Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A Baía dos Tigres na segunda metade do século XX: as construções publicas


Entre a bonita e imponente Capela, e as construções em forma de palafita, estende-se a única estrada que era também  pista de aviação...




 A Baia dos Tigres vista do mar com um navio costeiro (?) que obrigatória e gratuitamente  devia fornecer água à população transportando o precioso líquido de que necessitavam para viver. Ao centro, o velho destilador numa construção sui-generis,  verdadeira obra de arte, como se pode também na foto imediatamente abaixo.







SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA BAÍA DOS TIGRES


Era assim a povoação designada por S. Martinho dos Tigres nos últimos tempos da era colonial, com a sua elegante Capela, e vários edifícios públicos, alguns dos quais de arquitectura original, em forma de "palafita", ou seja, assentes sobre pilares de cimento, para deixarem passar as areias soltas das dunas, que ventos fortes faziam movimentar, cobrindo tudo à sua passagem.

A Baía dos Tigres foi pela primeira vez descrita em 1485, durante a segunda viagem de Diogo Cão às costas da actual Angola, por ordens do rei D. João II de Portugal. "Manga das Areias", assim lhe chamou o navegador português,  provavelmente devido ao aspecto arenoso da costa continental fronteira à restinga, tendo mais tarde adoptado a definitiva designação devido, talvez às faixas regulares e paralelas, mais ou menos acinzentadas, em consequência dos jogos de luz e de sombra, que fazem lembrar a pele de Tigres.


 
      IMAGEM.  Nesta data (1854), a Baia dos Tigres, como já surge designada, era de novo uma península, com o seu istmo. Fernando da Costa Leal. governador de Moçâmedes,  nos seus relatórios não utiliza a designação Baia dos Tigres, preferindo utilizar o nome de "Grande Baia dos Peixes", tradução da designação inglesa "Great Fish Bay"


 

A Baía dos Tigres era uma reentrância costeira de consideráveis dimensões, tida nos nossos tempos como a maior baía  do mundo. Era constituída por um enorme "saco" com a entrada voltada para o Norte, separada do mar por uma península arenosa de 26 quilómetros de comprimento.  Duarte Pacheco, no seu Esmeraldo Situ Orbis (cap. 3º, liv.III) dá sobre a Baía dos Tigres os seguintes traços preciosos:
“Além da Angra das Aldeias (actual Tombwa) é achada uma enseada que terá duas léguas em largura na boca, que se chama Manga-das-Areias, e esta se estende por dentro pela terra cinco ou seis léguas, e na mesma bôca e dali por dentro tem 12 e 15 braças de fundo, e esta terra é deserta e nenhum arvoredo tem, porque tudo é areia; e dentro nesta manga há muita pescaria e, em certos tempos do ano, vêm aqui do sertão alguns pretos a pescar os quais fazem casas com costelas de baleias cobertas de sebes do mar. Fora da grandiosa e acolhedora enseada a navegação é difícil e perigosa”. 

E ainda:
 
“a dentro desta manguá há muita pescaria”.


Nos mapas ingleses, a partir do século XVIII, era referida como Great Fish Bay (Grande Baia dos Peixes). Na Carta Geográfica da Costa Ocidental da Africa,  desenhada pelo tenente-coronel Pinheiro Furtado, em 1790, a restinga da baía figura como sendo formada por duas ilhas, nitidamente separadas do continente e já com a designação Ilha dos Tigres. imitada a norte pelo limite sul  de Porto Alexandre, a leste pela cumeada que, partindo da Garganta do Diabo, vai ao Cunene nas Quedas de Montenegro,  a sul pelo rio Cunene, e a oeste pelo mar.


 Segundo o explorador inglês Willian Messum, em Janeiro de 1855, era ainda uma península:

“Great Fish bay tem considerável extensão, algumas dezoito milhas de Norte a Sul e seis a sete de largura; diminuindo gradualmente até ao fundo. É formado por uma estreita peninsula de areia, de cerca de meia milha de largura, para a extremidade é muito mais larga, talvez duas milhas (viam-se ali muitos ossos de baleia: trez sepulturas com inscripções portuguezas, todas da mesma data, das quaes eu collegi que alguns dinamarquezes estiveram ali, e uma grande tábua com inscripção da Cidade do Cabo, estava bastante cravada na areia. Talvez que os Portuguezes fossem mortos em algum combate com os naturaes. Vimos isto na retirada: se o tivéssemos visto na chegada, teríamos sido mais cautelosos dos naturaes: e isto explica o arreceiarem-se tanto de nós; elevada muito poucos pés acima do nível do mar, é realmente tão estreita esta gargantaque um partido de dez caçadores pode fazer recolher a um canto todas as hyenas de que é infestada”. 



 A Manga das Areias deve ter-se mantido esquecida durante séculos  ou, quando muito, visitada apenas por alguns navios que, vindos do Brasil, procuravam as latitudes altas do Atlântico Sul para ganharem de seguida os ventos favoráveis, que os levavam, ao longo da costa africana, a Angola e ao Congo.

