Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 27 de dezembro de 2014

Fábrica Africana, a primeira fábrica de conservas de Moçâmedes, Namibe, Angola





Perspectiva da Fábrica Africana, primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 ,  de Figueiredo * e Almeida, Lda.  Repare-se, em cima, à esq, a então Avenida Felner já a entrar pela Torre do Tombo, com as poucas casas que nesta altura alí existiam e pertenciam, a da esq. à familia Grade, e as três da dt,. a Conceição e Manuel Paulo, à familia Velhinho e a António Paulo. Situo nos anos 1920/30  esta foto.



Outra perspectiva  que nos  permite ver os carris de ferro por onde passavam as vagonetas que levavam o peixe da ponte para o  interior da Fábrica, para onde entrava em linha recta. O pescado era então descarregado para ser escalado e cozido em grandes caldeirões. Em seguida vinha a fase do enlatamento. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por enlatadeiras africanas.
foto livro de P. Salvador (1).


Srs. de chapéu e gravata à porta da entrada da Fábrica (proprietários e empregados?) Sabe-se que esta Fábrica recebeu a visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932. Será que esta foto é dessa altura? Estariam ali, encostados, a aguardar a visita? 

 
 Perspectiva do interior da Fábrica com portão de ferro a dar para o exterior, por entre entram e saiem as "vagonetas" que transportavam o peixe a partir da ponte


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas...

A escalagem era uma das primeiras operações...
 
A seguir vinha a fase da cozedura em grandes caldeiras...




O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras africanas

O encaixotamento
Como referi atrás a Fábrica também se dedicava ao peixe seco

Perpectivas: Uma vagoneta transportando o peixe seco já ensacado



Perspectivas : a rotina dos trabalhadores




 




Conforme o livro "Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes, esta fábrica, a primeira de todo o Distrito, foi mandada edificar em 1914 pela firma Figueiredo & Almeida. Conforme Artur Moraes no seu Memórias de Angola, pg 73, Caleidoscópio-Edição e Artes Gráficas, 2001, a iniciativa da criação da fábrica de conservas "Africana" deve-se a Miguel Duarte de Almeida, casado com Amélia Figueiredo Duarte de Almeida, e tomou corpo com o apoio do grande colono Serafim Freire de Figueiredo, sogro do primeiro.

Do portal Memória Africa , Boletim Geral das Colónias ( Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias , N.88 - vol VIII. 1932, pg 407, retirei estas fotos da visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932, já no quadro do Estado Novo (Salazar), a esta fábrica. Através da leitura do mesmo Boletim, na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, nessa altura denominava-se "Fábrica Africana" e que o sector de legumes e de conservas de frutos se encontrava ainda fase de apetrechamento, estando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, na sua qualidade de administrador da Companhia de Mossâmedes.

Conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), e de uma referência feita à obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes, a "Fábrica Africana" destinava-se de início a enlatados dos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Como se pode ver pela duas fotos acima, no topo das janelas da "Fábrica Africana" encontravam-se escritos os produtos enlatados que ali se produziam, ou se pensava viessem a ser ali produzidos na íntegra: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc. Vê-se também o símbolo da Fábrica, uma águia.

A Fábrica, instalada em edifício propositadamente construido para esse fim, encontrava-se dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente com o exterior, ou seja, com uma ponte pertença da mesma empresa, onde o pescado era descarregado e em seguida transportado para o interior da Fábrica, directamente, através de vagonetas que deslizavam sobre carris de ferro.

Há indicações que na década de 1920 e 1930 se exportavam da "Fábrica Africana" produtos de alta qualidade para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e Gabão, que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levou ao surgimento de novas conserveiras.

Em 1932, o Ministro das Colónias visitou esta Fábrica, e visitou também, conforme o mesmo Boleim, uma outra empresa fabril de conservas de peixe pertencente a Manuel da Costa Santos. Na verdade, a poente da "Fábrica Africana" ficava uma outra fábrica, mais pequena, pertencente a Costa & Pestana (?).

Esta fábrica, mais adiante no tempo, foi propriedade da Companhia do Sul de Angola, tendo Josino da Costa como arrendatário. Olimpio Aquino era o então gerente. Nos anos 1950 era designada por "Sociedade Oceânica do Sul" (SOS). Há referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez Angola " a um indivíduo de nome Santana como proprietário da referida Fábrica (?).

A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe. Como atrás referido, o pescado era descarregado através da ponte anexa à Fábrica, e dalí era transportado para o interior da mesma, através de «vagonetas» que deslizavam sobre carris de linha férrea, num trajecto em linha recta, para após descarregado ser escalado e cozido em grandes caldeirões, e proceder-se ao enlatamento. No início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar nesse sector, porém mais tarde esta tarefa passou a ser desempenhada por pessoal africano feminino como podemos ver ( eram as enlatadeiras).

Em 1953. já a industria de pesca de Moçâmedes tinha em actividade 14 fábricas de conservas, 155 instalações de pesca e peixe seco, 40 de farinha e óleos de peixe, tudo avaliado em 225 355 contos. Estavam empregados 5904 indígenas contratados. ("Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes)

Sabemos que na década de 60, após um período aureo de grande produção nesta Fábrica enquanto Sociedade Oceânica do Sul (SOS), a mesma deixou pura e simplesmente de produzir e foi vendida à Produtos de Angola Lda (PRODUANG) cujos societários eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira. Acabou por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique, situação que se mantinha em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se em Moçâmedes ainda hoje.

Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade do Namibe, e hoje em dia corre o risco de desaparecer. Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam preservá-la, enquanto repersentativa desta fase da conjuntura colonial, na região de Moçâmedes.


Pesquisa e texto de MariaNJardim


* No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono que e instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçâmedes, proprietária da fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana.

Poderemos encontrar também referencias à Figueiredo & Almeida limitada que possuia em Moçâmedes, em tempos mais recuados, uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus:AQUI


** E ainda em Industria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, relatório de um inquérito de Afonso José Vilela, 1923.



Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5 1898
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Transcrevemos a seguir passagens de um apontamento histórico de António Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes **, subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar- onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 20, e 30 do século passado:


«... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921, ...

«...No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. »
(...)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Subsidios para a História de Moçâmedes, hoje Namibe: 1869 Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando




Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando


Quando em 1849, após a perda da colónia do Brasil, independente em 1822, Portugal finalmente começou a olhar para as colónias de África, essencialmente para a nova "joia da corôa", Angola, território potencialmente rico e promissor,  secularmente preterido e transformado num  reservatório para tráfico de escravos destinados ao Novo Mundo, Moçâmedes foi a região eleita para as primeiras experiências de povoamento com famílias idas de Pernambuco, Brasil que ali se estabeleceram e que  na sua maioria,  graças ao clima ameno, ali ficaram para sempre. Até então e ao longo de 3 séculos para Angola, terra de febres para onde se ia por obrigação ou por castigo, onde em pouco tempo  europeus perdiam a vida, iam aventureiros em busca de riqueza fácil, traficantes de escravos na maioria idos do Brasil, degredados a cumprir as mais diversas penas, de delitos comuns  a assassinatos, e de quando em quando inimigos políticos que se pretendia afastar. Era com degredados que se formavam exércitos onde a indisciplina reinava e as revoltas eram uma constante.


Em 1869 estava aquartelado na Fortaleza de S. Fernando um contingente de 100 praças pertencentes ao Batalhão de Caçadores 3, na sua quase totalidade criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas. Na noite de 14 de Novembro daquele mesmo ano, essas praças amotinaram-se para protestarem, segundo afirmavam, contra os serviços violentos a que eram obrigados, contra os castigos rigorosos que sofriam, e contra os descontos excessivos que eram feitos nos seus prés. Acusavam o capitão Miranda como responsável de toda aquela situação. Avisado o chefe do Concelho, Major Joaquim José da Graça do que se estava a passar, este dirigiu-se à Fortaleza, onde, perante o seu espanto, os soldados já pegavam em armas. O Major Graça foi alvejado pelos amotinados, com um tiro de pistola, mas sem consequências. Contudo o oficial em causa conseguiu dissuadi-los dos seus intentos, e prometeu, recebê-los no dia seguinte, na secretaria do Concelho, a fim de apresentarem as suas queixas.  Após o diálogo apaziguador, o Major Graça retirou-se, parecendo tudo estar debelado. Porém os soldados voltaram mais tarde a sublevar-se e convenceram-se que os habitantes da vila se preparavam para os dominar pela força. Assim, armados de novo, carregaram as peças, e apontaram-nas para a vila, prontas a fazer fogo. Afirmavam a sua intenção de destruir a povoação e incendiar as casas de seguida. Os moradores apavorados, receando toda a espécie de atrocidades, abandonaram as suas habitações e procuraram refúgio nas Hortas, que ficavam a três quilómetros do aglomerado populacional.  No meio de tão dramática situação, e quando parecia estar tudo perdido, a Sra D. Maria do Carmo Lobo de Ávila, esposa do chefe do Concelho, saiu resolutamente da sua casa, encaminhou-se ligeira para a Fortaleza, e confiada, corajosa, varonil, aparece de improviso perante a turba arrogante e impetuosa dos revoltados. A gentileza senhorial do seu porte e o excesso prestigio das suas virtudes, contiveram-lhes os rancorosos impulsos. Tomados do espanto que o imprevisto lhes causara, e confundidos pela severidade que resumbrava do nublado rosto da dama, receberam-na com todo o respeito, formando fileiras, e apresentando-lhe armas. Perante a atitude de acatamento das praças, a Senhora Dona Maria do Carmo pôde plenamente desempenhar a nobre missão que se impusera: a de os vencer pelo sentimento. Para o conseguir, mostrou-lhes, dominada por irreprimível eloquência, a hidiondez do crime que iam cometer, e dirigiu-lhes, numa inflexão de voz, tocantemente angustiosa, suplicas ardentes e afervoradas. Comoveram-se. Os revoltosos, em cujos olhos borbulhavam lágrimas de arrependimento, protestaram, em seguida, inteira obediência. O Chefe do Concelho, que durante a alocução estivera sempre junto da sua esposa, ordenou-lhes então, como lhe cumpria, que descarregassem as peças e as espingardas e recolhessem a pólvora. Tinham-se entregado. A vila estava salva. O espírito de rancor, de violência e de rebeldia que desorientara as praças, que por pouco as não levou à destruição da mesma vila, fora inteiramente subjugado pela palavra enternecedora duma dama fraca e delicada.




MariaNJardim. 





Bibliografia consultada:
(1)Torres obra cit 2 vol pp. 201 a 206
Separata n.8 da Revista Africana Universidade Portucalense, Porto, 1991.Cecilio Moreira : "Fortalezas, Fortes, Fortins e Fazendas de Moçâmedes no Sul de Angola". Subsidios para a História de Portugal em Angola. 



Ver aqui: Portugal século XIX  http://comum.rcaap.pt/bitstream/123456789/3551/1/NeD03PedroCardoso.pdf


domingo, 14 de dezembro de 2014

 Mausoléu de João Duarte d' Almeida no Cemitério de Moçâmedes, em Angola.





  Mausoléu do Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, no Cemitério de Moçâmedes, em Angola.




Na história da humanidade, a morte sempre foi a única certeza. Junto com ela veio o desejo encontrar o caminho para a imortalidade. Os faraós do antigo Egito buscaram em suas pirâmides a vida eterna. Deixar seus feitos registados para a posteridade foi a forma encontrada por heróis e reis da Grécia Antiga, para alcançarem a imortalidade. Daí que os cemitérios ou necrópoles sejam muito mais do que um lugar de descanso para entes queridos. Eles ultrapassam as suas funções ritualísticas e religiosas para se tornarem, também um patrimônio arqueológico, artistico, histórico e cultural. São pois lugares de Arte, que guardam Historia, que suscitam memórias, sendo alguns cemitérios verdadeiros museus ao ar livre.

E assim sendo, andar por um cemitério pode proporcionar muito mais do que um sentimento de tristeza e de dor pela perda irreparável de um ente querido. A arte tumular pode despertar os sentidos, trazer prazer ao observador. Cemitérios oferecem-nos uma viagem no tempo. São espaços que contam histórias sobre a História e sobre as gentes que habitaram as cidades que os incluem, são testemunhos do ambiente político, artístico e social da sucessão das épocas desde que foram construídos. Alguns cemitérios podem ser considerados verdadeiros museus ao ar livre.

