Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 20 de março de 2012

MOÇÂMEDES, MOSSAMEDES (Actual Namibe) : texto de JOAO CABRAL PEREIRA LOPES E FARO. 18.02.1858


ANNAES DO CONSELHO ULTRAMARINO
PARTE NÃO OFFICIAL.

BREVE NOTICIA
SOBRE O CLIMA DE MOSSAMEDES,
PELO SR. JOAO CABRAL PEREIRA LAPA E FARO 


I. INTRODOCÇAO.

E Mossamedes uma possessão portugueza, que já pelo seu bom clima, já pelos seus productos, merece toda a attenção e estudo. Cumpria-me apresentar um trabalho satisfáctorio no tocante a topographia, geologia, hydrologia, zoologia, botânica e climatologia d'este logar; mas emprehender e desempenhar tarefa tão árdua não é para os meus limitados conhecimentos e falta de aptidão; alem d isto outras circumstancias concorrem a desfavorecer-me; por um lado, uma rebelde nevralgia me tem alterado a saúde; por outro, não havendo pharmaceutico n'esta villa, e tendo de preparar os remédios, tanto para o hospital como para a povoação, acho-me privado do tempo necessário para poder mostrar pelo menos os bons desejos de me dedicar aos estudos referidos.
A falta de meios também não é pequeno embaraço: como fazer observações meteorológicas sem instrumentos, analyses sem apparelhos e reagentes, estudos sobre os ires reinos da natureza sem os livros convenientes? Não tenho acanhamento de declarar taes misérias, porque entre nós é mal quasi geral. Entretanto, para não ficar de todo em falta, escrevi algumas linhas, rogando desculpa de sua insufficiencia.
TOPOGRAPHIA DO PORTO, VILLA E LIMITE
DE MOSSAMEDES. 

A villa de Mossamedes esta situada na costa Occidental de Africa, em 13° 12' latitude do sul, dista 177 milhas da cidade de Benguella, 390 de Loanda. Diante d'ella está o seu porto de mar, formado pela denominada “Pequena Bahia dos Peixes” ou “Angra do Negro”, o qual offerece bom abrigo e ancoradouro para poderem estar fundeados muitos navios de qualquer lotação.

A terra que fica ao sul c ao norte da entrada d'este porto é alta, cortada a pique, e assim continua até ao meio da bahia; apresenta-se depois uma extensa praia semicircular, onde principia um grande areial, que sóbe de pouco a pouco até se confundir com terreno alto e mais duro. No sul da dita praia se offerece bom desembarque, bem como ao norte, n'um sitio encostado á montanha, ao qual dão o nome de “Sacco do Giraul”; no meio d'esta mesma desagua o rio denominado “ Bero”que traz do interior um longo curso; chegando este a 10 milhas antes da sua foz, sae de uma embocadura estreta, e vae derramar-se n'um largo valle, que se estende até ao mar e que offerece grandes e bulias varzeas, constituindo quasi os únicos terrenos aráveis do limite da villa de Mossamedes, digo quasi, porque junto á embocadura de um outro rio chamado “GirauI”, que fica d aqui distante 8 milhas ao norte, existem também alguns terrenos aproveitáveis.

Os terrenos do dito valle devem a sua formação ás alluviões do Bero, as quaes, com as areias e lodo que comsigo arrastam, obstruíram o braço de mar que aqui existiu em épocas remotas. Estas alluviões dão-se na estação chuvosa, único tempo em que o rio. corre, depositando nas areias agua em abundância, a qual na estação secca se acha a pouca profundidade.

A terra dos lados do referido valle é alta e alcantilada; a que fica para o norte, algum tanto montanhosa e coroada de basaltos rolados, estende-se até ao rio.Giraul; a que se acha ao sul é mais plana, arenosa, offerece algumas humildes plantas, que parecem pertencer á família dos cactos, e se dirige até ao rio Croque, que d'aqui dista 80 milhas. Em diflerentes pontos d'eslas duas terras se apresentam algumas elevações notáveis pela singularidade de terminarem n'um plano horisontal, circumstancia que lhes fez dar o nome de =Mesas de Mossamedes=.
O litoral d'este logar é formado de terrenos stratificados, conservando horisontalmente e em ordem as camadas de sua formação. As referidas Mesas, resultantes da elevação destes mesmos terrenos, em consequência das revoluções por que tem passado a crosta do nosso globo, offerecem igual stratificaçào aos que lhes ficam inferiores; as camadas que os constituem são compostas de seixos ou basaltos rolados, de matérias arenaceas, de argila, de calcareos, em que se encontra uma infinidade de conchas fosseis, etc. Alem d'isto todas estas substancias se acham mais ou menos impregnadas de chlorureto de sódio; e deve notar-se que as chuvas, dissolvendo algum d'este sal, o vão depositar nos terrenos das várzeas, e os tornam um pouco salgados. A IO milhas de distancia da costa começam a desapparecer estes terrenos stratificados para se apresentarem outros atravessados por serras de granito e cheios de montes cónicos.
No areal já descripto junto á praia, ea duas milhas de distancia da foz do rio Bero para o lado do sul, se acha situada a villa de Mossamedes, a qual é formada de casas quasi todas abarracadas e edificadas sobre uma baixa planície de areia solta, onde se não vê uma arvore, ou outra qualquer vegetação a não serem dois pequenos coqueiros, que existem defronte da casa que representou de palácio do Governo. Caminhando d'aqui alguns passos para o sul, o solo sóbe, e toma altura que predomina a povoação; n'este logar elevado está collocada a fortaleza de S. Fernando, o palácio do Governo em começo, a igreja, o hospital e algumas casas em ruínas e abandonadas.

