Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 27 de dezembro de 2014

Fábrica Africana, a primeira fábrica de conservas de Moçâmedes, Namibe, Angola





Perspectiva da Fábrica Africana, primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 ,  de Figueiredo * e Almeida, Lda.  Repare-se, em cima, à esq, a então Avenida Felner já a entrar pela Torre do Tombo, com as poucas casas que nesta altura alí existiam e pertenciam, a da esq. à familia Grade, e as três da dt,. a Conceição e Manuel Paulo, à familia Velhinho e a António Paulo. Situo nos anos 1920/30  esta foto.



Outra perspectiva  que nos  permite ver os carris de ferro por onde passavam as vagonetas que levavam o peixe da ponte para o  interior da Fábrica, para onde entrava em linha recta. O pescado era então descarregado para ser escalado e cozido em grandes caldeirões. Em seguida vinha a fase do enlatamento. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por enlatadeiras africanas.
foto livro de P. Salvador (1).


Srs. de chapéu e gravata à porta da entrada da Fábrica (proprietários e empregados?) Sabe-se que esta Fábrica recebeu a visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932. Será que esta foto é dessa altura? Estariam ali, encostados, a aguardar a visita? 

 
 Perspectiva do interior da Fábrica com portão de ferro a dar para o exterior, por entre entram e saiem as "vagonetas" que transportavam o peixe a partir da ponte


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas...

A escalagem era uma das primeiras operações...
 
A seguir vinha a fase da cozedura em grandes caldeiras...




O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras africanas

O encaixotamento
Como referi atrás a Fábrica também se dedicava ao peixe seco

Perpectivas: Uma vagoneta transportando o peixe seco já ensacado



Perspectivas : a rotina dos trabalhadores




 




Conforme o livro "Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes, esta fábrica, a primeira de todo o Distrito, foi mandada edificar em 1914 pela firma Figueiredo & Almeida. Conforme Artur Moraes no seu Memórias de Angola, pg 73, Caleidoscópio-Edição e Artes Gráficas, 2001, a iniciativa da criação da fábrica de conservas "Africana" deve-se a Miguel Duarte de Almeida, casado com Amélia Figueiredo Duarte de Almeida, e tomou corpo com o apoio do grande colono Serafim Freire de Figueiredo, sogro do primeiro.

Do portal Memória Africa , Boletim Geral das Colónias ( Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias , N.88 - vol VIII. 1932, pg 407, retirei estas fotos da visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932, já no quadro do Estado Novo (Salazar), a esta fábrica. Através da leitura do mesmo Boletim, na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, nessa altura denominava-se "Fábrica Africana" e que o sector de legumes e de conservas de frutos se encontrava ainda fase de apetrechamento, estando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, na sua qualidade de administrador da Companhia de Mossâmedes.

Conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), e de uma referência feita à obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes, a "Fábrica Africana" destinava-se de início a enlatados dos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Como se pode ver pela duas fotos acima, no topo das janelas da "Fábrica Africana" encontravam-se escritos os produtos enlatados que ali se produziam, ou se pensava viessem a ser ali produzidos na íntegra: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc. Vê-se também o símbolo da Fábrica, uma águia.

A Fábrica, instalada em edifício propositadamente construido para esse fim, encontrava-se dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente com o exterior, ou seja, com uma ponte pertença da mesma empresa, onde o pescado era descarregado e em seguida transportado para o interior da Fábrica, directamente, através de vagonetas que deslizavam sobre carris de ferro.

Há indicações que na década de 1920 e 1930 se exportavam da "Fábrica Africana" produtos de alta qualidade para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e Gabão, que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levou ao surgimento de novas conserveiras.

Em 1932, o Ministro das Colónias visitou esta Fábrica, e visitou também, conforme o mesmo Boleim, uma outra empresa fabril de conservas de peixe pertencente a Manuel da Costa Santos. Na verdade, a poente da "Fábrica Africana" ficava uma outra fábrica, mais pequena, pertencente a Costa & Pestana (?).

Esta fábrica, mais adiante no tempo, foi propriedade da Companhia do Sul de Angola, tendo Josino da Costa como arrendatário. Olimpio Aquino era o então gerente. Nos anos 1950 era designada por "Sociedade Oceânica do Sul" (SOS). Há referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez Angola " a um indivíduo de nome Santana como proprietário da referida Fábrica (?).

A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe. Como atrás referido, o pescado era descarregado através da ponte anexa à Fábrica, e dalí era transportado para o interior da mesma, através de «vagonetas» que deslizavam sobre carris de linha férrea, num trajecto em linha recta, para após descarregado ser escalado e cozido em grandes caldeirões, e proceder-se ao enlatamento. No início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar nesse sector, porém mais tarde esta tarefa passou a ser desempenhada por pessoal africano feminino como podemos ver ( eram as enlatadeiras).

Em 1953. já a industria de pesca de Moçâmedes tinha em actividade 14 fábricas de conservas, 155 instalações de pesca e peixe seco, 40 de farinha e óleos de peixe, tudo avaliado em 225 355 contos. Estavam empregados 5904 indígenas contratados. ("Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes)

Sabemos que na década de 60, após um período aureo de grande produção nesta Fábrica enquanto Sociedade Oceânica do Sul (SOS), a mesma deixou pura e simplesmente de produzir e foi vendida à Produtos de Angola Lda (PRODUANG) cujos societários eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira. Acabou por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique, situação que se mantinha em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se em Moçâmedes ainda hoje.

Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade do Namibe, e hoje em dia corre o risco de desaparecer. Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam preservá-la, enquanto repersentativa desta fase da conjuntura colonial, na região de Moçâmedes.


Pesquisa e texto de MariaNJardim


* No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono que e instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçâmedes, proprietária da fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana.

Poderemos encontrar também referencias à Figueiredo & Almeida limitada que possuia em Moçâmedes, em tempos mais recuados, uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus:AQUI


** E ainda em Industria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, relatório de um inquérito de Afonso José Vilela, 1923.



Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5 1898
.................................................................................................................................................................

Transcrevemos a seguir passagens de um apontamento histórico de António Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes **, subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar- onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 20, e 30 do século passado:


«... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921, ...

«...No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. »
(...)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Subsidios para a História de Moçâmedes, hoje Namibe: 1869 Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando




Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando


Quando em 1849, após a perda da colónia do Brasil, independente em 1822, Portugal finalmente começou a olhar para as colónias de África, essencialmente para a nova "joia da corôa", Angola, território potencialmente rico e promissor,  secularmente preterido e transformado num  reservatório para tráfico de escravos destinados ao Novo Mundo, Moçâmedes foi a região eleita para as primeiras experiências de povoamento com famílias idas de Pernambuco, Brasil que ali se estabeleceram e que  na sua maioria,  graças ao clima ameno, ali ficaram para sempre. Até então e ao longo de 3 séculos para Angola, terra de febres para onde se ia por obrigação ou por castigo, onde em pouco tempo  europeus perdiam a vida, iam aventureiros em busca de riqueza fácil, traficantes de escravos na maioria idos do Brasil, degredados a cumprir as mais diversas penas, de delitos comuns  a assassinatos, e de quando em quando inimigos políticos que se pretendia afastar. Era com degredados que se formavam exércitos onde a indisciplina reinava e as revoltas eram uma constante.


