Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 30 de julho de 2012

Edital do Governo Civil de Braga, de 1884, convidando colonos a estabelecerem-se nas terras altas da Huila, no distrito de Moçâmedes










ver AQUI


O que este Edital de 11 de Fevereiro de 1884, nos diz é que o Ministério da Marinha e do Ultramar  o mandou publicar, interessado que estava em fazer embarcar no Vapor India  ate 50 colonos que desejassem estabelecer-se em Moçâmedes segundo o Regulamento 18 de Agosto 1884,   homens validos trabalhadores com idade não superior a 35 anos  agricultores ou operários de oficios inerentes aos trabalho agrícola  (carpinteiros, pedreiros ferreiros, etc ) preferindo-se casados.

 Um subsidio de 39 mil réis em dinheiro, alem de passagem, e mais uma arma de fogo e respectivos apetrechos, 1 machado , duas enxadas e uma pá de ferro um colchão de palha , um travesseiro e 4 lençóis de algodão, 1 cobertor e duas toalhas. 2 pentes 2 bacias de zinco, duas escovas,  1 panela de folha , 1 caçarola, 6 pratos, , 2 tigelas, 2 canecas, 1 colher, 1 garfo e 1 faca.  à chegada a Angola ficarão ao cuidado da Junta de Protecção de Emigrantes que tratará de lhes dar destino mais conveniente  no distrito de Moçâmedes que é como todos sabem, muito saudável, rico,  e com todas as condições dos melhores  países da Europa onde terão a protecção da autoridade e a convivência dos que falam a mesma língua e têm a mesma pátria.



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O que estava acontecendo é que o ano de 1884 foi o da realização da Conferência de Berlim, a célebre Conferência que levou à partilha da Africa pelas potencias europeias industrializadas, e Portugal, que pensava deter direitos históricos, sem ter que proceder à ocupação efectiva dos territórios que em Africa ocupava, teve que, no respeito pelas determinações dali saídas ,que proceder à sua ocupação com familias portugueses, sob pena de os ter que ceder a outra potência em condições de o fazer.

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Transcrevo parte de um trabalho subordinado ao teme "A Política Colonial Portuguesa em Angola" Autor(es): Ferreira, Vicente Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra URL persistente: http://hdl.handle.net/10316.2/36493 Accessed : 14-Dec-2018 03:02:13



