Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 7 de janeiro de 2012

Frank Newton: viagens de exploração ao distrito de Mossamedes (Mocamedes, Namibe, Angola)



 Pelo interesse que possa eventualmente vir a ter, trancreve-se passagem de um ensaio encontrado na Net e subordinado ao titulo: A ciência como arma de guerra



"...O uso da argótica tem a vantagem da duplicidade: oculta a verdade a estranhos e ao mesmo tempo revela-a aos confrades. Uma vez que revela a verdade (através da geografia imaginária, da nomenclatura errada, etc..), a questão ética fica salvaguardada. Carlos Almaça, actual director da secção zoológica do Museu Nacional de História Natural (Museu Bocage), tem acesso fácil a um útil arquivo histórico, o da instituição que gere, pelo que há a louvar a divulgação que dele tem feito, ao contrário dos naturalistas da casa que o precederam. Entre os raros a declararem ter recorrido a esse fundo manuscrito foram Albert Girard e Bettencourt Ferreira, para arquitectarem a biografia de F. Newton. Infelizmente, esses documentos - diários, cartas geográficas e fotografias - ficaram para sempre desconhecidos, quiçá mesmo dos utilizadores, pela razão simples de que a biografia de F. Newton é uma fábula colectiva, ou, se preferirmos, um conjunto de enunciações no modo da linguagem das aves, esse discurso alquimista que cria geografias, exploradores e espécies imaginários para advertir que na realidade há experiências em curso, e que é preciso proteger as novas espécies com o segredo, até plantas e animais fixarem os caracteres e constituirem populações. Ora indivíduos nestas circunstâncias podem ser usados de forma subversiva.
Ao longo da sua existência, o Museu Nacional de História Natural tem desempenhado acção
política de grande relevo, tal como acontece com instituições similares estrangeiras, incluídas as
espanholas. Desenvolveu um metódico plano de subversão de Estado, o que só demonstra o poder
do discurso da razão quando enunciado no modo da Arte. O documento mais impressionante para demonstrar a acção subversiva não é um manuscrito, sim um catálogo publicado nos Arquivos do Museu Bocage [Jorge]. Enumera as espécies exibidas na Sala do Museu Bocage, integrada na Exposição do Mundo Português - Lisboa, 1940. Esta exposição, o maior espectáculo de massa ocorrido em Portugal antes da Expo-98, é um episódio de autoglorificação do ministério fascizante de Salazar. Tinha como objectivo mostrar as riquezas naturais da metrópole e ultramar, exaltar os nossos homens ilustres, elogiar o nosso papel civilizador como Império Colonial Português. Em suma, um acontecimento de carácter colonialista e nacionalista.

O mais notável na Sala do Museu Bocage não é o que foi exibido, sim o que não foi. O público
não pôde apreciar a Hyalonema lusitanica, uma esponja de profundidade vulgar na foz do Sado, em
Setúbal, embora ainda não tenha sido demonstrada a existência de uma população; nem o Macroscincuscoctei e Tarentola gigas, répteis exclusivos de Cabo Verde, que demonstram aspectos fundamentais da biologia em espaço insular, como o gigantismo e o melanismo; não foi exibida nenhuma das duzentas e cinquenta espécies descritas por Bocage e nenhuma de Baltasar Osório. Para
máximo espanto, não foi mostrado um único exemplar de Chioglossidae, família de salamandras
endémica de Portugal e Espanha, incluídos os quioglossos de Ávila e do Alentejo, mais conhecidos
por Ghioglossa lusitánica (Guedes & Peiriço, 1998).Não foi exibida uma só espécie característica do espaço português ou representativa do papel civilizador de Portugal no mundo, pelo contrário. Em vez de nacionalista, a Sala do Museu Bocage apresentou-se o mais internacional possível, só exibindo espécies cosmopolitas, algumas de distribuição transcontinental, e todas elas descritas por estrangeiros. Para acentuar o anti-colonialismo, foram apresentadas numerosas espécies brasileiras, porque, à data, entre as antigas colónias portuguesas, só o Brasil era um país independente. Outro manifesto anti-colonialista, e que podemos até considerar atentado directo contra Salazar, foi o facto de a avifauna de Cabo Verde estar representada por quatro espécies que nenhum catálogo ornitológico menciona para o arquipélago: Mettalococcyx smaragdineus, Halcyon cemicaerulea, Halcyon dryas e Corvus umbrinus. Como foi possível tanta audácia? Havia retaguarda militar a suportar a declaração de guerra científica.

