Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 26 de agosto de 2014

João Duarte e a pescaria da Praia Amélia em Moçâmedes





João Duarte, o bem sucedido industrial da Praia Amélia, entre os filhos Armando Guedes Duarte (Mandinho), à esq., e João Carlos Guedes Duarte (Jinho), à dt. À esq, Carlos Humberto Freitas de Sousa (Beto)


As casas de João Duarte no Bairro da Torre do Tombo. Trata-se do  conjunto de casas de arquitectura algarvia  tal como se encontravam em 2005, apresentando um grau avançado de degradação



Outra perspectiva, na parte que converge para a ex-rua da Colónia Piscatória, rua que dá aceso à subida para a Praia Amélia. O avanço do estado de degradação espelha o desinteresse das autoridades pela preservação de um património de grande valor para a cidade. Este património não tem séculos, é certo, remonta ao início do século XX, mas é de uma época histórica, precisamente por tratar-se de uma época colonial.
 
A Torre do Tombo, vendo-se ao fundo as casas de João Duarte, nesta altura, décadas após a independência de Angola, completamente rodeadas de bairros periféricos que se desenvolveram devido à guerra e à fuga dos povos do interior para as cidades do litoral. Mais abaixo, junto ao mar, aquela que foi a 1ª Fábrica de Conservas de Moçâmedes, a Fábrica Africana, mais tarde Sociedade Oceânica do SUL (SOS).







Começo por lembrar que a pescaria da Praia Amélia que mais tarde pertenceu João Duarte, ficava junto da fábrica que na década de 1920 tinha pertencido aos noruegueses que se dedicavam à  caça da baleia (1). Colocarei a seguir algumas fotos desse tempo.




  Navio baleeiro na Praia Amélia. Já esta foto dá a ideia que o baleeiro se dirige para a ponte da pescaria que mais tarde foi de João Duarte. Nesta matéria não estou devidamente esclarecida



  Desembarque


Esquartejamento


Corte e escala de grandes cetáceos
 

As instalações foram-se modificando com o correr do tempo...











João Duarte era um bem sucedido industrial e comerciante,  natural de Lamego, proprietário de uma importante pescaria na Praia Amélia, a 5km do centro da  cidade do Namibe,  que foi durante muito tempo, pelo menos até bem dentro dos anos 1950, o local onde as famílias de Moçâmedes se juntavam, em grupinhos, aos fins de semana, no Verão, para um dia bem passado, que incluia banhos de mar, pesca à linha do cimo da ponte, ou em pequenos botes a remos (chatas), junto ao canal, e tinha o seu ponto alto numa almoçarada que se prolongava pela tarde fora, e que por norma constava de uma caldeirada de peixe acabadinho de pescar, feita mesmo ali embaixo do telheiro da pescaria, sob o tecto de um barracão, onde ficavam os tanques de salga do peixe.

As familias carregavam consigo grandes cestos onde arrumavam cebolas, tomate, batatas, pimentos, azeite de oliveira ou azeite palma, vinho branco, farinha de milho, etc, etc., e para além da fruta e dos doces para a sobremesa, dos refrigerantes, bebidas variadas, levavam também toalhas, guardanapos, pratos, copos, talheres, etc. etc. Cozinhava-se ali mesmo, junto aos tanques de salga de peixe, sobre pedras e carvão, ou utilizando um fogão a petróleo  desses que foram vedeta antes do surgimento dos fogões a gás.

Estes passeios já vinham de um tempo em que os veículos automóveis em Moçâmedes eram inexistentes, e as deslocações para a Praia Amélia faziam-se em baleeiras à vela, a partir de uma das várias pontes das antigas pescarias da Torre do Tombo, as que ficavam mais à mão, ou da velha ponte de embarque/desembarque da Praia das Miragens, para os moradores da baixa da cidade.

A pescaria de João Duarte servia também de base para concursos de pesca desportiva, e tinha sempre por perto uma multidão se espectadores,  gente de ambos os sexos e de várias idades interessadas na modalidade.


