Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 20 de março de 2012

MOÇÂMEDES, MOSSAMEDES (Actual Namibe) : texto de JOAO CABRAL PEREIRA LOPES E FARO. 18.02.1858


ANNAES DO CONSELHO ULTRAMARINO
PARTE NÃO OFFICIAL.

BREVE NOTICIA
SOBRE O CLIMA DE MOSSAMEDES,
PELO SR. JOAO CABRAL PEREIRA LAPA E FARO 


I. INTRODOCÇAO.

E Mossamedes uma possessão portugueza, que já pelo seu bom clima, já pelos seus productos, merece toda a attenção e estudo. Cumpria-me apresentar um trabalho satisfáctorio no tocante a topographia, geologia, hydrologia, zoologia, botânica e climatologia d'este logar; mas emprehender e desempenhar tarefa tão árdua não é para os meus limitados conhecimentos e falta de aptidão; alem d isto outras circumstancias concorrem a desfavorecer-me; por um lado, uma rebelde nevralgia me tem alterado a saúde; por outro, não havendo pharmaceutico n'esta villa, e tendo de preparar os remédios, tanto para o hospital como para a povoação, acho-me privado do tempo necessário para poder mostrar pelo menos os bons desejos de me dedicar aos estudos referidos.
A falta de meios também não é pequeno embaraço: como fazer observações meteorológicas sem instrumentos, analyses sem apparelhos e reagentes, estudos sobre os ires reinos da natureza sem os livros convenientes? Não tenho acanhamento de declarar taes misérias, porque entre nós é mal quasi geral. Entretanto, para não ficar de todo em falta, escrevi algumas linhas, rogando desculpa de sua insufficiencia.
TOPOGRAPHIA DO PORTO, VILLA E LIMITE
DE MOSSAMEDES. 

A villa de Mossamedes esta situada na costa Occidental de Africa, em 13° 12' latitude do sul, dista 177 milhas da cidade de Benguella, 390 de Loanda. Diante d'ella está o seu porto de mar, formado pela denominada “Pequena Bahia dos Peixes” ou “Angra do Negro”, o qual offerece bom abrigo e ancoradouro para poderem estar fundeados muitos navios de qualquer lotação.

A terra que fica ao sul c ao norte da entrada d'este porto é alta, cortada a pique, e assim continua até ao meio da bahia; apresenta-se depois uma extensa praia semicircular, onde principia um grande areial, que sóbe de pouco a pouco até se confundir com terreno alto e mais duro. No sul da dita praia se offerece bom desembarque, bem como ao norte, n'um sitio encostado á montanha, ao qual dão o nome de “Sacco do Giraul”; no meio d'esta mesma desagua o rio denominado “ Bero”que traz do interior um longo curso; chegando este a 10 milhas antes da sua foz, sae de uma embocadura estreta, e vae derramar-se n'um largo valle, que se estende até ao mar e que offerece grandes e bulias varzeas, constituindo quasi os únicos terrenos aráveis do limite da villa de Mossamedes, digo quasi, porque junto á embocadura de um outro rio chamado “GirauI”, que fica d aqui distante 8 milhas ao norte, existem também alguns terrenos aproveitáveis.

Os terrenos do dito valle devem a sua formação ás alluviões do Bero, as quaes, com as areias e lodo que comsigo arrastam, obstruíram o braço de mar que aqui existiu em épocas remotas. Estas alluviões dão-se na estação chuvosa, único tempo em que o rio. corre, depositando nas areias agua em abundância, a qual na estação secca se acha a pouca profundidade.

A terra dos lados do referido valle é alta e alcantilada; a que fica para o norte, algum tanto montanhosa e coroada de basaltos rolados, estende-se até ao rio.Giraul; a que se acha ao sul é mais plana, arenosa, offerece algumas humildes plantas, que parecem pertencer á família dos cactos, e se dirige até ao rio Croque, que d'aqui dista 80 milhas. Em diflerentes pontos d'eslas duas terras se apresentam algumas elevações notáveis pela singularidade de terminarem n'um plano horisontal, circumstancia que lhes fez dar o nome de =Mesas de Mossamedes=.
O litoral d'este logar é formado de terrenos stratificados, conservando horisontalmente e em ordem as camadas de sua formação. As referidas Mesas, resultantes da elevação destes mesmos terrenos, em consequência das revoluções por que tem passado a crosta do nosso globo, offerecem igual stratificaçào aos que lhes ficam inferiores; as camadas que os constituem são compostas de seixos ou basaltos rolados, de matérias arenaceas, de argila, de calcareos, em que se encontra uma infinidade de conchas fosseis, etc. Alem d'isto todas estas substancias se acham mais ou menos impregnadas de chlorureto de sódio; e deve notar-se que as chuvas, dissolvendo algum d'este sal, o vão depositar nos terrenos das várzeas, e os tornam um pouco salgados. A IO milhas de distancia da costa começam a desapparecer estes terrenos stratificados para se apresentarem outros atravessados por serras de granito e cheios de montes cónicos.
No areal já descripto junto á praia, ea duas milhas de distancia da foz do rio Bero para o lado do sul, se acha situada a villa de Mossamedes, a qual é formada de casas quasi todas abarracadas e edificadas sobre uma baixa planície de areia solta, onde se não vê uma arvore, ou outra qualquer vegetação a não serem dois pequenos coqueiros, que existem defronte da casa que representou de palácio do Governo. Caminhando d'aqui alguns passos para o sul, o solo sóbe, e toma altura que predomina a povoação; n'este logar elevado está collocada a fortaleza de S. Fernando, o palácio do Governo em começo, a igreja, o hospital e algumas casas em ruínas e abandonadas.

No valle já mencionado existe também um numero considerável de casas agrícolas, que se devem considerar como subúrbios da villa. Convém dividir o valle para mais clareza do que se seguir; a parte d'este que fica mais interior, e que mais se estreita entre as montanhas, tem o nome de Valle dos Cavalleiros; a parte que fica para o lado do mar offerece á direita do rio as várzeas da Boa Esperança, assim denominadas, e á esquerda as Várzeas dos Casados, e das hortas; entre o Valle dos Cavalleiros e estas várzeas existe ainda um areal innominado.
A villa de Mossamedes apresenta um aspecto desfavorecido tanto pela natureza como pela arte; entrclanto, em altenção ao seu clima, é de não pouco interesse. Ella quasi se pódc considerar para as doenças próprias da maior parte da nossa Africa Occidental omesmo que a cidade do Funchal para as affecções pulmonares dos paizes do norte. Muitos doentes, vindos tanto- de Loanda como de Benguella ou de outros pontos, cansados de padecerem com as febres e suas consequências, n'ella teem achado prompto allivio e restabelecimento.
Aqui a raça branca, mesmo exposta a trabalhos rudesj apresenla-se corada e robusta, e a sua prole não desmente a acção benéfica do paiz.
Finalmente é um clima, onde ha uma temperatura que não é excessivamente quente, frio nunca demasiado, manhãs com uma fresquidão agradável, uma atmosphera pura e livre de emanações miasmaticas, e em que poucas vezes se faz sentir humidade.


TEMPERATURA, HUMIDADE, NUVENS, CHUVAS, 
VENTOS, ALLUVIOES, TROVOADAS. 



Pouco ou nada poderei dizer sobre as circumstancias meteorológicas da localidade de Mossamedes, pelos obstáculos já expostos: se estes cessarem, e eu aqui permanecer, farei as minhas observações, as quacs, aindaque imperfeitas, como é de esperar, poderão talvez servir de ponto de partida para alguém organisar melhor obra. Entretanto direi alguma cousa sobre o que tenho podido conhecer com o simples auxilio dos sentidos.
A condição physica mais característica e influente num clima é a sua temperatura; segue-se depois o seu estado hygrometrico. Esta localidade, attendendo á latitude em que se acha, deveria offerecer uma temperatura mais própria das regiões intertropicaes; porém algumas circumstancias a modificam consideravelmente, a principal d'estas consiste nas virações reinantes de O. S. E. e S. O., e lambem do S.; o ar assim trazido de logares mais frios apresenta uma temperatura pouco elevada. A radiação solar, sendo ordinariamente forte das dez para as onze horas da manhã, é logo diminuída pelas ditas virações, que começam a estas mesmas horas, constituindo para o fim da tarde, e durante a noite, uma temperatura suave.
A acção benéfica d'estas virações não se limita só á diminuição da escala thermometrica. Partindo ellas do mar, c do lado do sul, onde já a evaporação é mais fraca, transportando um ar menos saturado de vapores de agua, é totalmente livre de emanações miasmaticas. Comtudo as referidas virações algumas vezes faltam para se apresentar calmaria ou vento norte, em occasião que as aguas db mar correm ao sul. É também frequente, durante a noite, soprar algum terral ordinariamente fraco. No mez de Maio costuma vir aqui um vento leste, cora tres dias de duração pouco mais ou menos, o quaj é muito notável pela sua grande elevação de temperatura, pela grande quantidade de poeira de que vem sobrecarregado, dando á atmosphera umaapparencia nebulosa, e pelo numero de insectos que comsigo arrasta; elle produz geralmente ura sentimento de oppressão e mal estar, mas nunca incommodos sérios, talvez pela sua pouca duração. Nas regiões que ficara debaixo do equador era cada anno duas estações húmidas, e duas seccas; aquellas dão-se na occasião dos equinoxios, e estas na dos solsticios; porém, nas localidades que ficam debaixo dos trópicos, ha uma só estação humida-e outra secca; d aqui resulta que nos logares situados entre o equador e qualquer dos trópicos, as duas estações húmidas se vão aproximando uma da outra á proporção que os mesmos logares se afastam do equador, e finalmente se convertem n'uma só; emquanto que ás duas estações seccas acontece o ir diminuindo uma até desapparecer, e augmentando a outra. Achando-se Mossamedes na latitude referida, o sol lhe fica perpendicular nos dias 3 de Novembro e 8 de Fevereiro; é n'esta occasião que tèem logar as duas estações húmidas, e costumando a primeira dar menos chuva que a segunda, as teem differençado em pequena e grande estação chuvosa.
Convém notar que uma grande parte das estações seccas é distincta pelas alternativas de temperatura, como: frio de noite, e calor intenso pelo meio do dia, circumstancia que, em taes climas, é das mais prejudiciaes á saúde. A este período se costuma dar o nome de estação fresca ou do cacimbo.
 
