Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 18 de agosto de 2012

Usos e costumes olhanenses transferidos para Mossâmedes (Moçâmedes ), no século XIX, inícios do século XX, ao nível da indumentária feminina: o uso do biôco





MULHERES EMBIOCADAS NAS RUAS DE MOÇÂMEDES...


Interessante foto, tirada entre finais do século XIX, inícios do século XX, numa rua de Moçâmedes  (actual cidade do Namibe). Trata-se de três senhoras vestidas com o tradicional "bioco", como era na época tradição em Olhão (Algarve), uma peça de vestuário em forma de capa destinada a cobrir inteiramente a mulher que a usava, sendo a cabeça ocultada pelo próprio cabeção,  ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas, dizia-se, pareciam "ursos com cabeça de elefante".

Como sabemos,  a Moçâmedes a partir de 1861 começaram a chegar,  em caíques, palhabotes e barcos à vela,  navegando por sua conta e risco, grupos de famílias algarvias que ali se fixaram, ou em praias próximas (Porto Alexandre, Baía dos Tigres, Baía das Pipas, Catára, etc), entregando se à faina da pesca. Olhão teria sido, naturalmente, a terra da proveniência destas três senhoras (anónimas), que levaram para os confins de África,  este costume algarvio que sugere e influencia arabe. Alias, no Algarve ninguém tem dúvidas, o "biôco" ficou a dever a origem à influência dos mouros e ao legado de cinco séculos de ocupação árabe, presente incluso na arquitectura, para além de usos e costumes como este. Autores defendem  a origem árabe do bioco e que a sua utilização abrangia a quase totalidade do território nacional,  essencialmente o Alto Algarve, o Alentejo e Ilha Terceira, nos Açores. Não eram precisamente iguais, no entanto, apesar da distância geográfica, existem muitas semelhanças.

Recorde se que o Gharb al-Ândalus era a parte mais ocidental do al-Ândalus, que corresponde a parte do actual território português. Em 711, os muçulmanas atravessaram o estreito de Gibraltar e deram início à conquista da Península Ibérica, o al-Ândalus. O ocidente peninsular de influência mediterrânica, o Gharb al-Ândalus — corresponde aproximadamente aos limites da antiga Lusitânia — embora intensamente islamizado, não assumiu o protagonismo de outras regiões do al-Ândalus, resistindo sempre aos processos de centralização do califado de Córdova (Cordoba), ou posteriormente de Sevilha. O Gharb incluía cinco territórios principais correspondentes ao termo de Coimbra, ao estuário do Tejo, ao Alto Alentejo, ao Baixo Alentejo e ao Algarve. Estes territórios estendiam-se ainda para as actuais Estremadura espanhola e Andaluzia Ocidental. Destacavam-se as cidades de Coimbra, Lisboa, Santarém, Silves, Mértola, Faro, Mérida e Badajoz. O Gharb começou a perder terreno aquando da Reconquista, na qual os reis cristãos do norte da península, nomeadamente D. Afonso Henriques, começaram a conquistar o território para Sul. O fim do Gharb foi assinalado com a conquista do Algarve pelo rei D. Afonso III.

 Em 1822, Raul Brandão escreveu a propósito desta indumentária, no seu livro "Os Pescadores":

" Ainda há pouco tempo todas as mulheres de Olhão usavam cloques e biôco ou biuco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis. É um trajo misterioso e atraente . Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. é uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."


No Alto Alentejo este tipo de indumentária era conhecida por "côca", e teria começado por ser um traje de noiva na segunda metade do século XIX, tendo a dimensão e colocação do véu a ver com três posições distintas, consoante a classe a que pertencia a nubente. A "côca" como traje de noiva acabou por rapidamente cair em desuso, e passou a ser moda apenas no seio das mulheres aristocratas ou da alta burguesia quando assistiam a actos religiosos, obras de caridade, ou nas visitas a amigas,  entre finais do século XIX e princípios do XX.  Elas usavam essa espécie de "biôcos" cobertos no cimo por uma renda larga que caía sobre as costas, agregados a uma capa curta . À frente era armado em papelão, ou tarlatana, para se manter aberto. Em alguns casos a renda era colocada caindo do alto da cabeça sobre as costas, em outros era posta em sentido contrário, isto é, cobrindo o rosto. Completava o trajo uma saia de merino. José Leite de Vasconcellos observa que este seria o "trajo clássico de se ir à festa do Sacramento, que durava de quinta-feira do Corpo de Deus até à segunda-feira seguinte". O investigador apresenta uma testemunha ocular que, entre os anos de 1862 e 1866 terá visto as mulheres assim embiocadas, e explica que este processo só era possível mediante a utilização de "um papelão curvo que encobria a cabeça, como as mantilhas de Mondim, coberto de preto e com pano nas costas".