Algumas destas jovens são familiares de João Duarte, outras são amigas da família. Em cima, à dt, a Guida Duarte.  A praia onde ficava a pescaria era óptima para banhos de mar, e por tal muito concorrida, não obstante as altas ondas e a grande profundidade existente junto da ponte, facto que permitia os mais arrojados mergulhos.

Elemento da família Duarte (ramo Ramos Duarte)



João Duarte era considerado um homem rico para a época. Era, sem dúvida, o mais rico morador do Bairro da Torre do Tombo. Em meados dos anos 1950 foi Presidente do Grémio dos Industriais de Pesca de Moçâmedes. A sua pescaria na Praia Amélia, onde toda a gente era sempre bem recebida,  foi evoluindo, e encontrava-se nos anos 1960 apetrechada com uma fábrica de farinhas e óleos de peixe totalmente automatizada, instalações para salga e seca para os peixes mais nobres, 3 traineiras de bom porte, uma ponte, várias casas para o pessoal e  até uma bonita Capela onde aconteceram cerimónias de casamentos de familiares.  Era  também  proprietário de algumas vivendas modernas situadas na parte alta da cidade, na continuidade da Rua das Hortas, ocupadas por familiares, e ainda de um conjunto de casas de traça tradicional portuguesa, situadas no bairro da Torre do Tombo, que ocupavam quase todo um quarteirão, junto à estrada que dá acesso à Praia Amélia,  que incluía  também uma mercearia e uma loja de venda de pão. E na baixa da cidade, no "centro histórico",  gaveto entre a Rua dos Pescadores e  a Rua Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro,  chegou a possuir uma loja de comércio, num terreno onde mais tarde mandou construir um prédio de 4 pisos que à data da independência de Angola se encontrava arrendado ao Banco de Angola.