No heraispherio austral se offerece este período nos mezes de Junho, Julho e Agosto; sente-sc então em Mossamedes algum frio de manhã e de tarde, porém nunca calor intenso durante o dia.

Muitas pessoas em Angola estão persuadidas de que o período do cacimbo, offerecendo v mais humidade atmospherica, conslitue uma estação húmida, porque não consideram que então a humidade absoluta, isto é, aquella de que o ar está saturado, é minima; e, comquanto se sinta mais humidade, e o hygrometro a manifesta, o barómetro não desce, e mostrará que n'este mesmo período a atmosphera contém menos vapor de agua.

As chuvas nas estações próprias, sendo abundantes no interior d'este paiz, são comtudo raras no litoral, e quando aqui se dão vem impellidas de leste por trovoadas, e offerecem ordinariamente pouca duração. Por este tempo teem logar no rio Bero algumas alluviões, chegando muitas vezes de surpreza, era consequência de provirem de chuvas que longe caíram. Estas alluviões costumam inundar quasi todas as várzeas do valle descripto, depositam na superfície do solo uma grande quantidade de lodo que o fertilisa, e estabelecem no meio uma corrente talvez de 7 milhas de velocidade; porém esta força e abundância de aguas dura poucas horas. Alguns annos ha cm que estas cheias são pequenas ou faltam de todo, causando nos campos alguma esterilidade. Qual a causa das chuvas serem abundantes no interior, e escassas no litoral? Entendo que as virações téem poderosa influencia sobre este phenomeno; estas, segundo me consta, entram 7 léguas somente pela terra dentro, e tendo ellas uma temperatura pouco elevada, como já notei, tornam em todo este espaço a evaporação mais lenta. Alem d'isto, o ar das mesmas virações, adquirindo aqui maior caior, ganha também maior capacidade para receber os vapores da agua, os quaes, sendo ao mesmo tempo em pequena quantidade, não chegam a satura-lo.
Em Mossamedes raros são os dias em que durante as vinte e quatro horas a atmosphera não esteja mais ou menos nebulada, principalmente de manhã e de tarde, e alguns ha em que o sol não chega a descobrir-se. Observam-se estes últimos principalmente na estação fresca, apresentando-se algumas vezes com nevoeiros.


OUTRAS CONDIÇÕES HYGIENICAS DA VILLA E LIMITES DE MOSSAMEDES


A villa de Mossamedes consta actualmente de tres ruas direitas e de mediana largura; a primeira se chama rua da praia, e tem uma só fileira de casas, com a frente para o mar; a segunda tem o nome de rua dos Pescadores; e a terceira de rua do Alferes; estas ruas são parallelas com a praia do mar, cruzadas por outras tantas travessas, e offerecem um piso de areia solta algum tanto incommodo. Existem aqui sessenta e duas casas, das quaes uma grande parte são construídas de adobe, e outras de pedra ou de taipa; os seus telhados são arranjados de cal e areia ou de argamaça; alguns ha de palha, e raros de telha. Cada uma d'estas casas tem um quintal espaçoso com o seu competente poço de agua doce. Metade d'estas habitações pertencem a pescadores, e dentro d'ellas e dos quintaes se seccam e arrecadam grandes quantidades de peixe, bem como no mesmo logar se extrahe bastante azeite dos ligados do cação; d'aqui resulta que os resíduos e os líquidos que escorrem d'esles preparados, se constituem em focos de infecção.

A praia mais visinha d'esta povoação também não é limpa; aqui se escala todo o peixe destinado para seccar, ficando muitas vezes em abandono sobre a areia não só as cabeças, pedaços e intestinos, mas também algum peixe inteiro. Entretanto, como este local está bem exposto aos ventos reinantes, e sendo ao mesmo tempo baixas as casas, segue-se que a renovação do ar se faz com facilidade, afastando as emanações, que n'outras circumstancias seriam muito mais prejudiciaes á saúde.

Esta mesma localidade se acha a barlavento do rio, e a barlavento d'ella licam os areiaes que se estendem até ao rio Croque; os terrenos de todo este espaço são seccos, e só n'este mesmo rio existem algumas pequenas alagoas, que eu já tive occasião de observar; porém estas nenhuma influencia podem ter sobre o clima de Mossamedes-, por se acharem distantes mais de 30 milhas. Já o valle dos Cavalleiros e várzeas da Boa-Esperança, e das hortas, se acham em condições sanitárias menos favoráveis; estas localidades são inundadas pelas cheias do rio, constituindo-se em diflerentes pontos pequenos pântanos temporários, onde se decompõem os detrilus orgânicos, vindos nas aguas ou já aqui encontrados. Junto ao mar existem outros pântanos permanentes, que parecem não ser tão funestos como os primeiros.  Aqui se acham cincoenta e tres casas pertencentes aos agricultores; são também construídas de adobe, e geralmente situadas em logares baixos e húmidos; porém os próprios habitantes já têem conhecido os inconvenientes de laes localidades, e as vão abandonando escolhendo sitios com melhores condições; alem d'isto, como se deu uma grande cheia no dia 9 de Fevereiro d'este anno, a qual lhes inundou algumas casas, deitando-as para terra, se decidiram mais depressa a tomar a dita resolução.
 
Agua potável. — Esta agua, não sendo em Mossamedes de superior qualidade, é comtudo das melhores que se encontram na Província. Todos sabem que por estes litoraes não se offerecem outras aguas para empregar nos
usos da vida senão as que provém de rios ou poços. Este logar, como não é exceptuado, tem por fonte o rio Bero. Achando-se este secco na maior parte do anno, obtem-se a agua fazendo covas na areia do seu leito; esta sahe um pouco turva, e a maior parte das vezes com um ligeiro sabor a limos ou raizes, o qual perde depois de filtrada, como se usa geralmente; ella não tem gosto que denuncie predominância de saes, cose bem os legumes e dissolve o sabão; alem d'isto deve-se notar que não produz nos habitantes a tumefacção do ventre, que é ordinária onde as aguas não são de boa qualidade. A agua dos poços, que existem nos quintaes, apesar de ser ligeiramente salobra, dissolve menos mal o sabão e serve para os usos culinários, bem como para lavagem de roupa. Muitas pessoas também a bebem sem que d'isso lhes resultem inconvenientes. Estes poços, não obstante estarem a duas milhas de distancia do rio, são ali-, menlados pelas suas aguas, as quaes chegam a esta distancia por infiltração que se faz nas areias.

Hospital.—lia em Mossamedes um hospital militar, denominado de S. Fernando, situado ao sul, e a meia milha ou mais de distancia da villa, cm local que oflerece boas condições hygienicas. Elie não foi construído para este fim, mas para uma habitação particular. Consta de duas casas com um quintal intermédio; na anterior que tem a frente virada para o mar ha uma enfermaria que tem oito camas e mais quatro quartos, cada um com uma; a outra casa posterior é repartida em tres quartos desiguaes, o maior serve de enfermaria para negros, e accommoda oito ou dez doentes; o mais pequeno para arrecadação de roupas, louças, ele.; e o médio para a botica do mesmo hospital. A um dos lados do quintal se oflerecciu duas cozinhas, uma para usos ordinários, c a outra para os da botica. No mesmo quintal existe uma pequena casa bem arejada, própria para deposito de cadáveres e para dissecções ou autopsias. Este hospital é pobre de roupas, de camas, e de outros objectos.
O serviço é feito por dois enfermeiros, que são praças destacadas da companhia, por uma liberta empregada no trabalho culinário, por um negro também liberto que faz o serviço externo, e pelo facultativo. A botica não tem pharmaceutico, nem homem com alguma pratica, que possa dispensa-lo; por isso o mesmo facultativo tem lambem de fazer pillulas, decocções, misturas, xaropes, etc, e satisfazer ao mesmo tempo ás necessidades clinicas da villa e dos seus subúrbios. São admitidos n'este hospital os doentes particulares, e pagara á Fazenda 1000 réis diários; pelos escravos aqui tratados, se contara 400 réis também diários; os pobres são curados de graça.

A capacidade do hospital de Mossamedes satisfaz na actualidade ao movimento dos doentes; porém vindo o batalhão de caçadores 3, e crescendo por outro lado a população como é de esperar, elle será insufliciente. Á vista d'isto sou de opinião que, quando se edificar o hospital para os convalescentes, como está determinado, se faça um edilicio cm duas secções separadas, offerecendo um quintal entre ambas, de modo que uma d'estas divisões seja accomraodada ao tratamento dos convalescentes, e a outra ao das doenças ordinárias.
(...)





PARTE NAO OFFIGIAL.
1867


Emquanto ao local que acho mais próprio para esta obra, é o seguinte. Já disse que a igreja se acha situada n'um logar elevado, que domina a villa; ao norte e próximo d esta, em alinhamento com a sua frente que olha para o mar, está em começo o palácio do governo, ficando entre estes dois edifícios uma pequena praça. Do lado opposto da mesma, igreja, no dito alinhamento, deverá para o futuro, como o 111."0 Sr. Governador d'este districto já tem em vista, construir-se em symetria com o palácio um quartel para tropa. Ora, o mesmo alinhamento, a uma distancia conveniente, e ao sul d'este quartel projectado, ficará muito bem collocado o novo hospital. Este ponto é alto, bem arejado, e d'aqui se contempla toda a bahia; é verdade que oferece um terreno árido, que se não presta á formação de um jardim, como se pretende para o hospital dos convalescentes, mas também nenhum outro logar se apresenta capaz para este fim a não ser nas hortas ou Boa-Esperança; porém estas localidades tem inconvenientes, por serem desfavorecidas de boas condições hygienicas; são baixas, húmidas e expostas a efiluvios prejudiciaes.

