Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 4 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: a primeira ponte de cais

Descarregando munições em Mossâmedes (Moçâmedes/Namibe), antes da 1ª ponte, em ponte móvel

Colonos desembarcando em Mossâmedes(?), ou outra qualquer ponte na região...  Da capa do livro Slaves, Peasants and Capitalists in Southern Angola 1840-1926 (African Studies)
by W. G. Clarence-Smith (December 3, 2007) 
A ponte de caes de Mossâmedes (Moçâmedes/Namibe) e piquete da Guarda-Fiscal (de Gustave Eiffel).
  Foto do album de Cunha Moraes. Esta ponte começou a ser construida em 1880 e foi inaugurada em 1881. Custou 26 mil reis


Até 1873 não havia em Moçâmedes um modesto arremedo sequer de ponte de cais.Na baía, apesar da extensão e profundidade do fundeadoro, faziam-se os embarques pessoais aos ombros dos pretos, que, desastrosos, compeliam por vezes os passageiros a tomarem um banho forçado. Já em 1861, o autor anónimo do livro "Quarenta e cinco dias em Angola" aconselhava a construção de um cais que nivelasse a praia pela altura proximamente das construções regulares e com escadarias para embarque e desembarque de pessoas e uma ponte de carga e descarga para o serviço da Alfândega. Só em 1873 é que se construiu em Moçâmedes a primeira ponte de cais, toda de madeira, acente sobre estacaria, que, pela celeridade da construção, em pouco tempo se arruinou e se inutilizou. Assim nos informa o Governador Costa Cabral no seu relatório, datado de 19 de Junho de 1877, propondo a sua urgente substituição e lamentando que não houvesse no local outros meios de desembarque, ou de carga e descarga, que se faziam, em ocasiões de grande calema, com perigosos riscos pessoais e sensiveis prejuizos para as mercadorias. 
 
***

in Archivo Pittoresco, Semanário Ilustrado,  vol x, 1867, uma referência
que mostra bem a penúria da colonização portuguesa:

"...Noticias posteriores dizem que o governador ultimamente nomeado, o sr. Graça, completando o pensamento do seu antecessor, o sr. Costa Leal. ia mandar construir o caes em frente da alfandega, para o que encontrara já alli amontoado não pouco material; mas, como lhe faltassem para isso os necessários meios, abrira uma suhscripçao particular entre as pessoas mais abastadas e mais interessadas do municipio, e esta subscripçao  em alguns dias, produziu logo a quantia de 20000 réis. A construção do caes é de grande utilidade, pois torna mais commodo e menos perigoso o desembarque de pessoas e mercadorias."

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Sobre a primitiva ponte, refere em 1954  Manuel Júlio de Mendonça Torres: "Durou esta ponte, cuja localização os textos nos não indicam, até 1881, ano em que foi inaugurada a actual, no dia 04 de Agosto, pelo Governador Nunes da Mata, assunto de que havemos de tratar num volume, possivelmente intitulado "O Distrito de Moçâmedes, na quadra da produção intensiva da cana". 

In Conspecto Imobiliaário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1960 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres in
Boletim do Ultramar
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.



Perspectivas da Ponte de cais antes do acrescento em madeira que veio a  acontecer, por força  do recuo das marés.
Movimento na ponte onde se vê o guindaste. Encostados à ponte um batelão e mais próximo uma chata

Desembarque do Bispo de Angola, D. António. Este conjunto de fotos, embora de finais do século XIX e  de inicios do século XX, já apresentam a ponte de embarque/desembarque definitiva


 Perspectiva da ponte, tendo por fundo uma parte da vila e a praia. Foto  de  finais do século XIX. A ponte foi inaugurada em 1881.

Outra perspectiva da ponte, esta já do início do século XX , onde se pode ver a Estação do Caminho de Ferro e estaleiros, o Observatório Metereológico, o Piquete da Guarda Fiscal, o Colégio das Doroteias, o edificio do Cabo Submarino, as Casuarinas etc.

 

Este postal regista o momento da passagem pelo antigo Piquete da Guarda Fiscal de Mossâmedes, em 1 de Outubro de 1905 do Conselheiro do Governador Geral de Angola, já de regresso a Luanda. No dia 28 de Setembro de 1905 fora inaugurada a Estação principal do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes  ,  assinada a acta, e ptocedeu-se ao assentamento da primeira pedra no cunhal leste da estação pelo  Dr. Ramada Curto. No dia 29 de Setembro de 1905 fora oferecido um copo d'água, no Saco, pela comissão de festejos, composta de comerciantes e agricultores da cidade. Também no mesmo dia partiu o primeiro comboio de Mossâmedes (Moçâmedes) ao Saco, conduzindo o Conselheiro Governador Geral, o Governador do Distrito, e o Engenheiro Director dos Caminhos de Ferro de Luanda e convidados.
 