João Duarte era considerado um homem rico para a época, mas naquele tempo, é preciso que se diga, ser rico não tinha a ver com as rápidas fortunas que se estão criando em Angola e no mundo, nos dias de hoje.  Vivia-se no quadro de uma política económica colonial mercantilista e centralizada na Metrópole, que perdurou muito para além da 2ª Guerra Mundial, praticamente até aos anos 1960, e atrasou o desenvolvimento de Angola. Ou seja, vivia-se num contexto em que ser industrial de pesca em Moçâmedes podia ser um bom investimento, mas envolvia também muito trabalho e grandes riscos, uma vez que se trata de uma actividade dependente das capturas de pescado, sem quaisquer ajudas do Estado.  Para que a industria de pesca fosse rentável, cada traineira tinha que pescar  no mínimo 5 mil toneladas por ano, e quem não pescasse essa quantidade, tinha prejuízo. Por vezes bastava um ano de crise para que tudo fosse por água abaixo. Foi o que aconteceu em 1957/58 em Moçâmedes, por força da  crise do pescado que avassalou os mares de Moçâmedes e  abalou muitas boas empresas de pesca do distrito, levando umas à falência,  outras ao total desaparecimento, e ainda outras a desistirem do sector pesqueiro e a ficarem-se pelo comércio, pela agricultura, e pelo imobiliário. Estou a lembrar-me que desapareceram na voragem desta crise que se abateu sobre o sector das pescas,  as empresas pesqueiras "Casal dos Herdeiros de João Maria Inácio",  "J. Patrício Correia, Lda" ,  e "Marcelino de Sousa, Lda", todas  pescarias da zona da Lucira, valendo aos primeiros o grande número de bens imobiliários que detinham. Desapareceram a "Angopeixe, Lda", a "Raúl de Sousa"  na Baía das Pipas, a "Conserveira do Sul de Angola, Lda", a  "Portela & Guedes Lda", a "Manuel Nunes de Carvalho & Filhos, Lda ,  em Porto Alexandre. No caso particular da "Conserveira do Sul de Angola, Lda", esta empresa entrou na posse do Banco de Angola, como credor hipotecário, sendo depois vendida ao Dr. Urbulo Cunha, em sociedade com ? Ferreira, a prestações mensais de 50 contos. Outras empresas como a "Sena & Ribeiro Lda", e a "Sampaio & Irmão Lda", de Porto Alexandre, também desapareceram com a crise. Em Moçâmedes, a SOS "Sociedade Oceânica do Sul, Lda", fábrica de conservas do Capitão Josino da Costa, encerrou a sua actividade industrial, sendo as instalações adquiridas por Gaspar Gonçalo Madeira. Desapareceu a "Sociedade da Ponta Negra Lda", no Canjeque, de que eram sócios Virgilio Almeida, António Bernardino  e Matos, adquirida que foi pela  empresa "Projeque, SCRL Lda". Foram  também abaladas por esta  crise a "Torres & Irmão, Lda", a "José Carvalho & Sybleras, Lda", do Saco,   a "Venâncio Guimarães, Lda", da Praia Amélia,  e a "João Martins Pereira & Filhos, Lda", da Torre do Tombo. Por arrastamento a crise afectou também o Comércio,  e abalou empresas como a "Carvalho de Oliveira & Cª. Lda". Umas conseguiram recuperar porque se dedicavam paralelamente à actividade do comércio, como a "Antunes da Cunha, Lda", em Porto Alexandre. A "Torres Irmão, Lda" ficou-se com a Horta e com o imobiliário.  Este é um exemplo de como não era fácil ser-se industrial de pesca naquele tempo, e naquelas paragens, em que os pequenos industriais sequer podiam contar com empréstimos bancários. E para se fazer uma ideia da complexidade do problema, nesses anos bons nem sempre a capacidade de laboração das fábricas davam resposta à quantidade das capturas, e quando o pescado excedia. tinha que ser vendido às outras pescarias, a 300 escudos a tonelada. São exemplos que nos dão a ideia da relatividade do valor do produto. Mesmo a pescaria de João Duarte, na Praia Amélia, a 5 km do centro da cidade, uma das mais fortes do Distrito,   não escapou aos efeitos dessa grande crise de pescado, e chegou  a ser vendida a uma empresa sul-africana. Porém a sorte esteve ao lado do proprietário, dado que a operação acabou por não se concretizar, uma vez que o Governo daquele país não autorizou o  investimento no estrangeiro, tendo os compradores acabado por perderem o sinal que tinham adiantado por via de contrato de promessa de compra e venda que haviam efectuado.  De posse da sua pescaria, João Duarte conseguiu  como poucos não apenas vencer a crise, como nos anos a seguir à crise até  modernizar, em termos de maquinaria, as suas instalações fabris, e  partir ainda  para a construção  de um edifício de vários pisos, na Rua dos Pescadores, que veio a ser alugado ao Banco de Angola.


Estamos a falar dos estragos acontecidos na segunda metade da década de 1950.  Retenha-se que o grande "boom" piscatório no distrito de Moçâmedes veio a acontecer às vésperas da entrada  na década de 1960, com a inovação de todo o mecanismo ligado à indústria de pesca, designadamente com a instalação de fábricas de farinhas e óleos de peixe totalmente mecanizadas, e o uso nas traineiras de sondas para captação de peixe, e aladores mecânicos para carregamento do pescado. 

 


Traineira Zita Lourdes (nome da filha mais velha de João Duarte e D. Conceição (Micas)
Traineira Maria Margarida ( nome da filha mais nova de João Duarte e D. Conceição (Micas)

 Traineira Maria Margarida junto à ponte das instalações fabris de João Duarte, vendo-se ao fundo as instalações da Venâncio Guimarães


 A ponte da pescaria da Praia Amélia vista noutra perspectiva


Traineira Maria Margarida

 O desembarque do pescado


 Pescado com fartura... Nestas fotos podemos ver, laborando, sob a orientação do mestre, trabalhadores indígenas contratados (1)

 Lavando as redes na praia, junto das instalações




Vivências e Recordações...