Em Agosto de 1839, o governador de Angola, vice-almirante A. M. de Noronha, encarregou o capitão-tenente Pedro Alexandrino da Cunha, comandante da corveta Isabel Maria, de explorar e demarcar a costa meridional de Benguela. Foram então determinados com exactidão os pontos importantes dessa costa e entre eles a Baia dos Tigres.  Daí que na Carta que acompanha o 3º volume dos "Ensaios sobre a Estatística das Possessões Portuguesas na África Ocidental e Oriental", de Lopes de Lima, a baía apareça lançada com esses dados, porém desenhada ainda de forma a supor-se interrompida a ligação do seu istmo com o continente.
Na corveta Isabel Maria viajou António José Guimarães Junior, o fundador da 1ª feitoria em Moçâmedes,  em Agosto de 1839, que tendo visitado os Tigres na mesma altura (1840), afirmou que o peixe nesta baía  

“era muito abundante, de tamanho e qualidade muito próprias para exportar depois de salgado”. 




António Joaquim Guimarães Júnior, que integrou a referida viagem na corveta "Isabel Maria", refere no seu livro "Memória sobre a Exploração da Costa Sul de Benguella na Africa Occidental de 1842": 

“Sahimos em 16 de Outubro para o sul, tendo uma viagem muito trabalhosa pelos ventos e correntes contrários, e que fez com que gastássemos 15 dias para chegar à peninsula dos Tigres, que dista da bahia d’Alexandre apenas um gráo, e ali fundeámos a 31 do dito mez, demorando-nos apenas 3 dias, pois que a vista horrorosa de montanhas d’area movediças á feição do vento, sem nenhum vestígio de vegetação, nem agua potável, excluía qualquer ideia d’exploração d’um logar, que apresentava todos os indícios de ser impossível ter habitantes, qualquer que fosse a sua condição. Não deixa comtudo de ser notável esta península, que forma uma extensíssima bahia que é muito abundante de peixe, de tamanho e qualidades muito próprias para exportar depois de salgados (na realidade é prodigiosa a quantidade e variedade de peixe que em toda aquela Costa se encontra, e de que athe hoje nenhum partido se há tirado, bem de como quasi tudo o mais).”

Em 1849 foi fundada a povoação de Moçâmedes, e em 1854, o 5º Governador, Fernando da Costa Leal,  quando visitou a Baía dos Tigres, e dali partiu por terra ao reconhecimento da foz do Cunene, aconselhando a instalação de feitorias nos Tigres ,  assim a referiu: 

"… até que finalmente no dia 8 (de Novembro) chegámos à latitude da ponta Norte da grande Baia dos Peixes, onde entrámos nesse mesmo dia. Esta vasta baía, que tem de largura seis milhas e meia, e dezoito de comprimento, é limitada a Leste por grandes dunas de areia, cuja máxima altura acima do nível do mar será de 8 a 9 palmos, e oferece um bom abrigo às embarcações de qualquer lote. A baia é muito abundante de peixe, sobretudo de baleias, como tivemos ocasião de observar."


"Esta vasta baia, que tem de largura seis milhas e meia, e dezoito de comprimento, é limitada a Leste por grandes dunas de areia, cuja máxima altura acima do nível do mar será de 8 a 9 palmos, e oferece um bom abrigo às embarcações de qualquer lote. A baia é muito abundante de peixe, sobretudo de baleias, como tivemos ocasião de observar.” 


(Conforme Annais do Conselho Ultramarino (Relatório), parte não oficial 1ª serie, de Fevereiro de 1854 a Dezembro de 1858, Imprensa Nacional, 1867, pp.115 a 118.)

Nesse ano de 1854 havia nos Tigres uma só povoação, com 4 homens, 3 mulheres e 6 crianças, e 19 cães. (Deviam ser da Terra Nova, descendentes dos deixados ali por uma barca há perto de um século, robustíssimos e muito selvagens, C. R. M.).  Terão sido estas informações que levaram o Conselho Ultramarino, presidido pelo Visconde de Sá da Bandeira, a  recomendar ao Governador Geral da Província de Angola, a conveniência de dar às actividades da pesca um maior desenvolvimento, conforme portaria de Junho de 1855 publicada na folha oficial de Angola  de Janeiro 1857, como se pode ler em Vilela ob cit p.30.  



Datada de 1858, uma outra portaria do General Sá da Bandeira, enquanto Ministro da Marinha e do Ultramar, insistia na urgência de proceder ali ao desenvolvimento  da pesca, e que o Governador procedesse mais eficazmente procurando saber sobre as espécies ali em maior quantidade.

Em 1859 de novo o Visconde de Sá da Bandeira, então Ministro Marinha e Ultramar, insiste com outra Portaria para que o Governador Geral procedesse de forma mais eficiente, e  procurasse saber das espécies que ali havia em maior quantidade.

Em 1861 começaram a chegar os primeiros pescadores de Olhão à Baía de Moçâmedes. Documentos da época atestam terem sido passadas licenças nesse ano (1861) a Manuel Baptista, um olhanense que residia em Moçâmedes, para pescar na  Baía dos Tigres, com  dois botes e vinte escravos.


