Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes. BIOGRAFIA

O busto de Bernardino
"Museu Etnográfico da cidade do Namibe"

No Livro " Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes" do Padre José Vicente (Gil Duarte), em ponto 2. e, " Itinerários de uma Juventude Audaciosa",  fomos encontrar os seguintes elementos biográficos referentes quer à genealogia  de Bernardino, quer ao seu percurso de vida, intelectual e político, decorrido quer em Portugal quer no Brasil, até ao momento em que , no ano de 1849, aos 40 anos de idade,  decide partir para Angola:

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, natural de Nogueira do Cravo,  era filho de Alexandre Campos de Abreu e Vasconcelos e de D. Rita de Figueiredo, neto materno de Francisco Abranches Freire de Figueiredo e de D. Josefa Maria Abreu e Castro, da Casa da Torre de Nogueira do Cravo, e neto paterno de Manuel Nunes de Campos e D. Joaquina de Campos.

Bernardino tinha mais um irmão, de nome Alexandre Freire de Figueiredo Desconhece-se o registo de nascimento de Bernardino mas conhece-se o de baptismo , pois no “Livro de  Baptizados, Recebimentos e Defuntos  da Freguezia de Nogueira do Cravo, de 1806 a 1830” guardado no Arquivo da Universidade de Coimbra, encontrámos o assento seguinte: “Em os quatorze dias do mês de Dezembro de de mil oitocentos e nove, foi baptizdo Bernardino, solenemente, filho legítimo de Alexandre Nunes e de sua mulher, D. Rita de Figueiredo, desta vila de Nogueira, neto paterno de Manuel Nunes de Campos, natural de Sobral, Bispado de Viseu,  e de D. Joaquina, desta vila, e materno de Francisco de Abranches, de vila de Avô, , e de sua mulher, A. Josefa Maria, do mesmo lugar e vila. Foram padrinhos Bernardino José e sua filha Ana Julia, do lugar de Santa Ovaia, e para constar fiz este assento. Dia, mês e era ut supra. O Prior – José Joaquim Coelho de Faria.”

Dada a índole  profundamente religiosa da família, é de crer que, segundo os costumes tradicionais, Bernardino fosse baptizado pouco tempo após o nascimento. Aceitamos pois a hipótese (muito provável)  de Bernardino ter nascido no próprio ano de 1809.

Em Nogueira do Cravo  Bernardino  terá feito os primeiros estudos, modelado o seu carácter segundo os princípios cristãos. Foi depois para Coimbra com o objectivo de se formar em Direito. No “Livro de Matrículas do Primeiro de Leis” Ano , do Arquivo da Universidade de Coimbra, referente ao ano de 1829, nele se lê a folhas 30: “Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, filho de Alexandre Nunes de Campos de Abreu, natural de Nogueira do Cravo,  comarca de Arfanil,  foi admitido à matrícula do primeiro ano jurídico em 31 de Outubro de 1829.”  Não aparece já matriculado no 2º ano. Porquê?

Sabe-se que, anos atrás em Janeiro de 1818, se fundara no Porto a Associação secreta denominada de Sinédrio par fomentar a Revolução Liberal. Pode dizer-se que era o início da discórdia entre liberais e miguelistas que atirou o país para a sangrenta guerra civil. Os acontecimentos foram-se  desenrolando. Bernardino alinhava por D. Miguel associando-se ao coro dos que clamavam:  Real!! Real!! Por El-Rei de Portugal o Sr. D. Miguel  I !

No dicionário histórico de Portugal, de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues faz-se referência a Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro : “ Era estudante de Coimbra, quando, levado levado pelos princípios e sentimentos de sua família, se alistou nos voluntários realistas, seguindo o partido de D. Miguel, e fazendo toda a campanha às ordens dum seu próximo parente, general das armas da província.”

Deixou de ser estudante para se alistar como tenente de caçadores do exército de D. Miguel. Mas não perdeu o amor aos livros, às letras. Chegaria até a publicar várias obras, como  adiante veremos.

