Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 5 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: o edifício da Alfândega



Postal com carroça puxada por manada de bois tendo por fundo  o edifício da Alfândega ainda  em construção. à esq, e por detrás do edificio da Alfândega, na Rua dos Pescadores, a «água furtada» do edifício de  1º andar da familia Zuzarte Mendonça onde (actualmente, no rés do chão, fica o Museu Etnográfico do Namibe). Foi Hotel Gouveia 

Idêntico ao anterior

Postal  com edificio da Alfândega e Telheiro
Postal com edificio da Alfândega de Mossãmedes e Telheiro, do livro " CAÍQUES DO ALGARVE NO SUL DE ANGOLA ", de ALBERTO ÍRIA.
A ALFÂNDEGA DE MOÇÂMEDES TINHA SIDO CRIADA POR DECRETO DE 18/02/1851, MANDADO SUSPENDER EM 1854, PERANTE A CONSULTA DO CONSELHO ULTRAMARINO DE 19/O6/1953. O GOVERNO GERAL AO MESMO TEMPO QUE QUE PUBLICAVA A ORGANIZAÇÃO ADNINISTRATIVA DA PROVÍCIA, POR DECRETO DE 07/11/1856 ( MOÇÂMEDES, HUILA, BUMBO E GAMBOS ) , PELA PORTARIA DE 492, 02/03/1857, ESTABELECER A ALFÂNDEGA DE MOÇÂMEDES, CUJO PORTO FICAVA ABERTO AO COMÉRCIO DOS NAVIOS DE TODAS AS NAÇÕES...- ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELNER

Foto preciosa: Edificio da Alfândega de Moçâmedes, vendo-se em frente os telheiros onde ficavam arrecadadas as mercadorias, e também a linha férrea por onde deslizavam as vagonetas mo seu vai-vem entre a ponte, o Piquete da Guarda Fiscal e o edificio






Moçâmedes 1865.

Conforme  Manuel Julio de Mendonça Torres na sua obra dedicada a Moçâmedes, no periodo entre 1860 e 1879 a vila já contava  com os seguintes edificios públicos:  Igreja de Santo Adrião, começada a construir em 27.07.1849 com o lançamento da 1ª pedra;  a Fortaleza de S. Fernando e a de Capangombe;  o Palácio do Governo; a Alfândega; o Hospital; o Matadouro; o Cemitério; o Obelisco a Sá da Bandeira; o Jardim da Colónia; já estava feito o traçado e os arruamentos;  a primeira ponte de caes; a estrada para Capangombe.  Este periodo correspondeu ao dos Governadores António de Castro, Fernando Leal e Joaquim Graça. Em 1868  havia as Ruas paralelas da Praia do Bonfim (onde ficavam a Alfândega e os CTT),  a Rua dos Pescadores, a Rua do Alferes,  a Rua Calheiros e a Rua BoaVista. As transversais eram as ruas dos Prazeres e de S. João, que cortavam a da Praia do Bonfim;   a Rua da Alegria e a Rua Bom Jardim que atravessavam a Rua Calheiros;  a Rua Formosa que cruzava com a Boavista;  e as Travessas de Santo António, Cancela, da Alfândega e Flores, que partia da Rua da Praia do Bonfim e terminavam na Rua Calheiros.

No traçado moderno da vila, em forma quadriculada ou tabuleiro de damas, predominava a linha recta. A maioria dos prédios eram de um só piso, vendo-se já neste período, entre 1860 e 1879, ou no principio do seguinte,  duas casas construídas de 1º andar, a de João Duarte de Almeida, e aquela onde morava e tinha escritório José Júlio Zuzarte de Mendonça, ambas na Rua da Praia do Bonfim.  Sobressaia o Palácio do Governador, cuja frontaria alta rasgava três janelas de sacada.
 As ruas encontravam-se por empedrar e ainda sem iluminação pública, o que iria acontecer no período imediato.  Começou neste período a cuidar-se da arborização das praças e ruas da vila.  Também nesta época começaram as plantações de "eucaliptos globulus"
e outras palmeiras, segundo Costa Cabral, por iniciativa de Lapa e Faro.