II AS IDEIAS MODERNAS SOBRE COLÓNIAS E COLONIZAÇÃO Meus Senhores: 1. —Pois que pretendo ocupar-me das «Ideias Modernas sobre Colónias e Colonização», é lógico concluir que houve ccideias antigas», Quais eram essas ideias e como se evolucionou das antigas para as modernas? Tanto quanto nos é lícito concluir da leitura dos velhos cronistas e dos historiadores dignos de fé, o objectivo das primeiras expedições marítimas portuguesas, no século xv, — a fora a satisfação de uma natural curiosidade —, era alcançar riquezas e ocupar terras. Objectivo materialista e interesseiro, por essência. As ideias de tutela e de educação das raças, chamadas inferiores, eram estranhas aos objectivos e à moral política da época, em grande parte baseada no direito do mais forte. O apostolado da fé católica entre as populações selvagens da África e da Ásia apenas surgiu, e como propósito secundário, por influência do clero secular e das ordens religiosas. Ninguém ainda pensou, — creio eu —, em comparar as expedições organizadas pelo infante D. Henrique, com a dos cinco Mártires de Marrocos em 1220, organizada por S. Francisco de Assis. «Senhores da conquista, navegação e comércio» eram os títulos de que se revestia a vã glória dos nossos reis, e correspondiam aos objectivos visados. 2. — Não havia também nos séculos xv e xvi, em Portugal ou em Espanha, um excesso da população em desharmonia com os recursos do território continental, a colocar em terras vagas ou conquistadas. A expansão ultramarina dos povosda Península não se assemelhou, portanto, ao enxamear das Colónias gregas da antiguidade, à cleroquia, ou emigração de grupos para fundarem novas cidades e cultivarem novas terras. Se algumas foram povoadas, como as ilhas da Madeira e dos Açores, é porque nessas ilhas desertas, a exploração só era possível fixando nelas a «mão de obra» importada do Reino. E certo que depois da conquista de Goa, o grande Afonso de Albuquerque pretendeu criar uma população mixta de luso indianos, para assegurar a perenidade do domínio português na índia; mas o objectivo do grande capitão era sobretudo político, não se podendo classificar a medida como tentativa de fundação de uma colónia de povoamento. Seria um contrasenso. Portugal tinha pouca gente e a índia tinha^a de mais. 3. — O descobrimento das ilhas de Cabo-Verde, S. Tomé e Príncipe, nas últimas décadas do século xv, e o descobrimento do Brasil em 15oo trouxeram uma nova modalidade de colonização: a «fazenda» ou «roça», isto é, a exploração agrícola do solo, e mais tarde a exploração mineira. Sabe-se como, pouco a pouco, o Brasil se transformou em colónia de povoamento, sem deixar de ser uma colónia de plantações. O clima impediu idêntica transformação em S. Tomé e Príncipe, que ainda hoje se cultivam com mão de obra importada do continente africano. 4. — A ideia da posse ou usufruto exclusivo do comércio e da exploração das terras descobertas e conquistadas foi, como se sabe, a característica dominante da política colonial primitiva dos portugueses e espanhóis. Os outros países, Holanda, Inglaterra e França, que mais tarde disputaram o passo aos dois povos da Península, adoptaram a mesma política, única que, aliás, correspondia às ideias da época sobre a riqueza das nações.Os direitos de navegação e comércio ultramarinos ficavam reservados, exclusivamente, para as respectivas metrópoles. Os navios das outras nacionalidades apenas eram admitidos nos portos das colónias para fazerem aguada ou repararem avarias. Era considerado delito grave embarcar nesses navios os produtos de cujo trato a metrópole se reservara o monopólio, o que deu lugar ao desenvolvimento do comércio de contrabando, — o célebre commerce interloppe dos franceses —, e à pirataria oficial, podemos dizê-lo, porque era favorecida, mais ou menos abertamente pelos estados rivais. Se a metrópole se arrogava o monopólio das produções coloniais, não era menos ciosa quanto à venda às colónias dos produtos da indústria europeia, nacional e nacionalizada. Este sistema de sujeição absoluta e de exploração exaustiva das colónias, constituía — como se sabe —, o famoso pacto colonial, de que ainda há vestígios na legislação e, sobretudo, nas tendências da nossa política ultramarina contemporânea, e nas ideias expendidas por homens de estado, funcionários, produtores e escritores portugueses, quando apreciam as relações da metrópole com os domínios ultramarinos. 