Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 24 de outubro de 2012

José Moreira de Pinho Trindade, descendente dos pioneiros da colonização de Moçâmedes. O jornal «O Namibe», a poesia, etc...




 

Na foto: José Moreira de Pinho Trindade , a esposa e os 3 filhos mais velhos, Georgina Zulmira Alves Trindade (Gina), Clara Bela Alves Trindade (Bela) e Roberto Alexandre Alves Trindade. Desta união nasceria ainda Carlos Alberto Alves Trindade



Recordando gente da nossa terra...


JOSÉ JOAQUIM DE PINHO (1820-1875)

 http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2007/08/componente-da-peimeira-colnia.html


Se houve pessoas que marcaram presença o desenrolar da vida, das vivências e convivências na cidade de Moçâmedes,  Namibe, uma delas foi José Trindade, proprietário do "Jornal o Namibe" e de uma tipografia situada na Rua dos Pescadores.

José Trindade era  descendente de um pioneiro da colonização, José Joaquim de Pinho (1820-1875)*, natural de Aveiro, que juntamente com outros portugueses idos de Pernambuco (Brasil) na barca brasileira "Tentativa Feliz" para Moçâmedes, ali chegou a 4 de Agosto de 1849. Vinham dar inicio ao povoamento branco do distrito.  José Joaquim de Pinho foi proprietário de terras na região, entre elas a fazenda da Várzea da Boa Esperança.  Faleceu em Moçâmedes, em 27.11.1875, encontrando-se os seus restos mortais, junto com os da sua mulher, sepultados sob um mausoléu no cemitério local, mandado erguer pelos seus filhos.

Mas José Trindade para além de proprietário do "Jornal o Namibe" e de uma tipografia, também era jornalista; era ele próprio escrevia muitos dos artigos que eram publicados no seu Jornal, os quais assinava ora como J. Trindade, ora como Carlos Alberto, e ainda como REX, para além de dominar a arte de versejar, faceta pouco desconhecida de quantos habitavam a cidade de Moçâmedes.

Seguem dois dos seus poemas que me foram gentilmente enviados, juntamente com a foto acima, pelo seu filho e meu ex-colega de escola, Roberto Trindade.

 




Moçâmedes e o Mar



Entre as águas azuis do mar uivante

e a areia fulva do deserto agreste

- como presa nos braços de um gigante-

foi, Princesa, que tu aqui nasceste!


Nasceste em terra dura e ressequida

E tens mesmo a welwitschia por irmã,

e, à força de viveres esta vida.

conquistaste a coragem de um titã!


Venceste as bravas ondas turbulentas,

enfrentaste as garrôas do Deserto,

e, após tremendas lutas bem cruentas,

mudaste a rota a um destino incerto!


Tornaste natural o que era estranho

ao dominar os fortes elementos:

nas areias fizeste o seu amanho

e ao Mar foste colher os alimentos:


Consumidos cem anos em batalhas,

és tão pobre como eras no começo,

mas, rica em fidalguia, tu trabalhas

p`r atingir as estradas do Progresso!


Agora, à custa desse teu Namibe

e da formosa Praia das Miragens

como quem ao olhar do Mundo exibe

belezas naturais, raras imagens -


Tu voltaste de novo a triunfar!

fazendo de ambos um cartaz berrante,

passaste a festejar o velho Mar,

companheiro do povo navegante.



Carlos Alberto

 




Em Moçâmedes poucos escapavam a uma alcunha, e  José Trindade coube era conhecido por «Zé Côco». Era um fumador inveterado que não parava de fumar enquanto escrevia e orientava os trabalhos na sua Tipografia. Era cigarro atrás de cigarro, até virar «beata» a queimar-lhe a ponta dos dedos...

A respeito desta faceta de seu pai assim escreveu seu filho Roberto: 
"...Ele e o Antenor Carranca só viviam para o jornal. É pena que o Antenor tenha desistido tão cedo !  O meu pai era um tanto ou quanto lunático. Ia pelo passeio com o cigarro a arder na boca, não ia a fumar, só a fumegar. Ia a pensar naquela rima que lhe faltava para o soneto que estava a escrever ... À noite no seu quarto, mergulhava no monte de jornais que recebia de todo o lado, queimava montes de cigarros que ficavam a arder no cinzeiro. Tamborilava os dedos no tampo de mesa para contar as sílabas e encontrar a célebre rima. Deitava-se às 3 da manhã e às 8 já estava à minha espera para irmos para o Jornal ... Se demorasse ele ia a pé."



Quanto à faceta poética de José Trindade, e a respeito do TABACO, ele mesmo escreveu um poema numa altura em que devido à seca a indústria tabaqueira angolana passava por uma grave crise, ao ponto de ter faltado tabaco nos locais de venda em Moçâmedes, situação que agitou os ânimos dos viciados.  Eis o poema:



Não há tabaco!