Em 1920, a revista Ilustração Portugueza publicou uma reportagem intitulada “Algarve: Jardim da Europa”, onde o autor, por entre relatos idílicos de uma vida campestre hoje estranha àquela região, fala do biôco como uma realidade a desaparecer, mas ainda presente. ...A camponesa algarvia (…) não conhece o garridismo das cores hilariantes, e na cabeça, sobre o lenço escuro, estendido em ponta, põe a tampa androgina de um chapeu de homem. E em alguns pontos, como em Olhão, usa ainda o seu trajo antigo, a capa e o biôco que lhe imprimem agourentas aparencias de esfinge”, lê-se.




 


 Nos Açores a mulher usava como agasalho, a sua espécie de capa idêntica ao "bioco" algarvio. Era um capote preto com capelo armado, diferindo o seu feitio de ilha para ilha. Leite de Vasconcelos visitou o arquipélago em 1924 e pôde ver como elas na Ilha Terceira e no Faial usavam mantos e capotes, um costume que chegou até meados do século XX nos meios citadino. O manto era uma saia comprida e rodada de cor preta, o capote era uma espécie de capa ampla, mais farta lateralmente que nas costas. Quando utilizavam o manto, o capelo era armado com cartão e atado pela cintura, e a mulher segurava-o com as mãos de modo a encobrir o rosto. Com o capote, o capelo era utilizado sobre os ombros. Neste caso traduzia-se num amplo capuz suportado por um arco de osso de baleia, sendo a sua rigidez conferida pelo forro de cânhamo. Dos três trajes apenas o dos Açores é ainda hoje identificado pelo público em geral, já que se tornou num símbolo dessa região e é amplamente divulgado pelos ranchos folclóricos. Quanto aos restantes, correm o risco de cair no esquecimento já não são mostrados pelos grupos das suas regiões de origem.

Na realidade não se sabe quando este tipo de indumentária feminina foi introduzido em Portugal, sabe se que há registos da sua utilização desde 1609, no reinado de Filipe II, e que ha quem defenda que teria entrado em uso em 1649, no reinado de D. João IV.

Não serão  o "bioco" algarvio,  a "côca" alentejana, e o "capelo" da Ilha Terceira (Açores), algo parecido com a tão criticada "burca" que ainda hoje é imposta às mulheres no mundo muçulmano fundamentalista, destinando-se a sua utilização a impedir o seu contacto com os transeuntes que com ela se cruzassem na rua, ocultando a sua identidade?




 
Talvez. Não esqueçamos  que,  como ficou escrito atrás o Algarve  sofreu a ocupação árabe durante mais de 500 anos, e que o estatuto de subalternidade da mulher em relação ao homem recaiu sobre ela  até quase ao limiar do século XX. Estamos perante um tipo de indumentária feminina que, para além da sua função de abafo, promove um certo apagamento da mulher na esfera pública, e aponta mesmo para a total exclusão do elemento feminino da sociedade, uma vez que, completamente coberta, dificilmente se descobriria a sua identidade. Por outro lado permitir-lhe-ia alguma liberdade,  já que não sendo identificável ela podia movimentar-se livremente ocultada dos olhos castradores da moralidade alheia.

Oficialmente a extinção do uso desta peça de vestuário feminina ocorreu em 1892, por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve.

"Faço saber que pelo regulamento policial d’este Governo Civil, de 6 do corrente mes, com execução permanente, aprovado pelo governo, determino o seguinte:

Artigo 32º – É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito o uso dos chamados rebuços ou biôcos de que as mulheres se servem escondendo o rosto.

Artigo 33º – As mulheres que, nesta cidade, forem encontradas transgredindo o disposto no precedente artigo serão, pelas vezes primeira e segunda, conduzidas ao comissário de polícia ou posto policial mais próximo, e nas outras povoações à presença das respectivas autoridades administrativas ou aonde estas designarem, a fim de serem reconhecidas; o que nunca terá lugar nas ruas ou fora dos locais determinados; e pela terceira ou mais vezes serão detidas e entregues ao poder judicial, por desobediência.

Parágrafo único – Esta última disposição será sempre aplicável a qualquer indivíduo do sexo masculino, quando for encontrado em disfarce com vestes próprias do outro sexo e como este cobrindo o rosto.

Artigo 34º – O estabelecido nos dois precedentes artigos não terá lugar para com pessoas mascaradas durante a época do Carnaval, que deverá contar-se de 20 de Janeiro ao Entrudo; subsistirão, porém, as mesmas disposições durante a referida época, em relação às pessoas que não trouxerem máscara usando biôco ou rebuço.

