Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Pinto da França, Zuzarte de Mendonça e Teixeira Pinto. Saga de 3 famílias na pacificação e colonização do sul de Angola


Honorato Zuzarte de Mendonça
General de brigada, ajudante de campo do rei D. Luis
 e Chefe da Casa Militar do rei D. Carlos
 Imagem: Genealnet



José Júlio Zuzarte de Mendonça
Imagem: Genealnet


Pinto da França, Zuzarte de Mendonça e Teixeira Pinto.
 Saga de 3 famílias na pacificação e colonização do sul de Angola.


No longo e difícil processo de consolidação territorial da sua colónia de Angola, os Portugueses enfrentavam, a meio do século XIX, a cobiça de potências estrangeiras, desejosas de os substituírem naquelas paragens. A efectiva ocupação do território passou a ser para as potências europeias, o principal factor para reivindicar como seus os ricos territórios africanos, ao contrário da visão colonial Portuguesa da altura que assentava ainda nos direitos históricos.

Mais de três séculos depois de os navios de Diogo Cão terem chegado à embocadura do rio Zaire e se estabeleceram relações com os povos locais, a ocupação do território  com a respectiva delimitação de fronteiras estava ainda muito longe de estar consolidada. A zona de Moçâmedes, era vital para os Portugueses. Foi então decidida a instalação de uma colónia em Moçâmedes, encravada entre as águas da baía e o deserto. Chegaram alguns comerciantes, oriundos sobretudo de Benguela e de Luanda e nasceram feitorias na praia. Em 1840 decidiu-se a construção da fortaleza de S. Fernando e por coincidência, anos depois de Pernambuco no Brasil chegou uma petição às autoridades lusitanas enviada por um grupo de Portugueses perseguidos após a independência, solicitando que fosse providenciada a sua retirada para qualquer ponto do império português. O Governo ofereceu-lhes o embarque para a longínqua baía angolana, onde deveriam fundar uma colónia agrícola. No dia 23 de Maio de 1849, saiu do Recife rumo às costas de África, a barca Tentativa Feliz escoltada pelo brigue Douro com 174 refugiados, a quem tinha sido prometido um paraíso na terra. Ao fim de 2 meses e meio de navegação em difíceis condições, os passageiros têm enfim à vista a desmaiada vegetação da foz do rio Bero, a mo­notonia dos areais sem fim e a de­solação dos seus novos lares - meia dúzia de choupanas com coberturas de palha. Foram calamitosos os primeiros anos dos colonos, devido a um período de 3 anos de calores sufocantes e águas escassas, que levou a que a colónia vacilasse. Águas abundantes chegaram de um dia para o outro e das águas brotou a ressurreição de Moçâmedes. A eles se juntaram um novo grupo de Pernambucanos, de Algarvios e Madeirences e Moçâmedes passou a ser um importante entreposto comercial com o interior e com os navios nacionais e estrangeiros que necessitavam de aprovisionamento.

Este é o relato da vida de 3 famílias na saga de pacificação e colonização de Moçâmedes: João Teixeira Pinto (1810-1896), meu tetra-avô, José Júlio Zuzarte de Mendonça (1847-1911), meu trisavô, e António da França Pinto de Oliveira (1872-1917), meu bisavô materno. José Júlio Zuzarte de Mendonça era filho ilegítimo. Seu pai Honorato José Zuzarte de Mendonça, general de brigada, ajudante de campo do rei D. Luis e Chefe da Casa Militar do rei D. Carlos, receando a hostilidade da família em Portugal contra seu filho, na altura com 10 anos de idade, pede a sua transferência e parte em 1857 no brigue Velloz levando-o consigo para Moçâmedes.
 
Aí assume o comando da companhia de linha de Moçâmedes, exercendo mais tarde o cargo de Secretário do Governo, de chefe da secção militar da secretaria do Governo Geral da Província e finalmente de Governador de Moçâmedes. José Júlio licenciou-se em Direito e foi aí Juiz de Paz, Administrador da Alfândega e Comandante do Porto de Moçâmedes. Veio a desposar com Maria Rosa de Oliveira Teixeira Pinto, filha de João Teixeira Pinto, General de Infantaria, pacificador de Moçâmedes e herói de Angola nas campanhas do Cuamato em 1907, onde, comandando um corpo de tropas auxiliares constituído por voluntários boers, europeus e autóctones, derrotou e ocupou o território dos Cuamatos perto do rio Cunene, que em 1904 tinham provocado um massacre de tropas Portuguesas apanhadas de surpresa numa emboscada no vale do Pembe, deixando no local 250 mortos. Os indígenas pacificados chamavam-no "Kurika" que significava leão. Segundo constava, era tão bravo no campo de batalha como fecundo em sucessivos leitos conjugais, tendo tido 2 filhos e 16 filhas. Como a campanha de pacificação se prolongou e Moçâmedes se mostrasse uma terra pacífica chamou para junto de si a mulher e as filhas mais velhas, uma das quais, Maria Rosa, veio a casar com José Júlio.
 
  João Teixeira Pinto "O Kurika"

 Maria Rosa, de boa cepa, gerou ano após ano, pontualmente, 7 filhas e um filho. Cedo se finou, segundo então se pensou, devorada pelas febres, exangue pela sua fertilidade explosiva, mas rumores houve de que uma negra enciumada a envenenara ou lhe fizera mortal feitiço. Na verdade José Júlio deixou também descendência de uma nativa local (três filhos e duas filhas). Pequeno burguez honrado, legitimou-os e juntamente com seus filhos e filhas legítimas, brincavam e estudavam todos num colégio de freiras francesas existente em Moçâmedes. As "virgens de Moçâmedes" como eram chamadas, cantavam, tocavam piano e contavam os meses que separavam a passagem das fragatas inglesas que levavam uma nova guarnição para a ilha de Santa Helena no atlântico sul. Quando as fragatas chegavam, era sempre um acontecimento! Havia baile no palácio e ficavam sempre no ar vagos amores, esboçados ao de leve e todavia tão vividos e tão sofridos.


 
  António da França Pinto de Oliveira, 
foi Ajudante de campo do Governador João de Mascarenhas Gaivão
Imagem: Genealnet


Em 1895, quando o velho governador de Moçâmedes, Honorato Zuzarte de Mendonça faleceu, foi substituido por João de Mascarenhas Gaivão, que trouxe consigo como ajudante de campo, António da França Pinto de Oliveira, filho de família de “sangue azul”, capitão de cavalaria. Era suave, loiro de olhos verdes, parecia um dos oficiais ingleses da ilha de Santa Helena que costumavam passar por Moçâmedes. Logo conheceu uma das filha de José Júlio, Maria Clara de Oliveira Teixeira Pinto Zuzarte de Mendonça e enamoraram-se para toda a vida. Casaram na igreja de Santo Adrião em Moçâmedes e no palácio lhes nasceu o primeiro filho, Bento, antes de regressarem a Portugal. António da França Pinto de Oliveira veio a ser comandante do Forte de S. Miguel e da Fortaleza de S. Pedro da Barra em Luanda, exerceu varias comissões de serviço em Macau, Africa Oriental e Ocidental, tendo sido agraciado e louvado repetidas vezes. Veio a falecer em Lisboa em 1917 aos 45 anos de idade de doença cardiaca aguda. A sua esposa sobreviveu-lhe 57 anos, vindo a falecer também em Lisboa, com 90 anos de idade em 1964. Publicada por Nuno Pinto da França Craveiro Lopes

Retirado daqui:
 http://ciclosdotempo.blogspot.pt/2013_12_01_archive.html

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