Cadeia.—Concluiu-se ha pouco na villa uma casa térrea, e construída de adobe com destino a servir de cadeia e também de açougue. Não é da minha competência o demonstrar se ella poderá offerecer a segurança necessária sendo feita do dito material.

Matadouro.—É cousa que não existe. Sangram-se, esfolam-se e acabam de preparar-se as rezes quasi dentro da povoação, porém isto entre nós não admira ; onde tem sido até agora, ou até ha pouco, o matadouro em Lisboa? 

Cemitério.— Os cadáveres enterram-se em certo logar do areial sufíicientemente afastado da villa, e apenas se conhece que serve de cemitério por se verem ali algumas cruzes e inscripções; porém a camará, com os seus poucos meios, e ajudada de alguns donativos, vae brevemente mandar construir um cemitério regular, para o que já se procedeu á escolha do logar mais apropriado.

Industria.—Existem nos subúrbios da villa dois engenhos de assucar e aguardente, que se extrahem do sacharum o/Jicinarum (ponho de parte o engenho do Bumbo, porque me limito a descrever só o que tenho observado); um d'esles fica situado n'uma pequena elevação denominada Boá-Vista, junto das várzeas da Boa Esperança; pertence ao Sr. José Joaquim da Costa, está a concluir-se, e deve agora começar a trabalhar; o outro acha-se no valle dos Cavalleiros, e pertence ao Sr. Bernardino Freire de Figueiredo; tem produzido este engenho algum assucar de boa qualidade, mas em pouca porção por causa de transtornos que tem occorrido;.a producção de aguardente tem sido mais avultada. Fabrica-se em Mossamedes bastante farinha de mandioca, porém ainda não chega para o consumo. Temos as pescarias, que, como já disse, preparam em grande o peixe secco, e o azeite do fígado do cação. Existem dois estabelecimentos de salgar em barris carne de vacca, bem como de a seccar pelo processo usado no Rio Grande do sul. Ha no Giraul uma fabrica de fazer tijolo, e de calcinar pedras calcareas. Exportam-se d'esta villa muitas pedras para filtrar agua, as quaes saem já cavadas e preparadas. Emfim montou-se aqui ha pouco um tear para fabricar tecidos de algodão; e eis tudo o que ha digno de notar-se em Mossamedes, relativamente a manufacturas.

Combustível.—A lenha e o mato é o combustível de que esta povoação se serve; provém de duas partes, do valle dos Cavalleiros, e das margens do rio Giraul; ali vae escasseando consideravelmente, e aqui ha uma riqueza de matas, que Mossamedes não é capaz de esgotar em cem annos. Os meios de transportar as lenhas deste logar para a villa são trabalhosos: empregam-se carros de má construcção n'este serviço, os quaes têem de andar 12 milhas de caminho arenoso; esta difficuldade podia reduzir-se á metade, conduzindo as ditas lenhas para uma estancia collocada junto ao sacco do Giraul, que fica a meio caminho, e d'aqui a conducção se acabaria de fazer com facilidade por meio de embarcações. As alluviões do Bero também costumam trazer algumas lenhas e madeiras; a de 9 de Fevereiro d'este anno conduziu uma quantidade de 2:000 000 réis de valor. 

Cultura.—Dos terrenos que não são cultivados  os mais nocivos á saúde são aquelles que, possuindo condições de fertilidade, não são devidamente aproveitados; estavam n'este caso os terrenos de Mossamedes quando os colonos tomaram posse d'elles, e por isso foram então estes indivíduos bastante atacados das febres, succumbindo muitos; porém estas doenças tem diminuído gradualmente na rasão directa do augmento da agricultura; mas não se julgue por estes termos que a agricultura se acha muito adiantada, pois apenas um oitavo, se tanto, dos ditos terrenos está cultivado. Provém este atrazo da falta de braços, causada em grande parte pelas difficuldades que o Governo põe á transportação de libertos de qualquer parte da Província para esta colónia. Ora, se a prosperidade d'esta mesma colónia depende principalmente do progresso da agricultura, e se a agricultura em terras de Africa não se pôde fazer sem os braços dos negros, não sei com que fundamento se obsta á mudança d'esta gente de qualquer ponto da Província para um paiz com taes necessidades, c tanto mais para onde não ha o receio de que se façam para o Ultramar embarques de escravos ou libertos.

Viveres.—A melhor carne de vacca que ha na Província é a que se consome em Mossamedes; de outras carnes ha falta; o gado provém da Huilla, Gambos, etc. O peixe também é bom e abundante. Ha fartura de batatas e cará, tão considerável, que se exportam em grande quantidade. De mandioca, milho, feijão, abóboras e hortalicas não ha escassez. A canna do assucar, bananas, melões, melancias, apparecem de boa qualidade. Ha já uvas, e alguns productos mais que não menciono, por se acharem ainda em pouco desenvolvimento.

Os escravos e libertos são alimentados com peixe, farinha de mandioca, cará e batatas. Apesar de muitas pessoas, brancas terem só este sustento, ninguém ha que passe fome.

ANIMAES, VEGETAIS  E MINERAIS


Dos animaes que ha no sertão de Mossamedes poucos se encontram no litoral, pela rasão d este lhes não oflerecer a alimentação necessária; mesmo assim parece que já foram aqui mais frequentes, porque no valle dos Cavalleiros e no rio Giraul tenho achado alguns craneos e mais ossos de elephantes, búfalos, etc, e ninguém modernamente tem visto nestes logares taes animaes. E verdade que poderiam ter sido arrastados pelas enchentes dos rios; no anno passado vieram na corrente do Bero tres zebras, duas já mortas c uma com signaes de vida; suppõe-se também que a mesma corrente conduzira então uma serpente gigantesca, que se viu no valle dos Cavalleiros investindo com os bois. Os leões vinham d'antes mais vezes do que actualmente; ha dois annos que não apparecem. Tres ou quatro onças visitaram ha poucos mezes o mesmo valle dos Cavalleiros, ahi se demoraram alguns dias, e, depois de destruírem um bom numero de cabras e aves domesticas, retiraram-se. Os animaes silvestres que mais povoam este legar são lobos, mas que não atacam, raposas, macacos e antílopes de differentes espécies; estes últimos convidam ao exercício da caça, sem que a este se opponha o clima. Encontram-se também lebres, perdizes, gallinhas do mato e de agua, cordonizes, patos, rolas, etc. De corvos ha uma infinidade, e comquanlo elles sejam u te is limpando as praias, fazem grandes estragos em certas plantações. Também apparecem algumas espécies de víboras, porém são raras e pouco perigosas; muitos outros animaes pequenos ha, que n'esla occasião deixo de mencionar.
As espécies de animaes domésticos não são muitas, e as que existem não estão muito propagadas; apenas ha abundância de gado vaccum, este não apresenta robustez como o da Europa, empregam-se duas, tres e quatro juntas de bois para puxarem um carro, comtudo deve dar-se o desconto ao obstáculo que offerecem terrenos arenosos. Também se adestram estes animaes para se montarem, e assim substituem muito bem os cavallos ou bestas muares, de que ha grande falta.
VEGETAES — As várzeas do rio Bero, sendo aliás dotadas de condições de fertilidade, estão despovoadas de arvoredos, já pela incúria que tem havido em os plantar, já péla destruição que se tem feito nos que existiam espontâneos, tendo-os reduzido a lenha. Tal incúria é sempre de esperar em indivíduos que não foram ercados na agricultura, como tem acontecido a quasi todos os colonos que tem vindo para Mossamedes. Os primeiros que aqui chegaram, tomando posse dos terrenos ainda virgens, estiveram muito tempo sem se darem ao trabalho que este sólo exigia, principalmente emquanto perceberam a ração que o Governo lhes dava. Emfim, como a necessidade é industria, e como para muitos outro modo de vida se não proporcionava, começaram a revolver a terra com mais alguma actividade, foram tratando apenas de algumas culturas de que podessem colher prompto resultado, e esquecendo ou desprezando a plantação das arvores. Não se concluirá d'isto, que todos tíem estado possuídos d esta inércia, se se levarem em conta as difliculdades que se apresentam para obter de outros logares umas sementes, uns pés ou enxertos.
Em outra occasião darei uma enumeração de todas as plantas importantes que vivem em Mossamedes, liroitando-me por agora a mencionar as arvores e arbustos que já aqui se plantaram, e que são:
Amygdalus pérsica. L.—Pecegueiro.
Mangifera iudia L.—Manga,
Olea europea L.—Oliveira.
Pirus malus L.—Maceira. (Existe um só individuo de cada uma d'estas quatro espécies, e ainda com pequeno crescimento.)
Carica papaya—Mamoeiros. (Poucos ha plantados.)
Ficus carica L.—Figueira.
Anacardium occidentale—Cajueiro.
Pessidium pomiferum—Goiaba. (Estas tres ultimas espécies começam a propagar-se, e dão excellentes productos; as figueiras ganham pouca altura.)
Citrus aurantiura L.—Larangeira" bergamium L.—Limeira.  limonum L.—Limoeiro.  medica L.—Cidreira. (São ainda raras estas quatro plantas, e só vegetam bem nos logares abrigados das virações.)
Cocus nucifera L.—Coqueiro.
Phenixdactylifera L.—Tamareira. (Os coqueiros, e não ha muitos, têem bom desenvolvimento, mas parece que não fructiíicam. As tamareiras dão algum fructo de muito má qualidade.)
Gossypsium herbaceum L.—Algodoeiro. (Dá-se bem, e já existem algumas plantações d'este arbusto.)
Morus nigra L.—Amoreira. (Algumas ha, e com crescimento, que muito fructiíicam.)
Musa L.—Bananeira. (Esta é das plantas mais cultivadas, ofterecendo algumas quatro ou cinco espécies.)
Púnica granatum L.—Romeira. (Acha-se bastante propagada.)
Yitis vinifera L.—Videira. (Vegeta e fructifica muito bem. Apresenta cinco variedades: moscatel, ferral, malvazia, ainda com curiosidade de uma só pessoa, bastardo e dedo de dama, mais vulgarisadas. Todas eatas variedades ou espécies tôem sido cultivadas para parreiras, ainda se não plantaram para vinha, o que muito conviria experimentar, porque as extensas e incultas várzeas dos Casados se devem prestar a esta cultura.)