5. — No decorrer dos tempos, porém, o próprio desenvolvimento económico das colónias, a difusão dos princípios liberais, e a melhor compreensão dos interesses económicos, criaram nas colónias o espírito de resistência às exigências das metrópoles, e nestas uma concepção diferente dos direitos e deveres das nações colonizadoras. Mas a causa imediata e mais activa da abolição do pacto colonial, pelo menos no seu rigorismo primitivo, foi a pressão exercida pelos países concorrentes, sobretudo pelos que, tendo alcançado um grande desenvolvimento industrial e comercial, cubiçavam os mercados coloniais de todo o mundo, para venda dos seus arte­factos, e para a aquisição de mate'rias primas, dos metais preciosos e das rendosas especiarias. ó. — As tradições seculares da colonização portuguesa, foram assim profundamente abaladas. Desde o final do século xvn que se pronunciara mais activamente o ataque,— nem sempre por meios brandos e leais —, às barreiras que defendiam o monopólio ultramarino. Foi, porém, no decurso do século xix,— sobretudo na segunda metade —, que toda a política colonial portuguesa teve de sofrer uma transformação completa, sob a pressão, por vezes brutal, de interferências estranhas. Se a soberania da coroa portuguesa nos vastos territórios africanos, cuja posse reivindicávamos, tinha sido até então muitas vezes atacada e subvertida pelo irrespondível argumento da força, os chamados direitos tradicionais à posse dêsses territórios eram, em princípio, reconhecidos por todos os estados civilizados. 7. — Vem aqui a propósito recordar, que até ao meado do século xix, os europeus, portugueses ou estrangeiros, pouco conheciam do interior da África Tropical. Os estabelecimentos portugueses em Angola e Moçambique quási se limitavam a alguns pontos da orla marítima, onde existiam feitorias, portos de aguada e fortalezas ou presídios, que os seguravam contra os ataques dos indígenas e, sobretudo, contra as empresas dos corsários franceses e holandeses. A actividade económica destas colónias, depois que afrouxara, apagada pelos revezes, a ilusão das minas de prata e de ouro, quási se reduzia ao comércio de escravos, as «pessas», como lhes chamavam, e de alguns produtos naturais do solo. E certo que desde o século xvi, comerciantes, aventureiros e missionários portugueses tinham avançado pelo sertão, percorrendo-o de costa a costa, ou estabelecendo-se entre as tríbus negras; mas o que hoje chamaríamos «ocupação efectiva», poucas léguas se estendia para o interior das terras, e só em torno dos presídios do litoral. Nas relações com os indígenas, a nossa política assemelhava-se ao que hoje se chama, na linguagem pomposa das chancelarias, o sistema de protectorados. Fazíamos tratados de amizade e vassalagem com os régulos e deixávamo-los governar as suas tríbus conforme o seu direito consuetudinário; apenas exigíamos que nos dessem liberdade de comércio e de trânsito e, a título de reciprocidade, que nos auxiliassem nas guerras com as tríbus insubmissas. Os nossos cuidados pelo seu bem-estar e educação moral, limitavam-se ao envio de alguns missionários, franciscanos ou jesuítas, que mais de uma vez pagaram com a vida o zêlo apostólico. A este tipo de actividade colonial se refere Oliveira Martins no seu livro O Brasil e as Colónias Portuguesas que eu considero uma espécie de elegia da decadência das velhas ideias sobre colónias e colonização. 8. — A primeira lição dos modernos conceitos da política colonial foi-nos dada pela conferência de Berlim (1884-1885). Como é sabido, saiu dessa célebre conferência o princípio de que as nações soberanas tinham «a obrigação de assegurar nos territórios ocupados por elas nas costas do continente africano, a existência de uma autoridade suficiente para fazer respeitar os direitos adquiridos e, em caso de necessidade, a liberdade de comércio e de trânsito, nas condições em que esta fôr estipulada» (Art.° 35.