No valle já mencionado existe também um numero considerável de casas agrícolas, que se devem considerar como subúrbios da villa. Convém dividir o valle para mais clareza do que se seguir; a parte d'este que fica mais interior, e que mais se estreita entre as montanhas, tem o nome de Valle dos Cavalleiros; a parte que fica para o lado do mar offerece á direita do rio as várzeas da Boa Esperança, assim denominadas, e á esquerda as Várzeas dos Casados, e das hortas; entre o Valle dos Cavalleiros e estas várzeas existe ainda um areal innominado.
A villa de Mossamedes apresenta um aspecto desfavorecido tanto pela natureza como pela arte; entrclanto, em altenção ao seu clima, é de não pouco interesse. Ella quasi se pódc considerar para as doenças próprias da maior parte da nossa Africa Occidental omesmo que a cidade do Funchal para as affecções pulmonares dos paizes do norte. Muitos doentes, vindos tanto- de Loanda como de Benguella ou de outros pontos, cansados de padecerem com as febres e suas consequências, n'ella teem achado prompto allivio e restabelecimento.
Aqui a raça branca, mesmo exposta a trabalhos rudesj apresenla-se corada e robusta, e a sua prole não desmente a acção benéfica do paiz.
Finalmente é um clima, onde ha uma temperatura que não é excessivamente quente, frio nunca demasiado, manhãs com uma fresquidão agradável, uma atmosphera pura e livre de emanações miasmaticas, e em que poucas vezes se faz sentir humidade.


TEMPERATURA, HUMIDADE, NUVENS, CHUVAS, 
VENTOS, ALLUVIOES, TROVOADAS. 



Pouco ou nada poderei dizer sobre as circumstancias meteorológicas da localidade de Mossamedes, pelos obstáculos já expostos: se estes cessarem, e eu aqui permanecer, farei as minhas observações, as quacs, aindaque imperfeitas, como é de esperar, poderão talvez servir de ponto de partida para alguém organisar melhor obra. Entretanto direi alguma cousa sobre o que tenho podido conhecer com o simples auxilio dos sentidos.
A condição physica mais característica e influente num clima é a sua temperatura; segue-se depois o seu estado hygrometrico. Esta localidade, attendendo á latitude em que se acha, deveria offerecer uma temperatura mais própria das regiões intertropicaes; porém algumas circumstancias a modificam consideravelmente, a principal d'estas consiste nas virações reinantes de O. S. E. e S. O., e lambem do S.; o ar assim trazido de logares mais frios apresenta uma temperatura pouco elevada. A radiação solar, sendo ordinariamente forte das dez para as onze horas da manhã, é logo diminuída pelas ditas virações, que começam a estas mesmas horas, constituindo para o fim da tarde, e durante a noite, uma temperatura suave.
A acção benéfica d'estas virações não se limita só á diminuição da escala thermometrica. Partindo ellas do mar, c do lado do sul, onde já a evaporação é mais fraca, transportando um ar menos saturado de vapores de agua, é totalmente livre de emanações miasmaticas. Comtudo as referidas virações algumas vezes faltam para se apresentar calmaria ou vento norte, em occasião que as aguas db mar correm ao sul. É também frequente, durante a noite, soprar algum terral ordinariamente fraco. No mez de Maio costuma vir aqui um vento leste, cora tres dias de duração pouco mais ou menos, o quaj é muito notável pela sua grande elevação de temperatura, pela grande quantidade de poeira de que vem sobrecarregado, dando á atmosphera umaapparencia nebulosa, e pelo numero de insectos que comsigo arrasta; elle produz geralmente ura sentimento de oppressão e mal estar, mas nunca incommodos sérios, talvez pela sua pouca duração. Nas regiões que ficara debaixo do equador era cada anno duas estações húmidas, e duas seccas; aquellas dão-se na occasião dos equinoxios, e estas na dos solsticios; porém, nas localidades que ficam debaixo dos trópicos, ha uma só estação humida-e outra secca; d aqui resulta que nos logares situados entre o equador e qualquer dos trópicos, as duas estações húmidas se vão aproximando uma da outra á proporção que os mesmos logares se afastam do equador, e finalmente se convertem n'uma só; emquanto que ás duas estações seccas acontece o ir diminuindo uma até desapparecer, e augmentando a outra. Achando-se Mossamedes na latitude referida, o sol lhe fica perpendicular nos dias 3 de Novembro e 8 de Fevereiro; é n'esta occasião que tèem logar as duas estações húmidas, e costumando a primeira dar menos chuva que a segunda, as teem differençado em pequena e grande estação chuvosa.
Convém notar que uma grande parte das estações seccas é distincta pelas alternativas de temperatura, como: frio de noite, e calor intenso pelo meio do dia, circumstancia que, em taes climas, é das mais prejudiciaes á saúde. A este período se costuma dar o nome de estação fresca ou do cacimbo.
 
No heraispherio austral se offerece este período nos mezes de Junho, Julho e Agosto; sente-sc então em Mossamedes algum frio de manhã e de tarde, porém nunca calor intenso durante o dia.