Nasci e cresci numa casa mesmo ao lado do casarão pintado de cor-de-rosa, propriedade e morada da família Duarte, sita num gaveto a convergir para a Rua da Colónia Piscatória, a rua a subir para a Praia Amélia.  Embora tenham passado 50 longos anos, tenho na memória recordações nítidas deste local que me foi familiar, e deste conjunto habitacional que conheci, por fora e por dentro como às minhas mãos, e que considero de grande valor em termos de património arquitectónico, cultural e histórico para a cidade do Namibe, embora, e lamentavelmente, como já aqui fiz sentir, me pareça não estar a ser devidamente reconhecido e valorizado, tendo em conta o estado de degradação que já se vai notando, ainda que continue a fazer a delícia de visitantes, sobretudo de estrangeiros, que de passagam pela cidade  não resistem em o fotografar.


Recordando vivências daquele tempo, tenho bem presente os momentos de alegres brincadeiras que partilhei na infância com alguns dos filhos desta numerosa família, sobretudo aqueles que mais se aproximavam da minha idade, a Zita Lourdes, o Zé, o Helder...  Os outros filhos de D. Micas e de João Duarte, os mais velhos, eram o João Carlos (o Jinho), o Norberto, o Quim, e o Armando (Mandinho), e mais novos,  a Margarida (Guida), o Mário e o Eduardo. O Norberto acabou por falecer muito novo ainda, cheguei a conhecê-lo. Tal como o Armando, que também faleceu relativamente jovem.

Recordo as bonecas de pano com as quais a Zita Lourdes brincava, sentada na escadaria de madeira com vários degraus, à entrada daquele casarão. Eram confeccionadas pela D. Micas. Umas possuiam longas tranças de lã amarelas, outras tranças de lã castanha,  e vestiam vestidos de chita estampada. Recordo  as bonecas em papel de lustro colorido que a Zita com todo o cuidado guardava no interior de uma caixinha de lata,  onde ficavam também os respectivos vestidos, saias, casacos, chapéus, sapatos, etc. Naquele tempo  não havia à venda no mercado a variedade de brinquedos que existem hoje, e as nossas mães jogavam mãos às suas habilidades manuais,  para os proporcionarem aos seus filhos.

Ainda sinto o cheiro da água de colónia com que a D. Micas, após o banho diário, perfumava os seus filhos pequenos: a Guida, o Mário e o Eduardo. Colocava uma porção de perfume num frasco de vidro, ao qual adicionava água, talvez para suavizar o efeito sobre a pele. O perfume em contacto com a água tomava a côr branca.

Lembro-me dos "apetitosos" odores que emanavam daquela cozinha,  onde a azáfama durava o dia inteiro para que o alimento não faltasse a tão extensa familia. E D. Micas tudo dirigia, tudo coordenava.

Recordo os "jogos de esconde esconde", e outras brincadeiras, que nós garotada endiabrada levávamos a cabo por baixo do piso assoalhoalhado daquele casarão. Ou seja no porão ou caixa de ar, para nós o subterrâneo, onde um dia fomos dar com um saco de sarapilheira cheio de moedas antigas, do tempo dos reis.

Naquele tempo,(finais da década de 1940, início da década de 1950), as cranças brincavam no meio  da rua, a estrada era nossa, a terra pertencia-nos inteirinha. No meio da rua os rapazes jogavam à bola, no meio da rua as raparigas faziam danças de roda, brincavam às escondidas, jogavam aos queimados, à macaca, etc, etc. A rua era a nossa pista, para os que andavam de bicicleta (um privilégio). Não havia casa no Bairro que não conhecêssemos,  propriedade alheio que não penetrássemos... Sem quaisquer problemas subíamos aos telhados, descíamos a correr a descida até á praia,  pescávamos à linha em cima de tudo quanto eram pontes das antigas pescarias da Torre do Tombo. E quando chovia, e o deserto mesmo atrás das nossas casas se cobria de capim verde, que crescia acima da nossa altura,  o jogo das "escondidas" transferia-se para ali.