João Chagas, jornalista exilado em Moçâmedes, dizia na sua obra "Diário de um Condenado":
 "...Mossâmedes  não sendo uma colónia próspera , não fornecia borracha, marfim,  cera, café, produzia em comparação belas e saudáveis crianças que toleravam o sol ardente, e o interior das casas  da população branca, pintadas a cal, oca, anil, e vermelhão mantêm quadros e móveis tradicionais dos interiores das famílias portuguesas."

  .
 
 Moçâmedes em gravura de M Moraes


 Figura da época onde se pode ver, à esq. o edifício da Alfândega . Nesta altura a povoação começava a tomar forma, desenhando-se já com plantação de coqueiros, aquela que iria ser a futura Avenida D. Luis, que após a implantação da República em Portugal, em 1910, mudaria o nome para Avª da República.  Sobre a denominação Avenida D. Luis presente em postais antigos de Moçâmedes, sabe-se que D. Luis herdou a coroa em Novembro de 1861, e que quando infante serviu na Marinha e visitou a África Portuguesa. Sabe-se também que Moçâmedes, entre 1 de Julho e 27 de Setembro de 1907, recebeu a visita de um  Principe, o Principe Dom Luís Filipe, que visitou as colónias portuguesas de São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Cabo Verde, e as colónias britânicas da Rodésia e África do Sul. A dificuldade de aceder a fontes que atestem qual D. Luis emprestou o nome à Avenida de Moçâmedes, leva-me a crer que foi foi D. Luis,  que em 1861 sucedeu ao seu irmão D. Pedro V, por este não deixar descendência. Era um homem culto, de grande sensibilidade artística, poliglota, respeitador escrupuloso das liberdades públicas. Do seu reinado merecem especial destaque a abolição da pena de morte para os crimes civis, a abolição da escravatura no Reino de Portugal.




 
Neste postal, à esq., por detrás dos barracões, o edifício da Alfândega


 Aqui o edifício da Alfândega surge em parque encoberto pelos coqueiros, tendo à sua frente, em plena Avenida um pavilhão, que se pressupõe ser um armazém para mercadorias em trânsito


Uma perspectiva da cidade, onde se pode ver, ao fundo da Rua que mais tarde seria a da Praia do Bonfim, o edifício da Alfândega. De arquitectura clássica, como era comum na época em edifícios públicos, ocupa todo um quarteirão; houve o cuidado do dotá-lo com 3 frentes, com portal encimado por frontão triangular, para melhor enquadramento e perspectiva


Foto de Moçâmedes que se presume seja do início do século XX, onde se pode ver, imponente, o edifício da Alfândega, com frente para a Rua 4 de Agosto e Para a Rua da Praia do Bonfim e Av. da República .
Por esta altura já haviam sido retirados os antigos barracões ...

Este postal de Mossâmedes/Moçâmedes permite ver parte do edifício da Alfândega e da Rua perpendicular ao mar, a 4 de Agosto


Esta é a Praça Leal, tendo no centro o chafariz. Aqui podemos ver a parte lateral do edifício da Alfândega, onde funcionaram os primitivos Correios.

Datado de 1905, este postal mostra-nos o belo Piquete da Guarda Fiscal, de arquitectura romântica, que funcionou em conjugação com os serviços de Alfândega até meados do século XX, e encontrava-se ligado  à ponte de embarque/desembarque através de carris de ferro sobre os quais rolavam vagonetas que faziam o transporte das mercadorias.  Por este Piquete passavam, pois, pessoas e  mercadorias. Acabou desmantelado. O edifício da Alfândega fica por detrás (vê-se ao fundo), do outro lado da Avenida. À dt, um dos  Barracões que à época existiam na Avenida.