MINERAES  --Pouco ou nada ha explorado em  Mossamedes, relativamente a mineraes. Grande influencia, que já amorteceu, se desenvolveu aqui pelas minas; algumas partículas de carbonato ou de sulphato de cobre disseminadas nas pedras ou no gesso que coravam de verde, attrahiam a altenção de muita gente, que julgava ver em qualquer parte uma mina de cobre: d'aqui resultou o manifestarem-se na Secretaria do Governo vinte ou trinta minas: não pretendo com isto negar a possibilidade da existência d'este minério em Mossamedes, pelo contrario entendo que elle se deve suspeitar á vista de taes indícios, e conviria que se fizessem as necessárias explorações por pessoas competentes. Vi differentes amostras d'estas minas, e de todas a que mais me agradou pertencia á do Sr. Bernardino José Brochado; esta amostra consistia n'um bocado de malachite, identificado com outros de silicato branco, parecia ter sido extrahida da veia metallica.
Em certas fendas dos terrenos alcantilados apparece nitrato de potassa em estado efflorescente. O gesso é tão abundante que fórma montanhas inteiras. Existe muita pedra calcarea, resultante da agglomeração de conchas, e encontra-se algum sal gemma entre as camadas dos terrenos stratificados.
Finalmente, apresentaram-me um bocado de asphalto achado nas proximidades do limite d'esta villa: e nada mais ha aqui conhecido que seja de importância ácerca de mineraes.


INDÍGENAS DO LIMITE DE MOSSAMEDES. 

Existem aqui tres tribus de negros, e vem a ser: a denominada Mini-Quipóla, que habita no valle dos Cavalleiros, e nas proximidades da Boa Esperança; a Giraul, que vive no rio do mesmo nome; e a Croque, que pertence ao rio do mesmo nome, sendo a mais afastada d'esta villa. Estas tribus terão novecentas pessoas de ambos os sexos; tem o nome de Mondombes os que pertencem ás duas primeiras, e também assim se chamam os indivíduos de mais algumas tribus do interior.
Pouca alteração tem tido os seus costumes do contacto com os brancos; apenas trocaram os vestidos de couros pelos das fazendas que usam em pannos. 1 Antes da chegada da colónia plantavam só milho, feijão e abóboras; hoje cultivam também alguma mandioca, cará e batatas, devendo notar-se que não obstante o terem-lhe sido tirados os melhores terrenos, colhem hoje mais mantimentos, e têem mais gado do que d'antes; a rasão d'este augmento é obvia em relação aos mantimentos; quanto aos gados, provém o augmento de não terem sido roubados pelas guerras gentílicas, as quaes receiam os brancos aqui estabelecidos.
Um terço dos ditos Mondombes anda errante com os gados em busca de pastos. As suas habitações são miseráveis, tôera toda a simi
1 E costume ttar-se o n.ime de prumos a bocados de fazenda que os negros cingem ao corpo.  Ihança com um forno, e são por fóra barradas com excremento do gado. Como todos os indígenas de África a polygamia é usada entre elles, porém o perverso costume de escravisarem seus filhos lhes é desconhecido. O seu governo pouco differe do de todos os negros; teem um soba, que é o chefe, mas que decide as questões ouvindo os seus macotas (conselheiros).
Esta gente tem idéa de um Ente Supremo, a que chama Huco, mas pouca adoração lhe presta; o seu idolo são os gados, que ella celebra com cantigas e libações; não os vende, aproveita-se do leite que produzem; e muito os poupa por não matar. Acredita numa outra vida depois da morte, e que as almas lhe vem causar este ou aquelle damno.
Em esta mesma gente vive em harmonia com os brancos, e lhes presta alguns serviços já como carregadores, já como apanhadores de urzella, ele.

INFLUENCIA DO CLIMA SOBRE A SAUDE E VIDA
DOS HABITANTES DE MOSSAMEDES. 


Não é possível por ora avaliar n'este paiz a longevidade da raça branca, porque só ha poucos annos esta o povoa. Este conhecimento não se pôde colher senão entre indivíduos creados e expostos em todos os períodos da vida á influencia do clima em que nasceram. Apenas ha para notar que os velhos aqui existentes vivem em geral bem dispostos e gosam de boa saúde. Entretanto ve-se que entre os negros indígenas se apresentam alguns velhos centenários. Estes indígenas são todos robustos, bem constituídos e de poucas doenças padecem; são mais sujeitos a constipações, pela circunistancia de andarem quasi nús, e de terem o habito de se aquecerem demasiadamente ao fogo.

Convém aqui fazer uma reflexão sobre a causa provável, que concorre para a sua robustez e boa constituição. Os povos civilisados podendo dispor de um grande numero de meios em favor da sua saúde, amparam a vida a um grande numero de indivíduos de fraca constituição, a qual é transmittida de geração em geração, bem como as moléstias hereditárias tão frequentes entre estes mesmos. Como os ditos indígenas se acham desfavorecidos dos recursos necessários para modificarem a acção dos excitantes naturaes, segue-se que elles não podem crear e conservar os individuos, que naao tenham a robustez bastante para reagir contra os agentes que lhes são damninhos.
Todos os habitantes brancos de Mossamedes apresentam boas cores e actividade nos movimentos; muitos entregam-se a trabalhos violentos sem que se afadiguem demasiado, as crianças são fortes, nutridas, bellas e alegres.
N'este limite não ha moléstias endémicas graves. Depois das inundações do rio Bero apparecem nas hortas, Boa Esperança, e Cavalleiros, bastantes casos de febres intermittentes, porém benignos; no anno findo observei unicamente uma perniciosa, que, atacou certa pessoa que vivia em péssima habitação e local. Na villa são raríssimas as febres reusmaticas e algumas que apparecem são adquiridas fóra della. Também na occasião referida se desenvolvem muitas conjunctivites, mas cedem a um tratamento simples. As cephalalgias parecem ser aqui endémicas e costumam affectar mais os individuos recem chegados. Durante a estação humida do anno anterior a coqueluche não poupou uma só creança, comtudo nenhuma sucumbiu.
Febres eruptivas ainda aqui não observei (estou em Mossamedes desde Janeiro do anno lindo). Falando em febres eruptivas, convém notar que o III."10 Sr. Physico-Mór d'esta Província já por duas vezes me remeteu o virus vaccinico, recolhido entre laminas de vidro, e passei logo a inocula-lo em creanças de todas as cores, porém não produziu o pretendido resultado. Não uso por ora decidir-me a concluir se ha algum estado particular dos individuos, pelo qual se tornem refractários á acção da vaccina, ou se a causa depende da alteração da mesma vaccina, pois que, sendo esta conservada em laminas de vidro, onde não fica hermeticamente fechada, não pôde ter toda a confiança depois de passar por uma longa viagem e por temperaturas elevadas. Conviria ainda ensaiar a recolhida nos tubos inventados por Brelonuean.

As doenças do apparelho respiratório são raras entre os brancos, e mais communs entre os escravos e libertos; estes, andando ordinariamente mal vestidos e mais expostos ao trabalho, já no mar, já na terra, são muito sujeitos a corysas, anginas, bronchites e pleurisias, as pneumonias e os tubérculos pulmonares não deixam algumas vezes de os atacar.
Os rheumatismos, hepatites, gastrites, enterites e desentherias, tambem se offerecera tanto nos brancos como nos negros; porém sem frequência ou gravidade, e são desenvolvidas mais por circumstancias particulares ou individuaes, do que pela acção do clima.



MEIOS DE MELHORES AS CONDIÇÕES  HYGIENICAS
DA VILLA E SUBURBIOS DE MOSSAMEDES. 



A cultura mais ou menos aperfeiçoada constitui  um dos meios mais poderosos que o homem pôde aproveitar em favor da sua espécie. Um  sólo sem cultura não offerece recursos para a subsistência do homem; e de todas as modificações que esta pode imprimir na salubridade das regiões, a mais importante é a formação de arvoredos; elles operam como apparelhos de condensação dos vapores atmosphericos, purificam o ar, assimilando as emanações miasmaticas, são obstáculos naturaes aos ventos violentos ou nocivos, e oppera-se ao desmoronamento dos terrenos.

Achando-se esta possessão ainda bastante afastada das referidas condições de salubridade, e merecendo os melhoramentos de que é susceptível, indicarei alguns meios que convém empregar.
Como para os habitantes de Mossamedes se torna muito difficil o obterem de outra parte qualquer cousa que precisem, pela falta de relações e communicações em que se acham, conviria que o Governo prestasse auxilio de mandar sementes, pés ou enxertos de arvores próprias tanto para viverem nos terrenos arenosos que circumdara a villa, escolhendo espécies de prompto crescimento e boa sombra, como para povoarem as várzeas quasi desertas, dando preferencia para este local ás espécies fructiferas. Alem d'isto, não podendo a agricultura n'esta colónia progredir, sem que obtenha o quádruplo dos braços que hoje possue, deveria o mesmo Governo facilitara transportação dos libertos de que os colonos necessitassem.