Em 1869 estava aquartelado na Fortaleza de S. Fernando um contingente de 100 praças pertencentes ao Batalhão de Caçadores 3, na sua quase totalidade criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas. Na noite de 14 de Novembro daquele mesmo ano, essas praças amotinaram-se para protestarem, segundo afirmavam, contra os serviços violentos a que eram obrigados, contra os castigos rigorosos que sofriam, e contra os descontos excessivos que eram feitos nos seus prés. Acusavam o capitão Miranda como responsável de toda aquela situação. Avisado o chefe do Concelho, Major Joaquim José da Graça do que se estava a passar, este dirigiu-se à Fortaleza, onde, perante o seu espanto, os soldados já pegavam em armas. O Major Graça foi alvejado pelos amotinados, com um tiro de pistola, mas sem consequências. Contudo o oficial em causa conseguiu dissuadi-los dos seus intentos, e prometeu, recebê-los no dia seguinte, na secretaria do Concelho, a fim de apresentarem as suas queixas.  Após o diálogo apaziguador, o Major Graça retirou-se, parecendo tudo estar debelado. Porém os soldados voltaram mais tarde a sublevar-se e convenceram-se que os habitantes da vila se preparavam para os dominar pela força. Assim, armados de novo, carregaram as peças, e apontaram-nas para a vila, prontas a fazer fogo. Afirmavam a sua intenção de destruir a povoação e incendiar as casas de seguida. Os moradores apavorados, receando toda a espécie de atrocidades, abandonaram as suas habitações e procuraram refúgio nas Hortas, que ficavam a três quilómetros do aglomerado populacional.  No meio de tão dramática situação, e quando parecia estar tudo perdido, a Sra D. Maria do Carmo Lobo de Ávila, esposa do chefe do Concelho, saiu resolutamente da sua casa, encaminhou-se ligeira para a Fortaleza, e confiada, corajosa, varonil, aparece de improviso perante a turba arrogante e impetuosa dos revoltados. A gentileza senhorial do seu porte e o excesso prestigio das suas virtudes, contiveram-lhes os rancorosos impulsos. Tomados do espanto que o imprevisto lhes causara, e confundidos pela severidade que resumbrava do nublado rosto da dama, receberam-na com todo o respeito, formando fileiras, e apresentando-lhe armas. Perante a atitude de acatamento das praças, a Senhora Dona Maria do Carmo pôde plenamente desempenhar a nobre missão que se impusera: a de os vencer pelo sentimento. Para o conseguir, mostrou-lhes, dominada por irreprimível eloquência, a hidiondez do crime que iam cometer, e dirigiu-lhes, numa inflexão de voz, tocantemente angustiosa, suplicas ardentes e afervoradas. Comoveram-se. Os revoltosos, em cujos olhos borbulhavam lágrimas de arrependimento, protestaram, em seguida, inteira obediência. O Chefe do Concelho, que durante a alocução estivera sempre junto da sua esposa, ordenou-lhes então, como lhe cumpria, que descarregassem as peças e as espingardas e recolhessem a pólvora. Tinham-se entregado. A vila estava salva. O espírito de rancor, de violência e de rebeldia que desorientara as praças, que por pouco as não levou à destruição da mesma vila, fora inteiramente subjugado pela palavra enternecedora duma dama fraca e delicada.




MariaNJardim. 





Bibliografia consultada:
(1)Torres obra cit 2 vol pp. 201 a 206
Separata n.8 da Revista Africana Universidade Portucalense, Porto, 1991.Cecilio Moreira : "Fortalezas, Fortes, Fortins e Fazendas de Moçâmedes no Sul de Angola". Subsidios para a História de Portugal em Angola. 



Ver aqui: Portugal século XIX  http://comum.rcaap.pt/bitstream/123456789/3551/1/NeD03PedroCardoso.pdf


domingo, 14 de dezembro de 2014

 Mausoléu de João Duarte d' Almeida no Cemitério de Moçâmedes, em Angola.





  Mausoléu do Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, no Cemitério de Moçâmedes, em Angola.




Na história da humanidade, a morte sempre foi a única certeza. Junto com ela veio o desejo encontrar o caminho para a imortalidade. Os faraós do antigo Egito buscaram em suas pirâmides a vida eterna. Deixar seus feitos registados para a posteridade foi a forma encontrada por heróis e reis da Grécia Antiga, para alcançarem a imortalidade. Daí que os cemitérios ou necrópoles sejam muito mais do que um lugar de descanso para entes queridos. Eles ultrapassam as suas funções ritualísticas e religiosas para se tornarem, também um patrimônio arqueológico, artistico, histórico e cultural. São pois lugares de Arte, que guardam Historia, que suscitam memórias, sendo alguns cemitérios verdadeiros museus ao ar livre.

E assim sendo, andar por um cemitério pode proporcionar muito mais do que um sentimento de tristeza e de dor pela perda irreparável de um ente querido. A arte tumular pode despertar os sentidos, trazer prazer ao observador. Cemitérios oferecem-nos uma viagem no tempo. São espaços que contam histórias sobre a História e sobre as gentes que habitaram as cidades que os incluem, são testemunhos do ambiente político, artístico e social da sucessão das épocas desde que foram construídos. Alguns cemitérios podem ser considerados verdadeiros museus ao ar livre.

Os cemitérios obedecem, em quase tudo, à organização das cidades dos vivos. Cemitérios possuem ruas e sepulturas numeradas, tal como as portas das casas. Possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam estar sepultadas as personalidades mais influentes e menos influentes, criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida.

Com a avançar do século XX, a entrada no século XXI, e a opção dos crematórios, os cemitérios perderam o esplendor dos velhos tempos enquanto depósitos de corpos sem vida, para se tornarem verdadeiros museus ao ar livre e lugares de arte, de história, de arquitectura, de escultura e de genealogia. É o que explica boom actual do necroturismo europeu. Como defende Francisco Queiroz, “a arte fúnebre foi criada para homenagear os mortos, mas também para os vivos desfrutarem dela”. Em Lisboa, no Cemitério dos Prazeres as visitas ao jazigo dos duques de Palmela, o terceiro maior da Europa, bate records em termos de visitação turística.

Por tudo isso, em grande número de países, os cemitérios tornaram-se espaços de visitação turística disputadíssimos. A prática de se visitar cemitérios pelo simples prazer de conhecê-lo tem até um nome: necroturismo. Em Lisboa, há visitas guiadas gratuitas duas vezes por mês, aos sábados ao Cemitério dos Prazeres, a procura é cada vez maior, e as receitas são crescentes, com o aumento do turismo cemiterial, As Câmaras em Portugal começam a investir na preservação dos cemitérios seguindo o exemplo de outros países. Em Paris a prática da visitação turística de Cemitérios instalou-se no início do século XIX.

A Rota Europeia dos Cemitérios é hoje uma realidade entre os povos que melhor preservaram e continuam a preservar os seus mortos, porque mais cedo tomaram consciência do valor artistico, cultural e histórico da velha casa dos mortos. Porque cemitérios integram Arte, História,suscitam memórias, alguns são verdadeiros museus ao ar livre, uma mais valia a conhecer e a explorar.


Abstraindo-me da consideração que todos mortos merecem, independentemente do seu estatuto social, estou a lembrar-me do valor histórico dos mais importantes mausoléus e jazigos existentes no cemitério de Moçâmedes, que têm resistido ao tempo e à degradação e remetem para a fundação da cidade. Sim, porque talvez excepto jazigos e mausoléus, mais e menos imponentes, as mais humildes sepulturas, sem ter quem delas cuide, nestes 40 anos, já devem ter desaparecido com a voragem do tempo.

Este assunto é trazido aqui porque talvez um dia Moçâmedes venha a ter o lugar que merece no Turismo nacional e internacional, e talvez este Cemitério possa vir a enfileirar o roteiro dos lugares a visitar, e até mesmo vir a ser visitado por estudantes no decurso de pesquisas para trabalhos escolares e de licenciaturas, como por escritores, historiadores, curiosos, etc .

E se assim vier a acontecer, o guia turístico de uma rota por este Cemitério torna-se indispensável. Passando ao lado de cada túmulo ele terá que fazer um resumo da vida e da acção em Moçâmedes de alguns dos colonos fundadores que ali respousam e cujos túmulos chegaram aos nossos dias.


Sem fazer a apologia do colonialismo, baseando-me apenas em relatos de factos, passo a mostrar alguns dos mais mais importantes túmulos presentes no Cemitério de Moçâmedes. Este é túmulo do colono João Duarte d´' Almeida, considerado um dos colonos fundadores, embora não tivesse feito parte de nenhum dos grupos de colonos vindos de Pernambuco, Brasil em 1849 e 1850.
Era natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), e com mais 4 irmãos era filho de João Duarte de Almeida (bacharel em medicina), e de D. Ana Emília Duarte de Almeida (nome de solteira Ana Emília Brandão, natural de Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça em Portugal). Nasceu em 26 de Março de 1822 e faleceu no dia 9 de Julho de 1898, em Moçâmedes, onde repousa no Cemitério local, sob artístico mausoléu mandado erguer por sua esposa e filhos.

