Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 29 de julho de 2012

Traços comuns do património de origem portuguesa na África Subsaariana

 
Moçâmedes e a sua retícula rigorosa (e pioneira, na lusáfrica) que se implantou, alongadamente, no sentido sudoeste‐

 

1. Transcreve-se  do Portal "Hpip, Património de Influância Portuguesa", parte de um texto sobre  Namibe, Moçâmedes, Angola, Enquadramento histórico urbanistico:

"...Antes do plano elaborado no Gabinete de Urbanização Colonial pelo arquiteto João António Aguiar em 1952, a cidade estruturava‐se segundo uma retícula, em quarteirões, com edifícios implantados no seu perímetro, numa estrutura hierarquizada de ruas e praças, rematada por uma avenida marginal. A relação com o mar fazia‐se fundamentalmente pelas atividades económicas que ali se processavam, desde os armazéns ligados à pesca ao terminal do caminho‐de‐ferro e ao pontão ferroviário para cargas e descargas no porto.
 

O caso de Moçâmedes é bastante interessante, pelo facto de integrar em si duas características: a de cidade costeira, e por isso aberta ao mar, e a de urbe sob influência do caminho‐de‐ferro. Este último não interfere no desenho geral da cidade, pelo facto de se localizar paralelamente à linha da costa e junto dela. Este perfil e esta vocação viriam a ser alterados (ganhando uma componente lúdica também ligada ao mar e ao turismo), com a proposta do plano, através de uma expansão de desenho bastante formal, constituída por quarteirões fechados e abertos, compostos por tipologias de habitação coletiva e unifamiliar, com o verde como tecido agregador, esboçando uma simbiose entre o modelo da cidade‐jardim e a cidade tradicional. Esta proposta prolongava‐se por toda a extensão da Baía de Moçâmedes, criando uma grande avenida marginal, com novecentos metros de comprimento e trinta e dois de largura. Só em 1954 se voltou a elaborar um plano para a expansão da cidade, o Plano Geral de Urbanização de Moçâmedes, destacando‐se neste a construção do Porto Comercial e dos principais equipamentos públicos da cidade. Nos finais dos anos 1960, revelou‐se o potencial turístico de Moçâmedes. O seu desenvolvimento estratégico presidiu, em 1968, ao Plano Regulador de Moçâmedes e, em 1969, ao Plano Parcelar da Zona Marginal. Com a independência de Angola, grande parte dos objetivos destes planos ficaram sem efeito, verificando‐se apenas a construção parcial de dois pequenos bairros residenciais.

Fim de transcrição


2. Transcreve-se parte de um trabalho deveras esclarecedor, assinado por José Manuel Fernandes, sobre "Traços comuns do património de origem portuguesa na África Subsaariana",  na parte que diz respeito a Moçâmedes, a actual cidade do Namibe