Por outro lado, á Camara Municipal do districto pertencem outros misteres. Deverá esta encarregar-se de dirigir a plantação das ditas arvores, escolhendo os sitios mais convenientes, vigiar no que diz respeito á conservação d'ellas, tomar mesmo a seu cargo e despendio o tratamento que exigirem as que forem postas em logares públicos, e impôr certas obrigações ou condições aos donos das propriedades onde também forem collocadas.
A estrada plana e direita, que atravessa a várzea dos Casados, e conduz aos Cavalleiros, quanto ficaria bella se fosse cercada por duas alas de arvoredo; o mesmo direi de alguns caminhos da Boa Esperança, etc.
É também de muita importância o limitar por meio de arvoredos a corrente do rio, que passa pelo meio das várzeas, porque sem este obstáculo se favorece a successiva ele vação do fundo sobre que correm as aguas, passando estas cada vez mais a invadir as margens. O ricinus communis, L , mamona; o populus nigra L., choupo; o salix alba, L, salgueiro, são as arvores que para isto melhor se prestam; crescem muito depressa, enraizam bem, e propagam-se com grande facilidade.
Á mesma Camara compele mandar aterrar os logares cavados onde permanecem aguas estagnadas, ou abrir canaes para dar vasão a estas mesmas aguas.
Emfim ainda uma outra medida resta a empregar mais tarde, vem a ser: o tirar do centro da villa as pescarias e colloca-las no sacco do Giraul. É este um local que reúne todas as condições favoráveis para taes estabelecimentos.
Mossamedes, 15 de Fevereiro de 1858.= João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião de segunda Classe da Armada, em commissão,

ANN. DO C. ULT.—PARTE NÃO OFF.—SERIE I—SETEMBRO DE 1858.
MAPPA  ESTATÍSTICO  DOS  ACTUAES  HABITANTES  DA  VILLA  E  SUBÚRBIOS  DE  MOSSAMEDES,  BEM  COMO  DOS  ÓBITOS
 QUE  SE  DERAM  NESTE  MESMO  LOGAR  DURANTE  O  ANO  DE  1857.
(...)


N. B. Entraram também n'este mappa os militares. Os indígenas saao excluídos. As doenças indeterminadas naao foram classificadas por não terem sido tratadas e observada pelo Facultativo. A maior parte das dysenterias deram-se em negros recem-chegados de Loanda, assim como aligumas phtysicas. O preto livre, que falleceu com as fracturas de ambos os ante-braços, tinha também todo o corpo contundido. Por falta de esclarecimentos não foi possível juntar aqui os nascimentos, que tiveram logar durante o referido anno. - João Cabral Pereira Lapa, Cirurgião de segunda classe da Armada em commissão.


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segunda-feira, 12 de março de 2012

Memoria sobre a exploração da costa ao sul de Benguella na Africa occidental



  INTRODUCÇÃO

Deploraveis e bem funestos males sobre nós acarretarão o desleixo e imprevidencia de nossos maiores, originados da indolencia com que pouco a pouco fomos adormecendo à sombra dos louros colhidos em gloriosas conquistas, da incuria com que tratámos dos nossos verdadeiros interesses, sem procurarmos tirar de nossas ricas e extensas colonias todo o partido que delas havia a esperar, dissipando ás cegas grande parte dos recursos que possuiamos, sem attentar no futuro, e accrescendo a, isto as calamidade de guerras quasi continuas, que hão assolado o paiz.
No estado lamentavel a que nossa desventura nos reduzio, serão sem remedio os males que sofremos ?, não por certo. Ainda nos restao de nossa passada grandeza vastas e importantes possessões, que só esperão por bem acertadas medidas , e animosos emprehendedores, para em breve começarem a florescer com proveito seu, e da mãe patria; extremando-se entre ellas as da Africa Occidental, que nada mais precisão do que cessar de as entregar ao vergonhoso abandono, em que athe hoje tem jazido.

Quando o Brasil era colonia, foi sem duvida causa desse abandono, terem-se voltado todas as vistas especuladoras para este, por nos persuadirmos, de que ali com menos trabalho podiamos tirar mais vantagens; e assim pouco prudentes, e menos politicos lhe sacrificámos as importantes possessões Africanas, arrancando-lhe cruamente athe os proprios habitantes, para debaixo da vergonhosa condição d'escravos os obrigarmos a cultivar o solo. estranho, e entregando ao esquecimento o territorio natalicio, talvez não menos rico, e susceptivel d'engrandecimento. Assim fomentamos pois a indolencia e desprezo pela agricultura ,e industria, nos animos dos infelizes Africanos, que mal contando com assistencia por muito tempo no paiz natal, e esperando a tremer pela hora fatal, em que qualquer imprevisto e insignificante acontecimento servisse de pretexto para ser-lhe roubada para sempre a liberdade, esse precioso dom da natureza; nada mais tratava um tão desgraçada ente do que cultivar quanto bastasse a sustentar-lhe a existencia miseravel, e a dos infelizes filhos a quem fervorosamente desejara ver morrer a seus olhos antes, que vel-os expostos de continuo a ser-lhe por mãos d'hospede ingrato roubados; e para que? para serem vendidos!!!

Assim os obrigámos a suffocar os mais louvaveis e doces sentimentos do ente moral homem. Trocando finalmente pelo habito de trezentos annos tão dignos sentimentos como os que a natureza a innocencia lhes inspirarão, pelo revoltante meio de satisfazer a sua ambição, o trafico da escravatura, elles se convertêrào em entes despresiveis, e por isso muito mais difficil se tornou, o moralisar,e civilisar tal gente: alheia ao conhecimento de seus verdadeiros interesses, são hoje necessarias medidas muito sabias, protectoras , energicas, para que fazendo prosperar o seu commercio e agricultura, a par da completa extinção do abominavel trafico, tornemos uteis e florescentes aquellas importantes colonias, nosso unico meio de salvaçao.
Façamos portanto d'uma vez firme proposito d'aproveitar todos os recursos que ellas de mão larga nos offerecera, pois o Brazil ja não é .colonia, e a Naçao se acha em apuradas circumstancias. Assim cumpre aproveitar hoje, o que então imprudenteraente.se desperdiçou; e para nos convencermos de que não são infructtferos quaesquer esforços que façamos por melhoral-as, ahi temos ja os .resultados d'esses escassos e não .mui bem applicados melhoramentos, que nestes ultimos annos, lhes tem facilitado os bons desejos do governo da metropole.
D'antes recebião estas colonias todos os generos para consumo, e commercio usual como sertão, dos portos do Brasil, e em pavios pela maior parte estrangeiros , com manifesto detrimento dos interesses nacionaes,e hoje os recebem em grande parte de Lisboa,e Porto, augmentando-se assim a navegação nacional a ponto, que sendo athe 1834, feita por um ou dois navios, que annualmente o Governo ali mandava , no anno de 1840, de Lisboa e Porto, só mercantes sahirão para os portos d'Angola e Benguela 16, conduzindo mais de mil e quinhentas pipas de vinho, alem de um valor consideravel em generos. Em fim o commercio de Portugal tem augmentado consideravelmente cora aquellas possessões; accrescendo a estas vantagens a do augmento no consumo do vinho,, que alem de ser produção nossa, e das que podemos exportar em mais abundancia, demanda pelo seu volume o emprego de maior numero de navios, do que resulta necessariamente o augmento da navegação nacional, pois só é admittido em navios Portuguezes. Não se deve alem disto desprezar a circumstancia de se lhe terem os negros affeiçoado de forma, que ja hoje por elles é preferido em .muitos pontos, á agoardente do Brazil denominada cachaça , que .ali tem um consumo espantoso.

Todo o expendido é decerto resultado da facilidade de comraunicação; pois é.desde que aJi se mandão a miudo navios do estado, que tornarão mais regular a correspondencia com a metropole, que as nossas relações commerciaes com aquellas colonias augmentarão ; não tem porem estas vantagens crescido, e dado o resultado, que era d'esperar, porque a par d'ellas não se lia cuidado em fomentar a industria e agricultura, cujos productos os nossos navios podessem trazer em troco dos generos, que para ali conduzem. Eis igualmente explicada a causa porque.tão diflicultosa se tem tornado a.extinção do trafico da escravatura; pois que era um genero com que se com pensa vão as consideraveis inquitações do Brazil, sem fazer emigrar grande quantidade do ouro circulante.
Em taes circumstancias parece que o que cumpria fizesse o Governo, era animar toda e qualquer empresa que lhe desse a tirar aquellas iateres xandre, em cujos Jogares se acha ainda hoje gravado o seu nome. Const«.»u-nos que esie infeliz havia soffrido desastrosos resultados do seu atrevimento, pois na occasiào em que se achava n'um destes logares, foi obrigado por uma dás mui frequentes guerras do Gentio a esconder-se, roubando-lhe este os proprios filhos e companheiros, que depois forào natural mentente vendidos ou mortos, eelle a muito custo pôde salvar a vida que bem cara lhe custou pela perda d'objectos que lhe devião ser tão apreciavei6, vindo depois a morrer em Benguella despresado, como quasi sempre acontece a todos os que se expõem a perigos e fadigas, para fazer serviços á Nação Portugueza, sempre madrasta para com seus filhos beneméritos.
Falhando assim estes recursos, ambos da maior monta, mormente o seguodo, que não podia dispensar-se, era evidentemente necessario suppril-o de qualquer forma; indagou-se pois se haveria alguem. capaz de desempenhar esta commissão, e depois de varias pesquisas reconheceo-se não haver outro mais proprio , do que um 2.° Tenante d'Artilheria , João Francisco Garcia chamado, que por ter estado no ponto do sertão mais adequado para se alcançar gente, que fosse serenar e prevenir os animos do Gentio das praias, que com a chegada repentina de gente desconhecida, e com as ideias nelle inextinguiveis, que do mar vem sempre gente que lhes pertende usurpar a sua riqueza, poderião abandonar as povoações, retirasse para o interior cora os seus gados e mulheres, objectos para elles os mais apreciaveis que possuem, e iicarião neste caso inutilizadas as nossas fadigas, por se tornarem impossiveis. quaesquer indagações, objecto principal desta expedição, taes como, se o interior era povoado, quaes as suas producções., e espirito dos habitante, etc..  Foi consultado o sobredito Tenente, que se resolveo a ir por terra encontrar-se com a Corveta, recusando receber gratificação alguma além da certeza do posto de 1.° Tenente, que dizia pertencer-lhe já de muito tempo. Sahio portanto com alguma força em direitura a Quilengues, onde recebeo praiicos do sertão, além de outros. que successi vamente foi tomando athe chegar á babia de Mõssamedes, atravessando assim o sertão pelo lado povoado de gente tratavel e humilde, excepto quando andão em guerra, pois em todas as mais occasiões respeitão os brancos, e os estimão mesmo se elles disso se sabem fazer credores, sendo tambem capazes de se vingar no caso contrario, porém isso só por motivos muito fortes, e é mister que digamos, que quisi sempre a razão está da parte destes, porque ordinariamente os chamados sertanejos não são a melhor gente.