Existe um Decreto Ministerial, datado de 1862, que concede o aforamento de terreno a Alfredo Duprat, com 4 milhas de comprimento por 3 de largura, para o estabelecimento pescarias no mesmo local,  mas o que é facto é que apenas Manuel Baptista, que vivia em Porto Alexandre desde 1861, que resolveu  em 1865 estabelecer-se ali, ao terem conhecimento da fartura pesqueira daquela zona, através de tripulantes de baleeiros americanos que caçavam cetáceos  entre a Ilha de Santa e Helena e  a Baia dos Tigres.  como voltaremos a abordar mais adiante.  E lá começaram os novos pesqueiros a dobrar a Ponta Albina, a ter que aguentar a  fúria ventos e das águas, em suas pequenas embarcações,  numa zona plena de vestígios que dão bem a imagem de uma Historia trágico marítima.  Na realidade foi uma grande aventura para este pioneiro.

Conforme sugerem Manuel  Júlio de Mendonça Torres e o Comandante J.N Sales Grade, num estudo levado cabo por Bobela da Mota (que foi funcionário administrativo nos Tigres entre 1924 e 1935,  junto de pescadores muito antigos de Porto Alexandre e da Grande Restinga),  foram os olhanenses Domingos Galambas e  Manuel Baptista. O terceiro seria Manuel dos Reis (em 1875 ainda estava vivo, era o homem mais antigo da Baía dos Tigres), mas sem certeza absoluta. De certo outros a estes se juntaram,  provavelmente,  João Rosa Machado e os Ganhos, pai e filho. 


Segundo Alberto Iria foram três destemidos algarvios que  resolveram fixar-se definitivamente na Baía dos Tigres: João da Rosa Machado, Francisco Sousa Ganho (pai), Francisco Sousa Ganho (filho), os primeiros povoadores daquele Deserto.


Há relatos de que em 1864 aconteceu um episódio bem mais decisivo, quando um grupo dos algarvios que já estavam fixados em Porto Alexandre decidiu empreender uma viagem para sul, e foram obrigados a regressar devido a uma violenta tempestade, havendo no entanto um deles, João da Rosa Machado, que no seu pequeno barco "Linda", de 4,5 t, conseguiu avançar e penetrou na Baia dos Tigres, percorrendo-a minuciosamente e escolhendo mesmo lugar para futura pescaria.

Conta-se também este episódio referendo  que os três primeiros pescadores alexandrenses pioneiros dessa aventura teriam desistido, devido à violência do vento e à fúria do mar, mas que houve um, o algarvio José Peleira que, com destemor, não recuou, antes avançou em demanda de tão falado pesqueiro, tendo após uns dias  chegado exausto, sem alimentos nem água a uma enorme reentrância no continente encostada a uma serranias de dunas altas protegida por uma longa restinga. Era a Grande Baía dos Tigres, onde foi socorrido por um navio casualmente fundeado na baía, talvez um navio negreiro (?), que socorreu o pescador português.  José Peleira esteve naquele local o tempo suficiente para descansar, recompor-se, encher a embarcação de pescado e regressar de vento em pôpa à sua Porto Alexandre, onde pôs os colegas ao corrente do que viu e aconteceu. 



Do que não resta dúvidas é que foram os olhanenses já estabelecidos em Porto Alexandre, actual Tombwa, que pescavam em águas da Baía dos Tigres desde 1865, os primeiros a demandar a Grande Baía dos Peixes e a fixar-se na Grande Restinga, cerca de dois anos mais tarde. E que a fixação dos algarvios na Baía dos Tigres, representa um acto heróico e abnegado, o desprezo por um mínimo de condições e comodidades que só gente muito corajosa poderia compreender. 



Na Baía dos Tigres não havia um mínimo de condições de vida humana, não havia água potável, nem um ponto verde se vislumbrava no horizonte quando ali chegaram os primeiros povoadores. A alternativa era a água que provinha de duas cacimbas na margem continental da restinga, mas era água salobra e de má qualidade, destruidora dos rins e do fígado.  E os primeiros pescadores que ali tentaram fixar-se tiveram de a abandonar pouco depois.  Excepto o peixe, tudo lhes faltava. 


O que levou os algarvios de Olhão a partirem para ao mares a sul de Porto Alexandre não foram estas informações às quais  não tinham acesso, foram sim informações que obtiveram a partir de tripulantes de  baleeiros americanos que pescavam naquelas águas, entre a Baía dos Tigres e a Ilha de Santa Helena,  quando estes iam a Moçâmedes abastecer-se de géneros. Foram estes que os informaram da existência de uma grande baía mais para sul, onde abundava peixe de grande qualidade. Circula a ideia de que teriam sido informados, também,  por tripulações de navios negreiros com os quais contactavam no mar, e ficaram a saber da existência de uma grande baía mais para sul, onde o peixe era muito abundante e de muito boa qualidade. Mas esta informação carece de conformação, uma vez que em zonas desérticas e despovoadas, como era praticamente o Distrito, não fazia sentido praticar-se ali o embarque de escravos para o Brasil e Américas. Excepto tratar-se de navios que transportassem escravos para a região do Cabo. (?)



 A partir de então estava aberto o caminho e reconhecido o caminho e a confirmada a abundância de bom e variado pescado. A partir de então, e numa primeira fase que durou aproximadamente dois anos, fase de mobilidade entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres, alguns pescadores mais arrojados teriam decidido preparar suas embarcações para viagem mais longa, levando consigo mantimentos e água necessária para uma determinada estadia, que se pautava pelo tempo necessário para encher a embarcação de peixe capturado e amanhado, para em seguida regressarem ao ponto de partida, onde o peixe era em seguida posto a secar e comercializado.