Muitas pessoas em Angola estão persuadidas de que o período do cacimbo, offerecendo v mais humidade atmospherica, conslitue uma estação húmida, porque não consideram que então a humidade absoluta, isto é, aquella de que o ar está saturado, é minima; e, comquanto se sinta mais humidade, e o hygrometro a manifesta, o barómetro não desce, e mostrará que n'este mesmo período a atmosphera contém menos vapor de agua.

As chuvas nas estações próprias, sendo abundantes no interior d'este paiz, são comtudo raras no litoral, e quando aqui se dão vem impellidas de leste por trovoadas, e offerecem ordinariamente pouca duração. Por este tempo teem logar no rio Bero algumas alluviões, chegando muitas vezes de surpreza, era consequência de provirem de chuvas que longe caíram. Estas alluviões costumam inundar quasi todas as várzeas do valle descripto, depositam na superfície do solo uma grande quantidade de lodo que o fertilisa, e estabelecem no meio uma corrente talvez de 7 milhas de velocidade; porém esta força e abundância de aguas dura poucas horas. Alguns annos ha cm que estas cheias são pequenas ou faltam de todo, causando nos campos alguma esterilidade. Qual a causa das chuvas serem abundantes no interior, e escassas no litoral? Entendo que as virações téem poderosa influencia sobre este phenomeno; estas, segundo me consta, entram 7 léguas somente pela terra dentro, e tendo ellas uma temperatura pouco elevada, como já notei, tornam em todo este espaço a evaporação mais lenta. Alem d'isto, o ar das mesmas virações, adquirindo aqui maior caior, ganha também maior capacidade para receber os vapores da agua, os quaes, sendo ao mesmo tempo em pequena quantidade, não chegam a satura-lo.
Em Mossamedes raros são os dias em que durante as vinte e quatro horas a atmosphera não esteja mais ou menos nebulada, principalmente de manhã e de tarde, e alguns ha em que o sol não chega a descobrir-se. Observam-se estes últimos principalmente na estação fresca, apresentando-se algumas vezes com nevoeiros.


OUTRAS CONDIÇÕES HYGIENICAS DA VILLA E LIMITES DE MOSSAMEDES


A villa de Mossamedes consta actualmente de tres ruas direitas e de mediana largura; a primeira se chama rua da praia, e tem uma só fileira de casas, com a frente para o mar; a segunda tem o nome de rua dos Pescadores; e a terceira de rua do Alferes; estas ruas são parallelas com a praia do mar, cruzadas por outras tantas travessas, e offerecem um piso de areia solta algum tanto incommodo. Existem aqui sessenta e duas casas, das quaes uma grande parte são construídas de adobe, e outras de pedra ou de taipa; os seus telhados são arranjados de cal e areia ou de argamaça; alguns ha de palha, e raros de telha. Cada uma d'estas casas tem um quintal espaçoso com o seu competente poço de agua doce. Metade d'estas habitações pertencem a pescadores, e dentro d'ellas e dos quintaes se seccam e arrecadam grandes quantidades de peixe, bem como no mesmo logar se extrahe bastante azeite dos ligados do cação; d'aqui resulta que os resíduos e os líquidos que escorrem d'esles preparados, se constituem em focos de infecção.

A praia mais visinha d'esta povoação também não é limpa; aqui se escala todo o peixe destinado para seccar, ficando muitas vezes em abandono sobre a areia não só as cabeças, pedaços e intestinos, mas também algum peixe inteiro. Entretanto, como este local está bem exposto aos ventos reinantes, e sendo ao mesmo tempo baixas as casas, segue-se que a renovação do ar se faz com facilidade, afastando as emanações, que n'outras circumstancias seriam muito mais prejudiciaes á saúde.

Esta mesma localidade se acha a barlavento do rio, e a barlavento d'ella licam os areiaes que se estendem até ao rio Croque; os terrenos de todo este espaço são seccos, e só n'este mesmo rio existem algumas pequenas alagoas, que eu já tive occasião de observar; porém estas nenhuma influencia podem ter sobre o clima de Mossamedes-, por se acharem distantes mais de 30 milhas. Já o valle dos Cavalleiros e várzeas da Boa-Esperança, e das hortas, se acham em condições sanitárias menos favoráveis; estas localidades são inundadas pelas cheias do rio, constituindo-se em diflerentes pontos pequenos pântanos temporários, onde se decompõem os detrilus orgânicos, vindos nas aguas ou já aqui encontrados. Junto ao mar existem outros pântanos permanentes, que parecem não ser tão funestos como os primeiros.  Aqui se acham cincoenta e tres casas pertencentes aos agricultores; são também construídas de adobe, e geralmente situadas em logares baixos e húmidos; porém os próprios habitantes já têem conhecido os inconvenientes de laes localidades, e as vão abandonando escolhendo sitios com melhores condições; alem d'isto, como se deu uma grande cheia no dia 9 de Fevereiro d'este anno, a qual lhes inundou algumas casas, deitando-as para terra, se decidiram mais depressa a tomar a dita resolução.
 