° da Acta geral da Conferência de Berlim). E para que não restassem dúvidas no espírito do govêrno português quanto ao valor atribuído aos nossos alegados «direitos históricos», fomos informados, em 1887, pelo govêrnobritânico, de que a ocupação tinha não só de ser efectiva,mas de ser «em força suficiente para manter a ordem, proteger os estrangeiros e dominar os indígenas» (1). Passou a não bastar, portanto, que possuíssemos fortalezas e feitorias no litoral, e celebrássemos tratados de amizade e vassalagem com os sobas e outros potentados africanos, como era da tradicional política, para que nos deixassem explorar tranquilamente o monopólio do comércio de Angola e Moçambique. Impunham-nos de fora, uma nova forma de acção, que se traduzia pela necessidade de avançarmos pelo sertão e de ocuparmos «em força» os territórios cujo domínio supunhamos assegurado por solenes tratados. A nova política ia-nos custar novos dispêndios de fazenda e vidas, a juntar às que já tínhamos sacrificado para manter o domínio português e propagar a fé católica no interior do Continente Negro. Contava-se, por-ventura, com a nossa tibieza perante a enormidade do sacrifício exigido, para nos levarem, definitivamente, a desistir de empresas coloniais; como se estas não fossem,:— como demonstraremos — , uma condição vital da existência da nacionalidade portuguesa.— A-pesar-de tudo, continuou Portugal a esperar, con-fiado na justiça e no seu bom direito, que a soberania portuguesa se poderia manter em todo o território, de costa a costa, de Angola a Moçambique. Mas da conferência de Berlim derivara, como se sabe, um conceito novo na política colonial: o das esferas de influência, estabelecido por tácito acordo das potências interessadas. Para assegurar os seus direitos, reconhecidos na conferência de Berlim, e obter o tempo necessário para desenvolver a ocupação «efectiva e em força», celebrou Portugal os tratados de 1886 com a França, de 1887 com a Alemanha e de 1891 com o Estado Independente do Congo, todos com o fim de fazer reconhecer, como esfera de influência portuguesa, os territórios que hoje separam as colónias de Angola e Moçambique. É a famosa história do «mapa cor de rosa». Mas esta nova ilusão também durou pouco. Como um sonho cor de rosa, esvaneceu-se! O ultimatum, e depois o tratado de n de Junho de 1891, aboliram de vez, pelo direito do mais forte, os apregoados «direitos históricos de Portugal». Foi a segunda lição! Ficámos sabendo, definitivamente, que, para conservarmos o pouco que nos deixavam, tínhamos de nos precaver contra as ambições e cobiças dos vizinhos, nem sempre escrupulosos nos meios que empregam para as satisfazer. Por uma natural reacção, veio substituir-se à doce indolência e à cega confiança nos «tratados» e nos «direitos históricos», a inquietação e a desconfiança contra os vizinhos, talvez tão exagerada como o sentimento oposto; mas inteiramente legítima e justificada pelos factos antecedentes, e que outros, dos nossos dias parecem reforçar. 10. — Uma terceira lição pode dizer-se que nos foi dado pelos acordos secretos de 1908 e 1913, celebrados entre a Inglaterra e a Alemanha: — a de que as grandes potências nãohesitam em ajustar as suas contendas nos lombos dos mais fracos, e que a nossa Fiel Aliada, é tão pronta em ajudar-nos com os seus bons ofícios, nas nossas dificuldades internacionais, como a vender-nos, quando por essa forma satisfaz o seu particular interesse. O que é bom relembrar de quando emquando. Mas algum proveito espero que saberemos tirar desta lição e da que resultou do tratado de Versailles: a certeza de que, doravante, nos será permitido justificar o nosso direito à posse das colónias, pela acção civilizadora que nelas exercermos, e que por «civilizar» no sentido que a moderna giria internacional, atribui à palavra, se deve entender: —ocupar, apetrechar e explorar economicamente. A protecção aos indígenas e o aperfeiçoamento moral e social destes, embora figurem sempre no primeiro lugar, nos escritos e discursos dos homens públicos, são apenas, —quando o contrário não convém—, uma simples consequência daquelas obrigações, ou um meio de as satisfazer. Quando o contrário convém, pratica-se a «política de segregação», como na África do Sul; ou aplicam-se aqueles processos mais radicais, que ganharam para os anglo-saxões o merecido epíteto de raça exterminadora. 