Aos pioneiros algarvios vindos de Olhão, outros se foram juntando naquele agreste deserto de areias movediças e ventos fustigantes, sem água potável, sem lenha para cozinhar nem para se aquecerem nas noites gélidas de Inverno, sem um ponto verde que se vislumbrasse no horizonte, tendo como horizontes o mar e dunas e só dunas, sem o mínimo de condições de vida. E lá continuaram munidos de uma uma coragem impressionante, de uma persistência tenaz, fazendo-se ao mar nas suas pequenas embarcações com que enfreentavam o mar traiçoeiro e violento. 

As primeiras habitações que ergueram eram tendas ou pequenos abrigos feitos com ossos de baleia, material ali muito abundante que cobriam com caniço e capim, sendo as portas de esteiras que faziam com folhas de mateba pequena palmeira que, tal como o restante material era para ali levado do Vale do Curoca. Suas humildes habitações tinham que ser construídas para evitar tanto quanto possível  o seu desmoronamento, provocado pela força das ventanias,  e virem a ser cobertas da noite para o dia pelas areias das dunas que constantemente mudavam de posição.

Em 1870, havia barcos que serviam a Baía dos Tigres nas suas navegações, ao mesmo tempo que eram concedidas autorizações para viagens que também a incluíam nos seus percursos, o que leva a supôr que nessa altura já existiria ali uma colónia instalada. Mais concretamente, sabe-se que em 1877 o caíque «Senhora do Rosário» fazia viagens regulares entre Moçâmedes, Porto Alexandre e Baía dos Tigres, transportando peixe seco e provisões.


De 1885 encontrava-se datado um projecto de colonização oficial, que não teve quaisquer efeitos práticos. Por essa altura, determinações da célebre Conferência de Berlim, obrigaram Portugal à colonização efectiva, sob pena de ter que ceder as colónias a outro país europeu, em condições de o povoar com famílias portuguesas, e de o desenvolver.

A Baia dos Tigres, Porto Alexandre e mesmo Moçâmedes, chegaram a ser o foco de um plano alemão ambicioso, que destacava a necessidade de meter a região do Sul de Angola na região do Sul do rio Cunene (Sudoeste Africano). Chegou a Alemanha a preparar uma missão destinada à obtenção de terrenos para colonos alemães em Moçâmedes, mas acabaram por desistir. Esses planos incluiam  a construção de um transafricano a partir da Baía dos Tigres, que, passando pelo Sudoeste Africano se prolongaria até ao Transval, dando apoio à República Sul-Africana, proporcionando-lhes uma saída pelo Atlântico, e daí até Lourenço Marques e ao Oceano Índico, a fim de facilitar o comércio alemão que teria acesso, por sua vez, aos portos marítimos.


 Na realidade, nunca poderia ser esta a via eficaz para se promover o povoamento de uma área com tantos condicionalismos físicos tão adversos. O desinteresse das instituições estatais era evidente.  Mesmo as ambições dos alemães em relação ao Sudoeste da África estiveram apenas na origem da criação de um posto militar em 1895, posteriormente sem continuidade. Convém contudo referir ainda sobre o interesse expansionista da Alemanha em Angola, esta parte de texto do blog Angola Brasil.


"Em 1895, no ano da nomeação de Artur de Morais  para Administrador do concelho de Porto Alexandre,  à grande bacia que era um ponto estratégico, chegavam ali diversos navios de guerra alemães, e também alguns alemães idos de Moçâmedes pelo deserto, a pé, recomendados pelo Governo do Distrito para que lhes fosse facilitado um transporte para a Baía dos Tigres e rio Cunene.. Para espanto do Administrador, um deles era uma ilustre personagem, nada menos que o Príncipe de Esse, que alugara uma canoa na qual pretendia, sem resultado, içar a bandeira alemã. Esse incidente fez deslocar-se a Porto Alexandre o Alto-Comissário Régio, Guilherme Capelo , na canhoneira "Vouga". E ainda nesse dia chegou ali a canhoneira "Salvador Correia", transportando o Governador do Distrito, Mascarenhas Gaivão.  Este segue depois com o alferes França, a pé, a caminho do rio Cunene. Tambem em Outubro/Novembro desse mesmo ano de 1895, chegam a  Porto Alexandre diversos navios, entre os quais o couraçado "Vasco da Gama", sob comando do capitão de Mar e Guerra, " Augusto Castilho", a canhoneira "Zambeze", com o capitão-tenente, Martinho Montenegro; a "Vouga", comandada por Gomes Coelho e a "Salvador Correia", com o primeiro tenente Gaspar. Era uma forte formação pronta a defender as costas angolanas já ameaçadas por forças estrangeiras (especialmente alemãs), com conivências inglesas, preparando-se para "um banquete!" 


A fixação dos algarvios na Baía dos Tigres, por sua conta e risco, navegando em caiques, palhabotes e outras embarcações à vela, sem as mínimas condições, representa, pois, um acto heróico e abnegado, o desprezo por um mínimo de condições e comodidades que só gente muito corajosa poderia compreender.