Os cemitérios obedecem, em quase tudo, à organização das cidades dos vivos. Cemitérios possuem ruas e sepulturas numeradas, tal como as portas das casas. Possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam estar sepultadas as personalidades mais influentes e menos influentes, criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida.

Com a avançar do século XX, a entrada no século XXI, e a opção dos crematórios, os cemitérios perderam o esplendor dos velhos tempos enquanto depósitos de corpos sem vida, para se tornarem verdadeiros museus ao ar livre e lugares de arte, de história, de arquitectura, de escultura e de genealogia. É o que explica boom actual do necroturismo europeu. Como defende Francisco Queiroz, “a arte fúnebre foi criada para homenagear os mortos, mas também para os vivos desfrutarem dela”. Em Lisboa, no Cemitério dos Prazeres as visitas ao jazigo dos duques de Palmela, o terceiro maior da Europa, bate records em termos de visitação turística.

Por tudo isso, em grande número de países, os cemitérios tornaram-se espaços de visitação turística disputadíssimos. A prática de se visitar cemitérios pelo simples prazer de conhecê-lo tem até um nome: necroturismo. Em Lisboa, há visitas guiadas gratuitas duas vezes por mês, aos sábados ao Cemitério dos Prazeres, a procura é cada vez maior, e as receitas são crescentes, com o aumento do turismo cemiterial, As Câmaras em Portugal começam a investir na preservação dos cemitérios seguindo o exemplo de outros países. Em Paris a prática da visitação turística de Cemitérios instalou-se no início do século XIX.

A Rota Europeia dos Cemitérios é hoje uma realidade entre os povos que melhor preservaram e continuam a preservar os seus mortos, porque mais cedo tomaram consciência do valor artistico, cultural e histórico da velha casa dos mortos. Porque cemitérios integram Arte, História,suscitam memórias, alguns são verdadeiros museus ao ar livre, uma mais valia a conhecer e a explorar.


Abstraindo-me da consideração que todos mortos merecem, independentemente do seu estatuto social, estou a lembrar-me do valor histórico dos mais importantes mausoléus e jazigos existentes no cemitério de Moçâmedes, que têm resistido ao tempo e à degradação e remetem para a fundação da cidade. Sim, porque talvez excepto jazigos e mausoléus, mais e menos imponentes, as mais humildes sepulturas, sem ter quem delas cuide, nestes 40 anos, já devem ter desaparecido com a voragem do tempo.

Este assunto é trazido aqui porque talvez um dia Moçâmedes venha a ter o lugar que merece no Turismo nacional e internacional, e talvez este Cemitério possa vir a enfileirar o roteiro dos lugares a visitar, e até mesmo vir a ser visitado por estudantes no decurso de pesquisas para trabalhos escolares e de licenciaturas, como por escritores, historiadores, curiosos, etc .

E se assim vier a acontecer, o guia turístico de uma rota por este Cemitério torna-se indispensável. Passando ao lado de cada túmulo ele terá que fazer um resumo da vida e da acção em Moçâmedes de alguns dos colonos fundadores que ali respousam e cujos túmulos chegaram aos nossos dias.


Sem fazer a apologia do colonialismo, baseando-me apenas em relatos de factos, passo a mostrar alguns dos mais mais importantes túmulos presentes no Cemitério de Moçâmedes. Este é túmulo do colono João Duarte d´' Almeida, considerado um dos colonos fundadores, embora não tivesse feito parte de nenhum dos grupos de colonos vindos de Pernambuco, Brasil em 1849 e 1850.
Era natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), e com mais 4 irmãos era filho de João Duarte de Almeida (bacharel em medicina), e de D. Ana Emília Duarte de Almeida (nome de solteira Ana Emília Brandão, natural de Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça em Portugal). Nasceu em 26 de Março de 1822 e faleceu no dia 9 de Julho de 1898, em Moçâmedes, onde repousa no Cemitério local, sob artístico mausoléu mandado erguer por sua esposa e filhos.

O artístico mausoléu só por si já é uma obra de arte para quem tenha a capacidade de para ele olhar e o apreciar, numa terra tão carente de monumentos. O túmulo de João Duarte d' Almeida, erguido por subscrição pública, não apenas se distingue e se projecta no Cemitério de Moçâmedes, mas também evoca memórias ligadas aos primórdios da colonização, e remete para a História das Religiões e para a História das Mentalidades.

João Duarte d' Almeida foi um grande agricultor, um empreendedor de sucesso, um desbravador de terras incultas, cujos produtos, alguns anos apenas a seguir a fundação já estavam presentes em várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), onde foi contemplado com medalhas de ouro pela boa apresentação. Produtos de Moçâmedes!

Não é possível falar de Duarte de Almeida com propriedade, sem falar da terra que o pioneiro viu nascer. João Duarte d'Almeida foi protagonista de momentos-chave na História de Moçâmedes, na qual deixou a sua marca. Eis, para memória futura, alguns feitos ligados a Moçâmedes e à sua pessoa:

- Assinou a célebre "Escritura de Promessa e Voto", acto solene do reconhecimento do 4 de Agosto de 1849, como dia de Moçâmedes, a celebrar anualmente, na Igreja Matriz, com missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus", costume que ainda perdura. Esteve investido nos cargos de juiz substituto e de Presidente da Câmara Municipal. E pelo alto desempenho em favor do progresso de Moçâmedes foi agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa".

- O seu nome bem como da sua fazenda de S. João do Norte, estão intimamente ligados ao cemitério de São Nicolau, um dos locais mais interessantes para estudo da arte tumular Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", e à obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba - um ex-escravo, serviçal que ele mandou especializar-se em Lisboa em estelas funerárias. A Arte Mbali ou Mbari, arte invulgar em África, surgida antes do seu falecido em 1898, representa uma cultura de fusão (afro-cristã) que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, e em madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a morte, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual era atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração. Os canteiros "quimbares" de Moçâmedes inseriam nas cruzetas, trabalhos em relevo que descreviam o que as pessoas haviam sido em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os seus interesses, os acontecimentos que as marcaram, e tudo isso através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores, tais como a"mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); o "leão" (para os caçadores); a "bola" (para o futebolista), e outros símbolos mais como o "chicote", a "palmatória", o "cajado do capitão", a "cobra de que fora mordido", o oficio que possuía ao falecer, etc... Infelizmente as histórias que ali se contam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas. Da sua autoria, eram as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc que ilustram alguns textos dedicados ao assunto. Desconhecemos o que foi feito delas, se ainda existem ou em que estado se encontram . Uma preciosidade para a História de Moçâmedes.

Para além destes aspectos, João Duarte d' Almeida juntamente com Bernardino Abreu e Castro, chefe da 1ª colonia de 1849, desenvolveram esforços pela abolição total do tráfico de escravos e o fim da escravatura interna. Ambos estiveram em contacto com o general Sá da Bandeira, a quem iam dando conta da situação e solicitando o estabelecimento de um regime de trabalho livre, contra situações de escravatura interna, e de tráfico clandestino que se estabeleceram a seguir à abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas, em 1836.

Para os que não sabem, estes eram tempos de reconversão económica de Angola, em que Sá da Bandeira, após a queda do regime absolutista em Portugal, aproveitando-se de uma conjuntura favorável apressou-se a publicar o decreto da abolição do tráfico de escravos em território português. Existia até então em Angola e em várias colónias de África, todo um sistema económico montado na base do negócio legal de escravos para o Brasil e Américas, que se esboroou, e passou a fazer-se na clandestinidade, fugindo ao Decreto abolicionista e às brigadas marítimas portuguesas e inglesas que em perseguição do mesmos, patrulhavam a costa. Era um tempo de falta de braços de trabalho, de fuga de escravos, em que o governo português fora levado a distribuir os escravos libertados de navios negreiros apresados, pelas actividades económicas em formação em que Moçâmedes também recebeu escravos e ex-escravos libertados de navios negreiros apresados, sem os quais a economia do distrito estava em risco de tudo deitar a perder.

As ideias de João Duarte d' Almeida e de Bernardino Abreu e Castro, desagradavam aos grandes comerciantes de tráfico negreiro de Luanda e de Benguela, que não sabiam nem queriam lidar com outro tipo de «mercadoria» se não o escravo. A exportação do marfim, da cera, da goma copal, da urzela não lhes interessava nem aos seus concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço. A incapacidade de reconversão conduziu ao desespero as burguesias destas duas cidades, cujos textos históricos nos dizem que eram maioritariamente mestiças que beneficiavam do vil negócio, em conluio sobas e intermediários negros a partir do sertão. Esta organização que envolvia negociantes na sua maioria com interesses no Brasil e que durante séculos alimentou a economia angolana, e a Corôa portuguesa através dos direitos aduaneiros cobrados, envolveu brancos, negros e uma maioria mestiça, gente do lado de cá e de lá do Atlântico que acabaria por entrar em decadência com a vigilância marítima internacional e as pressões por parte do Governo central. Foi apenas em 1869, que foi abolido o estado de escravidão, mas há notícia que o trabalho compelido se arrastou por muito mais tempo e que alimentou a nova ordem a partir de então estabelecida.

A História tem que ser compreendida no quadro da mentalidade e da cultura de cada época.

São algumas memórias que o túmulo de João Duarte d' Almeida evocam. Positivas e negativas, temos que nos confrontar com elas, nunca pondo de parte o contexto e as mentalidades da época!



Parando em frente ao mausoléu de um outro pioneiro da fundação, o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, diríamos que o 1º médico-cirurgião da terra, cuja vida foi quase toda vivida em Moçâmedes, onde faleceu, embora não estivesse incluido no grupo dos de Pernambuco, Brasil, ali chegados em 1849 e 1850, não se limitou a exercer clínica, entrando para salvar as gentes da terra, tanto no Palácio como na mais humilde palhota dos arredores. Em Moçâmedes o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro mandou construir a célebre casa da ex-Rua Calheiros, de arquitectura de inspiração romântica, em "Arte nova", ou "Arte noveau", que remonta aos primórdios da fundação, quando Moçâmedes pouco mais era que um imenso deserto, a maioria das casas eram ainda precárias, e difícil e até mesmo impossível era a obtenção do material necessário, uma vez que tudo vinha de longe. O movimento "Arte nova", ou "Arte noveau", surgiu em Paris na 2ª metade do século XIX, e espalhou-se pela Europa, Estados Unidos e outros países do mundo, e chegou à África e a Moçâmedes graças a este talentoso 1º médico-cirurgião de Moçâmedes que deixou igualmente um palacete numa Horta vizinha do sítio da Aguada. (1) Em ambos os casos um riquíssimo património. Infelizmente nem no tempo colonial, nem nos dias de hoje, o belo edifício em Arte Noveau, carente de conservação e de restauro, tem recebido a consideração que merece.

Mas há outras facetas da vida deste médico, Lapa e Faro era uma personalidade singular, ele próprio um artista, um artesão, um apaixonado por África, comparado a um Robinson Crusué, pela sua habilidade em todos os ofícios, capaz de cozer a sua própria roupa, seja calça sejam chapéus, como tratar doentes na sua qualidade de médico que comodamente visitava servindo-se de um carro de novo género, que tinha por motor um boi-cavalo, e que havia mandado construir para transportar as pessoas doentes ou fragilizadas, e para frequentar caçadas pelos areais do Deserto do Namibe.
Preferia viver no campo, na sua casa da Horta ou na Quinta dos Cavalleiros, vizinha da de Bernardino, onde tenciona ter-se-ia ocupado da cultura do algodão.

Lapa e Faro acompanhou o major Rudski quando iniciou o primeiro estabelecimento no Porto de Pinda, em 08.12.1854. Além de médico e articulista foi um elemento activo na vida de Moçâmedes, a quem são devidas várias realizações. No Diário da Câmara dos Deputados de 18 de Janeiro de 1878 conta-se ter sido levado a debate o assunto da construcção da casa para o tribunal de justiça, a construção do palácio do governo, estudos para uma ponte de embarque o desembarque, e de uma estrada de Moçâmedes para Huila, e ainda estudos para a construcção da casa para repartição de obras publicas, deposito e observatorio meteorologico, casa para cadeia, casa para escola, hospital, quartel, e para a conclusão da terraplanagem no interior da fortaleza. Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo", publicado por volta de 1888, sobre as obras do Palácio-residência do Governador de Moçâmedes, iniciados em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal, e concluído trinta e um anos depois, continuado mais tarde, conta que estas decorreram segundo um risco de Lapa e Faro que veio sofrendo várias modificações,.