Agua potável. — Esta agua, não sendo em Mossamedes de superior qualidade, é comtudo das melhores que se encontram na Província. Todos sabem que por estes litoraes não se offerecem outras aguas para empregar nos
usos da vida senão as que provém de rios ou poços. Este logar, como não é exceptuado, tem por fonte o rio Bero. Achando-se este secco na maior parte do anno, obtem-se a agua fazendo covas na areia do seu leito; esta sahe um pouco turva, e a maior parte das vezes com um ligeiro sabor a limos ou raizes, o qual perde depois de filtrada, como se usa geralmente; ella não tem gosto que denuncie predominância de saes, cose bem os legumes e dissolve o sabão; alem d'isto deve-se notar que não produz nos habitantes a tumefacção do ventre, que é ordinária onde as aguas não são de boa qualidade. A agua dos poços, que existem nos quintaes, apesar de ser ligeiramente salobra, dissolve menos mal o sabão e serve para os usos culinários, bem como para lavagem de roupa. Muitas pessoas também a bebem sem que d'isso lhes resultem inconvenientes. Estes poços, não obstante estarem a duas milhas de distancia do rio, são ali-, menlados pelas suas aguas, as quaes chegam a esta distancia por infiltração que se faz nas areias.

Hospital.—lia em Mossamedes um hospital militar, denominado de S. Fernando, situado ao sul, e a meia milha ou mais de distancia da villa, cm local que oflerece boas condições hygienicas. Elie não foi construído para este fim, mas para uma habitação particular. Consta de duas casas com um quintal intermédio; na anterior que tem a frente virada para o mar ha uma enfermaria que tem oito camas e mais quatro quartos, cada um com uma; a outra casa posterior é repartida em tres quartos desiguaes, o maior serve de enfermaria para negros, e accommoda oito ou dez doentes; o mais pequeno para arrecadação de roupas, louças, ele.; e o médio para a botica do mesmo hospital. A um dos lados do quintal se oflerecciu duas cozinhas, uma para usos ordinários, c a outra para os da botica. No mesmo quintal existe uma pequena casa bem arejada, própria para deposito de cadáveres e para dissecções ou autopsias. Este hospital é pobre de roupas, de camas, e de outros objectos.
O serviço é feito por dois enfermeiros, que são praças destacadas da companhia, por uma liberta empregada no trabalho culinário, por um negro também liberto que faz o serviço externo, e pelo facultativo. A botica não tem pharmaceutico, nem homem com alguma pratica, que possa dispensa-lo; por isso o mesmo facultativo tem lambem de fazer pillulas, decocções, misturas, xaropes, etc, e satisfazer ao mesmo tempo ás necessidades clinicas da villa e dos seus subúrbios. São admitidos n'este hospital os doentes particulares, e pagara á Fazenda 1000 réis diários; pelos escravos aqui tratados, se contara 400 réis também diários; os pobres são curados de graça.

A capacidade do hospital de Mossamedes satisfaz na actualidade ao movimento dos doentes; porém vindo o batalhão de caçadores 3, e crescendo por outro lado a população como é de esperar, elle será insufliciente. Á vista d'isto sou de opinião que, quando se edificar o hospital para os convalescentes, como está determinado, se faça um edilicio cm duas secções separadas, offerecendo um quintal entre ambas, de modo que uma d'estas divisões seja accomraodada ao tratamento dos convalescentes, e a outra ao das doenças ordinárias.
(...)





PARTE NAO OFFIGIAL.
1867


Emquanto ao local que acho mais próprio para esta obra, é o seguinte. Já disse que a igreja se acha situada n'um logar elevado, que domina a villa; ao norte e próximo d esta, em alinhamento com a sua frente que olha para o mar, está em começo o palácio do governo, ficando entre estes dois edifícios uma pequena praça. Do lado opposto da mesma, igreja, no dito alinhamento, deverá para o futuro, como o 111."0 Sr. Governador d'este districto já tem em vista, construir-se em symetria com o palácio um quartel para tropa. Ora, o mesmo alinhamento, a uma distancia conveniente, e ao sul d'este quartel projectado, ficará muito bem collocado o novo hospital. Este ponto é alto, bem arejado, e d'aqui se contempla toda a bahia; é verdade que oferece um terreno árido, que se não presta á formação de um jardim, como se pretende para o hospital dos convalescentes, mas também nenhum outro logar se apresenta capaz para este fim a não ser nas hortas ou Boa-Esperança; porém estas localidades tem inconvenientes, por serem desfavorecidas de boas condições hygienicas; são baixas, húmidas e expostas a efiluvios prejudiciaes.

Cadeia.—Concluiu-se ha pouco na villa uma casa térrea, e construída de adobe com destino a servir de cadeia e também de açougue. Não é da minha competência o demonstrar se ella poderá offerecer a segurança necessária sendo feita do dito material.

Matadouro.—É cousa que não existe. Sangram-se, esfolam-se e acabam de preparar-se as rezes quasi dentro da povoação, porém isto entre nós não admira ; onde tem sido até agora, ou até ha pouco, o matadouro em Lisboa? 

Cemitério.— Os cadáveres enterram-se em certo logar do areial sufíicientemente afastado da villa, e apenas se conhece que serve de cemitério por se verem ali algumas cruzes e inscripções; porém a camará, com os seus poucos meios, e ajudada de alguns donativos, vae brevemente mandar construir um cemitério regular, para o que já se procedeu á escolha do logar mais apropriado.