Quanto à população ali fixada, em 1894, segundo A.J. Vilela, sete famílias encontravam-se estabelecidas na Baía dos Tigres. No ano seguinte Felner aponta 44 brancos (36 homens e 8 mulheres). Em 1900, 60 brancos (41 homens),  409 negros, 9 mestiços. Em 1920 o número de negros baixa para pouco mais que metade (134), 11 mestiços. Em 1940 dos 427 habitantes, 68 eram brancos, 33 negros e 28 mestiços. Em 1950, 68 brancos , 517 negros, e 17 mestiços.



Assim, nos primeiros dois anos da sua presença ali era a rotina do ir e voltar, fazendo-se transportar nas suas pequenas embarcações sem condições para as viagens longas que os trouxeram até aqueles mares, e muito menos para suportar a fúria do mar e dos ventos numa zona ainda hoje se encontram vestígios que confirmam a ideia da “História Trágico Marítima”, ao longo da praia dos Monchões a norte da Zona dos Riscos.  Tornava-se necessário assegurar primeiro frequentes ligações por mar com os portos situados mais a norte, Moçâmedes e Porto Alexandre, uma vez que por terra, não havia qualquer hipótese de garantir a ocupação definitiva.  

Apesar de todos os obstáculos, ao fim de algum tempo estavam familiarizados  com o mar buliçoso, os ventos fustigantes e agrestes e o isolamento do Deserto, e acabaram por se fixar numa pequena enseada dos Tigres, mais tarde chamada enseada do Leão, onde de início apenas permaneciam os dias necessários à sua faina, regressando a Porto Alexandre com os barcos carregados de peixe já escalado, amanhado e salgado, para ali ser posto a secar e ser preparado para a comercialização. Naquelas águas encontraram espécies com as quais estavam familiarizados, como a “sardinha do reino” , que assim passou a ser chamada por ser muito semelhante à da Metrópole, e também a corvina branca e a pescada de qualidade idêntica à da costa portuguesa. Foram conhecendo melhor o tempo de arribação das espécies à Baía dos Tigres, o porquê da fartura de pescado que os impulsionava à ocupação humana do local: a abundância de peixe no mar, relacionada com a constante subida das águas das profundezas (upwelling), frias e muito ricas em plâncton.

 

Durante mais de três quartos de século os tigrenses suportaram todas as privações. O governo parecia desinteressado em manter ali uma povoação, dado o isolamento e as quase impossíveis condições de vida. Mas a vida do habitante dos Tigres foi melhorando, ainda que paulatinamente, e de uma situação inicial de isolamento total de  duas ou três famílias, quando os pioneiros ali se estabeleceram por sua conta e risco a partir de 1865, tendo que se deslocar nas suas embarcações de pesca à vela a Moçâmedes ou a Porto Alexandre para carregarem em barris a água do Coroca e do Bero tão necessária à vida,  no ano de 1929 um navio costeiro foi disponibilizado à população dos Tigres, para onde fazia carreira pelo menos uma vez por mês.  O navio "Save" passou a fornecer água àquela gente, àgua que significava vida, e a transportar também os mantimentos. O contacto era feito mensalmente, e quando alguém chegava à Baía dos Tigres, parecia gente vinda de outro mundo que lhes trazia também a correspondência e as novidades. Mais tarde, ao  navio "Save" juntou-se o "28 de Maio" , e lá foram cumprindo a sua  missão até aos anos 1940, quando o fornecimento de água passou a ser efectuado por navios costeiros ou de longo curso, ou ainda por navios de guerra portugueses que, quando necessário ali iam propositadamente levar água. O velho batelão, "Tejo" servia de depósito para onde a água era transbordada. Era ali que os interessados iam encher os barris que transportavam rolando. para as suas habitações. Um consumo doseado até novo fornecimento.

E quando o navio tardava o recurso era o  velho destilador de Norton de Matos (4ª foto acima) que a esta época, já desgastado e cheio de intermitências, ainda acudia aos atrasos dos fornecimentos daquele navio, quando havia reparações a  fazer, ou se demorava no trajecto, por qualquer motivo.
 
A "sanga", feita de pedra de filtro de Moçâmedes, servia para a água fervida ser filtrada antes de ser bebida, como prevenção, e não apenas filtrava a água como a tornava fresquíssima...






As construções públicas

A povoação começou a ter algum incremento ao nível de infra-estruturas apenas a partir de meados do século XX, estava-se no pós guerra, a situação tinha começado a modificar-se. Foi o tempo da governação do Governador Geral Agapito da Silva Carvalho, a quem a população da Baía dos Tigres muito ficou a dever.  Foi então que a Baía dos Tigres foi dotada com uma Escola Primária, um Posto Sanitário, uma Estação Rádio-Telégrafo-Postal,  um edifício para a Alfândega, um Posto Administrativo, os Seviços Metereológicos, a Delegação Marítima, algumas casas para funcionários,  a Igreja, alinhandas de um lado e do outro da única rua/estrada asfaltada, e que servia também de pista de aviação.  Participou no empreendimento o Engenheiro civil, Agostinho Ruqueso Marques Trindade, chefe da Brigada de Construções de Casas do Estado.




 A estação Aduaneira
 


Era em frente da Capela que ficavam paradas as avionetes desde que teve início a deslocação das mesmas à Baía dos Tigres,como se de gare se tratasse.


