Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 3 de julho de 2012

A respeito de caçadas, e leões do Deserto do Namibe rondando os arredores de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe)


Uma história e algumas curiosidades: O acto corajoso de um componente da segunda colónia...

Na vida dos antigos colonos aconteceram factos isolados que se constituiram em momentos reveladores de enorme capacidade de decisão e coragem. Conta-se que um componente da segunda colónia se defrontou com um leão e o matou para salvar a própria vida e a dos seus companheiros.

Foi no Quipola, a 14 de Fevereiro de 1854. Havia várias noites que as fazendas dos colonos eram assiduamente visitadas por um leão, que, em cada visita, sofregamente, se vinha banqueteando com uma descuidada rêz. Pouco satisfeito com tão inoportunas visitas, o dito colono lembrou-se de, na tarde do dia 13, lhe pesquisar o rasto, e tendo-o encontrado, engendrou uma armadilha, colocando sobre ele, em sentido transversal, um pedaço de linha de barca, cuja extremidade prendeu ao gatilho duma espingarda carregada, avisando os vizinhos do ocorrido. Anoiteceu, O colono, já recolhido em casa, adormeceu. Por volta das oito horas ouviu uma estrondosa detonação que ecoou pelo vale do Bero. Convencido que o leão havia caído na armadilha ergueu-se, tomou rapidamente a refeição matinal e passando pelas moradas vizinhas a todos foi comunicando a boa nova, tendo ficado assente irem, pelas pegadas, procurar e matar o leão, caso estivesse apenas ferido. O leão, atingido no flanco, no auge do desespero estilhaçara a espingarda e arremeçara-a, bramindo, para longe. Procuraram a fera José Francisco Azevedo, Manuel Marcelino, João Fernandes Moreira, João Francisco Ribeiro, José Franscisco Moreira e Manuel José Machado. Meterem-se por numerosos carreiros, sem método nem organização, e ao mínimo ruído imaginando tratar-se da fera, imprudentemente desfechavam à toa as armas de que se fizeram acompanhar. O leão, perseguido, deambulava furioso pelo espesso mato. Em determinada altura os moradores até então dispersos, juntaram-se numa clareira e dali continuaram a disparar, quando, de chofre, lhes surgiu pela frente o leão furioso avançando rapidamente para o velho Marcelino, que, tendo a arma descarregada, voltou-se para fugir. Logo a fera o alcançou e cravou-lhe nas costas as garras das patas dianteiras, rasgando e pondo-lhe a nú as costelas. Perto, muito perto estava José Francisco de Azevedo, que, com a arma descarregada, num acto heróico destinado a salvar a própria vida, pediu a um dos companheiros a arma carregada e descarregando sobre o leão, salvou a vida, salvando simultaneamente a dos restantes colonos. A fera num ronco de dôr e cólera intensa, largou a presa e preparou-se para se lançar sobre o atirador, que empunhou a arma pelo cano e, brandindo-a com vigor, esmagou-lhe o crâneo com a coronha. A fera atordoada, tombou, e, num breve estertor, morreu.

A notícia espalhou-se por Mossâmedes, e acorreram ao Quipola grande número de colonos para verem o leão morto. O velho Marcelino, feitas as disposições de última vontade, faleceu no dia seguinte.
                                                                               
MariaNJardim

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