Industria.—Existem nos subúrbios da villa dois engenhos de assucar e aguardente, que se extrahem do sacharum o/Jicinarum (ponho de parte o engenho do Bumbo, porque me limito a descrever só o que tenho observado); um d'esles fica situado n'uma pequena elevação denominada Boá-Vista, junto das várzeas da Boa Esperança; pertence ao Sr. José Joaquim da Costa, está a concluir-se, e deve agora começar a trabalhar; o outro acha-se no valle dos Cavalleiros, e pertence ao Sr. Bernardino Freire de Figueiredo; tem produzido este engenho algum assucar de boa qualidade, mas em pouca porção por causa de transtornos que tem occorrido;.a producção de aguardente tem sido mais avultada. Fabrica-se em Mossamedes bastante farinha de mandioca, porém ainda não chega para o consumo. Temos as pescarias, que, como já disse, preparam em grande o peixe secco, e o azeite do fígado do cação. Existem dois estabelecimentos de salgar em barris carne de vacca, bem como de a seccar pelo processo usado no Rio Grande do sul. Ha no Giraul uma fabrica de fazer tijolo, e de calcinar pedras calcareas. Exportam-se d'esta villa muitas pedras para filtrar agua, as quaes saem já cavadas e preparadas. Emfim montou-se aqui ha pouco um tear para fabricar tecidos de algodão; e eis tudo o que ha digno de notar-se em Mossamedes, relativamente a manufacturas.

Combustível.—A lenha e o mato é o combustível de que esta povoação se serve; provém de duas partes, do valle dos Cavalleiros, e das margens do rio Giraul; ali vae escasseando consideravelmente, e aqui ha uma riqueza de matas, que Mossamedes não é capaz de esgotar em cem annos. Os meios de transportar as lenhas deste logar para a villa são trabalhosos: empregam-se carros de má construcção n'este serviço, os quaes têem de andar 12 milhas de caminho arenoso; esta difficuldade podia reduzir-se á metade, conduzindo as ditas lenhas para uma estancia collocada junto ao sacco do Giraul, que fica a meio caminho, e d'aqui a conducção se acabaria de fazer com facilidade por meio de embarcações. As alluviões do Bero também costumam trazer algumas lenhas e madeiras; a de 9 de Fevereiro d'este anno conduziu uma quantidade de 2:000 000 réis de valor. 

Cultura.—Dos terrenos que não são cultivados  os mais nocivos á saúde são aquelles que, possuindo condições de fertilidade, não são devidamente aproveitados; estavam n'este caso os terrenos de Mossamedes quando os colonos tomaram posse d'elles, e por isso foram então estes indivíduos bastante atacados das febres, succumbindo muitos; porém estas doenças tem diminuído gradualmente na rasão directa do augmento da agricultura; mas não se julgue por estes termos que a agricultura se acha muito adiantada, pois apenas um oitavo, se tanto, dos ditos terrenos está cultivado. Provém este atrazo da falta de braços, causada em grande parte pelas difficuldades que o Governo põe á transportação de libertos de qualquer parte da Província para esta colónia. Ora, se a prosperidade d'esta mesma colónia depende principalmente do progresso da agricultura, e se a agricultura em terras de Africa não se pôde fazer sem os braços dos negros, não sei com que fundamento se obsta á mudança d'esta gente de qualquer ponto da Província para um paiz com taes necessidades, c tanto mais para onde não ha o receio de que se façam para o Ultramar embarques de escravos ou libertos.

Viveres.—A melhor carne de vacca que ha na Província é a que se consome em Mossamedes; de outras carnes ha falta; o gado provém da Huilla, Gambos, etc. O peixe também é bom e abundante. Ha fartura de batatas e cará, tão considerável, que se exportam em grande quantidade. De mandioca, milho, feijão, abóboras e hortalicas não ha escassez. A canna do assucar, bananas, melões, melancias, apparecem de boa qualidade. Ha já uvas, e alguns productos mais que não menciono, por se acharem ainda em pouco desenvolvimento.

Os escravos e libertos são alimentados com peixe, farinha de mandioca, cará e batatas. Apesar de muitas pessoas, brancas terem só este sustento, ninguém ha que passe fome.