 



A bela e "monumental" Capela dos Tigres


A Capela de S. Martinho dos Tigres,  possui uma traça arquitectónica a um tempo elegante e imponente, que faz lembrar uma catedral . Assente sob placas de betão, cruciforme,   é composta por um corpo central com baptisfério, coro e  torre. Possui uma capela-mor dedicada a S. Martinho, patrono da Igreja, e duas  capelas laterais dedicadas respectivamente à Senhora da Nazaré e as S. Pedro. Possui também uma sacristia. Na soleira da porta principal da Igreja de S. Martinho dos Tigres  encontrava-se  no tempo colonial uma pedra levada para ali, em 24 de Dezembro de 1947, da Fortaleza de Massangano, --velho reduto da resistência de Portugal à ocupação holandesa --, pelo comandante daquela unidade  da Marinha de Guerra Portuguesa, capitão de Mar e Guerra, Vasco Lopes Alves, antigo Governador de Angola.  Foi entregue à Diocese de Nova Lisboa em 1951, que à época se estendia até à antiga Província da Huíla. Assinaram o termo pela estatal construtora, o Engº Marques Trindade, e em representação do Governo , o Intendente de Moçâmedes, José Pedro dos Santos.


  Os serviços religiosos na Baía dos Tigres estavam ao cargo do Pároco da Freguesia de Porto Alexandre,   que ali se deslocava em dias de festas ligadas à Capela. Visita anual fazia à vila o Bispo de Sá da Bandeira, D. Altino Ribeiro de Santana. Era a maior  festa para as gentes dos Tigres.
Quando teve início a carreira de avionetas para os Tigres, duas vezes por semana, o Delegado de Saúde do Concelho de Porto Alexandre passou também a deslocar-se ali uma vez por semana, para visita médica, ficando os doentes na sua ausência ao cuidado de um enfermeiro de 1ª classe.


Como não havia de existir uma Capela na Baia dos Tigres, se a suas gentes, a um tempo fortes e corajosas, mas sensíveis, careciam da protecção e do amparo do Altíssimo para enfrentar a fúria dos elementos da natureza. A religiosidade sempre esteve presente no coração das gentes tigrenses, envolvendo  missas, procissões e outros actos religiosos, que tinham lugar, como se pode ver, quer em terra quer no mar.

 
 

                                                              

             
Na figura vê-se um "muro" destinado a abrigar as espécies florestais enquanto novas.


E  já nos anos 1960 teve lugar na Baía dos Tigres um pequeno ensaio para fixação de casuarinas equisetifólia, à semelhança do que se fizera em Moçâmedes e em Porto Alexandre em tempos mais remotos, verdadeiras cortinas tendo em vista proteger a povoação das areias soltas e movediças das dunas, trazidas pelos ventos fortes que tudo ameaçavam cobrir à sua volta, tornando a fixação possível. Daí para trás todo e qualquer investimento a efectuar na Baía dos Tigres era considerado pela autoridade impraticável. Estas defesas contra o avanço das dunas prosseguiram até à independência. E ra um trabalho que despertava a curiosidade mundial. Um trabalho que despertava a curiosidade mundial. O engenheiro florestal Augusto Sardinha,  representa o imenso sacrifício, trabalho e empenhamento dos técnicos de Angola.

Através da foto que segue podemos avaliar o grande sufoco que era viver na Baía dos Tigres. Uma povoação edificada em cima de areias constantemente movimentadas pelos ventos, que obrigava ao  exaustivo e inglório trabalho de desobstrução feita à pá e enxada pelos trabalhadores,  para proteger as eiras ou giraus onde peixe ficava a secar ao sol antes de ser comerciado, bem como  as instalações pesqueiras e as modestas habitações.






E assim foi passando o tempo até que chegámos à década de 1950, quanto tudo começou a mudar em Angola vertiginosamente. Já não eram necessárias "cartas de chamada" de um familiar ou amigo, para se viajar para Angola, e a partir de 1961, com as acções dos movimentos de libertação, e o início da guerra colonial, o lema passou a ser "para Angola, depressa, e em força! ". Como sempre Portugal sempre funcionou sob pressão, e em situações de emergência. No ultimo quartel do século XIX , por força das determinações saídas da célebre Conferência de Berlim (1884-5) que levaram à "partilha de África" entre potências europeias, Portugal foi obrigado à ocupação efectiva das colónias, incluindo a nova "jóia da corôa", Angola, que até ali não fora mais que um entreposto destinado ao tráfico de escravos para o Brasil e Américas, e um lugar de degredo.  A partir de 1961, Portugal foi levado a agir pelas armas, dando início a uma guerra sem fim à vista, e paralelamente, numa tentativa de recuperação do tempo perdido, foi levado a promover o desenvolvimento acelerado de Angola,  numa tentativa de recuperação do tempo perdido, enquanto era condenado na ONU e alvo da crítica de grandes potências  internacionais, com os olhos postos na colónia. Também a Baía dos Tigres viria a beneficiar com estas mudanças. O governo português acabou por se render à audácia daquela gente abnegada e disposta a muito sacrifício, muito trabalho e privações extremas. Entre algumas realizações  destaca-se  a tentativa  com êxito relativo de trazer para a Baía dos Tigres a água canalizada a partir da foz do rio Cunene.