Artigo 41º – O presente regulamento começa a vigorar, conforme o disposto no artigo 403º do código administrativo, três dias depois da sua publicação por editais – Governo Civil de Faro, 28 de Setembro de 1892. – Júlio Lourenço Pinto."

O bioco foi proibido nas ruas e templos, mas atenção, ela continuou a ser usada em Olhão até aos anos 30 do século XX, quando foram vistos os últimos biocos.  Dois anos volvidos, o mesmo governador assinava as palavras que abrem este artigo e parecia lamentar a regulação. ...E o biôco, indestructivel como as pyramides do Egypto que medem a sua existencia pela dos seculos, foi sacrilegamente banido dos costumes algarvios”, dizia, atirando a responsabilidade da proibição para a “influencia da opinião publica”. 

A proibição, contudo, parecia desnecessária, pois já havia uma regulação que proibia as mulheres de andarem com a cara tapada. E essa lei tinha sido produzida mais de 200 anos antes, como explica Joaquim José Caetano Pereira e Sousa em 1827 na obra “Esboço de hum diccionario juridico, theoretico, e practico remissivo às leis compiladas, e extravagantes”: Pelo Decreto de 11 de Agosto de 1649, e Alvará de 20 do mesmo mes, e anno se prohibirão os rebuços das mulheres; e pelo outro Alvará de 6 de Outubro do mesmo anno se declarou que as mulheres devião andar com a cara descoberta, ou, havendo de trazer biôco, devião trazer o manto cahido até aos peitos”.  A verdade é que o decreto parece ter sido letra morta.
Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o "himation", ou seja, um manto, com o qual cobriam a cabeça, e que talvez eles próprios imitassem um costuma mais antigo. E que o Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto sobre a cabeça, à moda etrusca.  Sabemos também que S. Paulo introduziu o costume de as mulheres sérias cobrirem a cabeça para que se distinguissem das mulheres descobertas ou meretrizes, daí que entrar numa Igreja com a cabeça descoberta, fosse até há bastante pouco tempo, um sinal de desrespeito, insubmissão e falta de humildade perante Deus. E que  por toda a Europa (França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal), surgiram diversas peças de vestuário que cobriam por inteiro a sua utilizadora. 
 E claro a foto das mulheres embiocadas nas ruas de Mocãmedes retrata já uma outra época em que o processo de laicizacao da sociedade estava em marcha sob o impeto do liberalismo, quando não da 1 Republica que veio promover a separação de poderes Igreja e Estado. Sem duvida usos e costumes sao dificeis de mudar e por vezes a lei tem que actuar. Nao era apenas na Idade Média europeia que o facto da mulher enfeitar-se, maquilhar-se, exibir-se, era visto como subversão das regras sociais. Em pleno seculo XIX, com o avanco da burguesia europeia o papel da mulher na sociedade mais que nunca se reduzira ao papel tradicional de dona de casa, esposa e mae. A laicização da sociedade iniciada no sec XIX, em Portugal, apos a queda do absolutismo e o triunfo do liberalismo e dos ideais iluministas veiculados pela Revolução Francesa, e a entrada na modernidade proporcionada pela Revolução Industrial, vieram imprimir um rude golpe na subjugação secular a que a mulher estivera sujeita.




Pesquisa e texto de MariaNJardim
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2012_08_18...


 

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Bibliografia consultada:


Braz Teixeira, Madalena, Trajes Míticos da Cultura Regional Portuguesa, 1994, Museu Nacional do Traje.

Ormonde, Helena, in O Traje do Litoral Português, Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, Câmara Municipal da Nazaré

PITA, António, Côca ou Mantilha - Século XIX - Uma Traje de Festa e de Solenidade do Alto Alentejo – Câmara Municipal de Castelo de Vide, Secção de Arqueologia, Maio1999


Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o "himation", ou seja, um manto, com o qual cobriam a cabeça, e que talvez eles próprios imitassem um costuma mais antigo. E que o Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto sobre a cabeça, à moda etrusca.  Sabemos também que S. Paulo introduziu o costume de as mulheres sérias cobrirem a cabeça para que se distinguissem das mulheres descobertas ou meretrizes, daí que entrar numa Igreja com a cabeça descoberta, fosse até há bastante pouco tempo, um sinal de desrespeito, insubmissão e falta de humildade perante Deus. E que  por toda a Europa (França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal), surgiram diversas peças de vestuário que cobriam por inteiro a sua utilizadora.



1 comentário:

  1. Ajudou valeu bgd n estava percebendo nada da matéria agr percebi !! '-'

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