 Lembro-me de devassarmos as imediações da casa do velho Reis e da Ritinha Seixal,  ali mesmo em frente, no outro lado da rua, onde havia muito sítio para esconder, e onde, sobre os  terraços daqueles quartos feitos de bordão, o proprietário punha a secar rodelas de batata doce, às quais chamávamos  "macocas",  que faziam a delicia da garotada.

Dessa garotada  faziam parte o Zézinho Duarte e o Helder Duarte, o Amilcar, o Monteiro (Necas), o Juju, o Miroides, o Zé Rosa, o Aires Domingos e o irmão Victor, às vezes o Lolita Lisboa, o Zequinha Esteves e o Travão (netos de Assunção padeira, a proprietária de uma fábrica de pão no Bairro da Torre do Tombo), mas estes apareciam apenas para os jogos de futebol, jogos a sério que metiam taça para os vencedores e tudo!

Brincava-se muito naquele tempo! Escola de manhã, brincadeira o resto do dia. Nada a ver com escolas-prisão dos tempos de hoje!  Nossas mães estavam em casa, não trabalhavam, não havia essa coisa que hoje chamam  "deveres de casa", depois da escola, almoçávamos e brincávamos até à hora do jantar, até ao regresso de João Duarte a casa, por volta das 20 horas. Era a hora do recolhimento, o momento do "descanso do guerreiro"!  Quando a miudagem  dava conta da aproximação da Dodge, a limousine americana de côr cinzenta de João Duarte, conduzida pelo cunhado Manuel Guedes,  ponto final, acabava-se a brincadeira!

Moçâmedes era uma terra santa em termos de segurança. Naquela rua, em finais dos anos  1940, início dos anos 1950, os veículos automóveis eram raros, porque não eram fáceis de adquirir, para além de que eram financeiramente acessíveis a muito poucas bolsas. Não havia portanto perigo de atropelamento. A importação de automóveis foi atrasada devido à II Grande Guerra Mundial (1939-45), que colocou as fábricas europeias ao serviço do armamento, e estas deixaram  de fabricar para exportação. Daí que fossem veículos automóveis de marcas americanas, como a Ford, a Chevrolet, a Dodge, os poucos que apareciam a circular. João Duarte era das raras pessoas da Torre do Tombo, e das poucas em toda a cidade que naquele tempo possuíam automóvel e ainda mais com "chauffeur" privativo.

Um momento que João Duarte não dispensava, era o "encontro dos velhotes" até à hora do jantar, no "Quiosque do Faustino", em plena Avenida da República, lugar privilegiado, sala de visitas de Moçâmedes. Ali encontravam-se diariamente, para um café em animada cavaqueira, o velho Cabral sempre vestido de fato e lacinho;  o velho Ringue, de origem boer, tradutor de profissão e ex-cultivador de tabaco (Bibala); o velho Pimentel Teixeira, acabadinho de chegar na sua bicicleta, vindo da Farmácia do Sindicato da  Pesca, na Torre do Tombo (mais tarde Grémio dos Industriais de Pesca), onde trabalhava; o sempre bem disposto Virgílio Gomes (do Armazém), o Virgilio Russo, também conhecido, carinhosamente, por "Virgílio Aldrabão", devido às mirabolantes anedotas (*) que sempre tinha para contar. E ainda velho Eduardo Torres, que de quando em quando também ali aparecia. Na década de 1950, Pimentel Teixeira quando acabara de descer a descida da Fortaleza na sua bicicleta, vindo da Torre do Tombo, ao passar junto da firma de Gaspar Madeira, caiu, bateu com a cabeça no chão e acabou por falecer.
Seguem algumas fotos de elementos da familia de João Duarte.