Quantas memórias e quanta História estes túmulos suscitam !

João Duarte d' Almeida e o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro são apenas dois pequenos exemplos. Há muitos mais!
Pesquisa e texto de MariaNJardim 

Este texto tem direitos de autor. Incorre em
PELÁGIO, devassa da propriedade intelectual, quem daqui o retirar e republicar sem a menção da autora. Este texto encontra-se já publicado em Moçâmedes, Registos e Factos blogue. MariaNJardim

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

BAIA DOS TIGRES e a origem do nome


 


A hiena castanha

BAIA DOS TIGRES: a origem do nome


Três versões existem  sobre a origem do nome da “Baia dos Tigres”. Uma delas está relacionada com a coloração "tigrada" que as altas dunas do lado continental da baía apresentam quando vistas à distância, a partir do mar. É a versão defendida por André Guilcher, Carlos Alberto Medeiros, José Esteves de Matos e José Tomás de Oliveira, em “Les Restingas (Flèches Littorales) d’Angola, spécialement Celles du Sud et du Centre” Finisterra, vol. IX, nº 18, Lisboa 1976, pp. 171-211.

Segundo os defensores desta versão, a areia das dunas que são geralmente claras, possui minerais pesados em abundância  --granada, a, magnetite, ilmenite, zircão, anfibólio, turmalina verde—metais que o vento concentra em grandes faixas nas partes baixas das mesmas dunas, e que vistas do mar, ao ganharem o aspecto riscado avermelhado, fazem lembrar a pele de tigres. Como se sabe, na Baía dos Tigres não há tigres.

 O efeito de luz e sombra sobre as altas Dunas
O efeito de luz e sombra sobre as altas Dunas




A 2ª  versão é a de que o nome Baía dos Tigres está relacionado com o ruido causado pela fricção que o vento sul exerce quando sopra com violência sobre a areia no alto das dunas, ruido que fez levantar a crença de que ali houvesse tigres. Esta versão é defendida por J.Pereira do Nascimento no seu livro Exploração Geográphica e Mineralógica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895.

A 3ª versão deve-se a notícias da existência na Baía dos Tigres  de cães de grande porte que faziam lembrar tigres, quando lá chegaram os primeiros portugueses. Henrique Abranches escrevia no seu livro Senhores do Areal, sobre esses cães, em relação aos quais se contavam versões diversas, uma delas referia que no século XVIII um navio não identificado naufragara ao largo dos Tigres, e os cães que vinham a bordo, únicos sobreviventes, nadaram rumo à  costa, e fixaram-se naquela região desértica e sem água,  onde tiveram que se adaptar meio,  comendo o peixe morto que vinha dar à praia, ou caçando raposas, cachalotes, aves marinhas utilizando técnicas de guerrilha. Ou ainda a versão de que em tempos recuados houvera uma epidemia de raiva em Moçâmedes, tendo a autoridade mandado matar todos os cães, havendo gente que deles se apiedou, meteu-os a bordo de uma barcaça e foi depositá-los na Baía dos Tigres, onde esses animais tiveram que aprender a sobreviver  em meio adverso,  lambendo a  espuma menos salgada da superfície das ondas que molhavam a areia da praia, comendo peixe que dava à costa, incluso cetáceos, tornando-se eles próprios nesse ambiente cruel, tão cruéis como o meio.

No livro "Africana" Universidade Portucalense 1991 encontrei as seguinte passagens:

"...Sobre o nome dado às enseadas e depois  atribuido à aldeia, deve-se à presença do rei da selva naquele local em certo dia, no início do povoamento da Grande Restinga, que também era de vez em quando frequentada por sua magestade"

"...Também o rei leão com certa frequência fazia visitas aos Tigres, onde encontrava boa alimentação, nas hienas e nos cães que em quantidade razoável povoavam a restinga", para além, é claro, dos flamingos, das garças, das gaivotas, dos patos e dos pelicanos.

Muito recentemente o nosso conterrâneo Aurélio Baptista,  como conhecedor da região, avançou uma 3ª versão que nos parece digna de ser apreciada e levada em consideração. Baseia-se na leitura e na interpretação  que fez do depoimento do explorador inglês Willian T Messum  que referencia deste modo a presença de hyenas de que a Baía dos Tigres seria   infestada : “Aqui acendemos lume e nos preparamos para ficar a noite, mas tivemos sempre sentinela, porque, nas minhas viagens, nem antes nem depois, eu nunca senti tão espantosas vozes de hyenas ou lobos, e toda a noite em roda de nós; que só se dispersaram exactamente quando o dia estava para romper”.  Refere Aurélio: Ora, para um leigo, estas palavras teriam passado despercebidas, mas não passaram a Aurélio Baptista, conhecedor da região, logo se lembrou das hienas que por ali habitam, ou seja da “hiena castanha”  cujo  habitat se resume ao deserto do Namibe e Kalahari. Trata-se de um animal que pode atingir 1,40mts de comprido, 90cm de altura e pesando até 60kgs, que possui uma pelagem tigrada, e, por tal, poderiam ser tomados por tigres pelos exploradores e marinheiros do séc. XVII e XVIII,  nessa época de informação escassa. Este o ponto de vista de Aurélio Baptista :  foram estes animais , as hienas castanhas, que originaram a denominação de Baía dos Tigres à Enseada das Areias/Grande Baia dos Peixes! Ainda relacionado com este assunto, Alexandre Magno de Castilho, que passou pela Baia dos Tigres em 1867, referiu: “Só vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes



Baia dos Tigres, a "Manga das Areias" começou a ser designada por Tigres no mapa de Pinheiro Furtado, em 1790. Grande Baía dos Peixes, Great Fish Bay para os ingleses. É limitada a norte pelo limite sul  de Porto Alexandre, a leste pela cumeada que, partindo da Garganta do Diabo, vai ao Cunene nas Quedas de Montenegro,  a sul pelo rio Cunene; a oeste pelo mar.

Acrescento ainda um pequeno texto com alguns aspectos relacionados com as hienas castanhas:


Habitat e distribuição

Hienas-castanhas podem viver em áreas onde o índice de chuva não seja maior que 100 mm por ano. Além de sobreviverem com pequenas quantidades de água, elas também conseguem um pouco de líquido das carcaças e das frutas que comem. Um dos alimentos principais das hienas em áreas semi-áridas são os vários tipos de melão, que suplementam a necessidade de água do animal. Sua predileção por melões às vezes as leva a conflitos com fazendeiros, que às vezes matam hienas-castanhas apesar de serem protegidas em alguns países. As hienas-castanhas são encontradas em todo o sul da África, e particularmente na Angola, Namíbia, África do Sul, Botswana, Lesotho, Moçambique, Malawi, Suazilândia e Zimbabwe.

MariaNJardim

Ver também:
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5fhF0x7FHSQJ:xamalundo.blogspot.com/2014/08/o-meu-ponto-de-vista-da-origem-do-nome.html+&cd=6&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a


 https://www.msn.com/pt-pt/video/newsafrica/reportagem-no-sul-de-angola-a-ba%c3%ada-dos-tigres-%c3%a9-uma-aldeia-fantasma-com-administrador-ausente-editado/vi-AAwdpSn?ocid=sf

https://vimeo.com/116848532?fbclid=IwAR2VjWA8akBLjjauhS0i5C6yJOhdAeURygpv1pZTAiIhwJl2HKEEqDfJdls

sábado, 30 de agosto de 2014



Cuisses no Deserto do Namibe, em foto da década de 1960 de Vitor Mendonça Torres



Cuisses no Deserto do Namibe. 1935-1939 ICCT 
(foto colocada à margem do texto) 



Curocas no Deserto do Namibe em 1935-1939 ICCT
(foto colocada à margem do texto) 




“No tempo do kulukulo,osbosquímanos da Camilunga ameaçaram matar todos os Kuroca. Só o feitiço os pôde travar. Os Kuroca falaram com os antepassados, e de manhã pegaram numa criança com cerca de sete anos e foram a uma montanha do Chitete, levando a criança, um caniço como uma lança. Lá, a criança apontou o caniço e fez o gesto de o atirar, dizendo «tu». No mesmo dia o chefe dos bosquímanos sentiu-se mal e morreu; depois morreram os outros todos. Os Kuroca depois foram lá enterrá-los. Nesta guerra (a de Angola,a última)
muitos Kuroca foram,mas ninguém
morreu de bala; aqui só há cemitério de doença não há cemitério de bala”.
Mito dos Mukuroca
 
O sul de Angola era por volta de 1910 habitado por individuos da raça negra e alguns milhares de brancos portugueses e uns poucos estrangeiros, ali estabelecidos desde meados do século XIX.


Transcrevo, de JOÃO DE ALMEIDA in Sul d'Angola, o Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910):

"os indígenas não pertenciam à mesma tribo e dificilmente se poderia determinar a sua quantidade e a povos pertenciam, dado que a sua expansão para terras do sul  tem sido gerada  por invasões e emigrações violentas de variadas tribos, pelo espírito de domínio e superioridade, ou por necessidade da vida que os levou a se deslocarem, a se fundirem com outras tribos, ou a sobreporem-se a elas, misturando qualidades e caracteres de todos os povos envolvidos na acção. Importante seria estudar a marcha dessas diferentes emigrações, destrinçar as diferentes tribos, a pureza da sua origem, a proveniência dos povos que sucessivamente tem vindo a habitar esta parte da província de Angola, de que nos estamos ocupando. Estudo difícil e complexo para o qual faltam os elementos mais essenciais, uma vez que os povos indígenas não tendo escrita, também não possuem documento, como também não ergueram edifícios, monumentos, etc, e só puderam os factos históricos através da tradição oral."

"... Pelas suas narrações os povos gentios dos Cubaes, Dombe, Giraullo e Quipolla, pertencem todos á mesma raça, e os três últimos formaram por muito tempo um só povo o qual por dissenções occorridas com o soba do Dombe se refugiou para a Huilla, e indo ali mesmo uma guerra man- dada pelo dito soba a perseguil-o, de novo emigrou, vindo parar em um logar denominado pelo gentio Lutunda, entre o Bumbo e a Pedra Grande, donde se dividiu, indo uns habitar no paiz dos Mucubaes e os outros vindo aqui estabelecer as duas tribus do Giraullo (fim do caminho) e do Quipolla, hoje também já separadas, mas antes e desde a sua descida do centro do paiz reunidas no sitio Quissongo. Tendo-se retirado deste ponto alguns para o Coroque ali formaram a tribu d'esta denominação, alliando-se com os Muximbas. Esta ultima tribu dos Coroques é assaz notável pela sua linguagem gutural, talvez resultado da mistura do primitivo idioma com o dos Muximbas. Estando ainda reunidos os Quipolas e Giraullos, diz a dita preta, dera á costa nesta bahia um navio, que se presume era hollandez, do qual ficou aqui parte da tripulação e a outra parte seguiu para Benguella por terra acompanhada pelo pae do actual soba do Giraullo. Dali voltaram os ditos náufragos com o soba e uma força militar commandada pelo capitão-mór de Benguella que era o Thomaz dc tal, o qual veiu outra vez por mar em um navio grande, talvez a fragata Loanda. Na occasiao da ida do soba a Benguella, deu-lhe o governador daquella cidade sementes de leijão, canna, mandioca, um gallo e uma gallinha, dizendo-lhe que o gallo era para lhe annunciar a manhã. No Quissongo existe uma pedra com inscripções já inintelligiveis, que se affirma terem sido feitas pelo dito capitão-mór Thomaz. O sino e o caldeirão do navio naufragado existem ou existiram no Jáu, tendo sido dados de presente pelo soba do Giraullo ao d'aquelle logar. Se se obtiver informação exacta do tempo da estada daquelle capitão-mór em Benguella, conhecer-se-ha a data primitiva da povoação deste districto no seu litoral, pelos indigenas, pois que antes era deserto. . . 
 E mais adiante:

"...só, typos muhimbas-Mutucua 1909,  portanto, o estudo etnographico e linguistico, comparando os usos e costumes de uns e outros e os dialectos por elles fallados, auxiliados pelos estudos antropológicos, etc, nos poderão levar a resultados concludentes; mas sabe-se também que estes estudos não estão entre nós sequer esboçados.
 De todos os dados que podemos colligir, parece poder concluir-se que os mais antigos povos que habitaram a região Sul d'Angola fôram os matchonas (talvez próximos parentes dos matchenos, habitantes do Congo, antes da invasão dos jaggas), e se estendiam na depressão central de entre o Cunene e Baixo Cubango e embucadura dos seus afluentes. Para sul daquelle rio estavam as tribus dos bushmans. Numerosas tribus dâmaras invadem aquelle estado e forçam os seus habitantes, os que não sucumbiram ou não cahiram na escravidão, a internar-se nas regiões vizinhas. Ao mesmo tempo incursões de hottentotes impelliam os bushmans para norte, forçando muitos a passarem o Cunene. Os dámaras não satisfeitos com a aridez das terras conquistadas, cederam-nas a novas migrações emquanto elles, seguindo o caminho dos vencidos, com estes se misturavam. Da fusão de matchonas, kushumans, dámaras e hottentotes, resultaram varias tribus que povoaram toda a região, desde a embocadura do Cunene e da cordilheira da Chella até ao Cubango. Essas tribus tomaram vários nomes conforme o da terra em que habitavam ou o dos seus chefes, e a predominância de um ou outro sangue. E dentre ellas, uma mais importante fundou um estado nas margens do Cunene, conhecido com o nome de Mataman e os seus habitantes com o de hacuanaibas. Pelos meados do século xvi foi este povo invadido pelos bancumbes ou baumbes e que, oriundos do norte, haviam vindo do oriente; e, expulsando e avassallando parte dos habitantes, fundaram o grande estado do Humbe-Onene, cujos limites iam desde a curva do Cunene na Chabicua e do Ovampo até ao Bihé, onde então acabavam também de aparecer os nanos e banhanecas, fixando-se estes ao sul dos primeiros. * Dos bacuanaibas expulsos, uns passaram pela Chabicua para sul do Cunene, e outros juntaram-se aos seus irmãos bandimbas ou muximbas, que habitavam a cordi- lheira da Chella. Espalhados estes e recebida nova migração de dámaras alastraram-se pelos Valles do Curoca, Béro, Giraul, formando os bacubaes, bacurocas, bacuanhócas, giraues e quipolas, vindo também para ali os expulsos pelos nanos e banhanecas, os badombes e bacuissos, que se fixaram no Giraul e Muninho, imprimindo nelles traços característicos que ainda hoje claramente se evidenciam. Pelo norte, ao longo da Chella, penetraram em seguida os banhanecas, mais ou menos impeli idos pelos nanos e ganguellas. Depois de fundidos um tanto com os habi- tantes que, como vimos, expulsaram serra abaixo, constituíram os baquipungos, baum- patas, bcdupollas ou muhillas, bangambués, bakihitas, etc.   Pelo sul novas correntes dámaras do Caoco vêem juntar-se aos que primiti- vamente se haviam fundido com os matchonas, bushmans e hottentotes, formando as varias tribus da Chabicua, e as do Ovampo, conhecidas com o nome de banctubas — baclongas, bagangellas, bacuanhamas, muvales, etc. — e os das margens do Cubango iam subindo o seu curso e dos seus afluentes, misturando-se muitos com os mambun- das, mambuellas, etc, formando os banhembas, bacuangares, bacuatires, bacuitos, etc. — taes são os povos que hoje habitam a Angola do Sul, e cujos característicos prin- cipaes vamos apontar."

Vamos continuar transcrevendo a  parte do Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), de João de Almeida, a este respeito:

"...Typo muhumbe. 
-Macuissos ou bacuissos.Não se sabe de onde são originários os macuissos que habitam as serras pedregosas da faixa do litoral — habitantes das pedras — onde vivem miseravelmente. È raro terem cubatas, vivendo nas furnas; e sustentam-se de pequenos animaes e raizes que apanham e da pesca de moluscos e alguns peixes que con- seguem agarrar. São verdadeiramente miseráveis. 
- Curocas. Os bacurocas habitam parte do valle superior do rio Curoca e o do seu terço inferior — a parte média é desabitada — e uma parte da falda da Chella e os Montes Negros, nos valles do Saiona e Béro. Originários da Chella, da região dos Gambos, predomina nelles o sangue dámara e bushman, conservando ainda o dique (i) dental estalado em todas as palavras. São pastores e caçadores. Não enterram os mortos, abandonando os cadáveres ás feras; praticam a circumcisão, mas já quando próximos da virilidade; e untam-se com manteiga, mas sem tacula. Usam panos á cinta, amuletos e liadas de missanga e busios ao pescoço, braços e cinta. As mulheres usam um penteado, amassando os cabellos com barro e manteiga, dando-lhe a fórma de uma cabaça. E' frequente o adultério, que se paga com bois, dando depois o direito ao instigador de o repetir. Os rapazes, antes da circumcisão, usam uma faixa de cabello no alto da cabeça, da testa á nuca, rapando o resto da cabeça. Os homens usam trunfa como os muximbas, apertada atraz das orelhas com uma correia ou mettida numa bexiga de boi. Têem um deus, siica, a quem ligam uma ideia muito vaga e que em nada se prende com a do Creaclor. Usam armas de fogo e azagaias. Habitam em cubatas muito mise- ráveis, ás vezes uns simples ramos cobertos com um braçado de capim.
- Giraus e Quipolas. Os gíraus e quipolas habitam o valle do Giraul e do Béro, nos Cavalleiros; originários das faldas da Chella, são irmãos dos bacubaes, dos quaes conservam os característicos. São um pouco agricultores, embora tendam mais para a vida pastoril, alimentando-se de leite azedo. Usam pelles ou panos e vários adornos no pescoço, braços e cinta. Habitam em cubatas miseráveis, que é geral- mente uma pernada de carrapateiro enterrada no solo, dobrados os ramos e presos ao mesmo, coberta com capim e barrado exteriormente com bosta de boi, deixando um buraco como entrada, que faz lem- brar a porta de um forno. São muito supersticiosos e falam também no ente supremo, o suca. 
-Mondombes. Originários da região do Dombe, no districto de Benguella, irradiaram para o sul, entre a Chella e o mar, e habitam hoje os valles da Bentiaba, a Montipa e as bacias do Giraul e Béro, desde as suas cabeceiras nas faldas daquella serra. 
-Banhanecas. Originários do norte e aítns dos nanas e talvez dos jaggas, habitam o valle do Caculovar, desde a Cahama e os seus afluentes até ao vértice da Chella, o valle do Sinde e Quê, e a vertente norte e oeste da serra da Chella até á Bentiaba e Munhino. Typo macuisso — Ovampo ( I ) Os bushmans ou mucancalas dão um estalo com a lingua no meio de certas palavras ou no fim delias. 70 Typo curo ca Dividem-se em varias tribus, cujas principaes são as de Quipungo, Biballa, Hum- pata, Muillas, Hae, Kihita e Gambos. São todos agricultores e pastores. Usam como distinctivo principal cortar os dois dentes incisivos médios de cima. Enterram os mortos e fazem sacrifícios humanos, muito bárbaros, por actos de feitiçaria e praticam a prova da casca. Têem varias associações ou seitas misteriosas, distinguindo-se os filiados por tatuagens e amulêtos assim como os que tenham dado certas provas ou assistido a determinadas cerimonias. As características de cada uma destas tribus serão adeante indicadas, ao tratarmos da parte etnographica dos concelhos. São dos mais rebeldes ao contacto e á assimilação dos hábitos dos brancos. 
-Cubaes. Os bacubaes são descendentes dos mundimbas e habitam a vertente oeste da serra da Chella, desde o Chacuto até ao Otchinjau. São essencialmente pastores, mas dedicam-se também um pouco á agricultura. Enterram os mortos. Usam pelles como adorno, e outros, panos. Usam farta cabelleira e arrancam os dois incisivos médios de cima e de baixo. Bandimbas ou mundimbas. — Dos mais antigos habitantes da vertente leste da Chella, descendem dos matchonas, dámaras e hottentotes, tendo vivido muito tempo na Chabicua, desde o Cunene ás cabeceiras do Curoca. Hoje habitam a região dos Gambos, desde o Hae, o Valle do Guroca, no terço superior e inferior, e as margens do Caculovar, desde a Gahana á Bella-Bella; estão fixados ali ha pouco tempo, depois de novas migrações de dámaras e das frequentes razzias dos hottentotes. São pastores e agricultores, Alimentam-se de leite azêdo, pirão de milho ou massambala e berlunga. Vestem-se com pelles de boi preto ou animaes bravios; e adornam-se com missangas e braceletes de ferro e cobre. As mulheres usam uma pelle comprida que lhe chega ao joelho. O Cabello é rapado nos lados e crescido no vértice da cabeça. As raparigas e algumas mulheres usam o Cabello em tranças car- regadas de missanga. Os homens trazem suspenso do pescoço uma pinça de ferro para arrancar os pellos. Limam os dois dentes incisivos médios de cima. São muito supersticiosos. Enterram os mortos e collocam provisões junto das sepulturas para as almas dos defuntos lhes não fazerem mal.


 Recuemos no tempo, procuremos saber o que nos diz a História destes povos através do texto que segue retirado de "Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia"


Toda a informação que se segue nos vem da notabilíssima e pouco aproveitada "Memória sobre a Exploração da Costa ao Sul de Benguela na África Ocidental e Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Moçâmedes", de José Guimarães, que ele próprio escreveu e publicou em Lisboa no ano de 1842.

Os primeiros vestígios humanos que encontraram foram  «...ossos de baleia queimados e uma espécie de embarcações, feitas de um pau muito leve chamado bimba, o que evoca a antiga notícia de DUARTE PACHECO PEREIRA. Dias depois apareceram negros e em dias seguintes trouxeram para trocar “milho, feijão e abóboras, algum marfim, pouco gado, e pontas de cabra de mato curiosas pelo seu comprimento».

Viviam os Negros perto e GUIMARÃES decidiu ir ter com eles à sua povoação, o que não faria sem grande perigo, dado que não consentiam que homem branco entrasse nela. Mas tudo correu bem e o explorador dá noticia de ... «...um extensíssimo vale, todo cultivado de milho maiz, feijão, abóboras e uma espécie de milho miúdo”, com margens (...) guarnecidas além d'imensa quantidade d'arbustos e de plantas parasitas, por duas ordens de palmeiras, que se estendem até onde se pode alcançar a vista e que parecem continuar muito parao centro». «...Do lado direito destes arimos ficava uma espécie de seio formado por algum rio, que no tempo das chuvas naturalmente ali desagua, conservando-se agora subterrâneo, pois cavando até dois palmos de profundidade encontra-se agua magnífica, de que os indígenas se servem para beber e à qual é devida a imensa e linda vegetação de que se acha coberta toda aquela planície”.
Com a singela mas exacta descrição do lugar, note-se que especificadamente se mencionam o milho maiz e o milho miúdo, o segundo dos quais será talvez a actual massambala. E aí estavam os renques de palmeiras que os nossos olhos ainda hoje podem ver por toda a Camilunga, nome por que agora se apelida a antiga fazenda de S. Bento do Sul. Eram os Negros governados por um soba e GUIMARÃES tinha-os por povos “de nação mucubal” e de “vida pastoral”, designando-os de Mocorocas, “por habitarem um lugar a que chamam Coroca”.
E prosseguindo na sua informação escreve:

«Sua vida muito pacífica não deixa de ser singular pela sua predilecção pelas mulheres, que escondem com a maior cautela,especialmente dos brancos, sendo igualmente muito ciosos do seu g ado, cuja carne é magnífica e de que possuem grande quantidade de duas espécies, vacum e ovelhum São os Mocorocas muito dados ao exercício da caça e alguns dentre eles ao da pesca crêm muito em feitiços e almas dos seus defuntos; não gostam d'aguardente e preferem o tabaco que eles lã fabricam duma forma singular [similar?] ao de rolo do Brasil; são muito amigos de missanga branca, azul, preta e igualmente estimam muito facas e arcos de ferro para fabricarem flechas e azagaias, enxadas de ferro dumas que fabrica uma nação do interior do sertão, contígua a Benguela, por nome Nanos (o que na cidade de S. Filipe constitui um ramo de negócio); de fazendas preferem zuarte azul, baeta da mesma cor e cobertores, não fazendo apreço de chitas e outras fazendas de cores claras.»

