujeitarem ao "domínio do branco" e de aceitarem o trabalho que mais lhe convinha nas suas explorações agrícolas, pecuárias ou industriais, bem como aos Serviços Públicos, principalmente na abertura ou arranjo das estradas. Os reis nativos já não eram mais do que pequenos chefes, com pouca ou nenhuma autoridade sobre as populações, as quais haviam evoluído lentamente, convivendo cada vez mais com os seus então companheiros europeus, também por vezes sujeitos à exploração de alguns outros "europeus", oportunistas gananciosos, sendo assim, em muitos casos, "companheiros da desgraça", dos maus caminhos, doenças e perigos do sertão! No BAILUNDO e no BIÉ os comerciantes pararam os seus negócios da borracha que havia sofrido uma grande baixa de preço. Uma outra alternativa, a produção de álcool, atravessava mau período; as Convenções Internacionais haviam proibido o seu fabrico no Ultramar, além da aguardente e de qualquer outra bebida alcoólica. Nas cercanias da serra da CHELA, desde 1900, um dos grandes fabricantes de aguardente de cana sacarina, era o fazendeiro BERNARDINO FERNANDES FRAGA, cujo negócio estoirara numa acidental explosão, pela qual condenou um dos seus empregados nativos, que por sua vez também rebentou com a muita pancada dada pelo enfurecido FRAGA! Fugindo à justiça ou às represálias, desaparecera para os lados do HUMBE, disfarçado de funante e tendo mudado o seu nome para MANUEL JOAQUIM DE CARVALHO! Bem depressa conquistara a simpatia dos nativos e mesmo a amizade dos sobas que então confraternizavam com os missionários e agentes alemães do Sudoeste e com os quais o anterior soba, NANDE, negociarão seu próprio território (1910)! FRAGA, ou por outra, CARVALHO, era sempre recebido com honrarias pelo sobrinho e substituto, o jovem soba, MANDUME.» in www.camacupa.com
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Ainda sobre Bernardino Fernandes Fraga fomos encontrar no Boletim Geral das Colonias , XIV vol 16, dedicado à visita do Presidente Carmona a Moçâmedes, em 8 de Agosto de 1938, a seguinte passagem:
"Quanto aos brancos que acudiam a receber o Chefe de Estado, formavam considerável multidão. Além da gente de Moçâmedes, viera povo do Lubango, e doutras partes.
Estavam, por isso, cheias e apresentavam um rumoso e animado aspecto as ruas, todas embandeiradas e engalanadas de arcos e plintos com os escudos como os de Môngua Naulila. Há expectadores até nos telhados, sôbre «marquises». Uma nota comevedora, - aponta um jornalista, é dada pelos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca que êles amam como um troféu valioso e que ostentam com orgulho. E no meio desses velhinhos, que são um grupo encantador de gente rústica e boa, gente da terra e que para a terra vive, que aqui se fixaram e de que nasceram outras gerações, há dois que, modestamente, como envergonhados ainda de terem sido heróis, ostentam no peito o colar da Torre de Espada do Valor, Lealdade e Mérito. São Wellen Venter e Bernardino Fernandes Fraga, ambos portugueses e a quem a Pátria deve serviços inestimáveis nas campanhas do Sul de Angola. Das janelas e varandas, pendem vistosas colgaturas.
Sobre esta visita, clicar AQUI
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Ainda sobre Bernardino Fernandes Fraga fomos encontrar no Boletim Geral das Colonias , XIV vol 16, dedicado à visita do Presidente Carmona a Moçâmedes, em 8 de Agosto de 1938, a seguinte passagem:
"Quanto aos brancos que acudiam a receber o Chefe de Estado, formavam considerável multidão. Além da gente de Moçâmedes, viera povo do Lubango, e doutras partes.
Estavam, por isso, cheias e apresentavam um rumoso e animado aspecto as ruas, todas embandeiradas e engalanadas de arcos e plintos com os escudos como os de Môngua Naulila. Há expectadores até nos telhados, sôbre «marquises». Uma nota comevedora, - aponta um jornalista, é dada pelos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca que êles amam como um troféu valioso e que ostentam com orgulho. E no meio desses velhinhos, que são um grupo encantador de gente rústica e boa, gente da terra e que para a terra vive, que aqui se fixaram e de que nasceram outras gerações, há dois que, modestamente, como envergonhados ainda de terem sido heróis, ostentam no peito o colar da Torre de Espada do Valor, Lealdade e Mérito. São Wellen Venter e Bernardino Fernandes Fraga, ambos portugueses e a quem a Pátria deve serviços inestimáveis nas campanhas do Sul de Angola. Das janelas e varandas, pendem vistosas colgaturas.
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