 O Piquete da guarda-fiscal era um tipo de construção interessante, do século XIX, de traça romântica, que  acabou por desaparecer  com  a  inauguração do cais acostável. Era por ali que se fazia o controle da saida e entrada de mercadorias e pessoas que dos navios, ancorados a meio da baía, acediam à ponte, as mercadoria através de quatro batelões, barcos possantes e sem motor,  que eram por sua vez rebocados por um  pequeno barco a motor, as pessoas em barcos a motor alimentados a gasolina, chamados, por analogia, de «Gasolinas». Eram pequenos barcos, agradáveis à vista,  pintados de branco, que podiam possuir uma cabine totalmente fechada, ou meia fechada, com bancos corridos, e que comportavam cerca de 50 pessoas, sentadas e de pé. 

 

A PONTE (POEMA)
Moçâmedes, Beijada pelo Deserto

"A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

De "Poemas Imperfeitos"
Joaquim Paço D´Arcos

(que viveu em Moçâmedes de Setembro de 1912 a Fevereiro de 1914)
 
CURIOSIDADES

Conta-se que nesses tempos em que não existia cais acostável e os navios fundeavam ao largo, houve necessidade de se descarregar carruagens  destinadas ao Caminho de Ferro de Moçâmedes e como na época era a firma Duarte d'Almeida, agentes da Companhia Nacional de Navegação (CNN), que possuia um estaleiro na Torre do Tombo na antiga praia do cano, na  hoje zona marginal, teve de construir algumas barcaças bastante grandes para se fazer a descarga. As barcaças eram encaminhadas para a antiga praia da Capitania que ficava junto a esta ponte onde foram montados carris ficando ali a aguardar a altura própria da maré para que fossem removidas as carruagens para terra firme. Nesta operação bastante difícil e instável trabalharam entre muitos alguns carpinteiros da época, Gilberto, Celestino, Manuel e António Valente, André, etc., gente anónima que merece ser aqui lembrada.

 Na ponte através de um guindaste embarca-se gado bovino. Ao largo, navios, palhabotes, batelões e baleeiras. Transcrevo um texto de Roberto Trindade




TOURADA NA PRAIA
(De Roberto Trindade)

Antes de ter sido construído o cais acostável, a estrada marginal e a linha de caminho de ferro que a acompanhava para transporte das mercadorias, os navios que escalavam Moçâmedes fundeavam ao largo e os passageiros eram transportados para terra e para bordo, por pequenos barcos de passageiros a que chamavam os “gasolinas do Bauleth”, por ser o sr. Bauleth o concessionário de tal transporte.
As mercadorias eram descarregadas para bordo de batelões, que eram rebocados para ancorarem ao largo, aguardando que fossem descarregados na ponte cais, onde trabalhava o sr. Rogério Camusseque, que para lá se deslocava na sua velha e pachorrenta bicicleta, tendo a parte de baixo das calças seguras com duas molas de roupa, para que se não sujassem de óleo na corrente da geringonça ! Também lá trabalhava nos guindates o sr. António Martins, irmão de outro Martins da Escola Industrial, e ainda irmão do João e Roberto Latinhas (...)

(Por alturas do Natal, nadávamos para os batelões para nos abastecermos de castanhas) ! ...
Do mesmo modo procediam quando as mercadorias, não só locais, como de outras zonas do interior, eram exportadas a partir de Moçâmedes.

Ali embarcavam pequenas manadas de gado destinadas ao puto. Os mucubais levavam a manada até à ponte, e o processo de embarque era muito original. Passavam uma cinta pela barriga do animal e este era içado pelo guindaste que o ia colocar a bordo do batelão. (Vejam na foto que junto abaixo, onde se vê um boi pendurado).

Por vezes acontecia escorregar um bicho que dava um monumental mergulho e acabava por nadar para terra e ir esbaforido para a Praia das Miragens, causando o pânico entre os banhistas que ali disfrutavam e se bronzeavam.

Certo dia em que aconteceu o mesmo, o desgraçado do boi corria de um lado para o outro, assustado e assustando cada vez mais os banhistas que tentavam correr mais que o boi e ainda assustavam mais o bichinho.

Foi nessa altura que se revelou o grande talento do nosso saudoso amigo António Carvalho Minas (Tonito Minas, como era conhecido) para a arte de bem tourear. O Tonito agarrou numa toalha de banho e vai de enfrentar a fera !...

Imaginem a cena : O boi assustado e o Tonito gritando : Hé, touro !
Fez uma faena e tanto, de tal forma que, em Moçâmedes, durante um tempo foi tema de conversa e foi merecida a ovação que todos lhe prestaram."


Ela ainda existe, velhinha e desmobilizada, testemunho silencioso de um tempo que não volta mais, desmobilizada que fora  após a inauguração, em 24.05.1957, do 1º troço das obras do cais do porto de cais iniciadas em 24.06.1954,  por ocasião da visita à cidade e distrito do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes.