Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe, sua evolução até aos anos 1930: o contributo do capitão Sr. José Maria de Mendonça e da Câmara da cidade. A Fortaleza e a Avenida.da Republica


                                                     



A Fortaleza de S. Fernando e a acção do comandante, capitão  José Maria de Mendonça


Um dos monumentos que impressionam a vista a quem de bordo de um navio ancorado na baía, contempla Moçêmedes, é a Fortaleza de São Fernando. Edificada no extremo leste da planura da Torre do Tombo, no morro São Fernando, ela nasceu como a atalaia vigilante dos possíveis ataques que daquele lado viessem. Parece que dela já havia alguma construção quando à velha Angra do Negro, aproou a primeira Colónia de emigrantes vinda de Pernambuco, Brasil, em 04 de Agosto de 1849, trazida pela Barca brasileira "Tentativa Feliz" capitaneada pelo Brigue português "Douro".


A Avenida na década de 1930











Mas falemos do assunto que nos traz aqui. Miguel Coelho no “Semanário Mossâmedes”, de Janeiro de 1934,  faz uma referência notável  à acção do seu actual comandante, o capitão José Maria de Mendonça, o homem que transformou (palavras textuais)  aquele pardieiro infecto, que causava repugnância a quem o visitava, transformando-o num edifício de aparência agradável á vista, e, interiormente uma estância habitável, onde a higiene o aceio se dão as mãosAs obras da "continuação da Avenida da Répública", foram disso um exemplo. O morro sobre o qual assenta a Fortaleza, também conhecido por Ponta Negra, prolongava-se na época pela parte cimeira da Avenida da República, desde o Palácio indo a morrer até ao edifício da Capitania do Porto, e teve que ser desaterrado a pá e picareta, sendo a terra transportada, através de vagonetas, para preenchimento de uma depressão que existia ao fundo da mesma Avenida, lá para os lados da estação do Caminho de Ferro. 

No mesmo “Semanário Mossâmedes”, de Janeiro de 1934, Miguel Coelho publicava o seguinte artigo:  

Não é nosso intento fazer a narrativa histórica deste edifício e sim apenas registar a sua actual aplicação.Serve de quartel a uma Companhia Disciplinar, para punição de delitos militares. Nada de notável isto ofereceria, se não tivéssemos que focar a notável acção do seu actual comandante, o capitão Sr. José Maria de Mendonça. São bem dignos de registo os efeitos da zelosa e acertada actividade deste ilustre militar. Ao entrar no comando da Companhia Disciplinar, que, ao tempo era também depósito de degradados, encontrou um pardieiro infecto, um aglomerado de construções cujo aspecto, causava tristeza a quem o via de fora, e repugnância a quem o visitava. Os correccionais nele agrupados passavam uma vida ociosa e os castigos registavam-se por muitas centenas. O seu actual comandante, com um bom senso invulgar, enfrentou a questão e concebeu o plano de, pelo trabalho, restaurar o edifício e, o que é mais, regenerar os reclusos. O seu intento foi coroado do melhor êxito, e presentemente, a Fortaleza de S. Fernando é, exteriormente, um edifício de aparência agradável á vista, e, interiormente uma estância habitável, onde a higiene o aceio se dão as mãos.
 
A sua população tem hoje no trabalho bem orientado o meio de evitar os castigos, que as suas taras provocavam, e, esses castigos desceram em número a indicadores dignos de nota. Ainda seguindo um plano acertadamente estabelecido, a actividade dêsses correccionais tem sido aplicada na construção de obras de interesse geral. Para indicarmos a mais importante, citaremos a continuação da Avenida da República, obra que está concluída e que, se fôsse executada pelos meios usuais, teria custado milhares de contos.
 
Tudo isto se fez, tudo isto se conseguiu sem dispêndio para o Estado, com pequeno dispêndio para o Município, e com um grande título de glória para o sr Comandante da Fortaleza de S. Fernando.
Está nisto uma prova do muito que se pode conseguir, na causa publica, quando os homens, numa nítida compreensão dos seus deveres, procuram ser úteis à sociedade.
 
Que o exemplo frutifique e que haja sempre motivo para grato registo de factos desta natureza, são os votos do “ Mossâmedes”.