Assim concluida esta parte essencial dos nossos trabalhos em Benguela,sahi d'ali na mencionada Corveta no t.° de Setembro ,e só no fim de 21 dias de viagem bastante trabalhosa, é que chegamos a avistar o primeiro ponto, que ao Commandante pareceo conveniente demandar. Fundeámos pois n'uma bahia bastante extensa em comprimento e largura, com muito bom fundo, e bastante abrigada, por nome bahia d' Alexandre, e também conhecida pelo de porto Pinda: forào nos primeiros dias indagadas as praias inutilmente , pois além d'alguns ossos de balêa queimados, e uma especie de embarcações feitas d'um páo muito leve chamado bimba, nào se encontrárão outros indicios d'existencia d'habitantes  o mesmo terreno alguma cousa montanhoso e arenoso, com muito pouca vegetação, nenhumas arvores, e sem agua, nos induzio a crer ao principio que tal logar era deserto:, athe que um dia, em que o Commandante mandou um escaler com gente armada e um lingua dos dois que tinhamos recebido em Benguella, furão vistos negros pelos altos das montanhas, e que seguião a direcção do escaler, que ia sondar as praias fóra da bahia mais proximas. Logo o Commandante mandou apromptar outra embarcação, em que fomos eu, elle  e o segundo lingua, com algumas fazendas, missanga etc. , para lhes oferecermos, e para cujo fim , tanto eu como o Commandante tinhamos trazido de Benguella, eu á minha custa, e elle por conta da Fazenda Nacional.
Chegámos finalmente a um logar fóra da bahia, aonde já se achava a gente do primeiro escaler em communicação com os negros, que bastante desconfiados lhes tinhão feito saber, que assim como elles largavão suas armas para virem fallar-nos desarmados, assim tambem queriáo que os nossos deixassem as suas no escaler, o que immediatamente fez a gente que ia, receberão de nós varias bagatellas de mimo,depois do que se retirárão, compromettendo-se a apparecer no outro dia na praia dentro da bahia, e a trazer-nos amostras do seu mantimento, o que fizerão, vindo com pequenas porções de milho, feijão, e aboboras. Mais alguns dias continuárão a vir fallar-nos , trazendo unicamente para trocar, milho, feijão , e aboboras, algum marfim, pouco gado,e pomas de cabra do matto , curiosas pelo seu comprimento. Nada delles podemos saber, que seja digno de mencionar-se, além de que viviào em logar proximo, e que segundo os seus costumes, homem branco não podia entrar na sua povoação, precaução esta que indubitavelmente era filha do receio que de nós tinhào. Vio portanto o Commandante que este logar não era mui apropriado parei os nossos fins, tanto pela qualidade do terreno, como pela difficuldade de communicações com o interior, que naquelle ponto serião um pouco mais custosas d'estabelecer, pelo caracter desconfiado e timido dos indigenas habitantes da praia, que apezar de quanto diligenciámos por lhes fazer eonhecer,que só perteiidiamos amigavelmente trocar os nossos generos pelas producções do seu territorio, nunca deixarão d'apresentarse com o mesmo apparato bellico, aparecendo sempre armados  e praticando a ceremonia de espetar as armas longe, para virem depois communicar com nos co desarmados, deixando porém sempre alguns dos seus ao pé das armas, além de terem postadas forças na direcção das suas Khatas ou povoações, com o fim d'impedir a nossa passagem, que nunca tentámos, por assim o exigir a prudencia e bom exito desta importante commissão; em consequencia d^sto assentou o Commandante retirar-se, o que me constou tres ou quatro dias antes do aprazado para a sahida, não estando eu ainda satisfeito com as limitadas, é infructiferas indagações que se havião feito athe ali, por isso que me achava, bastante coado, por estar inteiramente sugeito ao caprixo e ideias do mencionado Commandante, que já mais desprezou occasião de fazer valer a sua authoridade (e que me não convinha chocar, para não inutilisar de todo o fim a que me havia proposto, pois que elle tudo fazia e deliberava sem me consultar, nem dar a saber as suas intenções. Convinha-me pois adoptar um systema particular , pelo qual effeituando as minhas indagações em separado das suas, lhe fizesse comludo o menor numero d'exigencias possivel, evitando athe mesmo a occasião de fatiar em um objecto que elle a seu arbitrio queria tratar, e em que apenas seguia a sua opinião 5 e por isso resolvi não me retirar da bahia d'Alexandre, sem examinar mais meudamente todos as circumstancias indispensaveis a uma descripção, por onde se podesse fazer ideia do que é susceptivel aquelle logar.

Fallei pois um dia ao referido commandante, e lhe disse que eu estava resolvido a continuar as minhas pesquizas, por me haverem despertado a curiosidade as noticias, que trez homens pretos de bordo nos tinhão traziflo d'um logar a legou e meia da praia para o centro e para o norte, aonde tinhão ido levar um presente que mandámos ao chefe d'aquella gente, que costumão chamar Soba, e que é uma especie de Governador hereditario. A isto me respondeo, que podia ir, porém que elle me não dava gente branca alguma para me acompanhar  que apenas me dispensaria dois homens negros da sua guarnição e um lingua igualmente negro, accrescentando que elle queria sahir d'ali a dois dias, e que não esperaria por mim mais tempo, por tanto que fizesse o que me parecesse, não contando de bordo com mais cousa alguma além do mencionado, do que um escaler que me iria largar em terra, e buscar depois logo que em certo logar eu fizesse signal de ter chegado. Ainda que a pequenez e frieza desta resposta me magoasse bastante, com tudo não deixei escapar uma so queixa, aproveitando mesmo esses escaços recursos que por muito favor me concedia, para não me vèr nas circunstancias de levar ás costas algumas bagatellas de fazendas, missangas , coraes , etc. que destinava para brindar os indigenas, e poder assim mais facilmente tirar partido dás minhas fadigas; pois que o risco eminente a que ia expor-me com tal companhia augmentava ainda mais. Apezar de tudo isto decidi-me a partir,o que fiz com effeito, mesmo por caprixo em lhe mostrar, que não me acobardavão a sua especie d'ameaças, que parecia respirar uma tal resposta.
Fui felizmente muito bem acolhido pelos postos avançados, que guardavão a entrada d'una extensissimo valle, todo cultivado de milho maiz, feijão, aboboras, e uma especie de milho miudo.

As margens do valle são guarnecidas além d'immensa quantidade d'arbustos , e de plantas parasytas , por duas ordens de palmeiras , que se extendem athe onde se pa le alcançar com a vista, e que parecem continuar muito para o centro. Do lado direito destes arimos ficava uma especie de seio formado por algum rio, que no tempo das chuvas naturalmente ali desagua, conervmio-se agora subterraneo, pois cavando athe dois palmos de profundidade; encontra-se agua magnifica, de que os indigenas se servem para beber, e a qual é devida a immensa e linda vegetaçao de que acha coberta toda aquella planicie. Tive os mais ardentes desejos de percorrer esta planicie, para melhor ideia fazer da sua extensao, e estado de cultura, porém duas fortes dificuldades se me offerecêrào ao complemento d'este projecto: a primeira, não poder fiar-me na gente que nos acompanhava ,por sermos apenas quatro ao todo e desarmados, e o que é mais, gente que de nada me podia servir em caso de perigo , (endo além disso a certeza de que não esperarião por nós na babia mais de 48 horas, como me havia protestado o Commandante da Corveta; segunda, por me mandar dizer o Soba, que não proseguisse , por causa de suas mulheres o crianças, que tinhão medo dos brancos, como se fossem bichos, apezar de que este segundo embaraço não era bastante para fazer-me abandonar o meu plano, uma vez que fosse bem acompanhado por oito ou dez homens brancos armados, porque então algumas dadivas e instancias, reunidas a sinceros protestos de não ter intenções sinistras ,removerião facilmente este obstaculo.