Mas a sorte não esteve ao lado dos tigrenses que em 1962 puderam ver correr pela primeira vez o preciso líquido nas torneiras suas casas, mas por pouco tempo, porque no dia 14 de Março de 1962, pouco depois de ter sido construído o sistema de captação de águas na Foz daquele rio, uma forte calema atirada de SW bateu furiosamente a parte de fora do saco da restinga, com ondas de mais de dez metros de altura, cortou a língua de areia que unia o continente à Baía dos Tigres e rompeu com as condutas. Isolou ainda mais as sofridas gentes que lá viviam. Um fenómeno periódico, concluiu-se. A verdade é que desde 1962 até hoje a "Baía dos Tigres" é uma ilha.

O projecto de canalização da água tinha incentivado os industriais de pesca dos Tigres à montagem de novas fábricas e à remodelação das antigas, e levara ao aumento da população. Após esta calamidade, a autoridade viu-se obrigada a adquirir um rebocador que levava um batelão cisterna até ao terminal da conduta, junto ao Continente, enchendo-o de água que era bombeada para os depósitos existentes e distribuida à população seguindo as normas habituais. A água continuava a chegar através do Deserto em boas condições, situação que facilitava o racionamento, que passou a acontecer sem necessidade das antigas restrições. Apenas se verificou a redução do consumo, através do controle de gastos. Enquanto os técnicos procuravam resolver o problema, facto que levou 8 anos, foram construidos 3 depósitos, dois subterrâneos e um elevado, igualmente abastecidos pelo batelão cisterna, cuja capacidade de armazenamento já permitia algum desafogo.

Graças ao esforço das gentes dos Tigres empenhada em progredir, apesar dos sacrificios, a meio da década de sessenta a povoação ostentava já 7 fábricas modernas de farinhas e óleos, sete traineiras de grande tonelagem, devotamente equipadas para a pesca longínqua, e 15 empresas para salga e seca de peixe. Ao iniciar a década de 1970 os Tigres eram já um centro económico respeitável em Angola, com as suas 22 unidades fabris.  As traineiras tinham aumentado para a dezena. A Baia dos Tigres já possuia o seu clube recreativo e desportivo, com salão para actividades, um campo de jogos onde passavam as horas de lazer, e onde passavam o tempo até que a garrôa mais forte amainasse, para poderem avançar para a pesca. Ali podiam assistir a sessões cinematográficas aos fins de semana.  Se havia medos, esses eram outros medos que nada tinham a ver com os causados pelo isolamento total. Medos houvera quando durante a 1º Guerra Mundial (1914/18) corsários infestavam o Atlântico Sul e a população receava pela sua sorte, tendo, com a ajuda das entidades oficiais, conseguido instalar ali um sistema telegráfico em ligação com a capital do Distrito. A Baía dos Tigres, no extremo litoral sul de Angola, estava longe da zona de guerra contra os movimentos de libertação, que estavam reduzidas ao fim de alguns anos às zonas fronteiriças.


O depósito de água, outra construção que veio aliviar um pouco o peso do viver naquelas paragens, chegou tarde, mas chegou!


 Crianças felizes na Baía dos Tigres, em foto cedida por Maria do Carmo Barra (a 4ª na foto). A 2ª a partir da esq. veio a ser uma das vítimas da queda da avionete "Bonanza" numa das dunas da Baía dos Tigres.

Foi nesse contexto de guerra contra os movimentos de libertação, que em 1965,  os Serviços de Educação de Angola, através da Acção Social, criaram condições para acolher 40 crianças da vila. Algum tempo depois foi criado um jardim de Infância na Baía dos Tigres. Crianças que em dias de tempestades de areia não podiam sair de casa para ir à escola, passaram a ter transporte adequado para as condições do tempo e para o tipo do terreno, que as levava e trazia de novo a casa.


A máquina também tinha vindo em socorro do trabalhador, e as toneladas de areia acumuladas junto das habitações e das instalações pesqueiras, que antes eram removidas a pulso, passaram a sê-lo por um tractor que o Governo Geral tardiamente ofereceu às gentes dos Tigres, tornando a tarefa penosa e difícil mais simples e facilitada.  Retenha-se ainda que até aos anos 1950,  havia por parte da autoridade, uma mão muito curta e mesmo fechada, para tudo quanto fosse despender verbas que contribuíssem energicamente para o desenvolvimento da região de Moçâmedes, que não saia da pasmaceira em que durante tempo demasiado esteve mergulhada. E quando "davam" alguma coisa parecia um favor... Recordo perfeitamente o dia  em que um Governador Geral de Angola, no início dos anos 1960, visitou  Moçâmedes, e lá estavam as gentes dos Tigres  a pedir mais uma vez a aquisição de um tractor para a Baía dos Tigres:  "Queremos um Tractor!!! Queremos um Tractor!!! Um tractor para a Baía dos Tigres!!!!! "  Dá para imaginar a penúria dos meios...
 Momentos do quotidiano: Visita do Presidente da República, Marechal Craveiro Lopes, em 1954?