Repete-se, na mesma costa, mais ao norte, decorridos quase três séculos e meio, atrevimento semelhante ao do destemido Fernão Veloso na Baía de Santa Helena; só que aqui não voltou GUIMARÃES tão apressado como o valente homem de armas de Vasco da Gama. Vale a pena talvez contar que o comandante Alexandrino da Cunha ou por impaciente com a demora na baía ou porque o convívio com GUIMARÃES se tinha deteriorado ou porque não queria que gente branca corresse perigo, não permitiu que homens brancos fossem com ele e deu-lhe por companheiros só dois negros da guarnição e um língua também negro.

Repare-se que GUIMARÃES os julga “de nação mucubal” e esta filiação fã-lo-à dizer que têm “vida pastoral”, por ser esta a ocupação tradicional dos Mucubais. Mas a verdade é que estamos em presença de uma população sedentária, ciosa de arcos de ferro para enxadas, praticando uma agricultura variada; em suma, uma população agrícolo-pastoril.

E se estes Mocurocas são aqueles que PILARTE DA SILVA encontrou -GUIMARÃES não se refere aos estalos identificadores - é de estranhar que o sertanejo não tivesse achado entre eles, 70 anos antes, vestígios de agricultura. O relatório elaborado por PEDRO ALEXANDRINO DA CUNHA coincide, no geral, com o de GUIMARÃES, o que não admira. Nem por dizer que os Curocas serão “colónias de Mondombos, dos quais têm a linguagem e os costumes» se afasta da filiação referida por GUIMARÃES: os Mucubais não terão outra origem-também Hereros saídos dos Mondombos das terras do sul de Benguela.

Annais Marítimos e Coloniaís. Parte não oficial, n.” 12, 53* série, pp. 459 e segs., Lisboa, 1845. (”) ESTERMANN refere esta hipótese da origem dos Mucubais na obra citada, vol. III, pp. 29-30:

Parece-me útil dizer que os historiadores do Sul de Angola têm aproveitado, sobretudo, o relato de ALEXANDRINO DA CUNHA, cremos que por ignorância do de GUIMARÃES, mais rico de informação. Soube da existência deste pelo livrinho de CECÍLIO MOREIRA, Entre damas e o mar, atrás citado.

Ocupação portuguesa desta área só se iniciou de Dezembro de 1854 por diante, com a instalação de uma fortaleza num ponto alto, iminente à baía de Alexandre. O capitão de fragata JOÃO MÁXIMO DA SILVA RODOVALHO, que tomou parte no empreendimento, também se deslocou a uma das aldeias dos Curocas, a oito milhas da foz, em 10 de Dezembro do mesmo ano de 1854. Confirma que têm soba, são tratáveis, possuem gado vacum e arimos de milho e abóboras “de que sesustentam” (1°).

Logo no mês seguinte esteve entre os Curocas o navegador e viajante inglês WILLIAM MESSUM. Sentando-se à sombra de uma palmeira e podendo repousar os olhos no verde das hortas, sentia-se recompensado dos vários meses de aridez ao longo da costa: "Aqui me deleitei pela primeira vez, depois de muitos meses que tinha deixado o Cabo, de achar alguma coisa como vegetação, porque os naturais têm em considerável extensão hortas cultivadas de milho, grãos e abóboras. Era um regalo, depois de tanta areia, sentar-se à sombra de uma palmeira”. E noticia ainda: "As choupanas desta gente pareciam construídas para aturar e eram habitações cómodas Os naturais possuem numerosos rebanhos de gado grosso e miúdo. Tinham também marfim de elefante e de cavalo marinho Vi maças feitas de corno de rinoceronte e grande abundância de mel e cera de abelha. Festejamos muito algum leite, milho e bolos feitos não sei de quê, com mel Perguntaram por aquadenti mas quando lhe dei alguma, depois de a provarem, não quiseram beber» (“).

E acaba aqui o que podemos chamar a história antiga do povoamento do Baixo Curoca, uma história cheia de hiatos, de dúvidas, de perplexidades. Pelo que os textos nos dizem-e não esqueçamos sua imprecisão e mutismo , uma população mal definida de pescadores, no'início do século XVI; de pescadores, caçadores ou pastores e provavelmente agricultores no último quartel do século XVII; de pastores e recolectores (caça e apanha de vegetais) nos fins do século XVIII; de pastores, agricultores, pescadores e caçadores na primeira metade do século XIX. E a que etnias pertenciam e que etnias hoje lhes correspondem? São todos negros; os de Duarte Pacheco (século XVI) porventura Cuissis, antepassados dos actuais recolectores Cuissis, na opinião de ESTERMANN; os de Joseph Rosa (1681) falam por cliques e ESTERMANN quere-os da raça Khoisan, misturados com Cuissis, hipótese arriscada a que já aludimos, e serão ascendentes dos poucos Cuepes que sobrevivem; os de PILARTE DA SILVA (1770) parecem ser a mesma gente de Joseph Rosa e aquele sertanejo designa-os de Macorocas; GUIMARÃES, ALEXANDRINO DA CUNHA (1839), RODOVALH0 (1854) e MESSUM (1855) chamam também aos seus visitados Mocorocas; o primeiro diz que são de nação mucubal e o segundo de origem mondombe, todos, portanto, Hereros.

Cabe perguntar se os Macorocas de PILARTE DA SILVA são os Mocorocas de GUIMARÃES, CUNHA, RODOVALHO e MESSUM. E se sim, temos então de admitir que estes asso-ciavam já à pastorícia a prática da agricultura, a menos que na mesma região houvesse pastores-agricultores concorrendo com pastores, todos apelidados de Mocurocas, por viveremjunto do rio; os primeiros naturalmente Hereros e os segundos, os tais antepassados dos Cuepes. Mas se é cómodo libertar assim os Cuepes da agricultura, que seria conforme ao depoimento de PILARTE DA SILVA e conclusões de ESTERMANN e estaria de acordo com a actual tradição dos poucos Cuepes existentes que afirmam terminantemente que aprenderam a arte de cultivar a terra com os Brancos, não se fica em menor constrangimento em relação com Hereros: também estes são tidos por puros pastores e só recentemente lavradores.

Mas conceber no Baixo Curoca ainda outra etnia, agora de bantos agricultores, é que ultrapassará a legitimidade das conjecturas.

(1°) ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELNER, Angola. Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos ..., Lisboa, Agência Geral das Colônias, 1940. vol. II, pp. 285-286. (U) Anais do Conselho Ultramarino. Parte não oficial, 1.* série,

De tudo isto, e com as reservas colocadas, parece poder-se concluir que desde épocas recuadas povoaram o vale inferior do Curoca populações de diferentes origens, provavelmente Cuissis, Hereros e Cuepes. Se em períodos recuados da sua História foram recolectores e pastores, vieram todos a cultivar a terra, sob a influência de povos agricultores, o que ja aconteceria no referido século XVII. E não é mista a civilização dos Hereros, na qual se caldeiam pastores camitas com plantadores bantos (...) Se língua, crenças e instituições sociais bantas invadiram os domínios dos pastores camitas, porque não aceitar que cedo tenham recebido dos plantadores negros as técnicas da agricultura? E em uma vale de terras aluviais e água abundante, como é o do Curoca, como não responder adequadamente às solicitações do ambiente?
(12) O Rev.” P. ESTERMANN diz-me que terão sido Cuanhocas

E os Cuepes, vizinhos dos Hereros, imita-los-iam, se por outras vias lhes não chegou este modo de vida. E o viverem em aldeamentos mais ou menos fixos parece também conferir à cultura dos Mocurocas uma forte e antiga base rural. Tipos puros de civilização existem mais na imaginação dos estudiosos do que implantados na terra. Mas passemos a moderna história da ocupação do vale.

Funda-se a colónia de Porto Alexandre em 1854, cinco anos depois de se instalar em Moçâmedes o primeiro grupo de colonos portugueses, vindo de Pernambuco (Agosto de 1849). Só em começos de 1861 se inicia, porém, a ocupação branca do vale do Curoca, com a fazenda de S. João do Sul, do agricultor João Duarte de Almeida. A ocupação progride nos 10 anos que se seguem; em 1871 o número de propriedades era de 12. Mas daqui por diante a agricultura entra em fase de contínua decadência: primeiro o algodão perde o preço, proíbe-se depois, em 1911, o fabrico de aguardente de cana, verdadeira moeda corrente nas transacções com os indígenas. Pereira do Nascimento conta apenas 5 fazendas em 1892. Em 1932 as terras do Curoca já só fornecem alimentos aos habitantes de Porto Alexandre; e o que hoje produzem nem chega para abastecer a vila: sob a orientação de Brancos não se exploram mais que três fazendas-S. João do Sul, Pinda e Camilunga.

No período afortunado da exploração cultivavam-se como principais produtos de rendimento o algodão e a cana-de-açúcar e, como alimentos de base, a batata-doce, o feijão e a abóbora; e ainda a palmeira tamareira, a massambala, a mandioca milho, trigo, e nem faltavam os estimados mimos europeus como laranjeiras, pereiras, macieiras e videiras. A mão-de-obra abundante que tais empresas reclamavam buscar-se-ia inicialmente em escravos e depois em libertos e livres de vária procedência, desde Luanda-Malange e Nova Lisboa a Benguela e Novo Redondo, incluindo vizinhos Curocas Cuissis e Hereros ou os mais distantes Nhanecas-Humbes Ambós e Ganguelas (W). Para a manter, sobretudo depois da abolição da escravatura em diante, distribuiram os agricultores brancos algumas courelas por trabalhadores pretos. que as cultivavam para si, em certos dias da semana, enquanto outros amanhariam terras sem dono, do Governo, no seu modo de dizer, contíguas às fazendas.

Com o colapso da plantação empresarial o vale despovoa-se praticamente de Brancos; ficam, em parte, os Pretos, uns, a título precário, nas glebas onde labutavam, outros em terrenos do Governo, para onde transitam ou em que já estavam.

E nesses espaços de ninguém entram em mais vivo com a com os antigos habitantes da região. Ora é exactamente do estudo do estilo de vida dos povoadores de um destes lugares a Onguaia que passarei a ocupar-me.




(') H. BAUMANN & D. WESTERMANN, Les peuples et les civilisations de l'Aƒrique..., Paris, Payot, 1948, pp. 117 e segs. (“) CECÍLIO MOREIRA, op. cit., pp. 23-24.(15) Idem, op. cit., pp. 25-26


ORIGEM Texto: Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia :  http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:vWR6KIP1BQoJ:www.ceg.ul.pt/finisterra/numeros/1971-11/11





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As hienas castanhas, e a denominação de Baía dos Tigres dada à Enseada das Areias, a Grande Baia dos Peixes...






BAIA DOS TIGRES Dunas da Baía dos Tigres

Três versões existem  sobre a origem do nome da “Baia dos Tigres”. Uma delas está relacionada com a coloração "tigrada" que as altas dunas do lado continental da baía apresentam quando vistas à distância, a partir do mar. É a versão defendida por André Guilcher, Carlos Alberto Medeiros, José Esteves de Matos e José Tomás de Oliveira, em “Les Restingas (Flèches Littorales) d’Angola, spécialement Celles du Sud et du Centre” Finisterra, vol. IX, nº 18, Lisboa 1976, pp. 171-211.  Segundo os defensores desta versão, a areia das dunas que são geralmente claras, possui minerais pesados em abundância  --granada, a, magnetite, ilmenite, zircão, anfibólio, turmalina verde—metais que o vento concentra em grandes faixas nas partes baixas das mesmas dunas, e que vistas do mar, ao ganharem o aspecto riscado avermelhado, fazem lembrar a pele de tigres. Como se sabe, na Baía dos Tigres não há tigres.

A 2ª  versão é a de que o nome Baía dos Tigres está relacionado com o ruido causado pela fricção que o vento sul exerce quando sopra com violência sobre a areia no alto das dunas, ruido que fez levantar a crença de que ali houvesse tigres. Esta versão é defendida por J.Pereira do Nascimento no seu livro Exploração Geográphica e Mineralogica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895.

A 3ª versão deve-se a notícias da existência na Baía dos Tigres  de cães de grande porte que faziam lembrar tigres, quando lá chegaram os primeiros portugueses. Henrique Abranches escrevia no seu livro Senhores do Areal, sobre esses cães em relação aos quais se contavam versões diversas, uma delas referia de que no século XVIII um navio não identificado naufragara ao largo dos Tigres, e os cães que vinham a bordo, únicos sobreviventes, nadaram rumo à  costa, fixando-se naquela região desértica paupérrima e sem água, tiveram que se adaptar comendo o peixe morto que vinha dar à praia, ou caçando raposas, aves marinhas utilizando técnicas de guerrilha, que lhes permitiam capturar.

Ou ainda a versão de que em tempos recuados houvera uma epidemia de raiva em Moçâmedes, tendo a autoridade mandado matar todos os cães, havendo gente que deles se apiedou, meteu-os a bordo de uma barcaça e foi depositá-los na Baía dos Tigres, onde não havia água, e que esses animais na luta pela sobrevivência, lambiam a espuma  menos salgada das ondas que molhavam a areia da praia, abocanhavam o peixe que dava à costa, comiam enfim

Uma outra versão contava que em tempos recuados instalara-se em Moçâmedes uma epidemia de raiva e que a Administração ordenara a morte de todos os cães, mas algumas pessoas, apiedadas meteram-nos a bordo de uma barcaça e rumaram para o Sul para os depositar em qualquer praia, bem longe, mas em vida.  Deixam-nos na Baía dos Tigres onde não havia água doce, e esses animais na luta pela sobrevivência, depressa  se adaptaram, abocanhavam o peixe que dava à costa, e
aprenderam que a espuma das ondas que molhavam o areal não era tão salgada, e nos longos marasmos do vento, lambiam a superfície da água inerte com um espelho. Nesse ambiente cruel, aprenderam a viver e multiplicaram-se, tornando-se eles próprios tão cruéis como o meio.

Muito recentemente o nosso conterrâneo Aurélio Baptista,  como conhecedor da região, avançou uma 3ª versão que nos parece digna de ser apreciada e levada em consideração. Baseia-se na leitura e na interpretação  que fez do depoimento do explorador inglês Willian T Messum  que referencia deste modo a presença de hyenas de que a Baía dos Tigres seria   infestada : “Aqui accendemos lume e nos preparamos para ficar a noite, mas tivemos sempre sentinela, porque, nas minhas viagens, nem antes nem depois, eu nunca senti tão espantosas vozes de hyenas ou lobos, e toda a noite em roda de nós; que só se dispersaram exactamente quando o dia estava para romper”.

Também Alexandre Magno de Castilho, que passou pela Baia dos Tigres em 1867, referiu: “Só vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes…   Refere Aurélio: Ora, para um leigo, estas palavras teriam passado despercebidas, mas não passaram a Aurélio Baptista, conhecedor da região, logo se lembrou das hienas que por ali habitam, ou seja da “hiena castanha”  cujo  habitat se resume ao deserto do Namibe e Kalahari. Trata-se de um animal que pode atingir 1,40mts de comprido, 90cm de altura e pesando até 60kgs, que possui uma pelagem tigrada, e, por tal, poderiam ser tomados por tigres pelos exploradores e marinheiros do séc. XVII e XVIII,  nessa época de informação escassa.  Para Aurélio Baptista foram as hienas castanhas, que originaram a denominação de Baía dos Tigres à Enseada das Areias/Grande Baia dos Peixes




Texto de MariaNídiaJardim

 

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Habitat e distribuição

Hienas-castanhas podem viver em áreas onde o índice de chuva não seja maior que 100 mm por ano. Além de sobreviverem com pequenas quantidades de água, elas também conseguem um pouco de líquido das carcaças e das frutas que comem. Um dos alimentos principais das hienas em áreas semi-áridas são os vários tipos de melão, que suplementam a necessidade de água do animal. Sua predileção por melões às vezes as leva a conflitos com fazendeiros, que às vezes matam hienas-castanhas apesar de serem protegidas em alguns países. As hienas-castanhas são encontradas em todo o sul da África, e particularmente na Angola, Namíbia, África do Sul, Botswana, Lesotho, Moçambique, Malawi, Suazilândia e Zimbabwe.



http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5fhF0x7FHSQJ:xamalundo.blogspot.com/2014/08/o-meu-ponto-de-vista-da-origem-do-nome.html+&cd=6&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Uma familia da Baía dos Tigres: familia Martins Pereira



Uma foto que encontrei na Net , em http://voguida.blogspot.com/2010/10/foto-n-27.html, e que,  por achar que pode interessr à familia Martins Pereira, coloco-a aqui .

Legenda:  Na Baía dos Tigres, já no deserto da Namibia, quando fomos visitar uma família amiga de apelido Martins Pereira, industriais no ramo da pesca.  Na foto da esquerda para a direita o Tio João, irmão do meu Pai e Oficial da Marinha Mercante, o Capitão Marques casado com a D. Margarida Rolão Preto, família Rolão Preto sobejamente conhecida pelos seus ideais políticos, a seguir a D. Margarida, a minha Mãe, a nossa Ama Noémia com a minha irmã Nela,ainda bébé ao colo, a ama das filhas da D. Margarida. Sentados da esquerda para a direita o meu Pai, uma das filhas da D. Margarida, eu,o meu irmão Carlinhos e a outra filha da D. Margarida.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

João Duarte e a pescaria da Praia Amélia em Moçâmedes





João Duarte, o bem sucedido industrial da Praia Amélia, entre os filhos Armando Guedes Duarte (Mandinho), à esq., e João Carlos Guedes Duarte (Jinho), à dt. À esq, Carlos Humberto Freitas de Sousa (Beto)


  Encontrei esta foto, não sei se é mais antiga se é mais recente do que as que seguem que são já de 2005. Parecem-me bastante degradadas para serem mais antigas. 


As casas de João Duarte no Bairro da Torre do Tombo. Trata-se do  conjunto de casas de arquitectura algarvia  tal como se encontravam em 2005, apresentando um grau avançado de degradação



Outra perspectiva, na parte que converge para a ex-rua da Colónia Piscatória, rua que dá aceso à subida para a Praia Amélia. O avanço do estado de degradação espelha o desinteresse das autoridades pela preservação de um património de grande valor para a cidade. Este património não tem séculos, é certo, remonta ao início do século XX, mas é de uma época histórica, precisamente por tratar-se de uma época colonial.

 
A Torre do Tombo, vendo-se ao fundo as casas de João Duarte, nesta altura, décadas após a independência de Angola, completamente rodeadas de bairros periféricos que se desenvolveram devido à guerra e à fuga dos povos do interior para as cidades do litoral. Mais abaixo, junto ao mar, aquela que foi a 1ª Fábrica de Conservas de Moçâmedes, a Fábrica Africana, mais tarde Sociedade Oceânica do SUL (SOS).







Começo por lembrar que o nome "Praia Amélia" ficou a dever-se ao naufrágio da escuna da marinha portuguesa "Amélia", perto daquela praia,  por ter encalhado num "banco" ali existente bastante perigoso, por alturas do ano de 1842. E que houve em tempos na Praia Amélia uma grande empresa de Pesca da Baleia, mais ou menos no sítio que mais tarde pertenceu a Venâncio Guimarães, que veio ajudar a economia do distrito.





  Navio baleeiro na Praia Amélia a dirigir-se para a ponte de embarque/desembarque.



  Um momento do desembarque de uma baleia...

O momento do esquartejamento

O momento do corte e escala dos grandes cetáceos
 

As instalações foram-se modificando com o correr do tempo...




Sobre a empresa de João Duarte, na Praia Amélia, encontrei esta referência. Ficámos pois a saber como eram as instalações pesqueiras de João Duarte e que por esta altura se receava que uma daquelas crises cíclicas que sempre aconteciam em Moçâmedes viesse acarretar ao industrial graves prejuízos.


João Duarte foi com 15 anos para Angola, onde em Moçâmedes se transformou num industrial de pesca, começando por comprar uma pequena embarcação a gasolina (baleeira ou sacada?), depois mais uma, mais outra e por aí adiante. Em 1968, quando faleceu tinha uma fábrica Praia Amélia -de farinha e óleo de peixe numa praia concessionada - a Praia Amélia -(junto a Moçâmedes) e três embarcações que garantiam a matéria prima - as traineiras São João de Deus, Zita Lourdes e Maria Margarida.

João Duarte era um bem sucedido industrial e comerciante,  natural de Lamego, proprietário de uma importante pescaria na Praia Amélia, a 5km do centro da  cidade do Namibe,  que foi durante muito tempo, pelo menos até bem dentro dos anos 1950, o local onde as famílias de Moçâmedes se juntavam, em grupinhos, aos fins de semana, no Verão, para um dia bem passado, que incluía banhos de mar, pesca à linha do cimo da ponte, ou em pequenos botes a remos (chatas), junto ao canal, e tinha o seu ponto alto numa almoçarada que se prolongava pela tarde fora, e que por norma constava de uma caldeirada de peixe acabadinho de pescar, feita mesmo ali embaixo do telheiro da pescaria, sob o tecto de um barracão, onde ficavam os tanques de salga do peixe.

Para a sua pescaria na Praia Amélia, onde toda a gente era sempre bem recebida,  as famílias carregavam aos fins de semana, ao sábado ou o domingo, grandes cestos onde guardavam os ingredientes para a confecção de uma almoçarada, fruta, doces refrigerantes e outras bebidas, toalhas, pratos, copos, talheres, etc. etc. Cozinhava-se ali mesmo, junto aos tanques de salga de peixe, sobre pedras e carvão, ou utilizando um fogão a petróleo  desses que foram "vedeta" antes do surgimento dos fogões a gás. Estes passeios já vinham de um tempo em que os veículos automóveis em Moçâmedes eram inexistentes, e as deslocações para a Praia Amélia se faziam em baleeiras à vela, a partir de uma das várias pontes das antigas pescarias da Torre do Tombo, as que estivessem mais à mão, ou a partir da velha ponte de embarque/desembarque da Praia das Miragens, para os moradores da baixa da cidade.

A pescaria de João Duarte servia também de base para concursos de pesca desportiva, e tinha sempre por perto uma multidão se espectadores,  gente de ambos os sexos e de várias idades interessadas na modalidade.


Algumas destas jovens são familiares de João Duarte, outras são amigas da família.  A praia onde ficava a pescaria era óptima para banhos de mar, e por tal muito concorrida, não obstante as altas ondas e o grande fundão junto da ponte, facto que permitia os mais arrojados mergulhos.



João Duarte era considerado um homem rico para a época. Era, sem dúvida, o mais rico morador do Bairro da Torre do Tombo, o bairro onde vivia e doa mais ricos proprietários de Moçâmedes. Foi com 15 anos para Angola (Moçâmedes) e transformou-se num industrial de pesca, começando por comprar uma pequena embarcação a gasolina (baleeira ou sacada?), depois mais uma, mais outra e por aí adiante. A sua pescaria na Praia Amélia,  foi evoluindo, em 1968 quando faleceu tinha uma fábrica de farinha e óleo de peixe totalmente automatizada, e três traineiras 3 traineiras de bom porte, que garantiam a matéria prima - s São João de Deus, a Zita Lourdes e a Maria Margarida, e ainda instalações para salga e seca para os peixes mais nobres, uma ponte, várias casas para o pessoal e  até uma bonita Capela onde aconteceram cerimónias de casamentos de familiares abençoadas pela sua Santa Padroeira - a Nossa Senhora dos Remédios.

Em meados dos anos 1950 João Duarte foi Presidente do Grémio dos Industriais de Pesca de Moçâmedes. Era  também  proprietário de algumas vivendas modernas situadas na parte alta da cidade, na continuidade da Rua das Hortas, ocupadas por familiares, e ainda de um conjunto de casas de traça tradicional portuguesa já atrás citado,  situadas no bairro da Torre do Tombo, que ocupavam quase todo um quarteirão, junto à estrada que dá acesso à Praia Amélia,  que incluía  também uma mercearia e uma loja de venda de pão. E na baixa da cidade, no "centro histórico", no gaveto entre a Rua dos Pescadores e  a Rua Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro,  chegou a possuir uma loja de comércio, num terreno onde mais tarde mandou construir um prédio de 4 pisos que à data da independência de Angola se encontrava arrendado ao Banco de Angola.