O artístico mausoléu só por si já é uma obra de arte para quem tenha a capacidade de para ele olhar e o apreciar, numa terra tão carente de monumentos. O túmulo de João Duarte d' Almeida, erguido por subscrição pública, não apenas se distingue e se projecta no Cemitério de Moçâmedes, mas também evoca memórias ligadas aos primórdios da colonização, e remete para a História das Religiões e para a História das Mentalidades.

João Duarte d' Almeida foi um grande agricultor, um empreendedor de sucesso, um desbravador de terras incultas, cujos produtos, alguns anos apenas a seguir a fundação já estavam presentes em várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), onde foi contemplado com medalhas de ouro pela boa apresentação. Produtos de Moçâmedes!

Não é possível falar de Duarte de Almeida com propriedade, sem falar da terra que o pioneiro viu nascer. João Duarte d'Almeida foi protagonista de momentos-chave na História de Moçâmedes, na qual deixou a sua marca. Eis, para memória futura, alguns feitos ligados a Moçâmedes e à sua pessoa:

- Assinou a célebre "Escritura de Promessa e Voto", acto solene do reconhecimento do 4 de Agosto de 1849, como dia de Moçâmedes, a celebrar anualmente, na Igreja Matriz, com missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus", costume que ainda perdura. Esteve investido nos cargos de juiz substituto e de Presidente da Câmara Municipal. E pelo alto desempenho em favor do progresso de Moçâmedes foi agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa".

- O seu nome bem como da sua fazenda de S. João do Norte, estão intimamente ligados ao cemitério de São Nicolau, um dos locais mais interessantes para estudo da arte tumular Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", e à obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba - um ex-escravo, serviçal que ele mandou especializar-se em Lisboa em estelas funerárias. A Arte Mbali ou Mbari, arte invulgar em África, surgida antes do seu falecido em 1898, representa uma cultura de fusão (afro-cristã) que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, e em madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a morte, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual era atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração. Os canteiros "quimbares" de Moçâmedes inseriam nas cruzetas, trabalhos em relevo que descreviam o que as pessoas haviam sido em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os seus interesses, os acontecimentos que as marcaram, e tudo isso através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores, tais como a"mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); o "leão" (para os caçadores); a "bola" (para o futebolista), e outros símbolos mais como o "chicote", a "palmatória", o "cajado do capitão", a "cobra de que fora mordido", o oficio que possuía ao falecer, etc... Infelizmente as histórias que ali se contam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas. Da sua autoria, eram as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc que ilustram alguns textos dedicados ao assunto. Desconhecemos o que foi feito delas, se ainda existem ou em que estado se encontram . Uma preciosidade para a História de Moçâmedes.

Para além destes aspectos, João Duarte d' Almeida juntamente com Bernardino Abreu e Castro, chefe da 1ª colonia de 1849, desenvolveram esforços pela abolição total do tráfico de escravos e o fim da escravatura interna. Ambos estiveram em contacto com o general Sá da Bandeira, a quem iam dando conta da situação e solicitando o estabelecimento de um regime de trabalho livre, contra situações de escravatura interna, e de tráfico clandestino que se estabeleceram a seguir à abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas, em 1836.

Para os que não sabem, estes eram tempos de reconversão económica de Angola, em que Sá da Bandeira, após a queda do regime absolutista em Portugal, aproveitando-se de uma conjuntura favorável apressou-se a publicar o decreto da abolição do tráfico de escravos em território português. Existia até então em Angola e em várias colónias de África, todo um sistema económico montado na base do negócio legal de escravos para o Brasil e Américas, que se esboroou, e passou a fazer-se na clandestinidade, fugindo ao Decreto abolicionista e às brigadas marítimas portuguesas e inglesas que em perseguição do mesmos, patrulhavam a costa. Era um tempo de falta de braços de trabalho, de fuga de escravos, em que o governo português fora levado a distribuir os escravos libertados de navios negreiros apresados, pelas actividades económicas em formação em que Moçâmedes também recebeu escravos e ex-escravos libertados de navios negreiros apresados, sem os quais a economia do distrito estava em risco de tudo deitar a perder.

As ideias de João Duarte d' Almeida e de Bernardino Abreu e Castro, desagradavam aos grandes comerciantes de tráfico negreiro de Luanda e de Benguela, que não sabiam nem queriam lidar com outro tipo de «mercadoria» se não o escravo. A exportação do marfim, da cera, da goma copal, da urzela não lhes interessava nem aos seus concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço. A incapacidade de reconversão conduziu ao desespero as burguesias destas duas cidades, cujos textos históricos nos dizem que eram maioritariamente mestiças que beneficiavam do vil negócio, em conluio sobas e intermediários negros a partir do sertão. Esta organização que envolvia negociantes na sua maioria com interesses no Brasil e que durante séculos alimentou a economia angolana, e a Corôa portuguesa através dos direitos aduaneiros cobrados, envolveu brancos, negros e uma maioria mestiça, gente do lado de cá e de lá do Atlântico que acabaria por entrar em decadência com a vigilância marítima internacional e as pressões por parte do Governo central. Foi apenas em 1869, que foi abolido o estado de escravidão, mas há notícia que o trabalho compelido se arrastou por muito mais tempo e que alimentou a nova ordem a partir de então estabelecida.

A História tem que ser compreendida no quadro da mentalidade e da cultura de cada época.

São algumas memórias que o túmulo de João Duarte d' Almeida evocam. Positivas e negativas, temos que nos confrontar com elas, nunca pondo de parte o contexto e as mentalidades da época!



Parando em frente ao mausoléu de um outro pioneiro da fundação, o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, diríamos que o 1º médico-cirurgião da terra, cuja vida foi quase toda vivida em Moçâmedes, onde faleceu, embora não estivesse incluido no grupo dos de Pernambuco, Brasil, ali chegados em 1849 e 1850, não se limitou a exercer clínica, entrando para salvar as gentes da terra, tanto no Palácio como na mais humilde palhota dos arredores. Em Moçâmedes o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro mandou construir a célebre casa da ex-Rua Calheiros, de arquitectura de inspiração romântica, em "Arte nova", ou "Arte noveau", que remonta aos primórdios da fundação, quando Moçâmedes pouco mais era que um imenso deserto, a maioria das casas eram ainda precárias, e difícil e até mesmo impossível era a obtenção do material necessário, uma vez que tudo vinha de longe. O movimento "Arte nova", ou "Arte noveau", surgiu em Paris na 2ª metade do século XIX, e espalhou-se pela Europa, Estados Unidos e outros países do mundo, e chegou à África e a Moçâmedes graças a este talentoso 1º médico-cirurgião de Moçâmedes que deixou igualmente um palacete numa Horta vizinha do sítio da Aguada. (1) Em ambos os casos um riquíssimo património. Infelizmente nem no tempo colonial, nem nos dias de hoje, o belo edifício em Arte Noveau, carente de conservação e de restauro, tem recebido a consideração que merece.

Mas há outras facetas da vida deste médico, Lapa e Faro era uma personalidade singular, ele próprio um artista, um artesão, um apaixonado por África, comparado a um Robinson Crusué, pela sua habilidade em todos os ofícios, capaz de cozer a sua própria roupa, seja calça sejam chapéus, como tratar doentes na sua qualidade de médico que comodamente visitava servindo-se de um carro de novo género, que tinha por motor um boi-cavalo, e que havia mandado construir para transportar as pessoas doentes ou fragilizadas, e para frequentar caçadas pelos areais do Deserto do Namibe.
Preferia viver no campo, na sua casa da Horta ou na Quinta dos Cavalleiros, vizinha da de Bernardino, onde tenciona ter-se-ia ocupado da cultura do algodão.

Lapa e Faro acompanhou o major Rudski quando iniciou o primeiro estabelecimento no Porto de Pinda, em 08.12.1854. Além de médico e articulista foi um elemento activo na vida de Moçâmedes, a quem são devidas várias realizações. No Diário da Câmara dos Deputados de 18 de Janeiro de 1878 conta-se ter sido levado a debate o assunto da construcção da casa para o tribunal de justiça, a construção do palácio do governo, estudos para uma ponte de embarque o desembarque, e de uma estrada de Moçâmedes para Huila, e ainda estudos para a construcção da casa para repartição de obras publicas, deposito e observatorio meteorologico, casa para cadeia, casa para escola, hospital, quartel, e para a conclusão da terraplanagem no interior da fortaleza. Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo", publicado por volta de 1888, sobre as obras do Palácio-residência do Governador de Moçâmedes, iniciados em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal, e concluído trinta e um anos depois, continuado mais tarde, conta que estas decorreram segundo um risco de Lapa e Faro que veio sofrendo várias modificações,.

