Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 16 de junho de 2013

Fábrica Africana, a primeira fábrica de conservas de Moçâmedes, Namibe, Angola





Perspectiva da Fábrica Africana, em tempos recuados. Repare-se, em cima, à esq., a Avenida Felner na parte já a entrar pela Torre do Tombo, as poucas casas que nesta altura alí existiam .



Outra perspectiva da mesma  Fábrica que nos  permite ver os carris de ferro por onde passavam as vagonetas que transitavam da ponte para o seu interior, entrando em linha recta para o local onde era descarregado o pescado para ser escalado e cozido em grandes caldeirões. Em seguida vinha a fase do enlatamento. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano como  podemos ver mais adiante.



Srs. de chapéu e gravata à porta da entrada da Fábrica (proprietários e empregados?) Visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro a esta fábrica, em 1932?


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas

A escalagem era uma das primeiras operações...

 
A seguir vinha a fase da cozedura...




As caldeiras para cozedura e o peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração



O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras

O encaixotamento


 



Trata-se da primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 , a Fábrica Africana de Figueiredo * e Almeida, Lda. 
 
Do portal Memória Africa , Boletim Geral das Colónias  . Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias,  Dr Armindo Monteiro, em 1932, já com Salazar no poder, a S. Tomé e Príncipe e a Angola, tendo na sua passagem por Moçâmedes visitado esta Fábrica.
BGC N.88 - vol VIII. 1932, pg 407. Agência Geral das Colónias


Através da leitura do memo Boletim das Colónias, na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, em 1932, se denominava "Fábrica Africana" e que o sector de legumes e conservas de frutos se encontrava ainda  em fase de apetrechamento, estando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, administrador da "Companhia de Mossâmedes"O Ministro das Colónias  visitou também  a Empresa Fabril de Conservas de Peixe, propriedade de Manuel Costa Santos, situada um pouco mais a sul.   

Há notícia de que poente da Fábrica Africana ficava, em tempos recuados, uma fábrica  ligada à indústria piscatória, pertencente a Costa & Pestana.

Ainda sobre esta Fábrica, sabe-se que, instalada em edifício propositadamente construido para esse fim,  esta fábrica encontrava-se na altura dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente com a praia, e foi destinado de início a enlatados dos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” ( ou seja, provenientes das muito badaladas “Hortas de Moçâmedes”), e também a enlatados de carne de vaca e de porco, e  de peixe em salmouras e escabeche, ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria, conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes. No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono  que e instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçâmedes, proprietária da fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana, de apelido Figueiredo. Também há ref. à " Figueiredo & Almeida Limitada"  que possuia em Mossâmedes, em tempos mais recuados,  uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus:AQUI 

Como se pode ver pela duas fotos acima,  no topo da fachada de cada unidade que integra o edifício , por cima das janelas da Fábrica, encontrava-se escrito os produtos enlatados que ali se produziam: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc. Também se podia ver o símbolo da Fábrica: uma águia.

Há indicações que na década de 20 e 30 se exportava para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e o Gabão produtos de alta qualidade que competiam com os de outras origens por serem mais baratos, situação que levou ao surgimento de novas conserveiras.



Para uma informação mais pormenorizada, transcrevemos a seguir uma passagem de um  interessante apontamento histórico de Antonio Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar», onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do  Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes, que aborda o estado da Industria de Conservas: **
 
«... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921, ...


«...No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. »
(...)


Encontram-se também referências desta fábrica como sendo propriedade da "Companhia do Sul de Angola", tendo Josino da Costa como arrendatário, e sendo. Olimpio Aquino o gerente. Nos anos 1950 esta fábrica era designada "Sociedade Oceânica do Sul" (SOS) e com esta denominação permaneceu até à independência de Angola. Encontra-se uma referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez...Angola "a um indivíduo de nome Santana como tendo sido proprietário da referida Fábrica (?).

 
A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe.

O peixe era transportado para o interior da fábrica através de «vagonetas» sobre linha férrea, que ali faziam a sua entrada, em linha recta, onde era descarregado para ser escalado  e cozido em grandes caldeirões. Em seguida vinha a fase do enlatamento.  Há notícia de que na década de 1940 ainda nesta Fábrica  trabalhavam senhoras recrutadas a partir de Olhão para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano feminino como aqui podemos ver (enlatadeiras).

Sabemos que na década de 1960, e após um período aureo de grande produção como Sociedade Oceânica do Sul (SOS), esta fábrica deixou pura e simplesmente de produzir e, vendida a Produtos de Angola Lda (PRODUANG) cujos sócios eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira, acabou por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique. Esta situação mantinha-se em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se em Moçâmedes ainda hoje. Temos notícia que se encontra desmobilizada.
 
Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade de Moçâmedes, hoje Namibe, e dada a sua situação geográfica em local privilegiado, junto à marginal,  corre o risco de desaparecer. E tanto mais quanto o sentido histórico da vida das cidades começa a ser tragado pelos interesses do capital.  Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam enquadrá-la em futuros projectos que venham a ser concebidos para aquela zona. Ela faz parte da memória da cidade e do distrito, hoje província so Namibe, e poderia ser transformada num interessante e apelativo "Museu do Mar"! 


Pesquisa e  texto de MNJardim

Créditos de Imagem:
Fotos de ICCT  (7)
foto livro de P. Salvador (1).



Alguma bibliog consultada:

Indústria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, relatório de um inquérito de Afonso José Vilela, 1923.

Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5 1898.



Respeitem este blog e o trabalho de pesquisa da sua autora. Se retirarem algo daqui não se esqueçam de citar a proveniencia da informação. MariaNJardim




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