Já disse atrás que João Duarte era considerado um homem rico para a época, mas naquele tempo, é preciso que se diga, ser rico não tinha a ver com as rápidas e fáceis fortunas que se estão criando em Angola e no mundo, nos dias de hoje.  Vivia-se no quadro de uma política económica colonial mercantilista e centralizada na Metrópole, que perdurou muito para além da 2ª Guerra Mundial, praticamente até aos anos 1960, e atrasou o desenvolvimento de Angola. Ou seja, vivia-se num contexto em que ser industrial de pesca em Moçâmedes podia ser um bom investimento, mas envolvia também muito trabalho e grandes riscos, uma vez que se tratava de uma actividade dependente das capturas de pescado, e sem quaisquer ajudas do Estado.  Para se fazer uma ideia, para que a indústria de pesca fosse rentável, cada traineira tinha que pescar  no mínimo 5 mil toneladas por ano, e quem não pescasse essa quantidade, tinha prejuízo. Por vezes bastava um ano de crise para que tudo fosse por água abaixo. Foi o que aconteceu em 1957/58 em Moçâmedes, por força da  crise do pescado que avassalou os mares de Moçâmedes, muitas boas empresas de pesca do distrito foram abaladas, levadas umas à falência,  outras ao total desaparecimento, e ainda outras a tiveram que desistir do sector pesqueiro e a ficaram-se pelo comércio, pela agricultura, e pelo imobiliário. Estou a lembrar-me que desapareceram na voragem desta crise que se abateu sobre o sector das pescas nesse ano,  as empresas pesqueiras "Casal dos Herdeiros de João Maria Inácio",  "J. Patrício Correia, Lda" ,  e "Marcelino de Sousa, Lda", todas  pescarias da zona da Lucira, valendo aos primeiros o grande número de bens imobiliários que detinham. Desapareceram a "Angopeixe, Lda", a "Raúl de Sousa"  na Baía das Pipas, a "Conserveira do Sul de Angola, Lda", a  "Portela & Guedes Lda", a "Manuel Nunes de Carvalho & Filhos, Lda ,  em Porto Alexandre. No caso particular da "Conserveira do Sul de Angola, Lda", esta empresa entrou na posse do Banco de Angola, como credor hipotecário, sendo depois vendida ao Dr. Urbulo Cunha, em sociedade com ? Ferreira, a prestações mensais de 50 contos. Outras empresas como a "Sena & Ribeiro Lda", e a "Sampaio & Irmão Lda", de Porto Alexandre, também desapareceram com a crise. Em Moçâmedes, a SOS "Sociedade Oceânica do Sul, Lda", fábrica de conservas do Capitão Josino da Costa, encerrou a sua actividade industrial, sendo as instalações adquiridas por Gaspar Gonçalo Madeira. Desapareceu a "Sociedade da Ponta Negra Lda", no Canjeque, de que eram sócios Virgilio Almeida, António Bernardino  e Matos, adquirida que foi pela  empresa "Projeque, SCRL Lda". Foram  também abaladas por esta  crise a "Torres & Irmão, Lda", a "José Carvalho & Sybleras, Lda", do Saco,   a "Venâncio Guimarães, Lda", da Praia Amélia,  e a "João Martins Pereira & Filhos, Lda", da Torre do Tombo. Por arrastamento a crise afectou também o Comércio,  e abalou empresas como a "Carvalho de Oliveira & Cª. Lda". Umas conseguiram recuperar porque se dedicavam paralelamente à actividade do comércio, como a "Antunes da Cunha, Lda", em Porto Alexandre. A "Torres Irmão, Lda" ficou-se com a Horta e com o imobiliário.  Este é apenas um exemplo de como não era fácil ser-se industrial de pesca naquele tempo, e naquelas paragens, onde os pequenos industriais sequer podiam contar com empréstimos bancários. E para se fazer uma ideia da complexidade do problema, nesses anos bons nem sempre a capacidade de laboração das fábricas davam resposta à quantidade das capturas, e quando o pescado excedia, tinha que ser vendido às outras pescarias, a 300 escudos a tonelada. São exemplos que nos dão a ideia da relatividade do valor do produto. Mesmo a pescaria de João Duarte, na Praia Amélia, a 5 km do centro da cidade, uma das mais fortes do Distrito,   não escapou aos efeitos dessa grande crise de pescado, e chegou  a ser vendida a uma empresa sul-africana. Porém a sorte esteve ao lado do proprietário, dado que a operação acabou por não se concretizar, uma vez que o Governo daquele país não autorizou o  investimento no estrangeiro, tendo os compradores acabado por perder o sinal que tinham adiantado por via de contrato de promessa de compra e venda que haviam efectuado.  De posse da sua pescaria, João Duarte conseguiu  como poucos não apenas vencer a crise, como nos anos a seguir à crise até  modernizar, em termos de maquinaria, as suas instalações fabris, e  partir ainda  para a construção  de um edifício de vários pisos, na Rua dos Pescadores, que veio a ser alugado ao Banco de Angola.

Estamos a falar dos estragos acontecidos na segunda metade da década de 1950.  Retenha-se que o grande "boom" piscatório no distrito de Moçâmedes veio a acontecer às vésperas da entrada  na década de 1960, com a inovação de todo o mecanismo ligado à indústria de pesca, designadamente com a instalação de fábricas de farinhas e óleos de peixe totalmente mecanizadas, e o uso nas traineiras de sondas para captação de peixe, e aladores mecânicos para carregamento do pescado. 

 


Traineira Zita Lourdes (nome da filha mais velha de João Duarte e D. Conceição (Micas)
Traineira Maria Margarida ( nome da filha mais nova de João Duarte e D. Conceição (Micas)

 Traineira Maria Margarida junto à ponte das instalações fabris de João Duarte, vendo-se ao fundo as instalações da Venâncio Guimarães


 A ponte da pescaria da Praia Amélia vista noutra perspectiva


Traineira Maria Margarida

 O desembarque do pescado


 Pescado com fartura... Nestas fotos podemos ver, laborando, sob a orientação do mestre, trabalhadores indígenas contratados (1)

 Lavando as redes na praia, junto das instalações




Vivências e Recordações...


Nasci e cresci numa casa mesmo ao lado do casarão pintado de cor-de-rosa, propriedade e morada da família Duarte, sita num gaveto a convergir para a Rua da Colónia Piscatória, a rua a subir para a Praia Amélia.  Embora tenham passado 50 longos anos, tenho na memória recordações nítidas deste local que me foi familiar, e deste conjunto habitacional que conheci, por fora e por dentro como às minhas mãos, e que considero de grande valor em termos de património arquitectónico, cultural e histórico para a cidade do Namibe, embora, e lamentavelmente, como já aqui fiz sentir, me pareça não estar a ser devidamente reconhecido e valorizado, tendo em conta o estado de degradação que já se vai notando, ainda que continue a fazer a delícia de visitantes, sobretudo de estrangeiros, que de passagem pela cidade  não resistem em o fotografar.


Recordando vivências daquele tempo, tenho bem presente os momentos de alegres brincadeiras que partilhei na infância com alguns dos filhos desta numerosa família, sobretudo aqueles que mais se aproximavam da minha idade, a Zita Lourdes, o Zé, o Helder...  Os outros filhos de D. Micas e de João Duarte, os mais velhos, eram o João Carlos (o Ginho), o Norberto, o Quim, o Armando (Mandinho), e mais novos,  a Margarida (Guida), o Mário e o Eduardo. O Norberto acabou por falecer muito novo ainda. Cheguei a conhecê-lo. Também o Armando faleceu relativamente jovem. Em ambos os casos, ninguém esperava.

Recordo as bonecas de pano com as quais a Zita Lourdes brincava, sentada na escadaria de madeira com vários degraus, por onde se entrava naquele casarão. Eram confeccionadas pela D. Micas. Umas possuíam longas tranças feitas de lã na côr amarela, outras na côr castanha,  e vestiam vestidos de chita estampada e nas mais diversas cores. Recordo  as bonecas de papel de lustro colorido que a Zita com todo o cuidado guardava no interior de uma caixinha de lata,  onde ficavam também os respectivos vestidos, saias, casacos, chapéus, sapatos, etc. Naquele tempo  não havia à venda no mercado a variedade de brinquedos que existem hoje, e as nossas mães culminavam essa lacuna jogando mãos às suas habilidades manuais  para os proporcionarem momentos de brincadeira às suas filhas.

Ainda sinto o cheiro da água de colónia com que a D. Micas, após o banho diário, perfumava os seus filhos pequenos: a Guida, o Mário e o Eduardo, banhos a que eu, também uma garota naquele tempo,  curiosa, assistia. Colocava uma porção de perfume num frasco de vidro, ao qual adicionava água, talvez para suavizar o efeito sobre a pele. O perfume em contacto com a água tomava a côr branca.

Lembro-me dos "apetitosos" odores que emanavam daquela cozinha,  onde a azáfama durava o dia inteiro para que o alimento não faltasse na mesa de tão extensa família. E D. Micas tudo dirigia, tudo coordenava.

Recordo os "jogos das escondidas", e outras brincadeiras, que nós garotada endiabrada levávamos a cabo por baixo do piso assoalhado daquele casarão. Ou seja no porão ou caixa de ar, para nós o subterrâneo, onde um dia fomos dar com um saco de sarapilheira cheio de moedas antigas, do tempo dos reis.

Naquele tempo (finais da década de 1940, início da década de 1950), as crianças brincavam no meio  da rua, a estrada era nossa, a terra pertencia-nos inteirinha. No meio da rua os rapazes jogavam à bola, no meio da rua as raparigas faziam danças de roda, brincavam às escondidas, jogavam aos queimados, à macaca, etc, etc. A rua era a nossa pista, para os que andavam de bicicleta (um privilégio). Não havia casa no Bairro que não conhecêssemos,  propriedade alheio que não penetrássemos... Sem quaisquer problemas subíamos aos telhados, descíamos a correr a descida até á praia,  pescávamos à linha em cima de tudo quanto eram pontes das antigas pescarias da Torre do Tombo. E quando chovia, e o deserto mesmo atrás das nossas casas se cobria de capim verde, que crescia acima da nossa altura,  o jogo das "escondidas" transferia-se para ali.

 Lembro-me de devassarmos as imediações da casa do velho Reis e da Ritinha Seixal,  ali mesmo em frente, no outro lado da rua, onde havia muito sítio para esconder, e onde, sobre os  terraços daqueles quartos feitos de bordão, o proprietário punha a secar rodelas de batata doce, às quais chamávamos  "macocas",  que faziam a delicia da garotada.

Dessa garotada  faziam parte o Zézinho Duarte e o Helder Duarte, o Amilcar, o Monteiro (Necas), o Juju, o Miroides, o Zé Rosa, o Aires Domingos e o irmão Victor, às vezes o Lolita Lisboa, o Zequinha Esteves e o Travão (netos de Assunção padeira, a proprietária de uma fábrica de pão no Bairro da Torre do Tombo), mas estes apareciam apenas para os jogos de futebol, jogos a sério que metiam taça para os vencedores e tudo!

Brincava-se muito naquele tempo, e no meio da rua! Escola de manhã, brincadeira o resto do dia. Nada a ver com escolas-prisão dos tempos de hoje!  Nossas mães estavam em casa, não trabalhavam, não havia essa coisa que hoje chamam  "deveres de casa", depois da escola, almoçávamos e brincávamos até à hora do jantar, até ao regresso de João Duarte a casa, por volta das 20 horas. Era a hora do recolhimento, o momento do "descanso do guerreiro"!  Quando a miudagem  dava conta da aproximação da Dodge, a limousine americana de côr cinzenta de João Duarte, conduzida pelo cunhado Manuel Guedes,  ponto final, acabava-se a brincadeira!

Moçâmedes era uma terra santa em termos de segurança. Naquela rua, em finais dos anos  1940, início dos anos 1950, os veículos automóveis eram raros, porque não eram fáceis de adquirir, e porque eram financeiramente acessíveis a muito poucas bolsas. Não havia portanto perigo de atropelamento. A importação de automóveis foi atrasada devido à II Grande Guerra Mundial (1939-45), que colocou as fábricas europeias ao serviço do armamento, e estas deixaram  de fabricar para exportação. Daí que fossem veículos automóveis de marcas americanas, como a Ford, a Chevrolet, a Dodge, os poucos que apareciam a circular. João Duarte era das raras pessoas da Torre do Tombo, e das poucas em toda a cidade que naquele tempo possuíam automóvel e ainda mais com "chauffeur" privativo.