Em Portugal, a maior parte das revoluções deve-se aos militares. Quem convidara Artur
Ricardo Jorge, então director do Museu Bocage, a participar na Exposição do Mundo Português,
tinha sido um capitão, que anos mais tarde viria a celebrizar-se com a Operação Dulcineia, classificada por Salazar como acto terrorista. Esse militar, Henrique Galvão, era um naturalista, profundo conhecedor de África, acerca de cuja História Natural e antropologia deixou vários livros. Consistiu a Operação Dulcineia no rapto do paquete Santa Maria, que a bordo levava perto de mil ocupantes. O célebre acto de terrorismo foi empreendido com apenas meia dúzia de agentes subversivos, e iniciou-se em área de influência espanhola, a Venezuela. É falsa a asserção vulgar segundo a qual Portugal e Espanha estiveram sempre de costas voltadas, tal como é falso o provérbio português de que De Espanha, nem bom vento nem bom casamento.

Posto isto, é natural que a primeira biografia do juvenil Francisco Newton se enuncie na melhor
tradição científica de guerra. Cito literalmente Júlio Henriques:

«O Sr. Frank Newton visitou algumas colonias portuguezas da costa occidental da Africa e ahi
colheu plantas. Começou os seus trabalhos de exploração em 1880, principiando em Mossamedes, seguindo para o Giraul, visitando em julho a região da Wellwitschia e as margens do Rio Coróca. Em agosto, seguindo para o interior, passou por Giraul, Pedra Grande, Monhino, Capangombe. N’este mesmo anno herborisou no Bumbo, subiu á Serra de Chella, foi á Huilla, ao arraial de Cayonda, às povoações de Maconjo, Tampa e aos terrenos calcareos de Quitibe e Pomangala. De Mossamedes seguiu por mar para Porto Alexandre, e d’ahi foi de novo em janeiro de 1882 ao Coróca. Em abril partiu para Humpata e foi na companhia do padre Duparqeut até ao Humbe, seguindo por Chimpumpunhime, Hai, Gambuc, visitando os morros do Tongo-Tongo, de ferro
magnetico, e Xicussi na margem do Caculo-Bale. Do Humbe seguiu com uma expedição dirigida por Erikno para caçar elephantes e avestruzes ás margens do Cunene até Camba, Mullondo e Quipundo, indo então ao paiz dos Otchiaviguas, d’onde se dirigiu para as cataratas do Cunene, voltando em agosto a Mossamedes. Em setembro voltou ao Humbe e atravessando o Cunene chegou até Donga. Em outubro, atravessando de novo o Cunene, encontrou-se com Lord Mayo, em cuja companhia foi até Mossamedes. Em 1883, não chegando a bom caminho uma expedição belga á qual se tinha aggregado, apenas colligiu plantas em Giraul, Monhino e Biballa. Vê-se que não foi pequena a area explorada, e que a collecção formada deve offerecer interesse consideravel. O catalogo das plantas colhidas será publicado ao passo que forem sendo estudadas. Na parte que hoje é publicada são já mencionadas algumas especies novas».

«Frank», «Wellwitschia», «Erikno», «Duparquet», etc., são casos de cabala fonética, cujo objectivo é fácil de compreender, se declarar que é falsa da primeira à última linha esta nota biográfica de Francisco Newton. E contudo ela é verdadeira da primeira à última linha, se ignorarmos o biografado.

Júlio Henriques redigiu um retrato-robot do explorador em geral, aproveitando fragmentos
de biografias de outros exploradores, portugueses e estrangeiros: do filho de Andersson,
que acompanhou Erikson e o botânico Duparquet desde a Damaralândia à Huíla (Viagens pela
Cimbebásia); de Padre Antunes, discípulo do Reverendo Duparquet, que fundou com este a Missão
da Huíla; de Capelo e Ivens (De Angola à Contracosta) e Serpa Pinto (Como Eu Atravessei a África),
de Van de Velde e Stanley (The Congo and the Founding of its Free State), de Lord Mayo (De
Rebus Africanis), etc.

Os naturalistas disparam rochas, animais e plantas uns contra os outros. Arma usada também
foi a Certhilauda duponti var. lusitanica, de que fala Baltasar Osório na sua tese doutoral, para
confirmar a teoria de que animais transportados para longe do seu habitat sofrem modificações
suficientes para poderem ser descritos como novas espécies ou raças. Tudo isto é linear, excepto
que em Portugal não existe nenhuma população de Certhilauda duponti. Foram coligidos três
únicos exemplares na Quinta do Alfeite. Em Espanha, sim, existem populações dessa ave canora,
hoje chamada Chersophilus duponti, na região do vale do Ebro, Granada e Almeria.


A ciência como arma de guerra

ENSAYOS
A CIÊNCIA COMO ARMA DE GUERRA
María Estela Guedes
Associação Portuguesa de Escritores. Centro Interdisciplinar de Ciência,
Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa.
Asclepio-Vol. LII-1-2000

Para saber mais, consultar tambem AQUI

1 comentário:

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