 A foto regista o momento da passagem pelo antigo Piquete, em 1 de Outubro de 1905,  já de regresso a Luanda,  do Conselheiro Governador Geral de Angola,  Dr. Ramada Curto,  após ter assistido à inauguração  da Estação principal do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes  , realizada em 28 de Setembro de 1905,  procedido à assinado a acta do assentamento da primeira pedra no cunhal leste da  referida estação, e participado num copo d'água que lhe foi oferecido na povoação do Saco, pela comissão de festejos composta de comerciantes e agricultores de Moçâmedes. Registe-se que em 29 de Setembro de 1905 deu-se a partida do primeiro comboio de Moçâmedes ao Saco, conduzindo os Exmos. Snrs. Conselheiro Governador Geral, Governador do Districto e Engenheiro Director dos Caminhos de Ferro de Loanda e convidados.  Ainda que o ano do lançamento da construção do Caminho de Ferro de Mossâmedes fosse em 1905,   a autorização do Governo remonta a carta de lei de 1890.  Esta visita ocorreu numa altura em que problemas graves, internos e externos, ocorriam tanto no Portugal metropolitano como no além-mar africano.    Estava-se num período crucial da história portuguesa (ver AQUI ), atravessada por uma grave crise política, social e económica, que coincidia com a decadência da Monarquia e a alvorada da República, em que a tutela portuguesa no imenso território de uma África cobiçada e considerada necessária ao progresso europeu, era colocada em cheque.  O pequeno Portugal tinha de se haver contra o Golias germânico, entre outros. A coabitação, a dominação e a influência dos Portugueses, por antigas que fossem, podiam a todo o momento ser contestadas pelos seus súbditos, vassalos e vizinhos.  As revoltas no sul de Angola haviam sido de alguma forma torneadas ou ignoradas, mas não resolvidas, como os grandes revezes sofridos  em Setembro de 1904 pelos expedicionários portugueses no Cuamato, em que um guia ovimbundo que fora deportado para o Humbe os levara a cair numa emboscada em Umpungo. Em 2 de Janeiro de 1904 dera-se revolta dos hereros contra os colonizadores alemães na então África do Sudoeste, atual Namíbia tendo a resposta alemã sido avassaladora.

No dia 25 de Setembro de 1905, o jornal português O Século, recordava assim o dia 25 de Setembro de 1905:
...É hoje dia de luto nacional e mui principalmente para as armas portu­guesas, por passar o primeiro aniversário do trágico massacre das nossas forças na margem esquerda do Cunene (...). Atacados de surpresa por forças cuamatas muito superiores, não temendo a aventura perigosa que se ia travar, mal imaginando o seu fim tenebroso, oficiais e praças, numa comunhão de pensamento, somente se lembraram de que, ali, no interior do sertão, repre­sentavam a honra do País, que deviam conservar imaculada, e o nome portu­guês, que tinham de levantar bem alto.


Na mesma página de O Século, na parte reservada aos sufrágios, podia ainda ler-se uma comunicação lacónica: "...Amanhã, pelas 11 horas da manhã, na igreja dos Mártires, rezar-se-á uma missa por alma do tenente Luz Rodrigues, outra vítima da catástrofe, missa a que tencionam assistir os oficiais do batalhão de caçadores de el-rei, a que o desditoso extinto pertenceu. (...)".                             

(Para mais informação, ver AQUI)

Piquete da Guarda Fiscal, de traça romântica

 


Vista da Praia






 O movimento da ponte e da baía de Moçâmedes, em dia de corridas de natação. à dt da ponte e por detrás desta, vê-se parte do edificio da Alfândega

  O movimento da ponte e da baía de Moçâmedes
 O movimento da ponte e da baía de Mossâmedes
 O piquete da Guarda Fiscal e a ligação à ponte de embarque/desembarque  através de carris de CF
 
 Vista aérea da cidade, podendo ver-se o edifício da Alfândega, à direita. À esq, o Coreto. Foto de 1935
 
 A Alfândega em 1935, e Obelisco ao General Sá da Bandeira, o liberal progressista que um século antes , em 1836, mandou publicar o decreto de abolição  do tráfico de escravos. De início este Obelisco esteve no centro de uma Praça no terreno onde se encontrava a Escola Portugal (Escola 55, de Fernando Leal). Na década de 1940 o Obelisco passou para a Praceta onde ainda hoje se encontra, perto do antigo Bairro da Facada, porém tendo sido vandalizado após 1975 já não apresenta as respectiva dedicatória.