Quantas memórias e quanta História estes túmulos suscitam !

João Duarte d' Almeida e o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro são apenas dois pequenos exemplos. Há muitos mais!
Pesquisa e texto de MariaNJardim 

Este texto tem direitos de autor. Incorre em
PELÁGIO, devassa da propriedade intelectual, quem daqui o retirar e republicar sem a menção da autora. Este texto encontra-se já publicado em Moçâmedes, Registos e Factos blogue. MariaNJardim

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

BAIA DOS TIGRES e a origem do nome


 


A hiena castanha

BAIA DOS TIGRES: a origem do nome


Três versões existem  sobre a origem do nome da “Baia dos Tigres”. Uma delas está relacionada com a coloração "tigrada" que as altas dunas do lado continental da baía apresentam quando vistas à distância, a partir do mar. É a versão defendida por André Guilcher, Carlos Alberto Medeiros, José Esteves de Matos e José Tomás de Oliveira, em “Les Restingas (Flèches Littorales) d’Angola, spécialement Celles du Sud et du Centre” Finisterra, vol. IX, nº 18, Lisboa 1976, pp. 171-211.

Segundo os defensores desta versão, a areia das dunas que são geralmente claras, possui minerais pesados em abundância  --granada, a, magnetite, ilmenite, zircão, anfibólio, turmalina verde—metais que o vento concentra em grandes faixas nas partes baixas das mesmas dunas, e que vistas do mar, ao ganharem o aspecto riscado avermelhado, fazem lembrar a pele de tigres. Como se sabe, na Baía dos Tigres não há tigres.

 O efeito de luz e sombra sobre as altas Dunas
O efeito de luz e sombra sobre as altas Dunas




A 2ª  versão é a de que o nome Baía dos Tigres está relacionado com o ruido causado pela fricção que o vento sul exerce quando sopra com violência sobre a areia no alto das dunas, ruido que fez levantar a crença de que ali houvesse tigres. Esta versão é defendida por J.Pereira do Nascimento no seu livro Exploração Geográphica e Mineralógica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895.

A 3ª versão deve-se a notícias da existência na Baía dos Tigres  de cães de grande porte que faziam lembrar tigres, quando lá chegaram os primeiros portugueses. Henrique Abranches escrevia no seu livro Senhores do Areal, sobre esses cães, em relação aos quais se contavam versões diversas, uma delas referia que no século XVIII um navio não identificado naufragara ao largo dos Tigres, e os cães que vinham a bordo, únicos sobreviventes, nadaram rumo à  costa, e fixaram-se naquela região desértica e sem água,  onde tiveram que se adaptar meio,  comendo o peixe morto que vinha dar à praia, ou caçando raposas, cachalotes, aves marinhas utilizando técnicas de guerrilha. Ou ainda a versão de que em tempos recuados houvera uma epidemia de raiva em Moçâmedes, tendo a autoridade mandado matar todos os cães, havendo gente que deles se apiedou, meteu-os a bordo de uma barcaça e foi depositá-los na Baía dos Tigres, onde esses animais tiveram que aprender a sobreviver  em meio adverso,  lambendo a  espuma menos salgada da superfície das ondas que molhavam a areia da praia, comendo peixe que dava à costa, incluso cetáceos, tornando-se eles próprios nesse ambiente cruel, tão cruéis como o meio.

No livro "Africana" Universidade Portucalense 1991 encontrei as seguinte passagens:

"...Sobre o nome dado às enseadas e depois  atribuido à aldeia, deve-se à presença do rei da selva naquele local em certo dia, no início do povoamento da Grande Restinga, que também era de vez em quando frequentada por sua magestade"

"...Também o rei leão com certa frequência fazia visitas aos Tigres, onde encontrava boa alimentação, nas hienas e nos cães que em quantidade razoável povoavam a restinga", para além, é claro, dos flamingos, das garças, das gaivotas, dos patos e dos pelicanos.

Muito recentemente o nosso conterrâneo Aurélio Baptista,  como conhecedor da região, avançou uma 3ª versão que nos parece digna de ser apreciada e levada em consideração. Baseia-se na leitura e na interpretação  que fez do depoimento do explorador inglês Willian T Messum  que referencia deste modo a presença de hyenas de que a Baía dos Tigres seria   infestada : “Aqui acendemos lume e nos preparamos para ficar a noite, mas tivemos sempre sentinela, porque, nas minhas viagens, nem antes nem depois, eu nunca senti tão espantosas vozes de hyenas ou lobos, e toda a noite em roda de nós; que só se dispersaram exactamente quando o dia estava para romper”.  Refere Aurélio: Ora, para um leigo, estas palavras teriam passado despercebidas, mas não passaram a Aurélio Baptista, conhecedor da região, logo se lembrou das hienas que por ali habitam, ou seja da “hiena castanha”  cujo  habitat se resume ao deserto do Namibe e Kalahari. Trata-se de um animal que pode atingir 1,40mts de comprido, 90cm de altura e pesando até 60kgs, que possui uma pelagem tigrada, e, por tal, poderiam ser tomados por tigres pelos exploradores e marinheiros do séc. XVII e XVIII,  nessa época de informação escassa. Este o ponto de vista de Aurélio Baptista :  foram estes animais , as hienas castanhas, que originaram a denominação de Baía dos Tigres à Enseada das Areias/Grande Baia dos Peixes! Ainda relacionado com este assunto, Alexandre Magno de Castilho, que passou pela Baia dos Tigres em 1867, referiu: “Só vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes



Baia dos Tigres, a "Manga das Areias" começou a ser designada por Tigres no mapa de Pinheiro Furtado, em 1790. Grande Baía dos Peixes, Great Fish Bay para os ingleses. É limitada a norte pelo limite sul  de Porto Alexandre, a leste pela cumeada que, partindo da Garganta do Diabo, vai ao Cunene nas Quedas de Montenegro,  a sul pelo rio Cunene; a oeste pelo mar.

Acrescento ainda um pequeno texto com alguns aspectos relacionados com as hienas castanhas:


Habitat e distribuição

Hienas-castanhas podem viver em áreas onde o índice de chuva não seja maior que 100 mm por ano. Além de sobreviverem com pequenas quantidades de água, elas também conseguem um pouco de líquido das carcaças e das frutas que comem. Um dos alimentos principais das hienas em áreas semi-áridas são os vários tipos de melão, que suplementam a necessidade de água do animal. Sua predileção por melões às vezes as leva a conflitos com fazendeiros, que às vezes matam hienas-castanhas apesar de serem protegidas em alguns países. As hienas-castanhas são encontradas em todo o sul da África, e particularmente na Angola, Namíbia, África do Sul, Botswana, Lesotho, Moçambique, Malawi, Suazilândia e Zimbabwe.

MariaNJardim

Ver também:
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5fhF0x7FHSQJ:xamalundo.blogspot.com/2014/08/o-meu-ponto-de-vista-da-origem-do-nome.html+&cd=6&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a


 https://www.msn.com/pt-pt/video/newsafrica/reportagem-no-sul-de-angola-a-ba%c3%ada-dos-tigres-%c3%a9-uma-aldeia-fantasma-com-administrador-ausente-editado/vi-AAwdpSn?ocid=sf

https://vimeo.com/116848532?fbclid=IwAR2VjWA8akBLjjauhS0i5C6yJOhdAeURygpv1pZTAiIhwJl2HKEEqDfJdls

sábado, 30 de agosto de 2014



Cuisses no Deserto do Namibe, em foto da década de 1960 de Vitor Mendonça Torres



Cuisses no Deserto do Namibe. 1935-1939 ICCT 
(foto colocada à margem do texto) 

Curocas no Deserto do Namibe em 1935-1939 ICCT
(foto colocada à margem do texto) 



“No tempo do kulukulo, os bosquímanos da Camilunga ameaçaram matar todos os Kuroca. Só o feitiço os pôde travar. Os Kuroca falaram com os antepassados, e de manhã pegaram numa criança com cerca de sete anos e foram a uma montanha no Chitete levando a criança e um caniço como uma lança. Lá chegados, a criança apontou o caniço e fez o gesto de o atirar, dizendo "tu". No mesmo dia o chefe dos bosquímanos sentiu-se mal e morreu; depois morreram os outros todos. Os Kuroca depois foram lá enterrá-los. Nesta guerra (a de Angola, a última)
muitos Kuroca foram, mas ninguém morreu de bala. Aqui só há cemitério de doença não há cemitério de bala”.