Seguem algumas fotos que ilustram bem esse trabalho levado a cabo  a pá e picareta por militares aquartelados na Fortaleza de Moçâmedes.
Palácio, Igreja e Hospital
 
As obras de terraplanagem da elevação que nesta altura cobria a parte cimeira da Avenida da República, na continuação do morro da"Ponta Negra" ou morro de D. Fernando, onde assenta a Fortaleza.~Estas obras decorreram na década de 1930, conforme o “Semanário Mossâmedes” em  publicava em 1934, num artigo assinado por Miguel Coelho.

As obras na Avenida: Terraplanagem do morro. Aqui vai nascer o topo da Avenida da República
 
  Rua Costa. Época em que  a elevação do morro corria até quase a meio da Avenida


A arborização da Avenida a desenhar-se...
Depois ficou assim...

Nesta altura  encontrava-se na Avenida o Obelisco erguido em memória do General Sá da Bandeira, que decretou em 1836 a abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas. Este obelisco tinha vindo da Praça Sá da Bandeira, que ficava no quarteirão onde foi construída a Escola Portugal ( Escola N. 55). Mais tarde foi  levado para uma praça perto do Bairro da Facada, onde ainda hoje se encontra, e no lugar do Obelisco nasceu o Quiosque.
















 
Em finais da década de 1940, início de 1950, a Avenida de Moçâmedes foi de novo alvo de melhoramentos...

 

 Foi então construido, no topo da Avenida da República,  o imponente Palácio da Justiça (Tribunal). No tempo da 2ª Grande Guerra (1939-45), as fábricas europeias estiveram ao serviço do material bélico e as importações de toda uma série de materiais de construção, e não só, ficaram suspensas






Segue um texto assinado por J.A.M.,  publicado no “Semanário Mossâmedes”  em Janeiro de 1934:



 Câmara Municipal

 
Sendo o nosso número de hoje dedicado a “esta nobre e querida cidade” não podíamos deixar de dizer alguma coisa sôbre a Câmara Municipal de Mossâmedes. Há 6 anos que meia dúzia de homens eleitos pelo povo para defenderem os interesses do Município. Há 6 anos que esses homens, com uma fôrça de vontade e persistência notáveis, teem desenvolvido uma actividade que a todos satisfaz. Não descansam. Ontem foi a construção de passeios e marcos fontenários, arborização dos bairros da Torre do Tombo e Aguada, os dois extremos da cidade; abertura de novas ruas e nivelamento de largos. Hoje temos a continuação da formosa Avenida da Rèpública que o carinho e inteligencia de Fernando Pestana tem transformado na mais bela avenida da Província. Outras pessôas ha que muito teem concorrido tambem para a efectiva realização de algumas das obras de maior vulto na cidade e que seria injusto não mencioná-las. São êsses bons Amigos de Mossâmedes S. Exª o sr. Governador do Distrito José Pereira Sabrosa, e os Ex.mºs srs. Capitão José Maria de Mendonça, Comandante da Companhia Disciplinar e Engenheiro Mello Vieira, Director dos Portos e Caminhos de Ferro do Sul, sem o auxílio de quem não seriam possíveis o desmoronamento do morro que cercava a Fortaleza de S. Fernando e o atêrro do largo destinado ao Stadium Municipal.
 
Fazem parte da Câmara os srs. António Monteiro Portela, Fernando Pestana, Bernardo de Figueiredo, Joaquim Afonso Salavisa, Oscar Duarte de Almeida, Herculano Morgado, José Augusto Vilela e J.A. Monteiro.

O programa da Câmara é grande: Nele está indicada a montagem da luz eléctrica para fornecimento a particulares, esgôtos e canalização de água, pelo que, muito se tem interessado o vereador do respectivo pelouro, sr. Bernardo Figueiredo. Estes melhoramentos sendo de fácil realização tornam-se, contudo, difíceis pela exiguidade do orçamento que não comporta tais despezas.
 

Tem a Câmara dirigido ao Govêrno muitas exposições pedindo um empréstimo de 3000 contos. Esse empréstimo, muito embora tivesse sido autorizado pelo conselho de ministros, ainda não foi efectivado.
Os 3000 contos seriam aplicados, como em cima dizemos, na montagem da luz eléctrica com todos os requisitos modernos, e na higiene da cidade. Quando será? Oxalá que seja breve para que possamos dizer: Mossâmedes! A “nobre e querida cidade” é também a mais bela e confortável cidade!Mossâmedes – A Cintra de Africa pela amenidade do seu clima – será em tudo digna dêsse nome!
 
Por J.A.M. in “Semanário Mossâmedes” Janeiro de 1934.


Pesquisa de MariaNJardim




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