Um momento que João Duarte não dispensava, era o "encontro dos velhotes" até à hora do jantar, no "Quiosque do Faustino", em plena Avenida da República, lugar privilegiado, sala de visitas de Moçâmedes. Ali encontravam-se diariamente para um café em animada cavaqueira, o velho Cabral, sempre vestido de fato e lacinho;  o velho Ringue, de origem boer, tradutor de profissão e ex-cultivador de tabaco (Bibala); o velho Pimentel Teixeira, acabadinho de chegar na sua bicicleta, vindo da Farmácia do Sindicato da  Pesca, na Torre do Tombo (mais tarde Grémio dos Industriais de Pesca), onde trabalhava; o sempre bem disposto Virgílio Gomes (do Armazém), o Virgilio Russo, também conhecido, carinhosamente, por "Virgílio Aldrabão", devido às mirabolantes anedotas (*) que sempre tinha para contar. E ainda velho Eduardo Torres, que de quando em quando também ali aparecia. Na década de 1950 o grupo perdeu um amigo, o velho Pimentel Teixeira. Este, na sua bicicleta havia percorrido  a descida da Fortaleza, quando, ao passar junto da firma de Gaspar Madeira, caiu, bateu com a cabeça no chão. Foi fulminante. 

Aqui podemos ver Dona Maria da Conceição (Dona Micas), esposa de João Duarte (em cima, ao centro), suas irmãs e irmãos.





Acrescentarei ainda a esta postagem algumas fotos deste ramo alargado da familia Duarte, "roubadas" ao  Ricardo (Kady), neto de João Duarte


João Carlos Guedes Duarte (pai), Maria Helena Ramos Duarte (mãe), com alguns dos seus 7 filhos: Lopo, São e Jorge e Lena, Mário, Fernando e Ricardo/Kady.


José Guedes Duarte (Zézinho para os familiares e amigos) e Teresa Banha  no Parque Infantil de Moçâmedes. Os miúdos são os irmaõs Ricardo, Lena, Fernando filhos de Maria Helena Ramos Duarte e João Carlos Guedes Duarte,  netos de João Duarte. Ao fundo o Colégio das Doroteias. Foto de finais dos anos 1950.

 
 João Carlos Guedes Duarte junto a um Auster da FAV com Fragoso, colega piloto.
 
 
 João Carlos Guedes Duarte com Fragoso (aviador), o irmão Armando Guedes Duarte (Mandinho) e o Chefe do Posto Matos 


Interessante é o perfil que Ricardo traça de seu pai, o João Carlos Guedes Duarte, que enquanto em Moçâmedes, tinha enraizado em si o «bichinho» dos aviões e das corridas de automóvel:


"O meu pai João Carlos Guedes Duarte, também conhecido em Moçâmedes por "Ginho" começou a voar em 1956 e teve licença para pilotar aviões - o popular "brevet" - em 1958. A sua madrinha de vôo foi a Celísia Calão, uma senhora lindíssima, aliás lugar comum em Moçâmedes, pessoa que tive o prazer de reencontrar em Portugal continental, pois deu-se a feliz coincidência de a Celísia vir a ser colega da minha mulher na CGD em Lisboa. Foi a Celísia que deu o banho de baptismo de "brevet" ao meu pai com o tradicional balde de água pela cabeça abaixo.

"O meu pai começou por voar em Moçâmedes, com os aviões do Aero Clube local, tendo participado com boas classificações em diversos "ralis aéreos". Mais tarde acabou por adquirir um Tiger Mouth àquele Aero Clube com o qual fez inúmeras acrobacias aéreas e outras peripécias - desde aterrar na praia a colocar o passageiro a vomitar (diga-se situação um pouco incómoda até para o piloto) porque o Tiger "4 asas" não tinha carlinga e o passageiro viajava, por norma, no lugar da frente. Lembro-me do meu pai me contar que, de vez em quando perdia ferramenta e haveres, deixados por descuido dentro do cockpit, quando se punha a fazer "loopings" e "tonneaux".

"...De 1957 a 1961 e nesse tempo de "vacas gordas" o meu pai andava nas corridas de automóveis e nas "brincadeiras" com avionetas do Aero Clube de Moçâmedes e até chegou a ser proprietário de uma pequena avioneta - um Tiger Moth de "4 asas". Há cá muita gente de Angola, que se lembrarão desses áureos tempos. »

 "...Quem me lê conhece bem o meu pai e sabe do que ele era capaz de fazer de um avião. Quando cheguei a Portugal (em 1976) vivi por breves meses em Vidago e aí encontrei alguns ditos "retornados" que me contaram peripécias do meu pai com o Tiger que eram desconhecidas na família. Um desses senhores contou-me que o meu pai ia buscá-lo à Baía dos Tigres só para ele ir jogar futebol a Moçâmedes ao domingo e ele (futebolista) perdia mais peso na viagem (tais eram as acrobacias) do que durante todo o jogo!!! Na Baía dos Tigres os aviões aterravam na avenida principal e recolhiam-se ao pé da igreja, onde eram amarrados tal eram as ventanias e tempestades de areia. Como se sabe, os aviões levantam sempre contra o vento e nos dias de vento forte punham-se dois cipaios de cada lado das asas a segurar as mesmas enquanto o avião não tomava aceleração para não levantar antes do tempo!!!Esse Tiger Mouth (prateado) CR-LCN foi , mais tarde destruído em acidente tido pelo meu tio Mandinho (Armando Guedes Duarte) também ele piloto - fez um "cavalo de pau" e partiu a hélice e deslocou os apoios do motor. Vou "postar" aqui as poucas fotos que tenho de Moçâmedes (são só duas) mas prometo, para futuro breve divulgar aqui alguns filmes em 8mm, ou fotos deles extraídas, onde se podem apreciar os ralis aéreos com aviões do Aero Clube de Moçâmedes de outras cidades angolanas e alguma acrobacia aérea no Tiger Mouth.» ....

O «Tiger Mouth» de João Carlos Guedes Duarte com os filhos Lopo e Jorge



Alguns elementos da família Duarte, junto da sua moradia em Porto Alexandre, no dia 10 de Janeiro de 1976, já após a independência de Angola, momentos antes de se verem obrigados a abandonar aquela cidade que à época estava em franca expansão.





Em 1974, com o turbilhão da revolução, e em 1975 com as independências,  caíram tradições, preconceitos foram ultrapassados, mas também desmoronaram realizações alcançadas e sonhos que, porventura, teria valido a pena prosseguir...

Pessoas como João Duarte, depois de um vida de trabalho e de investimento viram-se obrigadas a regressar às suas terras e às terras de seus avoengos, com as mãos mais vazias que nunca. Até o dinheiro que conseguiram arrecadar era diferente e não tinha nenhum valor.
 
Angola necessitava de mais meio século para que a população africana estivesse apta para a independência. Parada quase até 1920, progrediu um pouco daí até 1950, tomou um certo impulso no pós 2ª grande guerra (1939-45), avançou impetuosa no pós 1961, e em 1974 estava em franca aceleração,  beneficiando os vários sectores da população, europeu e africano, estes porém ainda não tanto quanto seria necessário. 

Ser "colono" ou ser "branco", não implica que se seja automaticamente um ser pérfido e explorador. Não eram assim a maioria de nós, embora houvesse quem fosse. Os povos precisam uns dos outros. E nenhum povo isolado evolui. "Colonos" foram seres humanos apanhados nas malhas da História, sempre engendradas por uns quantos senhores do poder, aqueles que  fazem as leis, e que ditam  a História dos povos. Até porque quem conhece a História de Angola, sabe que nunca um colono conseguiu fazer chegar os seus anseios a instâncias superiores. E que Angola não andou mais depressa porque o seu desenvolvimento foi  durante séculos deliberadamente travado.
A quem cabe a responsabilidade desse fracasso?
Quantos protestos de africanos e de portugueses foram ignorados ao longo do tempo, e desastrosamente geridos?
Não basta a um povo querer fazer, quando quem manda tem outros projectos!

João Duarte não foi um "colonialista", ou seja, não foi um desses grandes empresários da Oligarquia africanista domiciliados na Metrópole, protegidos do sistema, sem vínculo afectivo que os ligasse a Angola.  Foi um exemplo da vontade, persistência e determinação de um português do Norte, que um dia resolveu partir para Angola, e que ali resolveu fixar-se para sempre na terra onde casou, teve filhos, teve netos, labutou, gerou riqueza, proporcionou trabalho, e investiu o fruto desse trabalho. Foi um emigrante, tal como os demais europeus que se estabeleceram no Ultramar português, como poderiam ter-se estabelecido em qualquer outra parte do mundo, sem se preocupar em amealhar para si e para os seus, algures em algum Banco na Europa, como procediam os Oligarcas, aqueles para quem as leis discriminatórias eram feitas.

Esta a grande diferença, apesar do estigma que recai inteirinho sobre os colonos, os "bodes expiatórios" dos erros e das injustiças da colonização, fruto de uma perspectiva altamente redutora, enraizada numa profunda e persistente ignorância  que vem impedindo uma visão mais clara, mais ampla e mais real dos fenómenos.  



(1) Quem viveu em Moçâmedes, decerto não se cansou de ouvir histórias dos seus antepassados sobre a estadia dos noruegueses, tripulantes dos barcos da pesca às baleias, pertencentes a uma empresa norueguesa que se instalou na «Praia Amélia» (1), a seis quilometros a sul da cidade, com uma fábrica de grandes proporções para a época.Resta referir que os noruegueses que trabalhavam nessa fábrica da Praia Amélia marcaram uma época. Eles praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro, canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso.Partiram e não voltaram. As gentes pacíficas da terra não perderam, entretanto, as esperanças de um breve regresso. Mas em vão. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. Também permaneceram as memórias desses tempo romântico, nas ossadas desses grandes animais por todo o litoral, especialmente na «Praia das Conchas».

(2) Praia Amélia, assim chamada porque em l842 ali encalhou a escuna Amélia da Marinha de Guerra Portuguesa. A este respeito transcrevo parte de um texto do Blog Tropicália: "...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, forma uma enseada, que termina da banda do Sul na ponta da Anunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e só a custo se percebe do mar. Fica em 15° 16' Sul. A uma milha e seis décimos para ONO. da ponta do Noronha, fica o extremo setentrional do baixo da Amélia, nome que lhe foi posto por ter naufragado ali, em 1842, a escuna de guerra portuguesa Amélia, muito perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns 3 metros de água, em alguns sítios.É todo de rocha e areão, tem na fralda ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional; perto dele e da banda do Oeste se encontram 22 m e mais, separa-o do continente um canal por onde só devem navegar lanchas.Por alturas do ano de 1840, a quem afirme ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira; julgamo-lo porém muito arriscado, assim por poder acalmar ali o vento e encostarem as águas para cima do baixio, por haver sempre seu rolo de mar. Dilata-se o baixo da Amélia por entre 15°14' e 15º18' Sul, vai até a umas 3 milhas da costa. Pode-se navegar por aquelas paragens, enquanto estiver a ponta Negra descoberta da ponta do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito décimos de milha para Norte dele."



No livro, intitulado "Demonstração geográfica e politica do território portuguez na Guiné inferior que abrange o Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .."  escrito em Lisboa em 1846 e publicado no Rio de Janeiro em 1848, portanto, às vésperas do início da colonização de Moçâmedes.
o seu autor, Joaquim Antonio Menez escreveu este livro no desejo de chamar a atenção dos portugueses sobre as vantagens e recursos que a Metrópole poderia recolher do vasto e rico território de Angola, e lamenta que Portugal após a administração vigorosa e civilizadora de Pombal em pouco tempo tenha destruido as benéficas disposições que podiam tornar florecentes as Provincias d'além mar, que se estavam  mal,  pior ficaram, agravando a sua decadência.  O autor esteve em Angola no ano de 1842, dezesseis anos após a sua última estadia no território, e ficou surpreendido com a decadência. Viajou na escuna Amélia que naufragou em Moçâmedes, esse célebre episódio que deu o nome à Praia Amélia. Percorreu  pontos da costa até Luanda, que nessa altura apresentava já os sintomas de uma vida quasi extinta. Acabou por regressar a Lisboa em 1845, atrozmente perseguido, devido ao conceito que fazia da administração e a vontade de prestar algum serviço à Nação.


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Baleias na Praia Amélia, em Moçâmedes
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2007/08/caa-baleia-na-praia-amlia.html
Fotos/fonte - Blog Kadypress: clicar AQUI.
Aero Clube de Moçâmedes AQUI



Nota da autora do blog:

As fotos de família gentilmente cedidas e aqui expostas, pertencem a álbuns particulares, e não podem nem devem ser daqui retiradas por gente estranha ao assunto, tendo em vista outras publicações, excepto com a expressa autorização daqueles a quem as mesmas dizem respeito.
Muito obrigada