(Referência alegre à cruciante à tragédia tabaqueira ocorrida há dias)


As armas e os barões assinalados

que os tempos vão maus, muito envinagrados!

Não há tabaco e estamos desgraçados!

A seca foi atroz e foi completa

de deixar um parceiro mui pateta!


Desta vez não houve contemplações:

não fumaram pobres, ricos e ladrões!


Conheço fumadores consagrados

que agora apenas ... chucham rebuçados!

Conheço até uma Domingas ,

que é minha lavadeira e confidente.

Sei que adora o tabaco e as boas pingas.


E, como continua sorridente,

indaguei da maneira que ela usava

pr´enfrentar o problema. E essa avis-rara

disse: - Eu não perdi tempo , e sem mangonha

fui comprar umas doses de cangonha!...


A situação tristonha e angustiosa

veio pôr a cidade em polvorosa.

Os cigarros de filtro e os tais sem ponta

são luxo com que a gente já não conta:


Não há Deltas, Marinas, Francesinhos

e até Negritos já não têm os barzinhos!

Fumar é vício lindo que morreu

e, p´ra vida ser feita de veludo,

vamos fumar p´la ponta de um canudo,

recordando a beata que já ardeu!


E como um bom charuto custa caro,

Não fumes disso, ó meu judeu avaro!



(José Trindade)






Estas eram algumas marcas de tabaco que se vendia em Angola

 

 




Do "Jornal Namibe" apresentamos a seguir um derradeiro artigo, publicado em 1975, quando Portugal se preparava para pôr a funcionar, com a ajuda de potências estrangeiras, uma «ponte aérea» sem retorno que haveria de promover o repatriamento massivo dos portugueses do território de Angola  naquilo que redundou numa autêntica "limpeza étnica".





 


                                             
                                                                


  
Clarabela e Gina, as duas meninas de José Trindade já rapariguinhas, em 1953/4? envergando a camisola do Benfica, "o clube de sempre" das duas manas Trindade.

 
Sem desprestígio para a mana Gina que também era uma excelente basquetebolista, Clarabela, era sem dúvida a alma da equipa de basquetebol feminino do Sport Moçâmedes e Benfica na década de 1950. Era aquela que, com a sua rapidez, as suas esquivas jogadas e os seus infalíveis lances de bola ao cesto, fazia vibrar os  adeptos benfiquistas que não cessavam de a ovacionar. Ver Memórias Desportivas AQUI




  Aqui podemos ver Roberto Trindade (em cima à esq) integrando o grupo de finalistas masculinos da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, em 1956. Ver AQUI


Para terminar vou lembrar uma situação que se passou entre José Trindade e a Câmara Municipal de Moçâmedes, que revela o quanto às vezes as pessoas que detêm algum poder são levadas a actos prepotentes, mesmo em situações em que os ventos não correm a favor dos organismos que representam.


Eis a situação:



José Trindade era há já um tempo credor da Câmara Municipal de Moçâmedes, por trabalhos prestados pela sua Tipografia que não havia meio de serem pagos. Cansado de esperar, tomou uma decisão: ele que fora sempre cumpridor das suas contas, resolveu pura e simplesmente deixar de pagar a conta da água e da luz eléctrica que a Câmara fornecia à Tipografia. Resultado, logo no dia seguinte bateu à porta da mesma um funcionário municipal que ali se deslocou para cortar o fornecimento de água. Porque lei é lei, para o organismo, não para as pessoas! Quanto ao resto apenas sei que o problema levantou grande celeuma, que José Trindade fez barulho, protestou, e que pelos vistos o problema acabou resolvido, pois a Tipografia, da qual dependia não apenas o seu sustento e da sua família, como sustento de mais algumas famílias que dependiam do salário dos que ali trabalhavam, lá continuou a funcionar.



A respeito de Jornais, a proveito para colocar aqui estas referências a jornais que no século XX foram editados em Moçâmedes:


1.O Sul de Angola, semanário independente de Moçâmedes, fundado em 1921 e dirigido por Mário Trabullo, seu proprietário.
2.Correio de Angola, de Moçâmedes, dirigido por José Manuel da Costa.
3. Mossâmedes, semanário dirigido por Joaquim Augusto Monteiro.
4.O Académico, de Moçâmedes, dirigido por José Pestana.
5.Sport de Moçâmedes, quinzenário desportivo, dirigido por A.A. Torres Garcia.


É com carinho que deixo aqui mais estas recordações de gente que viveu na nossa terra até às vésperas da independência de Angola em 11 de Novembro de 1975, e que, como tantas outras teve que partir, porque já não dava para continuar...


MariaNJardim


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