11. — As ideias modernas sobre colonização, ideias que temos de aceitar, porque elas resultam de circunstâncias políticas, sociais e económicas, superiores à vontade dos indivíduos e das nações, baseiam-se, portanto, no que convencionaremos chamar o princípio do maior benefício, isto é, do maior proveito para a civilização em geral. Êste princípio tende a restringir o direito de soberania, como a noção de utilidade pública, interpretada como de «utilidade do maior número», restringe, em proporções até há pouco inconcebíveis, o direito de propriedade. Entende-se que as nações colonizadoras, só porque o são,assumem perante o mundo civilizado, um certo número de obrigações, cujo cumprimento é «condição necessária» para que o seu domínio sobre os territórios coloniais seja justificado. Esta condição devia ser também «condição suficiente» se, por detrás de todas as discussões dos juristas e dos ideólogos, não despontasse sempre o único direito incontestado, definitivo e que parece arreigado no inconsciente humano, — porque vem inalterável do homem das cavernas —o direito do mais forte. 12. — Em que consiste o «maior benefício»? — De um território dotado de valor económico, resultará o maior benefício para a civilização em geral, quando esse valor deixar de permanecer no estado de possibilidade ou de potencial, para se converter em valor efectivo ou actual, utilizável pelo maior número de homens. Se o território é capaz de povoamento, quando é povoado; se é susceptível de cultura, quando é cultivado pela forma mais perfeita e para dar o produto mais rico, por ser o mais necessário e o mais adequado à natureza do solo e do clima; se contém mine'rios úteis, quando estes são extraídos; se pode facilitar a circulação de pessoas e bens, quando está sulcado de vias de comunicaçãos as mais rápidas, mais seguras e mais económicas, segundo a sua natureza especial. Finalmente, se no território existe uma população indígena, o maior benefício resultará, — dizem —, da capacidade de produção e, portanto, de consumo que ela adquirir, — ou, por outras palavras, do grau de civilização a que fôr elevada. Todavia, a moral política moderna ainda permite que as metrópoles para si reservem certas vantagens e preferências de ordem económica; mas certos princípios, como o de livre trânsito (sem pagamentos de portagem); o de saída para o mar; de igualdade de tratamento fiscal para nacionais e estrangeiros, e outros, embora não constituam, por enquanto, um capítulo do direito internacional, são mais ou menos aceites pelo consentimento tácito de quasi todas as nações, e encontram-se exarados em muitos instrumentos diplomáticos. 13. — Em resumo, o que temos chamado o «princípio do maior benefício» impõe à nação colonizadora certas obrigações: — a de ocupar, administrar e fazer justiça; — a de proteger os europeus e manter a paz entre os indígenas; — a de civilizar estes pela educação e pelo trabalho, aumentando o seu bem-estar material e moral; — a de facilitar as comunicações pelo território colonial e o acesso dos seus portos, rios e lagos navegáveis; — a de explorar os recursos naturais, quer agrícolas, quer mineiros do solo; — a de facilitar o comércio e desenvolver as indústrias; — o que, tudo, se pode resumir numa expressão de conteúdo, indefinidamente extensível: — «obrigação de civilizar». 14. — Meus Senhores! — E à luz destes princípios, a cuja rápida e tormentosa elaboração as gerações actuais têm assistido, e ensinados pelos factos da história contemporânea, que temos de considerar o Problema da Política Colonial Portuguesa, especialmente na sua aplicação à colónia de Angola. Há ainda, no espírito de muitos homens públicos de Portugal e de certos dirigentes da opinião, grande número de conceitos erróneos sobre a importância da colonização portuguesa e sobre as obrigações que incumbem e os direitos que assistem a Portugal, como grande nação colonizadora. Não podemos abdicar dos nossos direitos e temos obrigação de os defender até à última extremidade; mas não podemos esquivar-nos ao cumprimento dos deveres correlativos, que assumimos perante o mundo civilizado. Se a tarefa, que a fatalidade histórica nos impôs, se nos afigura às vezes demasiado pesada para as nossas forças, devemos lembrar que ela é também uma tarefa gloriosa e a melhor justificação da nossa existência, como nacionalidade distinta.Aos homens de estado, ao pensadores, aos publicistas, e, em especial aos homens de ciência e aos institutos universitários, cumpre extrair da massa confusa das teorias, dos factos e das tendências particularistas de indivíduos e de grupos, os princípios orientadores da política colonial portuguesa. A êles compete também, por uma intervenção constante, fazer aceitar êsses princípios pela nação e impedir que se obliterem ou abastardem. E um dever nacional.  (CONTINUA....)