"...O período oitocentista em estudo caracterizou‐se, em termos urbanísticos, no quadro da cultura euro‐americana, pela divulgação e intensa aplicação dos planos com malha em retícula geométrica rigorosa – quer em extensões de cidades existentes, quer na implantação de novas urbes. Correspondeu à chamada fase reformista da Revolução Industrial, sobretudo na segunda metade do século XIX, quando as grandes cidades euro‐americanas, como Paris, Londres, Barcelona, Viena ou Chicago sofreram vastas intervenções planeadas e dirigidas de reorganização espacial, funcional, equipamental – adaptando‐as ao novo estatuto de cidades industriais. Estas retículas, que correspondiam à concretização racionalista, no espaço das cidades, dos novos sistemas de comunicação e transporte (caminhos de ferro, metropolitano) e de infraestruturação básica (esgotos, água, gás, depois a eletricidade), exprimiam na sua linearidade retilínea e cruzada (avenidas largas, paralelas e perpendiculares, gerando sistemas de quarteirões de planta retangular), o primado das novas técnicas e sistemas de produção fabris, a ideia de aplicação à cidade do mecanicismo como forma privilegiada de ação de modernização – ainda num quadro pré‐rodoviário, mas que com a viragem de 1900 rapidamente incluirá a adaptação urbana a esta nova modalidade.
Em Portugal, se houve extensões urbanas contemporâneas deste tipo, à escala modesta das suas cidades (em Lisboa, com a Avenida da Liberdade, em 1879, e no Porto, com a Avenida da Boavista), e mesmo a criação de algumas novas cidades (a malha reticulada de Espinho, no final de Oitocentos), a grande ou mais significativa aplicação deste nova tipologia urbana (em formato relativamente modesto, que decorria da pobreza e dos recursos financeiros escassos) verificou‐se na África Subsaariana.
Os primeiros modelos geométricos afro‐coloniais surgiram ainda na primeira metade do século XIX, com o plano de 1838 de Sá da Bandeira para o Mindelo, embora a sua aplicação concreta não tenha ocorrido. Verificou‐se, sim, um crescimento mais pragmático da cidade, com origens marianas e de início de Oitocentos, nos anos de 1850‐1870, com base numa retícula mais irregular e orgânica, num compromisso com a tradição urbana lusa da época anterior, que a implantação na baía abrigada confirmava. O desenvolvimento acentuou‐se depois com a fixação de companhias comerciais inglesas, e a elevação a cidade deu‐se em 1879.
O desenho do plano de 1838 incluía uma retícula rigorosa de ruas e quarteirões, inscrita numa área retangular, à maneira pragmática do século XIX. No interior do tecido urbano, dois eixos perpendiculares cruzar‐se‐iam numa rotunda. No extremo poente, uma praça cívica abrir‐se‐ia para o mar, contendo igreja, paço episcopal, palácio do governo e câmara; e no topo oriental, três eixos arborizados irradiariam para um parque. Nas extremidades litorais, a alfândega e o mercado completariam o conjunto. Embora não aplicado, este plano marcou claramente a mudança de paradigma urbanístico para as colónias africanas, pois nas décadas seguintes verificou‐se a aplicação de malhas geométricas, como sistema normativo de implantação de novas urbes.
Duas das retículas mais impressivas e eficazes foram propostas – e desta vez rapidamente aplicadas – às novas cidades de Moçâmedes, atual Namibe, e Sá da Bandeira, atual  Lubango, ambas no sul de Angola; portuária a primeira, de planalto interior a segunda, ambas as cidades se ligaram mais tarde por um eixo ferroviário, que as constituiu nos dois marcos fundamentais do principal eixo urbano de ocupação urbana e de penetração para o interior sul‐leste do território angolano. Ambas as cidades eram estruturadas, bem na linha do urbanismo oitocentista de essência geométrico‐mecanicista, a partir das suas respectivas retículas genéticas, moduladas e seriadas, com um núcleo institucional central, congregando as funções representativas essenciais, servindo a retícula, para além de suporte ao espaço residencial primevo, para articular a atividade urbana com a área portuária e/ou alfandegária, por um lado, e com a estação e parque ferroviários, por outro. Vejamos agora mais em pormenor a caracterização destas duas intervenções do sul de Angola.
A área de Moçâmedes teve um primeiro reconhecimento em 1839, a que se seguiu, no mesmo ano, a criação de uma feitoria e a instalação de uma pescaria algarvia em 1843. Com cerca de cento e sessenta habitantes em 1849, recebeu então colonos provindos de Pernambuco. A povoação de Moçâmedes foi elevada a vila em 1851, e a cidade em 1907, em relação com a ferrovia nascente. Cidade de areais, implantada entre o deserto, o mar e as hortas, Moçâmedes possuiu desde o início um carácter próprio e uma personalidade urbana que, excetuando a implantação inicial dos equipamentos institucionais ao longo da baía (forte, palácio, igreja, hospital), esteve sempre assente na retícula rigorosa (e pioneira, na lusáfrica) que se implantou, alongadamente, no sentido sudoeste‐nordeste. A malha da retícula inicial, tanto quanto foi possível averiguar, ia desde o Forte de São Fernando, desenvolvida em sete quarteirões no sentido nordeste, e em três, para o interior. (...)   Na comparação entre as duas urbes (com Sá da Bandeira),  ressaltam os seus traços comuns, na forma e no tecido urbano, e nos processos de implantação e de desenvolvimento respectivos, dentro de uma mesma época e civilização material. A malha urbana de Sá da Bandeira, atrás referida, assemelha‐se, na sua escala, modulação e dimensão global, à de Moçâmedes, remetendo‐nos para uma mesma tipologia de novas cidades, certamente concebidas pelos organismos estatais no quadro ministerial ultramarino do governo português – e com planos de autorias prováveis pelas equipas de engenheiros que, trabalhando nos serviços públicos, introduziam os novos saberes técnicos, por via da influência do ensino francês, com as suas escolas de “pontes e calçadas”.

( Texto integral  ass por José Manuel Fernandes.  Património de influencia portuguesa. Fundação  Calouste Gulbenkian)

TEXTO INTEGRAL AQUI