Mito dos Mukuroca
 

O sul de Angola era por volta de 1910 habitado por individuos da raça negra, alguns milhares de brancos portugueses e uns poucos estrangeiros, ali estabelecidos desde meados do século XIX.

Transcrevo,  no respeito pela escrita da época, o "Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910)"de JOÃO DE ALMEIDA, in Sul d'Angola:

"Os indígenas não pertenciam à mesma tribo e dificilmente se poderia determinar a sua quantidade e a povos pertenciam, dado que a sua expansão para terras do sul  tem sido gerada  por invasões e emigrações violentas de variadas tribos, pelo espírito de domínio e superioridade, ou por necessidade da vida que os levou a se deslocarem, a se fundirem com outras tribos, ou a sobreporem-se a elas, misturando qualidades e caracteres de todos os povos envolvidos na acção. Importante seria estudar a marcha dessas diferentes emigrações, destrinçar as diferentes tribos, a pureza da sua origem, a proveniência dos povos que sucessivamente tem vindo a habitar esta parte da província de Angola, de que nos estamos ocupando. Estudo difícil e complexo para o qual faltam os elementos mais essenciais, uma vez que os povos indígenas não tendo escrita, também não possuem documentos, como também não ergueram edifícios, monumentos, etc, e só puderam os factos históricos através da tradição oral."

"... Pelas suas narrações os povos gentios dos Cubaes, Dombe, Giraullo e Quipolla, pertencem todos à mesma raça, e os três últimos formaram por muito tempo um só povo o qual por dissenções occorridas com o soba do Dombe se refugiou para a Huila, e indo ali mesmo uma guerra mandada pelo dito soba a perseguil-o, de novo emigrou, vindo parar em um logar denominado pelo gentio Lutunda, entre o Bumbo e a Pedra Grande, donde se dividiu, indo uns habitar no paiz dos Mucubaes e os outros vindo aqui estabelecer as duas tribus do Giraullo (fim do caminho) e do Quipolla, hoje também já separadas, mas antes e desde a sua descida do centro do paiz reunidas no sitio Quissongo. Tendo-se retirado deste ponto alguns para o Coroque ali formaram a tribu d'esta denominação, alliando-se com os Muximbas. Esta ultima tribu dos Coroques é assaz notável pela sua linguagem gutural, talvez resultado da mistura do primitivo idioma com o dos Muximbas. Estando ainda reunidos os Quipolas e Giraullos, diz a dita preta, dera à costa nesta bahia um navio, que se presume era hollandez, do qual ficou aqui parte da tripulação e a outra parte seguiu para Benguella por terra acompanhada pelo pae do actual soba do Giraullo. Dali voltaram os ditos náufragos com o soba e uma força militar commandada pelo capitão-mór de Benguella que era o Thomaz dc tal, o qual veiu outra vez por mar em um navio grande, talvez a fragata Loanda. Na occasiao da ida do soba a Benguella, deu-lhe o governador daquella cidade sementes de leijão, canna, mandioca, um gallo e uma gallinha, dizendo-lhe que o gallo era para lhe annunciar a manhã. No Quissongo existe uma pedra com inscripções já inintelligiveis, que se affirma terem sido feitas pelo dito capitão-mór Thomaz. O sino e o caldeirão do navio naufragado existem ou existiram no Jáu, tendo sido dados de presente pelo soba do Giraullo ao d'aquelle logar. Se se obtiver informação exacta do tempo da estada daquelle capitão-mór em Benguella, conhecer-se-ha a data primitiva da povoação deste districto no seu litoral, pelos indigenas, pois que antes era deserto. . . "

E mais adiante:

"...só, typos muhimbas-Mutucua 1909,  portanto, o estudo etnographico e linguistico, comparando os usos e costumes de uns e outros e os dialectos por elles fallados, auxiliados pelos estudos antropológicos, etc, nos poderão levar a resultados concludentes; mas sabe-se também que estes estudos não estão entre nós sequer esboçados.
 De todos os dados que podemos colligir, parece poder concluir-se que os mais antigos povos que habitaram a região Sul d'Angola fôram os matchonas (talvez próximos parentes dos matchenos, habitantes do Congo, antes da invasão dos jaggas), e se estendiam na depressão central de entre o Cunene e Baixo Cubango e embucadura dos seus afluentes. Para sul daquelle rio estavam as tribus dos bushmans. Numerosas tribus dâmaras invadem aquelle estado e forçam os seus habitantes, os que não sucumbiram ou não cahiram na escravidão, a internar-se nas regiões vizinhas. Ao mesmo tempo incursões de hottentotes impelliam os bushmans para norte, forçando muitos a passarem o Cunene. Os dámaras não satisfeitos com a aridez das terras conquistadas, cederam-nas a novas migrações emquanto elles, seguindo o caminho dos vencidos, com estes se misturavam. Da fusão de matchonas, kushumans, dámaras e hottentotes, resultaram varias tribus que povoaram toda a região, desde a embocadura do Cunene e da cordilheira da Chella até ao Cubango. Essas tribus tomaram vários nomes conforme o da terra em que habitavam ou o dos seus chefes, e a predominância de um ou outro sangue. E dentre ellas, uma mais importante fundou um estado nas margens do Cunene, conhecido com o nome de Mataman e os seus habitantes com o de hacuanaibas. Pelos meados do século xvi foi este povo invadido pelos bancumbes ou baumbes e que, oriundos do norte, haviam vindo do oriente; e, expulsando e avassallando parte dos habitantes, fundaram o grande estado do Humbe-Onene, cujos limites iam desde a curva do Cunene na Chabicua e do Ovampo até ao Bihé, onde então acabavam também de aparecer os nanos e banhanecas, fixando-se estes ao sul dos primeiros. * Dos bacuanaibas expulsos, uns passaram pela Chabicua para sul do Cunene, e outros juntaram-se aos seus irmãos bandimbas ou muximbas, que habitavam a cordi- lheira da Chella. Espalhados estes e recebida nova migração de dámaras alastraram-se pelos Valles do Curoca, Béro, Giraul, formando os bacubaes, bacurocas, bacuanhócas, giraues e quipolas, vindo também para ali os expulsos pelos nanos e banhanecas, os badombes e bacuissos, que se fixaram no Giraul e Muninho, imprimindo nelles traços característicos que ainda hoje claramente se evidenciam. Pelo norte, ao longo da Chella, penetraram em seguida os banhanecas, mais ou menos impeli idos pelos nanos e ganguellas. Depois de fundidos um tanto com os habi- tantes que, como vimos, expulsaram serra abaixo, constituíram os baquipungos, baum- patas, bcdupollas ou muhillas, bangambués, bakihitas, etc.   Pelo sul novas correntes dámaras do Caoco vêem juntar-se aos que primiti- vamente se haviam fundido com os matchonas, bushmans e hottentotes, formando as varias tribus da Chabicua, e as do Ovampo, conhecidas com o nome de banctubas — baclongas, bagangellas, bacuanhamas, muvales, etc. — e os das margens do Cubango iam subindo o seu curso e dos seus afluentes, misturando-se muitos com os mambun- das, mambuellas, etc, formando os banhembas, bacuangares, bacuatires, bacuitos, etc. — taes são os povos que hoje habitam a Angola do Sul, e cujos característicos prin- cipaes vamos apontar."

Vamos continuar transcrevendo a  parte do Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), de João de Almeida, a este respeito:

"...Typo muhumbe. 

-Macuissos ou bacuissos. Não se sabe de onde são originários os macuissos que habitam as serras pedregosas da faixa do litoral — habitantes das pedras — onde vivem miseravelmente. É raro terem cubatas, vivendo nas furnas; e sustentam-se de pequenos animaes e raizes que apanham e da pesca de moluscos e alguns peixes que conseguem agarrar. São verdadeiramente miseráveis. 