D. Maria da Conceição (Micas), esposa de João Duarte (em cima, ao centro), suas irmãs e irmãos.



O casal João Carlos (o Jinho) e a Maria Helena Ramos Duarte.
 Esta é a  imagem que tenho mais viva do casal.

Acrescentarei ainda a esta postagem algumas fotos deste ramo alargado da familia Duarte, "roubadas" ao  Ricardo (Kady), neto de João Duarte


João Carlos Guedes Duarte (pai), Maria Helena Ramos Duarte (mãe), com alguns dos seus 7 filhos: Lopo, São e Jorge e Lena, Mário, Fernando e Ricardo/Kady.


José Guedes Duarte (Zézinho para os familiares e amigos) e Teresa Banha  no Parque Infantil de Moçâmedes. Os miúdos são os irmaõs Ricardo, Lena, Fernando filhos de Maria Helena Ramos Duarte e João Carlos Guedes Duarte,  netos de João Duarte. Ao fundo o Colégio das Doroteias. Foto de finais dos anos 1950.

 
 João Carlos Guedes Duarte junto a um Auster da FAV com Fragoso, colega piloto.
 
 
 João Carlos Guedes Duarte com Fragoso (aviador), o irmão Armando Guedes Duarte (Mandinho) e o Chefe do Posto Matos 


Interessante é o perfil que Ricardo traça de seu pai, o João Carlos Guedes Duarte, que enquanto em Moçâmedes, tinha enraizado em si o «bichinho» dos aviões e das corridas de automóvel:


"O meu pai João Carlos Guedes Duarte, também conhecido em Moçâmedes por "Jinho" começou a voar em 1956 e teve licença para pilotar aviões - o popular "brevet" - em 1958. A sua madrinha de vôo foi a Celísia Calão, uma senhora lindíssima, aliás lugar comum em Moçâmedes, pessoa que tive o prazer de reencontrar em Portugal continental, pois deu-se a feliz coincidência de a Celísia vir a ser colega da minha mulher na CGD em Lisboa. Foi a Celísia que deu o banho de baptismo de "brevet" ao meu pai com o tradicional balde de água pela cabeça abaixo.

"O meu pai começou por voar em Moçâmedes, com os aviões do Aero Clube local, tendo participado com boas classificações em diversos "ralis aéreos". Mais tarde acabou por adquirir um Tiger Mouth àquele Aero Clube com o qual fez inúmeras acrobacias aéreas e outras peripécias - desde aterrar na praia a colocar o passageiro a vomitar (diga-se situação um pouco incómoda até para o piloto) porque o Tiger "4 asas" não tinha carlinga e o passageiro viajava, por norma, no lugar da frente. Lembro-me do meu pai me contar que, de vez em quando perdia ferramenta e haveres, deixados por descuido dentro do cockpit, quando se punha a fazer "loopings" e "tonneaux".

"...De 1957 a 1961 e nesse tempo de "vacas gordas" o meu pai andava nas corridas de automóveis e nas "brincadeiras" com avionetas do Aero Clube de Moçâmedes e até chegou a ser proprietário de uma pequena avioneta - um Tiger Moth de "4 asas". Há cá muita gente de Angola, que se lembrarão desses áureos tempos. »