ANIMAES, VEGETAIS  E MINERAIS


Dos animaes que ha no sertão de Mossamedes poucos se encontram no litoral, pela rasão d este lhes não oflerecer a alimentação necessária; mesmo assim parece que já foram aqui mais frequentes, porque no valle dos Cavalleiros e no rio Giraul tenho achado alguns craneos e mais ossos de elephantes, búfalos, etc, e ninguém modernamente tem visto nestes logares taes animaes. E verdade que poderiam ter sido arrastados pelas enchentes dos rios; no anno passado vieram na corrente do Bero tres zebras, duas já mortas c uma com signaes de vida; suppõe-se também que a mesma corrente conduzira então uma serpente gigantesca, que se viu no valle dos Cavalleiros investindo com os bois. Os leões vinham d'antes mais vezes do que actualmente; ha dois annos que não apparecem. Tres ou quatro onças visitaram ha poucos mezes o mesmo valle dos Cavalleiros, ahi se demoraram alguns dias, e, depois de destruírem um bom numero de cabras e aves domesticas, retiraram-se. Os animaes silvestres que mais povoam este legar são lobos, mas que não atacam, raposas, macacos e antílopes de differentes espécies; estes últimos convidam ao exercício da caça, sem que a este se opponha o clima. Encontram-se também lebres, perdizes, gallinhas do mato e de agua, cordonizes, patos, rolas, etc. De corvos ha uma infinidade, e comquanlo elles sejam u te is limpando as praias, fazem grandes estragos em certas plantações. Também apparecem algumas espécies de víboras, porém são raras e pouco perigosas; muitos outros animaes pequenos ha, que n'esla occasião deixo de mencionar.
As espécies de animaes domésticos não são muitas, e as que existem não estão muito propagadas; apenas ha abundância de gado vaccum, este não apresenta robustez como o da Europa, empregam-se duas, tres e quatro juntas de bois para puxarem um carro, comtudo deve dar-se o desconto ao obstáculo que offerecem terrenos arenosos. Também se adestram estes animaes para se montarem, e assim substituem muito bem os cavallos ou bestas muares, de que ha grande falta.
VEGETAES — As várzeas do rio Bero, sendo aliás dotadas de condições de fertilidade, estão despovoadas de arvoredos, já pela incúria que tem havido em os plantar, já péla destruição que se tem feito nos que existiam espontâneos, tendo-os reduzido a lenha. Tal incúria é sempre de esperar em indivíduos que não foram ercados na agricultura, como tem acontecido a quasi todos os colonos que tem vindo para Mossamedes. Os primeiros que aqui chegaram, tomando posse dos terrenos ainda virgens, estiveram muito tempo sem se darem ao trabalho que este sólo exigia, principalmente emquanto perceberam a ração que o Governo lhes dava. Emfim, como a necessidade é industria, e como para muitos outro modo de vida se não proporcionava, começaram a revolver a terra com mais alguma actividade, foram tratando apenas de algumas culturas de que podessem colher prompto resultado, e esquecendo ou desprezando a plantação das arvores. Não se concluirá d'isto, que todos tíem estado possuídos d esta inércia, se se levarem em conta as difliculdades que se apresentam para obter de outros logares umas sementes, uns pés ou enxertos.
Em outra occasião darei uma enumeração de todas as plantas importantes que vivem em Mossamedes, liroitando-me por agora a mencionar as arvores e arbustos que já aqui se plantaram, e que são:
Amygdalus pérsica. L.—Pecegueiro.
Mangifera iudia L.—Manga,
Olea europea L.—Oliveira.
Pirus malus L.—Maceira. (Existe um só individuo de cada uma d'estas quatro espécies, e ainda com pequeno crescimento.)
Carica papaya—Mamoeiros. (Poucos ha plantados.)
Ficus carica L.—Figueira.
Anacardium occidentale—Cajueiro.
Pessidium pomiferum—Goiaba. (Estas tres ultimas espécies começam a propagar-se, e dão excellentes productos; as figueiras ganham pouca altura.)
Citrus aurantiura L.—Larangeira" bergamium L.—Limeira.  limonum L.—Limoeiro.  medica L.—Cidreira. (São ainda raras estas quatro plantas, e só vegetam bem nos logares abrigados das virações.)
Cocus nucifera L.—Coqueiro.
Phenixdactylifera L.—Tamareira. (Os coqueiros, e não ha muitos, têem bom desenvolvimento, mas parece que não fructiíicam. As tamareiras dão algum fructo de muito má qualidade.)
Gossypsium herbaceum L.—Algodoeiro. (Dá-se bem, e já existem algumas plantações d'este arbusto.)
Morus nigra L.—Amoreira. (Algumas ha, e com crescimento, que muito fructiíicam.)
Musa L.—Bananeira. (Esta é das plantas mais cultivadas, ofterecendo algumas quatro ou cinco espécies.)
Púnica granatum L.—Romeira. (Acha-se bastante propagada.)
Yitis vinifera L.—Videira. (Vegeta e fructifica muito bem. Apresenta cinco variedades: moscatel, ferral, malvazia, ainda com curiosidade de uma só pessoa, bastardo e dedo de dama, mais vulgarisadas. Todas eatas variedades ou espécies tôem sido cultivadas para parreiras, ainda se não plantaram para vinha, o que muito conviria experimentar, porque as extensas e incultas várzeas dos Casados se devem prestar a esta cultura.)

MINERAES  --Pouco ou nada ha explorado em  Mossamedes, relativamente a mineraes. Grande influencia, que já amorteceu, se desenvolveu aqui pelas minas; algumas partículas de carbonato ou de sulphato de cobre disseminadas nas pedras ou no gesso que coravam de verde, attrahiam a altenção de muita gente, que julgava ver em qualquer parte uma mina de cobre: d'aqui resultou o manifestarem-se na Secretaria do Governo vinte ou trinta minas: não pretendo com isto negar a possibilidade da existência d'este minério em Mossamedes, pelo contrario entendo que elle se deve suspeitar á vista de taes indícios, e conviria que se fizessem as necessárias explorações por pessoas competentes. Vi differentes amostras d'estas minas, e de todas a que mais me agradou pertencia á do Sr. Bernardino José Brochado; esta amostra consistia n'um bocado de malachite, identificado com outros de silicato branco, parecia ter sido extrahida da veia metallica.
Em certas fendas dos terrenos alcantilados apparece nitrato de potassa em estado efflorescente. O gesso é tão abundante que fórma montanhas inteiras. Existe muita pedra calcarea, resultante da agglomeração de conchas, e encontra-se algum sal gemma entre as camadas dos terrenos stratificados.
Finalmente, apresentaram-me um bocado de asphalto achado nas proximidades do limite d'esta villa: e nada mais ha aqui conhecido que seja de importância ácerca de mineraes.