- Curocas. Os bacurocas habitam parte do valle superior do rio Curoca e o do seu terço inferior — a parte média é desabitada — e uma parte da falda da Chella e os Montes Negros, nos valles do Saiona e Béro. Originários da Chella, da região dos Gambos, predomina nelles o sangue dámara e bushman, conservando ainda o dique (i) dental estalado em todas as palavras. São pastores e caçadores. Não enterram os mortos, abandonando os cadáveres às feras; praticam a circumcisão, mas já quando próximos da virilidade; e untam-se com manteiga, mas sem tacula. Usam panos à cinta, amuletos e fiadas de missanga e busios ao pescoço, braços e cinta. As mulheres usam um penteado, amassando os cabellos com barro e manteiga, dando-lhe a fórma de uma cabaça. É frequente o adultério, que se paga com bois, dando depois o direito ao instigador de o repetir. Os rapazes, antes da circumcisão, usam uma faixa de cabello no alto da cabeça, da testa à nuca, rapando o resto da cabeça. Os homens usam trunfa como os muximbas, apertada atraz das orelhas com uma correia ou mettida numa bexiga de boi. Têem um deus, siica, a quem ligam uma ideia muito vaga e que em nada se prende com a do Creaclor. Usam armas de fogo e azagaias. Habitam em cubatas muito miseráveis, às vezes uns simples ramos cobertos com um braçado de capim.

- Giraus e Quipolas. Os gíraus e quipolas habitam o valle do Giraul e do Béro, nos Cavalleiros; originários das faldas da Chella, são irmãos dos bacubaes, dos quaes conservam os característicos. São um pouco agricultores, embora tendam mais para a vida pastoril, alimentando-se de leite azedo. Usam pelles ou panos e vários adornos no pescoço, braços e cinta. Habitam em cubatas miseráveis, que é geral- mente uma pernada de carrapateiro enterrada no solo, dobrados os ramos e presos ao mesmo, coberta com capim e barrado exteriormente com bosta de boi, deixando um buraco como entrada, que faz lembrar a porta de um forno. São muito supersticiosos e falam também no ente supremo, o suca. 

-Mondombes. Originários da região do Dombe, no districto de Benguella, irradiaram para o sul, entre a Chella e o mar, e habitam hoje os valles da Bentiaba, a Montipa e as bacias do Giraul e Béro, desde as suas cabeceiras nas faldas daquella serra. 

-Banhanecas. Originários do norte e aítns dos nanas e talvez dos jaggas, habitam o valle do Caculovar, desde a Cahama e os seus afluentes até ao vértice da Chella, o valle do Sinde e Quê, e a vertente norte e oeste da serra da Chella até á Bentiaba e Munhino. Typo macuisso — Ovampo ( I ) Os bushmans ou mucancalas dão um estalo com a lingua no meio de certas palavras ou no fim delias. 70 Typo curoca Dividem-se em varias tribus, cujas principaes são as de Quipungo, Biballa, Hum- pata, Muillas, Hae, Kihita e Gambos. São todos agricultores e pastores. Usam como distinctivo principal cortar os dois dentes incisivos médios de cima. Enterram os mortos e fazem sacrifícios humanos, muito bárbaros, por actos de feitiçaria e praticam a prova da casca. Têem varias associações ou seitas misteriosas, distinguindo-se os filiados por tatuagens e amulêtos assim como os que tenham dado certas provas ou assistido a determinadas cerimonias. As características de cada uma destas tribus serão adeante indicadas, ao tratarmos da parte etnographica dos concelhos. São dos mais rebeldes ao contacto e á assimilação dos hábitos dos brancos. 

- Cubaes. Os bacubaes são descendentes dos mundimbas e habitam a vertente oeste da serra da Chella, desde o Chacuto até ao Otchinjau. São essencialmente pastores, mas dedicam-se também um pouco á agricultura. Enterram os mortos. Usam pelles como adorno, e outros, panos. Usam farta cabelleira e arrancam os dois incisivos médios de cima e de baixo. Bandimbas ou mundimbas. — Dos mais antigos habitantes da vertente leste da Chella, descendem dos matchonas, dámaras e hottentotes, tendo vivido muito tempo na Chabicua, desde o Cunene às cabeceiras do Curoca. Hoje habitam a região dos Gambos, desde o Hae, o Valle do Curoca, no terço superior e inferior, e as margens do Caculovar, desde a Gahana á Bella-Bella; estão fixados ali ha pouco tempo, depois de novas migrações de dámaras e das frequentes razzias dos hottentotes. São pastores e agricultores. Alimentam-se de leite azêdo, pirão de milho ou massambala e berlunga. Vestem-se com pelles de boi preto ou animaes bravios; e adornam-se com missangas e braceletes de ferro e cobre. As mulheres usam uma pelle comprida que lhe chega ao joelho. O Cabello é rapado nos lados e crescido no vértice da cabeça. As raparigas e algumas mulheres usam o Cabello em tranças car- regadas de missanga. Os homens trazem suspenso do pescoço uma pinça de ferro para arrancar os pellos. Limam os dois dentes incisivos médios de cima. São muito supersticiosos. Enterram os mortos e collocam provisões junto das sepulturas para as almas dos defuntos lhes não fazerem mal.


 Recuemos no tempo, procuremos saber o que nos diz a História destes povos através do texto que segue retirado de "Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia"


Toda a informação que se segue nos vem da notabilíssima e pouco aproveitada "Memória sobre a Exploração da Costa ao Sul de Benguela na África Ocidental e Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Moçâmedes", de José Guimarães, que ele próprio escreveu e publicou em Lisboa no ano de 1842.

Os primeiros vestígios humanos que encontraram foram  «...ossos de baleia queimados e uma espécie de embarcações, feitas de um pau muito leve chamado bimba, o que evoca a antiga notícia de DUARTE PACHECO PEREIRA. Dias depois apareceram negros e em dias seguintes trouxeram para trocar “milho, feijão e abóboras, algum marfim, pouco gado, e pontas de cabra de mato curiosas pelo seu comprimento».

Viviam os Negros perto e GUIMARÃES decidiu ir ter com eles à sua povoação, o que não faria sem grande perigo, dado que não consentiam que homem branco entrasse nela. Mas tudo correu bem e o explorador dá noticia de ... «...um extensíssimo vale, todo cultivado de milho maiz, feijão, abóboras e uma espécie de milho miúdo”, com margens (...) guarnecidas além d'imensa quantidade d'arbustos e de plantas parasitas, por duas ordens de palmeiras, que se estendem até onde se pode alcançar a vista e que parecem continuar muito parao centro». «...Do lado direito destes arimos ficava uma espécie de seio formado por algum rio, que no tempo das chuvas naturalmente ali desagua, conservando-se agora subterrâneo, pois cavando até dois palmos de profundidade encontra-se agua magnífica, de que os indígenas se servem para beber e à qual é devida a imensa e linda vegetação de que se acha coberta toda aquela planície”.

Com a singela mas exacta descrição do lugar, note-se que especificadamente se mencionam o milho maiz e o milho miúdo, o segundo dos quais será talvez a actual massambala. E aí estavam os renques de palmeiras que os nossos olhos ainda hoje podem ver por toda a Camilunga, nome por que agora se apelida a antiga fazenda de S. Bento do Sul. Eram os Negros governados por um soba e GUIMARÃES tinha-os por povos “de nação mucubal” e de “vida pastoral”, designando-os de Mocorocas, “por habitarem um lugar a que chamam Coroca”.

E prosseguindo na sua informação escreve:

«Sua vida muito pacífica não deixa de ser singular pela sua predilecção pelas mulheres, que escondem com a maior cautela,especialmente dos brancos, sendo igualmente muito ciosos do seu g ado, cuja carne é magnífica e de que possuem grande quantidade de duas espécies, vacum e ovelhum São os Mocorocas muito dados ao exercício da caça e alguns dentre eles ao da pesca crêm muito em feitiços e almas dos seus defuntos; não gostam d'aguardente e preferem o tabaco que eles lã fabricam duma forma singular [similar?] ao de rolo do Brasil; são muito amigos de missanga branca, azul, preta e igualmente estimam muito facas e arcos de ferro para fabricarem flechas e azagaias, enxadas de ferro dumas que fabrica uma nação do interior do sertão, contígua a Benguela, por nome Nanos (o que na cidade de S. Filipe constitui um ramo de negócio); de fazendas preferem zuarte azul, baeta da mesma cor e cobertores, não fazendo apreço de chitas e outras fazendas de cores claras.»