Panorâmica com o edifício nos anos 1960




  O edifício da Alfândega de Moçâmedes

In  "Conspecto Imobiliario do Distrito de Moçâmedes",  no ciclo de 1860 a 1879, Manuel Júlio de Mendonça Torres refere:
"...Pinto de Balsemão no relato da sua viagem a Moçâmedes, declara em ofício datado de 27 de Março de 1868  que "...o edifício da Alfândega, primorosamente acabado, obra do benemérito Governador Leal,  era dos mais regulares, elegantes e sólidos que havia em toda a  Província" lamentando porém, que não lhe correspondesse o movimento que seria para desejar, "visto que estava quase sempre ermo de fardos".

Mendonça Torres entende que não era exacta a afirmação de Balsemão, porque no ciclo que estava a estudar, "o tráfico distrital havia-se revelado, por essa época, francamente animador" , "o comércio estava então notoriamente a prosperar, pois que assim indicavam, sem possível contestação, o movimento exportador algodoeiro, e as condições favoráveis, nunca antes verificadas, da sua balança mercantil.   "

Quanto ao  edifício da "Alfândega", como refere Mendonça Torres  quec o plano e execução ficou a dever-se ao Governador Fernando tendo começado a construir-se em 1863, no primeiro ano do seu segundo governo, sendo a sua construção ultimada em Abril de 1868, no tempo da administração do governador Joaquim Graça.

Referindo-se a notícias sobre o assunto no livro de Brito Aranha, "Memórias Histórico- Estatísticas" a pág. 273.

"...O edifício da "Alfândega" ocupa uma área de 1081 metros quadrados, tendo de frente 23 metros, de fundo 47 e de pé direito, 6. É de alvenaria, mas as portas e janelas têm guarnecimentos de cantaria. Sustenta-o uma cobertura de telha. Consta de cinco salas e dois grandes armazéns com um pátio no centro.  A porta da entrada olha para a baía, e a da saída para a Praça da Colónia. Paralelamente ao edifício levantou-se um telheiro de madeira que já não existe. Media este 9 metros de largura e 23 de fundo apoiados em 12 pilares de madeira assentes em socos de cantaria. Servia o telheiro para abrigae os escaleres da Alfândega e as mercadorias que houvessem de embarcar a horas em que a repartição estivesse fechada.

A construção da Alfândega custou, aproximadamente,  12.000$000 réis."


Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.





 Zona de depósito de caixas de madeira, barris, etc

Estas fotos foram retiradas do Instituto de Investigação Científica Tropical via Arquivo Histórico Ultramarino. Trata-se, como se pode ver, da zona da Alfândega destinada ao armazenamento ao ar livre (Praia das Miragens) das mercadorias destinadas a embarque/desembarque.

Ainda sobre o edifício da Alfândega de Moçâmedes,  debrucemo-nos um pouco sobre a "arquitetura classicizante das obras públicas" no quadro da colonização portuguesa:


"...As edificações das obras públicas, ou nelas inspiradas, dentre um leque de funções muito abrangente, apresentam alguns exemplos mais notáveis na área dos transportes (alfândegas, estações de caminho-de‐ferro), nas sedes municipais (câmaras), e em edifícios governamentais, quartéis, tribunais, prisões.

As alfândegas representam um tema fundador da moderna fiscalidade e do controlo de espaços portuários e comerciais, essencial no desenvolvimento urbano. Daí a sua presença constante, quase sempre seguindo um modelo estilístico classicizante.  (...) Refiram‐se ainda as obras da Praia, de cerca de 1880, de Benguela, de 1870, remodelada em 1914 com estruturas metálicas, e com ponte‐cais de 1876, de Moçâmedes, de 1863‐1866, e de Sá da Bandeira, de 1900‐1905. As estações de caminho‐de‐ferro urbanas foram outro tipo de construção sistematicamente desenvolvido nesta época, a par da implantação das ferrovias ao longo do território, e símbolo acabado da modernização dos sistemas de transportes, adotando muitas vezes o desenho classicizante. Exemplifiquem‐se com as de Moçâmedes, obra de frontão e vãos de arco redondo, de Benguela e de Sá da Bandeira, de 1905‐1923 esta última, pelo arquiteto Humberto Trindade. " DAQUI


http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2012/02/alfandega-de-mossamedes-mocamedes.html


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