https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/36493/1/A%20Politica%20Colonial%20Portuguesa%20em%20Angola.pdf

domingo, 29 de julho de 2012

Traços comuns do património de origem portuguesa na África Subsaariana

 
Moçâmedes e a sua retícula rigorosa (e pioneira, na lusáfrica) que se implantou, alongadamente, no sentido sudoeste‐

 

1. Transcreve-se  do Portal "Hpip, Património de Influância Portuguesa", parte de um texto sobre  Namibe, Moçâmedes, Angola, Enquadramento histórico urbanistico:

"...Antes do plano elaborado no Gabinete de Urbanização Colonial pelo arquiteto João António Aguiar em 1952, a cidade estruturava‐se segundo uma retícula, em quarteirões, com edifícios implantados no seu perímetro, numa estrutura hierarquizada de ruas e praças, rematada por uma avenida marginal. A relação com o mar fazia‐se fundamentalmente pelas atividades económicas que ali se processavam, desde os armazéns ligados à pesca ao terminal do caminho‐de‐ferro e ao pontão ferroviário para cargas e descargas no porto.
 

O caso de Moçâmedes é bastante interessante, pelo facto de integrar em si duas características: a de cidade costeira, e por isso aberta ao mar, e a de urbe sob influência do caminho‐de‐ferro. Este último não interfere no desenho geral da cidade, pelo facto de se localizar paralelamente à linha da costa e junto dela. Este perfil e esta vocação viriam a ser alterados (ganhando uma componente lúdica também ligada ao mar e ao turismo), com a proposta do plano, através de uma expansão de desenho bastante formal, constituída por quarteirões fechados e abertos, compostos por tipologias de habitação coletiva e unifamiliar, com o verde como tecido agregador, esboçando uma simbiose entre o modelo da cidade‐jardim e a cidade tradicional. Esta proposta prolongava‐se por toda a extensão da Baía de Moçâmedes, criando uma grande avenida marginal, com novecentos metros de comprimento e trinta e dois de largura. Só em 1954 se voltou a elaborar um plano para a expansão da cidade, o Plano Geral de Urbanização de Moçâmedes, destacando‐se neste a construção do Porto Comercial e dos principais equipamentos públicos da cidade. Nos finais dos anos 1960, revelou‐se o potencial turístico de Moçâmedes. O seu desenvolvimento estratégico presidiu, em 1968, ao Plano Regulador de Moçâmedes e, em 1969, ao Plano Parcelar da Zona Marginal. Com a independência de Angola, grande parte dos objetivos destes planos ficaram sem efeito, verificando‐se apenas a construção parcial de dois pequenos bairros residenciais.

Fim de transcrição


2. Transcreve-se parte de um trabalho deveras esclarecedor, assinado por José Manuel Fernandes, sobre "Traços comuns do património de origem portuguesa na África Subsaariana",  na parte que diz respeito a Moçâmedes, a actual cidade do Namibe