São pois os habitantes da bahia d'Alexandre, povos de vida pastoral, de Nação Mocubal, e conhecidos em todo aquelle vasto sertão debaixo do nome de Mocorocas, por habitarem um logar a que chamão Coroca. Sua vida muito pacifica não deixa de ser singular pela sua predilecção pelas mulheres que escondem com a maior cautella, especialmente dos brancos, sendo igualmente muito ciosos do seu gado, cuja carne é magnifica como mais tarde vim a conhecer, e de que possuem grande quantidade de duas especies vaccum e ovelhum, sendo o segundo de raça conhecida debaixo do nome de carneiros de cinco quartos, por terem o rabo d'uma largura e gordura admiraveis. São os Mocorocas os negros mais activos e bem feitos em geral que tem a Costa conhecida ao Sul de Benguella, muito dados ao exercicio da caça, e alguns d'entre elles ao da pesca, de que porém tem muito medo, porque consta ter ido ali um navio Hespanhol, que havendo-os iIludido com muitas dadivas, chegou a persuadil-os a irem a bordo, e logo que ali apanhou a quantidade que lho pareceo bastante, levantou ferro, e os foi naturalmente vender á Havana, ou outro porto, além disto consta terem-lhe alguns navios estrangeiros feito roubos de gado, talvez persuadidos que é bravio, e que por consequencia não tem dono. Uma das qualidades mais notaveis destes indigenas é a agilidade com que sobem enormes montanhas d'area , manejando ao mesmo tempo dextramente as armas do seu uso; crêem muito em feitiços e almas dos seus defuntos; nào gostão d'aguardente, e preferem o tabaco que elles lá fabrieào d'uma fórma singular, ao de rolo do Brazil; são muito amigos de missanga branca, azul, preta, e igualmente estimão muito facas, e arcos de ferro paia fabricarem flexas e azagaias, enchadas de ferro d'umas que fabrica unia nação do interior do sertão, contigua a Benguella, por nome Nanos (o que na cidade de S. Filippe constitue um ramo de negccio);de fazendas preferem zuarte azul, baeta da mesma cor, e cobertores, não fazendo apreço de chitas e outras fazendas de cores claras.

Logo porém que estes indígenas chegão a adquirir (como mais tarde tive occasiào de conhecer,depois de me estabelecer em Mossamedes) familiaridade com algum branco,se tornao muito trataveis,e não são dos que menos ambição tem de traficar comnosco; comigo vierào elles a ganhar depois muito amigaveis relações, de que não deixei de tirar bom partido, bem como ellus, que me chamavão o seu branco, e que dizião, que as almas de seus maiores me tinhão ali enviado para augmentar a importancia das suas terras, pois que eu lhes vendia e dava com mão larga tudo o que áquelle ponto athe então só chegava pelo interior, como raridades, e por um elevado preço.

Assim conclui pois todas as averiguações naquelle mesmo dia, voltando a bordo sem novidade notavel; e demorandu-nos ali poucos dias mais, sahimos em 1 de Outubro para o sul, tendo uma viagem muito trabalhosa pelos ventos e correntes contrarios,e que fez com que gastassemos dias para chegar á peninsula dos Tigres, que dista da bahia d' Alexandre apenas um gráo, e ali fundeámos a 31 do dito mez , demorandonos apenas 3 dias, pois que a vista horrorosa de montanhas d'area movediças á feição do vento, sem nenhum vestigio de vegetação, nem agua potavel, excluia qualquer ideia d'exploração d'um logar, que apresentava todos os indicios de ser impossivel ter habitantes, qualquer que fosse a sua condição. Não deixa comtudo de ser notavel esta peninsula, que forma uma extensissima bahia que, bem como a de que antecedentemente faliamos, é muito abundante de peixe, de tamanho e qualidades muito proprias para exportar depois de salgados (na realidade é prodigiosa a quantidade e variedade de peixe que em toda aquella Costa se encontra, e de que athe hoje nenhum partido se ha tirado, bem como de quasi tudo ornais). Não obstante ter esta bahia igualmente bom fundo, não é tão abrigada como a d' Alexandre, tanto pela sua extensão, como por ser muito rasa, e por consequencia muito castigada dos ventos do sul, que são os que ali reinão com mais frequencia.

Dali sahimos finalmente para o norte, porque sendo esta peninsula,, segundo dizem, o limite dos dominios Portuguezes por este lado, e havendo mesmo (ao que parecia) probabilidade de começar ali o deserto bem conhecido pela sua vastidão, nada mais tinhamos que explorar ao sul d'este Jogar. Foi então que em menos de quarenta e oito horas avistámos a bahia de Mossamedes, duvidando porém se seria ella, posto que todos os indicios, que a distancia nos deixava perceber, combinassem com a ideia que eu fazia d'este logar, e como erão já cinco horas da tarde, o Commandante resolveo fazer-se ao largo, e vir no dia seguinte reconhecer a terra, lembrança que me pareceo muito ajuizada e prudente, pois que estando tão proximos d'uma costa para nós inteiramente desconhecida, muitos erão os perigos a que podiamos estar sujeitos, e tanto mais , quanto se nos aprezentava um baixo em que o mar rebenta.va com muita força, e o qual, projectado como se achava, parecia fecharnos a entrada da bahia, que duas mui notaveis pontas deixavão formada, e que mostrava nfio ser piquena j alem disso o fumo que distinctamene viamo8, nos denunciava a existencia d'iiabi(antes n'aquelle ponto.
Viemos pois no dia immediato, e com as precisas cautellas e a favor de não pouco trabalho conseguimos entrar nesta bahia, fundeando peias seis horas da tarde sem maior novidade. Logo forao vistas de bordo duas bandeiras brancas, que erão os signaes convencionados com o oihcial que tinha ido por terra, algumas fogueiras , gado pastando, algumas arvores, e bastante vegetação etc., tudo isto bastou para confirmar-nos na ideia de ser este logar que procuravamos , porém como era quasi noute, ;i penas forão dois escaleres correr a bahia , os quies voltarão com a noticia de terem visto peia praia muitos negros, que pareciào chamai-os.

No outro dia fui eu o primeiro a ir .para terra com algumas bagatellaa de fazendas e missangas, nossas unicas armas, levando comigo só mente tres homens negros e um branco,e havendo previamente combinado com o Commandante, o fazer signal para bordo no caso de me verem perigo; logo que saltei em terra, vi que de longe eaminhavào para mim uma multidão de negros, trazendo adiante uma bandeira branca,e depois que nos aproximámos mais , reconheci que a gente que vinha na fren te não era gentio, por trazerem jaquetas brancas, quando estes costumào andar nus só com uma tanga.

Erão pois um pardo escrivão de Quilengucs, com tres soldados pretos da guarnição d'aquelle presidio, alguns Mocotas, ou principaes da Corte de potentados visinhos, que o mencionado official havia mandado adiante, a fim de collocarem as bandeirolas, e socegar os animos da gente das praias, e para o que são muito proprios os homens pardos, mormente os sertanejos, pelo pleno conhecimento do idioma do paiz, vindo por isso a ter muito mais facilidade em conduzir os indigenas aos seus fins.

A respeito dos homens pardos, especialmente d'aquelles que se occupão no mister de sertanejos, permitta-se-me que diga duas palavras. Talvez que se um melhor destino nosso houvesse permitiirlo que asauthoridades,que athe hoje hão governado aquelle paiz, só desgraçado por nos pertencer, tivessem, como cumpria ao seu dever e aos interesses da patria , lançado mão dos recursos que com mão larga nos oiferecem aquellas colonias , examinando os meios mais convenientes de os aproveitar com vantagem, terião por certo encontrado n'esta qualidade de gente uma especie de missionarios, que com segurança o digo, poderião ser empregados com resultados não menos felizes, de que os que se tiravão com aquelles, de que outrora nos serviamos no Brazil, e dos quaes não so poucos existem já, mas athe para nossa vergonha, tendo nós uma tão vasta parte do mundo para civilizar, acabámos com os estabelecimentos, onde se instruião e preparavão com os conhecimentos e disposições proprias, sem que cuidassemos em substituir esta indispensavel instituição por outra, qualquer que fosse a organização que se lhe desse.
Voltando porém ao objecto, não me pouparei a provar, que é n'aque!la qualidade de gente que temos um dos mais poderosos meios de facilitar e tornar seguro o nosso commercio com o interior. A elles devemos a franca entrada que temos na maior parte das terras de gentios poderosos, que par meio da força seria uru absurdo tentar, conservando alg,uns destes uma afleição notavel aos «brancos (nome porque somos conhecidos na Costa d'Africa); e igualmente lhes somos devedores da acquisição da maior parte dos importantes objectos que uos vem do sertão, posto que em muito pequena quantidade ., em proporção do que era possível receber. Porém d'este vantajoso meio de civilisação, bem como de todos os outros, só tem lançado mão homens ambiciosos, que desconhecendo atheseus proprios interesses, «ão tem sabido aprovei tar-ae convenientemente de tão interessante recurso, pois que só os ensinão a ser cavilosos para com o gentio; por cujo motivo praticão toda a qualidade de fraude, algumas das quaes por muito revoltantes, e manifestas, tem sido causa de muitos potentados se haverem indignado contra nós, prohibindo-nos athe a entrada em suas terras. Causaria horror uma lie descripção do comportamento dos denominados sertanejos , qualquer que seja a sua cór ; por quanto commettem todaa casta de roubo e violencia que podem, trazendo para este fim comsigo o maior numero de gente armada, de igrma que para elles não ha mais que o direito da força, vendo-se varias vezes obrigados a fazer viagens tortuosas , por estará sua espera no caminho, gente que vem disputar-lhes as prezas feitas por elles, ou por seus delegados.