INDÍGENAS DO LIMITE DE MOSSAMEDES. 

Existem aqui tres tribus de negros, e vem a ser: a denominada Mini-Quipóla, que habita no valle dos Cavalleiros, e nas proximidades da Boa Esperança; a Giraul, que vive no rio do mesmo nome; e a Croque, que pertence ao rio do mesmo nome, sendo a mais afastada d'esta villa. Estas tribus terão novecentas pessoas de ambos os sexos; tem o nome de Mondombes os que pertencem ás duas primeiras, e também assim se chamam os indivíduos de mais algumas tribus do interior.
Pouca alteração tem tido os seus costumes do contacto com os brancos; apenas trocaram os vestidos de couros pelos das fazendas que usam em pannos. 1 Antes da chegada da colónia plantavam só milho, feijão e abóboras; hoje cultivam também alguma mandioca, cará e batatas, devendo notar-se que não obstante o terem-lhe sido tirados os melhores terrenos, colhem hoje mais mantimentos, e têem mais gado do que d'antes; a rasão d'este augmento é obvia em relação aos mantimentos; quanto aos gados, provém o augmento de não terem sido roubados pelas guerras gentílicas, as quaes receiam os brancos aqui estabelecidos.
Um terço dos ditos Mondombes anda errante com os gados em busca de pastos. As suas habitações são miseráveis, tôera toda a simi
1 E costume ttar-se o n.ime de prumos a bocados de fazenda que os negros cingem ao corpo.  Ihança com um forno, e são por fóra barradas com excremento do gado. Como todos os indígenas de África a polygamia é usada entre elles, porém o perverso costume de escravisarem seus filhos lhes é desconhecido. O seu governo pouco differe do de todos os negros; teem um soba, que é o chefe, mas que decide as questões ouvindo os seus macotas (conselheiros).
Esta gente tem idéa de um Ente Supremo, a que chama Huco, mas pouca adoração lhe presta; o seu idolo são os gados, que ella celebra com cantigas e libações; não os vende, aproveita-se do leite que produzem; e muito os poupa por não matar. Acredita numa outra vida depois da morte, e que as almas lhe vem causar este ou aquelle damno.
Em esta mesma gente vive em harmonia com os brancos, e lhes presta alguns serviços já como carregadores, já como apanhadores de urzella, ele.

INFLUENCIA DO CLIMA SOBRE A SAUDE E VIDA
DOS HABITANTES DE MOSSAMEDES. 


Não é possível por ora avaliar n'este paiz a longevidade da raça branca, porque só ha poucos annos esta o povoa. Este conhecimento não se pôde colher senão entre indivíduos creados e expostos em todos os períodos da vida á influencia do clima em que nasceram. Apenas ha para notar que os velhos aqui existentes vivem em geral bem dispostos e gosam de boa saúde. Entretanto ve-se que entre os negros indígenas se apresentam alguns velhos centenários. Estes indígenas são todos robustos, bem constituídos e de poucas doenças padecem; são mais sujeitos a constipações, pela circunistancia de andarem quasi nús, e de terem o habito de se aquecerem demasiadamente ao fogo.

Convém aqui fazer uma reflexão sobre a causa provável, que concorre para a sua robustez e boa constituição. Os povos civilisados podendo dispor de um grande numero de meios em favor da sua saúde, amparam a vida a um grande numero de indivíduos de fraca constituição, a qual é transmittida de geração em geração, bem como as moléstias hereditárias tão frequentes entre estes mesmos. Como os ditos indígenas se acham desfavorecidos dos recursos necessários para modificarem a acção dos excitantes naturaes, segue-se que elles não podem crear e conservar os individuos, que naao tenham a robustez bastante para reagir contra os agentes que lhes são damninhos.
Todos os habitantes brancos de Mossamedes apresentam boas cores e actividade nos movimentos; muitos entregam-se a trabalhos violentos sem que se afadiguem demasiado, as crianças são fortes, nutridas, bellas e alegres.
N'este limite não ha moléstias endémicas graves. Depois das inundações do rio Bero apparecem nas hortas, Boa Esperança, e Cavalleiros, bastantes casos de febres intermittentes, porém benignos; no anno findo observei unicamente uma perniciosa, que, atacou certa pessoa que vivia em péssima habitação e local. Na villa são raríssimas as febres reusmaticas e algumas que apparecem são adquiridas fóra della. Também na occasião referida se desenvolvem muitas conjunctivites, mas cedem a um tratamento simples. As cephalalgias parecem ser aqui endémicas e costumam affectar mais os individuos recem chegados. Durante a estação humida do anno anterior a coqueluche não poupou uma só creança, comtudo nenhuma sucumbiu.
Febres eruptivas ainda aqui não observei (estou em Mossamedes desde Janeiro do anno lindo). Falando em febres eruptivas, convém notar que o III."10 Sr. Physico-Mór d'esta Província já por duas vezes me remeteu o virus vaccinico, recolhido entre laminas de vidro, e passei logo a inocula-lo em creanças de todas as cores, porém não produziu o pretendido resultado. Não uso por ora decidir-me a concluir se ha algum estado particular dos individuos, pelo qual se tornem refractários á acção da vaccina, ou se a causa depende da alteração da mesma vaccina, pois que, sendo esta conservada em laminas de vidro, onde não fica hermeticamente fechada, não pôde ter toda a confiança depois de passar por uma longa viagem e por temperaturas elevadas. Conviria ainda ensaiar a recolhida nos tubos inventados por Brelonuean.