"...O período oitocentista em estudo caracterizou‐se, em termos urbanísticos, no quadro da cultura euro‐americana, pela divulgação e intensa aplicação dos planos com malha em retícula geométrica rigorosa – quer em extensões de cidades existentes, quer na implantação de novas urbes. Correspondeu à chamada fase reformista da Revolução Industrial, sobretudo na segunda metade do século XIX, quando as grandes cidades euro‐americanas, como Paris, Londres, Barcelona, Viena ou Chicago sofreram vastas intervenções planeadas e dirigidas de reorganização espacial, funcional, equipamental – adaptando‐as ao novo estatuto de cidades industriais. Estas retículas, que correspondiam à concretização racionalista, no espaço das cidades, dos novos sistemas de comunicação e transporte (caminhos de ferro, metropolitano) e de infraestruturação básica (esgotos, água, gás, depois a eletricidade), exprimiam na sua linearidade retilínea e cruzada (avenidas largas, paralelas e perpendiculares, gerando sistemas de quarteirões de planta retangular), o primado das novas técnicas e sistemas de produção fabris, a ideia de aplicação à cidade do mecanicismo como forma privilegiada de ação de modernização – ainda num quadro pré‐rodoviário, mas que com a viragem de 1900 rapidamente incluirá a adaptação urbana a esta nova modalidade.
Em Portugal, se houve extensões urbanas contemporâneas deste tipo, à escala modesta das suas cidades (em Lisboa, com a Avenida da Liberdade, em 1879, e no Porto, com a Avenida da Boavista), e mesmo a criação de algumas novas cidades (a malha reticulada de Espinho, no final de Oitocentos), a grande ou mais significativa aplicação deste nova tipologia urbana (em formato relativamente modesto, que decorria da pobreza e dos recursos financeiros escassos) verificou‐se na África Subsaariana.
Os primeiros modelos geométricos afro‐coloniais surgiram ainda na primeira metade do século XIX, com o plano de 1838 de Sá da Bandeira para o Mindelo, embora a sua aplicação concreta não tenha ocorrido. Verificou‐se, sim, um crescimento mais pragmático da cidade, com origens marianas e de início de Oitocentos, nos anos de 1850‐1870, com base numa retícula mais irregular e orgânica, num compromisso com a tradição urbana lusa da época anterior, que a implantação na baía abrigada confirmava. O desenvolvimento acentuou‐se depois com a fixação de companhias comerciais inglesas, e a elevação a cidade deu‐se em 1879.
O desenho do plano de 1838 incluía uma retícula rigorosa de ruas e quarteirões, inscrita numa área retangular, à maneira pragmática do século XIX. No interior do tecido urbano, dois eixos perpendiculares cruzar‐se‐iam numa rotunda. No extremo poente, uma praça cívica abrir‐se‐ia para o mar, contendo igreja, paço episcopal, palácio do governo e câmara; e no topo oriental, três eixos arborizados irradiariam para um parque. Nas extremidades litorais, a alfândega e o mercado completariam o conjunto. Embora não aplicado, este plano marcou claramente a mudança de paradigma urbanístico para as colónias africanas, pois nas décadas seguintes verificou‐se a aplicação de malhas geométricas, como sistema normativo de implantação de novas urbes.
Duas das retículas mais impressivas e eficazes foram propostas – e desta vez rapidamente aplicadas – às novas cidades de Moçâmedes, atual Namibe, e Sá da Bandeira, atual  Lubango, ambas no sul de Angola; portuária a primeira, de planalto interior a segunda, ambas as cidades se ligaram mais tarde por um eixo ferroviário, que as constituiu nos dois marcos fundamentais do principal eixo urbano de ocupação urbana e de penetração para o interior sul‐leste do território angolano. Ambas as cidades eram estruturadas, bem na linha do urbanismo oitocentista de essência geométrico‐mecanicista, a partir das suas respectivas retículas genéticas, moduladas e seriadas, com um núcleo institucional central, congregando as funções representativas essenciais, servindo a retícula, para além de suporte ao espaço residencial primevo, para articular a atividade urbana com a área portuária e/ou alfandegária, por um lado, e com a estação e parque ferroviários, por outro. Vejamos agora mais em pormenor a caracterização destas duas intervenções do sul de Angola.
A área de Moçâmedes teve um primeiro reconhecimento em 1839, a que se seguiu, no mesmo ano, a criação de uma feitoria e a instalação de uma pescaria algarvia em 1843. Com cerca de cento e sessenta habitantes em 1849, recebeu então colonos provindos de Pernambuco. A povoação de Moçâmedes foi elevada a vila em 1851, e a cidade em 1907, em relação com a ferrovia nascente. Cidade de areais, implantada entre o deserto, o mar e as hortas, Moçâmedes possuiu desde o início um carácter próprio e uma personalidade urbana que, excetuando a implantação inicial dos equipamentos institucionais ao longo da baía (forte, palácio, igreja, hospital), esteve sempre assente na retícula rigorosa (e pioneira, na lusáfrica) que se implantou, alongadamente, no sentido sudoeste‐nordeste. A malha da retícula inicial, tanto quanto foi possível averiguar, ia desde o Forte de São Fernando, desenvolvida em sete quarteirões no sentido nordeste, e em três, para o interior. (...)   Na comparação entre as duas urbes (com Sá da Bandeira),  ressaltam os seus traços comuns, na forma e no tecido urbano, e nos processos de implantação e de desenvolvimento respectivos, dentro de uma mesma época e civilização material. A malha urbana de Sá da Bandeira, atrás referida, assemelha‐se, na sua escala, modulação e dimensão global, à de Moçâmedes, remetendo‐nos para uma mesma tipologia de novas cidades, certamente concebidas pelos organismos estatais no quadro ministerial ultramarino do governo português – e com planos de autorias prováveis pelas equipas de engenheiros que, trabalhando nos serviços públicos, introduziam os novos saberes técnicos, por via da influência do ensino francês, com as suas escolas de “pontes e calçadas”.