E' pois forçoso confessar, que assim como a elles devemos sempre quaesquer relações amigaveis que com o gentio pertendemos entabolar, tambem muitas vezes tem sido causa de perderem os negociadores das .cidades grandes fundos, por irem elles mesmos armar ciládas , e intrigas; mas disto só é causa a desmoralisação que entre elles reina, e que os mesmos brancos Ih^s tem ensinado, para conseguirem melhor seus projectos ambiciosos. Apezar porém de não serem vulgares em demasia os exemplos de tio funesta rebeldia, daqui mesmo se pòdem tirar argumentos a favor da minha asserção, pois que o caso é que elles tem immensa astucia e habilidade para ganhar os animos dos chefes e poderosos de qualquer nação, e movel-os aos seus fins sem difficuIdade. Ora se fossem convenientemente empregados em com missões commerciaes, bem entendidas , e athe eu queria que bem fiscalisadas , usando o governo d'estimulos bem apljeados, e aproveitando estas mesmas occasiões para lhes dar instrucções uteis 9 sempre previamente acomodadas á capacidade de taes individuos, assim se haveria conseguido sem duvida, quando não civilisar, pdo menos toruar amigos, e doceis, innurneraveis gentios, que mesmo proximo d'alg íris presidios se conservào reservados para com os nossos, e geralmente crueis, pois que bem vêem as poucas ou nenhumas vantagens que tem tirado aquelles, que se nos hão entregado desprevenidos, e comnosco entabolado relações, pelo nosso horrivel e irrisorio methodo de as estabelecer, que a maior parte das vezes mais parece um systema «studado para as terminar, do que para as estreitar , e para se provar isto), bastará dizer-se, que são quasi sempre homens de desmedida ambição, sem moral nem instrucção, os que as fundão^e destroem. Mas terminemos aqui esta digressão, que já vai longa , e coutinuemos com o assumpto principal. Eis-nos pois em cornmunicaçào com a gente que de Benguella havia sahido por terra, ou melhor direi, eis-nos conhecedores dos resultados desta commissãd; porque o mesmo escrivao conduzia officios do referido official que ainda se conservava a alguns dias de viagem. Reineit logo para bordo da Corveta os oflieios, e tratei de estabelecer as minhas relações com aquella gente,o que me nào foi muito difficultoso pelo meu genio muito propenso para taes emprezas. Comecei por procurar adquirir o mais exacto conhecimento dos seus costumes, e superstições etc., para que marchando debaixo de principios solidos, colhesse os melhores resultados desta importante comissao.
Felizmente tal foi a madureza e astucia com que sube haver merque .dentro de quatro a.seis dias , já lhes tinha ganho os animos de fórum, que sendo-me ao principio vedada a entrada nas suas libatas ou povoações, e arimos ou hortas, já depois me erào franqueados sem dificuldade, procurando elles mesmos todos os meios de me fazer conhecer, que não só estavão dissipados torios os receios que nossa vinda lhes Jiavia feito conceber , mas que athe se nchavao muito satisfeitos com a minha maneira, de tratar, porque durante este .espaço-eu fíz com eles transacções sobre gado, leite , milho, algum marfim jk.c.,usando do meio mais acertado de lhes captivar a boa vontade, qual o das repetidas dadivas aos magnatas, e especialmente ao Soba do denominado Mossungo Bittoto,tal é o nome.da povoação, qne habita as praias da bahia de Mossamedes. Era na realidade um expeetaculo para mim bem singular a minha recepção naquella. bahia, pois que além de diversos cumprimentos e ceremonias extravagantes do seu uzo, mandou o Soba fazer pela sua .gente.uma especie de telheiro de ramos para me abrigar do sol., e debaixo mandou estender uma esteira., onde me convidou a sentar, collocando-se elle defronte de mim. Então lhe fiz vêr que nós só pertendiamos a sua amizade, e. que não erào nossas intenções outras, senão trocar as muitas fazendas e generos que possuíamos por marfim , cera, gado, urzella , etc, e que o tratariamos sempre muito bem, e que só delle sollicitava o consentimento de fazer uma casa, onde se recolhessem as muitas cousas que pertendiamos conduzir para alL A estas proposições simplesmente retribuio, que me responderia no dia seguinte, mui naturalmente para no intervallo ouvir o conselho dos principaes de sua corte, a que chamão Secíihs. Pedio-me por isso, que llhe mostrasse o que trazia , o que fiz, começando por offerecer-Jhe alguns objectos, taes como panno azul, missanga branca, aguardente, etc., do que se mostrou muito reconhecido, e mandou trazer leite, milho verde, e um boi, que me deu .em signal de agradecimento,promettendo-me que no dia seguinte traria galo para trocar por alguns dos objectos que eu tinha; e assim me retirei para bordo, vindo elle com os principaes dos seus acompannar-me athe ao meio do caminho para o embarque, e ali se despedio, e eu fui jantar para bordo, e descançar.

No dia seguinte ainda as ceremonias forão as mesmas, trouxe gado e um pouco de marfim, e offereceu-me leite que acceitei, e de que mandei fazer sopas; porém quando vio o homem que eu havia incumbido d'arranjar a comida, ir pôr o leite ao lume para ferver, se espantou , e disse, que o aquecer o leite fazia mal ao gado, e assim que permittisse que elle deitasse no leite um bocadinho de casca d'uma arvore, que tinha a virtude de destruir o feitiço ou mal que pudesse resultar. Terminado este incidente, fallamos sobre a questão da vespera que tinha ficado pendente da sua decisao, e me disse, que não só consentia, em que fizessemos casa nas suas terras, mas tambem que se levantasse uma fortaleza, para que o gentio do interior os não viesse guerrear para lhes roubar o gado, e que estava certo, que a vinda dos brancos devia augmentar a importancia de suas terras. A final em todo o resto do tempo que ali me demorei, me continuei a dar com elles muito bem, e quando me retirei, os deixei do melhor acordo, fazendo-lhes repetidas promessas de voltar em breve.

São os indigenas d'esta bahia, como os Mocorocas , de nação Mucubal, e de vida pastoral, possuem gado das duas especies já mencionadas em grande quantidade, especialmente do vaccum, sendo porém dois terços ou mais desta povoação de vida errante; porque como é immensa a quantidade de gado que possuem, e sendo muito frequente na Africa a falta de chuvas, se vêm obrigados a estabellecer a sua habitação aonde encontarão pastos, o que geralmente acontece sempre proximo dos rios e valles, em que podem achar agua com facilidade, trocando-a por outra, logo que naquelle logar começão a escacear os pastos.  A estas habitações chamão sambos ou curraes os quáes são de forma circular , tendo em roda uma ordem de choupanas do feitio de fornos , com uma entrada pequena como a d'estes,e que são formadas de páos espetados muito juntos formando um circulo largo no chão , e estreitando athe se unirem todos na parte superior, e depois de bem cobertas de palha, as barrão e cobrem perfeitamente de barro amassado com bosta , o que depois de secco as torna impenetraveis á agua, respira-se porém dentro de taes habitações um ar quente e abafadiço, que para nós europeos é insupportaveí; apezar disso elles não dormem jamais sem fogo, para o que costumam assentar uma lage no centro das choupanas, e na falta d'ella, uma camada de barro amassado, de que em todo o caso é formado o assento da cabana. Feia parte de fora desta ordem de choupanas, ha sempre um tapume feito de estacadas eramos de tamarindeiro bravo, e outros arbustos espinhosos, em que abundão aquelles sertões por toda a parte; é pois no espaçoso terreiro do centro, que o gado fica de noite, mas tendo elles o cuidado d''apartar ali as crias, para depois tirarem o leite, seu sustento principal, ede que tambem fazem boa manteiga para diversos usos, a que depois d'apurada e prompta chamão engunde. 

As mulheres são as que trabalhão na cultura das terras, em quanto os homens só tratão do gado, e no caso de guerra vão esconder aquellas e este, e peleijão então para defender-se simplesmente, pois que não são guereiros; ha porém povoações no interior que lhes movem guerras para lhes roubar o gado, sua unica riqueza, isto é, por elles assim avaliada.
Finalmente, depois de receber o Tenente Garcia a bordo, nos retirámos para Benguella , e ahi chegámos em 13 de Dezembro de 1839, e aonde recebemos a desastrosa noticia de ter-se retirado para a metropole o Governador Noronha, o que muito senti, porque bem antevi as consequencias da sua falta. CONTINUA....

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Inclui fundação de Moçâmedes

Angola Under the Portuguese: The Myth and the Reality


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Por Gerald J. Bender

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PART I .   LUSOTROPICALISM
PART II . WHITE SETLLEMENT
PART III .RACIAL DOMINATION
PART IV  CONCLUSION 



Annaes maritimos e coloniaes 1845

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  Por Associac̈äo Maritima e Colonial, Lisbon

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terça-feira, 6 de março de 2012

O navio português do século XVI de Oranjemund, Namíbia


A marca dos Fugger
via, No Arame
Um navio português do séc. XVI, descoberto em Abril, ao largo da Namíbia, Oranjemund, por uma equipa de geólogos que procuravam diamantes [ver arquivo do blog].

Este navio de 300t viajaria de regresso a Portugal quando naufragou espalhando pela costa africana a sua preciosa carga. As moedas em ouro e prata estão agora no banco da Namíbia, em Windoek. O resto da carga que consistia em toneladas de ouro, prata, marfim e metais ainda não identificados estão armazenados à espera de poderem ser estudados. As bolas do cobre encontradas têm a marca dos Fugger (o tridente) o que corrobora a tese de que o navio era português, uma vez que os banqueiros alemães eram os fornecedores de metais à casa real portuguesa.
Entre os objectos pessoais recuperados encontra-se um rosário propriedade de um dos marinheiros.
Mas em breve o oceano reclamará aquilo que é seu. Pensa-se que no início de Outubro (c. de 10 de Outubro) a parede artificial de areia que foi construída à volta do sítio será destruída e o local voltará a ficar submerso. Por isso a equipa de arqueólogos trabalha a contra-relógio.

O achado resultou na recuperação de c. de 13 toneladas de lingotes de cobre, 8 toneladas de estanho, 600 Kg de marfim, 21 Kg de ouro, 2000 moedas de ouros (70% das quais espanholas, as restantes portuguesas), c. de 1 Kg de moedas de prata.

De acordo com o arqueólogo responsável o barco, de origem portuguesa teria três mastros e cerca de 30 metros de comprimento e teria viajado da Europa do Norte para a Ásia. Bruno Werz, supõe que o naufrágio se terá ficado a dever a um choque com uma rocha. O que os arqueólogos agora encontraram foi o próprio local do acidente onde ficaram retidos os materiais mais pesados. As correntes oceânicas terão dispersado pela área os materiais mais leves.

O arqueólogo português Francisco Alves afirmou que a descoberta do padrão circular nas moedas de ouro foi determinante para datar o achado como posterior a Outubro de 1525, data em que esse tipo de padrão começou a ser utilizado.