Repete-se, na mesma costa, mais ao norte, decorridos quase três séculos e meio, atrevimento semelhante ao do destemido Fernão Veloso na Baía de Santa Helena; só que aqui não voltou GUIMARÃES tão apressado como o valente homem de armas de Vasco da Gama. Vale a pena talvez contar que o comandante Alexandrino da Cunha ou por impaciente com a demora na baía ou porque o convívio com GUIMARÃES se tinha deteriorado ou porque não queria que gente branca corresse perigo, não permitiu que homens brancos fossem com ele e deu-lhe por companheiros só dois negros da guarnição e um língua também negro.

Repare-se que GUIMARÃES os julga “de nação mucubal” e esta filiação fã-lo-à dizer que têm “vida pastoral”, por ser esta a ocupação tradicional dos Mucubais. Mas a verdade é que estamos em presença de uma população sedentária, ciosa de arcos de ferro para enxadas, praticando uma agricultura variada; em suma, uma população agrícolo-pastoril.

E se estes Mocurocas são aqueles que PILARTE DA SILVA encontrou -GUIMARÃES não se refere aos estalos identificadores - é de estranhar que o sertanejo não tivesse achado entre eles, 70 anos antes, vestígios de agricultura. O relatório elaborado por PEDRO ALEXANDRINO DA CUNHA coincide, no geral, com o de GUIMARÃES, o que não admira. Nem por dizer que os Curocas serão “colónias de Mondombos, dos quais têm a linguagem e os costumes» se afasta da filiação referida por GUIMARÃES: os Mucubais não terão outra origem-também Hereros saídos dos Mondombos das terras do sul de Benguela.

Annais Marítimos e Coloniaís. Parte não oficial, n.” 12, 53* série, pp. 459 e segs., Lisboa, 1845. (”) ESTERMANN refere esta hipótese da origem dos Mucubais na obra citada, vol. III, pp. 29-30:

Parece-me útil dizer que os historiadores do Sul de Angola têm aproveitado, sobretudo, o relato de ALEXANDRINO DA CUNHA, cremos que por ignorância do de GUIMARÃES, mais rico de informação. Soube da existência deste pelo livrinho de CECÍLIO MOREIRA, Entre damas e o mar, atrás citado.

Ocupação portuguesa desta área só se iniciou de Dezembro de 1854 por diante, com a instalação de uma fortaleza num ponto alto, iminente à baía de Alexandre. O capitão de fragata JOÃO MÁXIMO DA SILVA RODOVALHO, que tomou parte no empreendimento, também se deslocou a uma das aldeias dos Curocas, a oito milhas da foz, em 10 de Dezembro do mesmo ano de 1854. Confirma que têm soba, são tratáveis, possuem gado vacum e arimos de milho e abóboras “de que sesustentam” (1°).

Logo no mês seguinte esteve entre os Curocas o navegador e viajante inglês WILLIAM MESSUM. Sentando-se à sombra de uma palmeira e podendo repousar os olhos no verde das hortas, sentia-se recompensado dos vários meses de aridez ao longo da costa: "Aqui me deleitei pela primeira vez, depois de muitos meses que tinha deixado o Cabo, de achar alguma coisa como vegetação, porque os naturais têm em considerável extensão hortas cultivadas de milho, grãos e abóboras. Era um regalo, depois de tanta areia, sentar-se à sombra de uma palmeira”. E noticia ainda: "As choupanas desta gente pareciam construídas para aturar e eram habitações cómodas Os naturais possuem numerosos rebanhos de gado grosso e miúdo. Tinham também marfim de elefante e de cavalo marinho Vi maças feitas de corno de rinoceronte e grande abundância de mel e cera de abelha. Festejamos muito algum leite, milho e bolos feitos não sei de quê, com mel Perguntaram por aquadenti mas quando lhe dei alguma, depois de a provarem, não quiseram beber» (“).

E acaba aqui o que podemos chamar a história antiga do povoamento do Baixo Curoca, uma história cheia de hiatos, de dúvidas, de perplexidades. Pelo que os textos nos dizem-e não esqueçamos sua imprecisão e mutismo , uma população mal definida de pescadores, no'início do século XVI; de pescadores, caçadores ou pastores e provavelmente agricultores no último quartel do século XVII; de pastores e recolectores (caça e apanha de vegetais) nos fins do século XVIII; de pastores, agricultores, pescadores e caçadores na primeira metade do século XIX. E a que etnias pertenciam e que etnias hoje lhes correspondem? São todos negros; os de Duarte Pacheco (século XVI) porventura Cuissis, antepassados dos actuais recolectores Cuissis, na opinião de ESTERMANN; os de Joseph Rosa (1681) falam por cliques e ESTERMANN quere-os da raça Khoisan, misturados com Cuissis, hipótese arriscada a que já aludimos, e serão ascendentes dos poucos Cuepes que sobrevivem; os de PILARTE DA SILVA (1770) parecem ser a mesma gente de Joseph Rosa e aquele sertanejo designa-os de Macorocas; GUIMARÃES, ALEXANDRINO DA CUNHA (1839), RODOVALH0 (1854) e MESSUM (1855) chamam também aos seus visitados Mocorocas; o primeiro diz que são de nação mucubal e o segundo de origem mondombe, todos, portanto, Hereros.

Cabe perguntar se os Macorocas de PILARTE DA SILVA são os Mocorocas de GUIMARÃES, CUNHA, RODOVALHO e MESSUM. E se sim, temos então de admitir que estes asso-ciavam já à pastorícia a prática da agricultura, a menos que na mesma região houvesse pastores-agricultores concorrendo com pastores, todos apelidados de Mocurocas, por viveremjunto do rio; os primeiros naturalmente Hereros e os segundos, os tais antepassados dos Cuepes. Mas se é cómodo libertar assim os Cuepes da agricultura, que seria conforme ao depoimento de PILARTE DA SILVA e conclusões de ESTERMANN e estaria de acordo com a actual tradição dos poucos Cuepes existentes que afirmam terminantemente que aprenderam a arte de cultivar a terra com os Brancos, não se fica em menor constrangimento em relação com Hereros: também estes são tidos por puros pastores e só recentemente lavradores.

Mas conceber no Baixo Curoca ainda outra etnia, agora de bantos agricultores, é que ultrapassará a legitimidade das conjecturas.

(1°) ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELNER, Angola. Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos ..., Lisboa, Agência Geral das Colônias, 1940. vol. II, pp. 285-286. (U) Anais do Conselho Ultramarino. Parte não oficial, 1.* série,

De tudo isto, e com as reservas colocadas, parece poder-se concluir que desde épocas recuadas povoaram o vale inferior do Curoca populações de diferentes origens, provavelmente Cuissis, Hereros e Cuepes. Se em períodos recuados da sua História foram recolectores e pastores, vieram todos a cultivar a terra, sob a influência de povos agricultores, o que ja aconteceria no referido século XVII. E não é mista a civilização dos Hereros, na qual se caldeiam pastores camitas com plantadores bantos (...) Se língua, crenças e instituições sociais bantas invadiram os domínios dos pastores camitas, porque não aceitar que cedo tenham recebido dos plantadores negros as técnicas da agricultura? E em uma vale de terras aluviais e água abundante, como é o do Curoca, como não responder adequadamente às solicitações do ambiente?
(12) O Rev.” P. ESTERMANN diz-me que terão sido Cuanhocas

E os Cuepes, vizinhos dos Hereros, imita-los-iam, se por outras vias lhes não chegou este modo de vida. E o viverem em aldeamentos mais ou menos fixos parece também conferir à cultura dos Mocurocas uma forte e antiga base rural. Tipos puros de civilização existem mais na imaginação dos estudiosos do que implantados na terra. Mas passemos a moderna história da ocupação do vale.

Funda-se a colónia de Porto Alexandre em 1854, cinco anos depois de se instalar em Moçâmedes o primeiro grupo de colonos portugueses, vindo de Pernambuco (Agosto de 1849). Só em começos de 1861 se inicia, porém, a ocupação branca do vale do Curoca, com a fazenda de S. João do Sul, do agricultor João Duarte de Almeida. A ocupação progride nos 10 anos que se seguem; em 1871 o número de propriedades era de 12. Mas daqui por diante a agricultura entra em fase de contínua decadência: primeiro o algodão perde o preço, proíbe-se depois, em 1911, o fabrico de aguardente de cana, verdadeira moeda corrente nas transacções com os indígenas. Pereira do Nascimento conta apenas 5 fazendas em 1892. Em 1932 as terras do Curoca já só fornecem alimentos aos habitantes de Porto Alexandre; e o que hoje produzem nem chega para abastecer a vila: sob a orientação de Brancos não se exploram mais que três fazendas-S. João do Sul, Pinda e Camilunga.