Em 26 de Maio de 1834 – tinha Bernardino 25 anos de idade – assinava-se a Convenção de Évora-Monte, de que D. Miguel e o seu partido saiam derrotados. O monarca via-se coagido a sair de Portugal no prazo de quinze dias, tendo de comprometer-se a nunca mais voltar, nem a interferir de qualquer forma, na vida política do país. Os seus regimentos seriam dissolvidos. D. Miguel partiu para o exílio no dia 1 de Junho.

Bernardino passou a viver em Lisboa, na clandestinidade. Na clandestinidade se publicava o jornal “Portugal Velho”, defendendo ainda os princípios do absolutismo. Bernardino fez-se jornalista, danso a esse jornal o valioso estímulo de uma colaboração assídua. Mas era impossível remar contra a maré. Em Portugal acabara a guerra mas não principiara a paz. Joaquim António de Aguiar – O Mata-Frades – então Ministro da Justiça, extingue as Ordens Religiosas, Conventos e Mosteiros, por decreto de 28 de Maio de 1834. Os partidos políticos fomentam discórdias. D. Pedro morre a 24 de Setembro desse mesmo ano. D. Maria II consegue sustar tremendas lutas políticas que se haviam de prolongar durante 19 anos. Não logram bons resultados várias tentativas miguelistas. A agricultura, o comércio, a industria, definham. Portugal vive um período difícil.

Desalentado, Bernardino resolve emigrar para o Brasil. Sai de Lisboa em 1839. Fixa-se em Pernambuco. Renuncia a toda a actividade política. Dedica-se exclusivamente ao ensino no Colégio Ternambucano, regendo as cadeiras de História, Geografia e Latim. Escreve livros de carácter didáctico, como a História Geral, em seis volumes. O Primeiro volume sobre a “História Sagrada do Antigo Testamento”; o segundo sobre a “História da Vida de Jesus Cristo” e dos Apóstolos, e História dos Judeus desde a dispersão stá aos nossos dias “; o terceiro a  “ História Antiga e Grega”; o quarto sobre a “História Romana e da Idade Média”, o quinto sobre a “História Moderna”; e o sexto sobre a “História de Portugal e do Brasil”.
Bastaria este trabalho para se aquilatar do esforço e da capacidade e da disciplina intelectual de Bernardino.  Mas o erudito professor não se ficou por aqui. Escreveu outros livros dos quais destacamos “Nossa Senhora de Guararapes – romance histórico, descritivo, moral e crítico”.  Este livro tem por fundo os encontros sangrentos entre portugueses e holande3ses, em 1648 e 1649, nos altos montes dos Guararapes, na região do Recife.

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro  impunha-se pelas suas qualidades, no Brasil. Mas o Brasil era já – ao tempo – um país independente. Bernardino sonha , cheio de saudades, com a sua pátria. Tanto mais que, em Pernambuco, as coisas iam mal desde 1817. Em 1844, na Assembleia Provincial de Pernambuco, propõe-se que “se expulsem da cidade (ou da província) todos os portugueses solteiros”- (E Bernardino era solteiro). E, 1947 arruaceiros espancam pelas ruas da cidade “quantos portugueses encontravam ou que supunham tais”. 

Mendonça Torres explica que, por esta altura, os portugueses eram conhecidos em Pernambuco pelo apodo de “marinheiros” , designação que lhes dava por injúria, zombaria e desprezo. As turbas, amotinadas, buscando-os por toda a parter, aos gritos impiedosos e ultrajantes de “Mata-marinheiros”, “não escape um só”, entravam, desenfreadas, nos estabelecimentos comerciais, arrombavam a machado em presença da autoridade, as portas das habitações; arrancavam-nos, indefesos, ao seio das famílias, feriam-nos ou matavam-nos com paancadas de chuços e golpes de facas e de baionetas: roubavam-lhes os haveres; e arrastavam-lhes pelas vias públicas os cadáveres lacerados, tintos de sangue.

Bernardino, repetimos, sonha com a sua pátria na província de Angola. E decide-se, e decide outros compatriotas a embarcarem para lá. Estava-se em Maio de 1849 – Tinha Bernardino 40 anos de idade.

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