As doenças do apparelho respiratório são raras entre os brancos, e mais communs entre os escravos e libertos; estes, andando ordinariamente mal vestidos e mais expostos ao trabalho, já no mar, já na terra, são muito sujeitos a corysas, anginas, bronchites e pleurisias, as pneumonias e os tubérculos pulmonares não deixam algumas vezes de os atacar.
Os rheumatismos, hepatites, gastrites, enterites e desentherias, tambem se offerecera tanto nos brancos como nos negros; porém sem frequência ou gravidade, e são desenvolvidas mais por circumstancias particulares ou individuaes, do que pela acção do clima.



MEIOS DE MELHORES AS CONDIÇÕES  HYGIENICAS
DA VILLA E SUBURBIOS DE MOSSAMEDES. 



A cultura mais ou menos aperfeiçoada constitui  um dos meios mais poderosos que o homem pôde aproveitar em favor da sua espécie. Um  sólo sem cultura não offerece recursos para a subsistência do homem; e de todas as modificações que esta pode imprimir na salubridade das regiões, a mais importante é a formação de arvoredos; elles operam como apparelhos de condensação dos vapores atmosphericos, purificam o ar, assimilando as emanações miasmaticas, são obstáculos naturaes aos ventos violentos ou nocivos, e oppera-se ao desmoronamento dos terrenos.

Achando-se esta possessão ainda bastante afastada das referidas condições de salubridade, e merecendo os melhoramentos de que é susceptível, indicarei alguns meios que convém empregar.
Como para os habitantes de Mossamedes se torna muito difficil o obterem de outra parte qualquer cousa que precisem, pela falta de relações e communicações em que se acham, conviria que o Governo prestasse auxilio de mandar sementes, pés ou enxertos de arvores próprias tanto para viverem nos terrenos arenosos que circumdara a villa, escolhendo espécies de prompto crescimento e boa sombra, como para povoarem as várzeas quasi desertas, dando preferencia para este local ás espécies fructiferas. Alem d'isto, não podendo a agricultura n'esta colónia progredir, sem que obtenha o quádruplo dos braços que hoje possue, deveria o mesmo Governo facilitara transportação dos libertos de que os colonos necessitassem.

Por outro lado, á Camara Municipal do districto pertencem outros misteres. Deverá esta encarregar-se de dirigir a plantação das ditas arvores, escolhendo os sitios mais convenientes, vigiar no que diz respeito á conservação d'ellas, tomar mesmo a seu cargo e despendio o tratamento que exigirem as que forem postas em logares públicos, e impôr certas obrigações ou condições aos donos das propriedades onde também forem collocadas.
A estrada plana e direita, que atravessa a várzea dos Casados, e conduz aos Cavalleiros, quanto ficaria bella se fosse cercada por duas alas de arvoredo; o mesmo direi de alguns caminhos da Boa Esperança, etc.
É também de muita importância o limitar por meio de arvoredos a corrente do rio, que passa pelo meio das várzeas, porque sem este obstáculo se favorece a successiva ele vação do fundo sobre que correm as aguas, passando estas cada vez mais a invadir as margens. O ricinus communis, L , mamona; o populus nigra L., choupo; o salix alba, L, salgueiro, são as arvores que para isto melhor se prestam; crescem muito depressa, enraizam bem, e propagam-se com grande facilidade.
Á mesma Camara compele mandar aterrar os logares cavados onde permanecem aguas estagnadas, ou abrir canaes para dar vasão a estas mesmas aguas.
Emfim ainda uma outra medida resta a empregar mais tarde, vem a ser: o tirar do centro da villa as pescarias e colloca-las no sacco do Giraul. É este um local que reúne todas as condições favoráveis para taes estabelecimentos.
Mossamedes, 15 de Fevereiro de 1858.= João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião de segunda Classe da Armada, em commissão,

ANN. DO C. ULT.—PARTE NÃO OFF.—SERIE I—SETEMBRO DE 1858.
MAPPA  ESTATÍSTICO  DOS  ACTUAES  HABITANTES  DA  VILLA  E  SUBÚRBIOS  DE  MOSSAMEDES,  BEM  COMO  DOS  ÓBITOS
 QUE  SE  DERAM  NESTE  MESMO  LOGAR  DURANTE  O  ANO  DE  1857.
(...)


N. B. Entraram também n'este mappa os militares. Os indígenas saao excluídos. As doenças indeterminadas naao foram classificadas por não terem sido tratadas e observada pelo Facultativo. A maior parte das dysenterias deram-se em negros recem-chegados de Loanda, assim como aligumas phtysicas. O preto livre, que falleceu com as fracturas de ambos os ante-braços, tinha também todo o corpo contundido. Por falta de esclarecimentos não foi possível juntar aqui os nascimentos, que tiveram logar durante o referido anno. - João Cabral Pereira Lapa, Cirurgião de segunda classe da Armada em commissão.


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