( Texto integral  ass por José Manuel Fernandes.  Património de influencia portuguesa. Fundação  Calouste Gulbenkian)

TEXTO INTEGRAL AQUI

terça-feira, 3 de julho de 2012

A respeito de caçadas, e leões do Deserto do Namibe rondando os arredores de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe)


Uma história e algumas curiosidades: O acto corajoso de um componente da segunda colónia...

Na vida dos antigos colonos aconteceram factos isolados que se constituiram em momentos reveladores de enorme capacidade de decisão e coragem. Conta-se que um componente da segunda colónia se defrontou com um leão e o matou para salvar a própria vida e a dos seus companheiros.

Foi no Quipola, a 14 de Fevereiro de 1854. Havia várias noites que as fazendas dos colonos eram assiduamente visitadas por um leão, que, em cada visita, sofregamente, se vinha banqueteando com uma descuidada rêz. Pouco satisfeito com tão inoportunas visitas, o dito colono lembrou-se de, na tarde do dia 13, lhe pesquisar o rasto, e tendo-o encontrado, engendrou uma armadilha, colocando sobre ele, em sentido transversal, um pedaço de linha de barca, cuja extremidade prendeu ao gatilho duma espingarda carregada, avisando os vizinhos do ocorrido. Anoiteceu, O colono, já recolhido em casa, adormeceu. Por volta das oito horas ouviu uma estrondosa detonação que ecoou pelo vale do Bero. Convencido que o leão havia caído na armadilha ergueu-se, tomou rapidamente a refeição matinal e passando pelas moradas vizinhas a todos foi comunicando a boa nova, tendo ficado assente irem, pelas pegadas, procurar e matar o leão, caso estivesse apenas ferido. O leão, atingido no flanco, no auge do desespero estilhaçara a espingarda e arremeçara-a, bramindo, para longe. Procuraram a fera José Francisco Azevedo, Manuel Marcelino, João Fernandes Moreira, João Francisco Ribeiro, José Franscisco Moreira e Manuel José Machado. Meterem-se por numerosos carreiros, sem método nem organização, e ao mínimo ruído imaginando tratar-se da fera, imprudentemente desfechavam à toa as armas de que se fizeram acompanhar. O leão, perseguido, deambulava furioso pelo espesso mato. Em determinada altura os moradores até então dispersos, juntaram-se numa clareira e dali continuaram a disparar, quando, de chofre, lhes surgiu pela frente o leão furioso avançando rapidamente para o velho Marcelino, que, tendo a arma descarregada, voltou-se para fugir. Logo a fera o alcançou e cravou-lhe nas costas as garras das patas dianteiras, rasgando e pondo-lhe a nú as costelas. Perto, muito perto estava José Francisco de Azevedo, que, com a arma descarregada, num acto heróico destinado a salvar a própria vida, pediu a um dos companheiros a arma carregada e descarregando sobre o leão, salvou a vida, salvando simultaneamente a dos restantes colonos. A fera num ronco de dôr e cólera intensa, largou a presa e preparou-se para se lançar sobre o atirador, que empunhou a arma pelo cano e, brandindo-a com vigor, esmagou-lhe o crâneo com a coronha. A fera atordoada, tombou, e, num breve estertor, morreu.

A notícia espalhou-se por Mossâmedes, e acorreram ao Quipola grande número de colonos para verem o leão morto. O velho Marcelino, feitas as disposições de última vontade, faleceu no dia seguinte.
                                                                               
MariaNJardim