Na Baía dos Tigres, como praticamente em toda a Angola, salvo excepções que as havia, a grande maioria da população era despolitizada e apolitica. Ou seja, era pouco informada e desinteressada  "dessas coisas da política", seguramente devido ao regime ditatorial, e à ausência de acesso aberto aos meios de informação, gente inteiramente dedicada ao duro trabalho de cada dia, naquele areal desértico rodeado de mar e altas dunas. Do seu trabalho árduo, todo o ganho que conseguia, se acaso sobrasse algum aos mais contemplados, era investido, se não ali, em Moçâmedes, ou num outro ponto do Distrito. A população na sua maior parte algarvios ou de origem algarvia jamais pensava voltar à sua terra natal e acreditava ser aquela terra um pedaço de Portugal.


Pescadores da Baía dos Tigres. Estas três fotos foram cedidas por Maria do Carmo Barra.Anos 1960

 Foto cedida por Maria do Carmo Barra



A Baía dos Tigres foi completamente abandonada em 1975, quando a vida em Angola em vésperas da independência se tornou impossível, entre o fogo cruzado dos movimentos de libertação em disputa pelo poder, em ambiente de total anarquia, com a administração portuguesa em retirada, e a internacionalização do conflito.

Por essa altura começara a ser negociada a comercialização do "peixe verde" para a província, metrópole e estrangeiro, de várias empresas e frio, destinadas à conservação do pescado a exportar. Era finalmente possível aproveitar quase totalmente as potencialidades do mais rico centro de pesca de Angola, terra onde ficou demonstrado como em nenhuma outra a capacidade  indiscutível de trabalho e realização dos portugueses.

Hoje quem visita este local, escondido à sombra das dunas e virado para o mar, um dos mais desoladores da terra, poderá confrontar-se com toda uma série de edificações deixadas pelos portugueses ao total abandono, monumentos históricos, alguns dos quais em forma de palafita, assentes em pilares, para deixarem passar as fustigantes areias das dunas movidas  pelos ventos fortes que tudo cobrem à sua passagem, tornando o viver humano .  E

A Baía dos Tigres, é um verdadeiro monumento à persistência e resistência humanas por aquelas paragens inóspitas. Curvo-me perante esta gente heroica, europeus e africanos que ali viveram e ali consumiram as suas vidas abnegadamente.

A Baía dos Tigres por aquilo que representa é digna de visitação turística.

Para a História, fica a odisseia das gentes da Baía dos Tigres...

MariaNJardim 



Seguem algumas fotos da povoação de S. Martinho dos Tigres, tiradas por volta do ano 2000...


 

  Baia dos Tigres após a independência, em 2000

 

 

 



 







 










 




 




 







Capela do Cemitério de Baia dos Tiges, e outras fotos do mesmo Cemitério  após a independência, em 2000












 



Na Baía dos Tigres não havia água potável e sequer um ponto verde se vislumbrava no horizonte. A alternativa era a água que provinha de duas cacimbas na margem continental da restinga, mas era água salobra e de má qualidade, destruidora dos rins e do fígado. Durante mais de três quartos de século os tigrenses suportaram todas as privações. O governo parecia desinteressado em manter ali uma povoação, dado o isolamento e as quase impossíveis condições de vida. Mas a vida do habitante dos Tigres foi melhorando, ainda que paulatinamente, e de uma situação inicial de isolamento total de  duas ou três famílias, quando os pioneiros ali se estabeleceram por sua conta e risco a partir de 1865, tendo que se deslocar nas suas embarcações de pesca à vela a Moçâmedes ou a Porto Alexandre para carregarem em barris a água do Coroca e do Bero tão necessária à vida,  no ano de 1929 um navio costeiro foi disponibilizado à população dos Tigres, para onde fazia carreira pelo menos uma vez por mês.  O navio "Save" passou a fornecer água àquela gente, àgua que significava vida, e a transportar também os mantimentos. O contacto era feito mensalmente, e quando alguém chegava à Baía dos Tigres, parecia gente vinda de outro mundo que lhes trazia também a correspondência e as novidades. Mais tarde, ao  navio "Save" juntou-se o "28 de Maio" , e lá foram cumprindo a sua  missão até aos anos 1940, quando o fornecimento de água passou a ser efectuado por navios costeiros ou de longo curso, ou ainda por navios de guerra portugueses que, quando necessário ali iam propositadamente levar água. O velho batelão, "Tejo" servia de depósito para onde a água era transbordada. Era ali que os interessados iam encher os barris que transportavam rolando. para as suas habitações. Um consumo doseado até novo fornecimento.

E quando o navio tardava o recurso era o  velho destilador de Norton de Matos (4ª foto acima) que a esta época, já desgastado e cheio de intermitências, ainda acudia aos atrasos dos fornecimentos daquele navio, quando havia reparações a  fazer, ou se demorava no trajecto, por qualquer motivo.
 
A "sanga", feita de pedra de filtro de Moçâmedes, servia para a água fervida ser filtrada antes de ser bebida, como prevenção, e não apenas filtrava a água como a tornava fresquíssima...



 Bibliografia consultada:

-Moreira, Cecilio.  "Baía dos Tigres"
-"Jornal O Namibe", Moçâmedes, 23.09.1972
-B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
 -Cerqueira, Maria Manuela . "Menina do Deserto, Lisboa. Agência Geral do Ultramar, 1969.



Ver também:
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2014/09/baia-dos-tigres-origem-do-nome.html




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