No período afortunado da exploração cultivavam-se como principais produtos de rendimento o algodão e a cana-de-açúcar e, como alimentos de base, a batata-doce, o feijão e a abóbora; e ainda a palmeira tamareira, a massambala, a mandioca milho, trigo, e nem faltavam os estimados mimos europeus como laranjeiras, pereiras, macieiras e videiras. A mão-de-obra abundante que tais empresas reclamavam buscar-se-ia inicialmente em escravos e depois em libertos e livres de vária procedência, desde Luanda-Malange e Nova Lisboa a Benguela e Novo Redondo, incluindo vizinhos Curocas Cuissis e Hereros ou os mais distantes Nhanecas-Humbes Ambós e Ganguelas (W). Para a manter, sobretudo depois da abolição da escravatura em diante, distribuiram os agricultores brancos algumas courelas por trabalhadores pretos. que as cultivavam para si, em certos dias da semana, enquanto outros amanhariam terras sem dono, do Governo, no seu modo de dizer, contíguas às fazendas.

Com o colapso da plantação empresarial o vale despovoa-se praticamente de Brancos; ficam, em parte, os Pretos, uns, a título precário, nas glebas onde labutavam, outros em terrenos do Governo, para onde transitam ou em que já estavam.

E nesses espaços de ninguém entram em mais vivo com a com os antigos habitantes da região. Ora é exactamente do estudo do estilo de vida dos povoadores de um destes lugares a Onguaia que passarei a ocupar-me.





(') H. BAUMANN & D. WESTERMANN, Les peuples et les civilisations de l'Aƒrique..., Paris, Payot, 1948, pp. 117 e segs. (“) CECÍLIO MOREIRA, op. cit., pp. 23-24.(15) Idem, op. cit., pp. 25-26


ORIGEM Texto: Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia :  http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:vWR6KIP1BQoJ:www.ceg.ul.pt/finisterra/numeros/1971-11/11





-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

As hienas castanhas, e a denominação de Baía dos Tigres dada à Enseada das Areias, a Grande Baia dos Peixes...






BAIA DOS TIGRES Dunas da Baía dos Tigres

Três versões existem  sobre a origem do nome da “Baia dos Tigres”. Uma delas está relacionada com a coloração "tigrada" que as altas dunas do lado continental da baía apresentam quando vistas à distância, a partir do mar. É a versão defendida por André Guilcher, Carlos Alberto Medeiros, José Esteves de Matos e José Tomás de Oliveira, em “Les Restingas (Flèches Littorales) d’Angola, spécialement Celles du Sud et du Centre” Finisterra, vol. IX, nº 18, Lisboa 1976, pp. 171-211.  Segundo os defensores desta versão, a areia das dunas que são geralmente claras, possui minerais pesados em abundância  --granada, a, magnetite, ilmenite, zircão, anfibólio, turmalina verde—metais que o vento concentra em grandes faixas nas partes baixas das mesmas dunas, e que vistas do mar, ao ganharem o aspecto riscado avermelhado, fazem lembrar a pele de tigres. Como se sabe, na Baía dos Tigres não há tigres.

A 2ª  versão é a de que o nome Baía dos Tigres está relacionado com o ruido causado pela fricção que o vento sul exerce quando sopra com violência sobre a areia no alto das dunas, ruido que fez levantar a crença de que ali houvesse tigres. Esta versão é defendida por J.Pereira do Nascimento no seu livro Exploração Geográphica e Mineralogica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895.

A 3ª versão deve-se a notícias da existência na Baía dos Tigres  de cães de grande porte que faziam lembrar tigres, quando lá chegaram os primeiros portugueses. Henrique Abranches escrevia no seu livro Senhores do Areal, sobre esses cães em relação aos quais se contavam versões diversas, uma delas referia de que no século XVIII um navio não identificado naufragara ao largo dos Tigres, e os cães que vinham a bordo, únicos sobreviventes, nadaram rumo à  costa, fixando-se naquela região desértica paupérrima e sem água, tiveram que se adaptar comendo o peixe morto que vinha dar à praia, ou caçando raposas, aves marinhas utilizando técnicas de guerrilha, que lhes permitiam capturar.

Ou ainda a versão de que em tempos recuados houvera uma epidemia de raiva em Moçâmedes, tendo a autoridade mandado matar todos os cães, havendo gente que deles se apiedou, meteu-os a bordo de uma barcaça e foi depositá-los na Baía dos Tigres, onde não havia água, e que esses animais na luta pela sobrevivência, lambiam a espuma  menos salgada das ondas que molhavam a areia da praia, abocanhavam o peixe que dava à costa, comiam enfim

Uma outra versão contava que em tempos recuados instalara-se em Moçâmedes uma epidemia de raiva e que a Administração ordenara a morte de todos os cães, mas algumas pessoas, apiedadas meteram-nos a bordo de uma barcaça e rumaram para o Sul para os depositar em qualquer praia, bem longe, mas em vida.  Deixam-nos na Baía dos Tigres onde não havia água doce, e esses animais na luta pela sobrevivência, depressa  se adaptaram, abocanhavam o peixe que dava à costa, e
aprenderam que a espuma das ondas que molhavam o areal não era tão salgada, e nos longos marasmos do vento, lambiam a superfície da água inerte com um espelho. Nesse ambiente cruel, aprenderam a viver e multiplicaram-se, tornando-se eles próprios tão cruéis como o meio.

Muito recentemente o nosso conterrâneo Aurélio Baptista,  como conhecedor da região, avançou uma 3ª versão que nos parece digna de ser apreciada e levada em consideração. Baseia-se na leitura e na interpretação  que fez do depoimento do explorador inglês Willian T Messum  que referencia deste modo a presença de hyenas de que a Baía dos Tigres seria   infestada : “Aqui accendemos lume e nos preparamos para ficar a noite, mas tivemos sempre sentinela, porque, nas minhas viagens, nem antes nem depois, eu nunca senti tão espantosas vozes de hyenas ou lobos, e toda a noite em roda de nós; que só se dispersaram exactamente quando o dia estava para romper”.

Também Alexandre Magno de Castilho, que passou pela Baia dos Tigres em 1867, referiu: “Só vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes…   Refere Aurélio: Ora, para um leigo, estas palavras teriam passado despercebidas, mas não passaram a Aurélio Baptista, conhecedor da região, logo se lembrou das hienas que por ali habitam, ou seja da “hiena castanha”  cujo  habitat se resume ao deserto do Namibe e Kalahari. Trata-se de um animal que pode atingir 1,40mts de comprido, 90cm de altura e pesando até 60kgs, que possui uma pelagem tigrada, e, por tal, poderiam ser tomados por tigres pelos exploradores e marinheiros do séc. XVII e XVIII,  nessa época de informação escassa.  Para Aurélio Baptista foram as hienas castanhas, que originaram a denominação de Baía dos Tigres à Enseada das Areias/Grande Baia dos Peixes




Texto de MariaNídiaJardim

 

 ...................................................................................................

Habitat e distribuição

Hienas-castanhas podem viver em áreas onde o índice de chuva não seja maior que 100 mm por ano. Além de sobreviverem com pequenas quantidades de água, elas também conseguem um pouco de líquido das carcaças e das frutas que comem. Um dos alimentos principais das hienas em áreas semi-áridas são os vários tipos de melão, que suplementam a necessidade de água do animal. Sua predileção por melões às vezes as leva a conflitos com fazendeiros, que às vezes matam hienas-castanhas apesar de serem protegidas em alguns países. As hienas-castanhas são encontradas em todo o sul da África, e particularmente na Angola, Namíbia, África do Sul, Botswana, Lesotho, Moçambique, Malawi, Suazilândia e Zimbabwe.



http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5fhF0x7FHSQJ:xamalundo.blogspot.com/2014/08/o-meu-ponto-de-vista-da-origem-do-nome.html+&cd=6&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a