 "...Quem me lê conhece bem o meu pai e sabe do que ele era capaz de fazer de um avião. Quando cheguei a Portugal (em 1976) vivi por breves meses em Vidago e aí encontrei alguns ditos "retornados" que me contaram peripécias do meu pai com o Tiger que eram desconhecidas na família. Um desses senhores contou-me que o meu pai ia buscá-lo à Baía dos Tigres só para ele ir jogar futebol a Moçâmedes ao domingo e ele (futebolista) perdia mais peso na viagem (tais eram as acrobacias) do que durante todo o jogo!!! Na Baía dos Tigres os aviões aterravam na avenida principal e recolhiam-se ao pé da igreja, onde eram amarrados tal eram as ventanias e tempestades de areia. Como se sabe, os aviões levantam sempre contra o vento e nos dias de vento forte punham-se dois cipaios de cada lado das asas a segurar as mesmas enquanto o avião não tomava aceleração para não levantar antes do tempo!!!Esse Tiger Mouth (prateado) CR-LCN foi , mais tarde destruído em acidente tido pelo meu tio Mandinho (Armando Guedes Duarte) também ele piloto - fez um "cavalo de pau" e partiu a hélice e deslocou os apoios do motor. Vou "postar" aqui as poucas fotos que tenho de Moçâmedes (são só duas) mas prometo, para futuro breve divulgar aqui alguns filmes em 8mm, ou fotos deles extraídas, onde se podem apreciar os ralis aéreos com aviões do Aero Clube de Moçâmedes de outras cidades angolanas e alguma acrobacia aérea no Tiger Mouth.» ....

O «Tiger Mouth» de João Carlos Guedes Duarte com os filhos Lopo e Jorge



Alguns elementos da familia Duarte, junto da sua moradia em Porto Alexandre, no dia 10 de Janeiro de 1976, já após a independência de Angola, momentos antes de abandonarem aquela cidade


Em 1974, com o turbilhão da revolução, e em 1975 com as independências,  caíram tradições, preconceitos foram ultrapassados, mas também desmoronaram realizações alcançadas e sonhos que, porventura, teria valido a pena prosseguir... A quem cabe a responsabilidade desse fracasso? Quantos protestos de africanos e de portugueses foram ignorados ao longo do tempo, e desastrosamente geridos? Não basta a um povo querer fazer, quando quem manda tem outros projectos!

João Duarte não foi um "colonialista", ou seja, não foi um desses grandes empresários da oligarquia africanista domiciliados na Metrópole,  protegidos do sistema,   que por demasiado tempo tudo fizeram para atrasar o desenvolvimento de Angola, servindo-se de Angola apenas para «sacar» e investir na Europa, sem vínculo afectivo que os ligasse àquela terra. Foi um "colono", simples emigrante, tal como os demais europeus que se estabeleceram no Ultramar português, como poderiam ter-se estabelecido em qualquer outra parte do mundo.  Foi um exemplo da vontade, persistência e determinação de um português do Norte, que um dia resolveu partir para Angola, e que ali resolveu fixar-se para sempre na terra onde casou, teve filhos, teve netos, labutou, gerou riqueza, proporcionou trabalho, e investiu o fruto desse trabalho, sem se preocupar em amealhar para si e para os seus, algures em algum Banco na Europa, como procediam os ditos "colonialistas", os Oligarcas, aqueles para quem as leis discriminatórias eram feitas. Esta a grande diferença, apesar do estigma que recair inteirinho sobre os colonos, os "bodes expiatórios" dos erros e das injustiças da colonização, fruto de uma perspectiva altamente redutora, enraizada numa profunda e persistente ignorância  que vem impedindo uma visão mais clara, mais ampla e mais real dos fenómenos.  Ser "colono" ou ser "branco", não implica que se seja automaticamente um ser pérfido e explorador. Não eram assim a maioria de nós, embora houvesse quem fosse. Colonos foram seres humanos apanhados nas malhas da História, sempre engendradas pelos senhores do poder que ditam  a História dos povos. Nunca um colono conseguiu fazer chegar os seus anseios a instâncias superiores.



Pessoas como João Duarte, depois de um vida de trabalho e investimento viram-se obrigadas a regressar às suas terras, com as mãos mais vazias que nunca. Gente enraizada há várias gerações, ali nascida, pelo facto de serem brancas de pele tiveram que se acolher numa Metrópole que já nada lhes dizia. Até o dinheiro que conseguiram arrecadar era diferente e não tinha nenhum valor.






(1) Quem viveu em Moçâmedes, decerto não se cansou de ouvir histórias dos seus antepassados sobre a estadia dos noruegueses, tripulantes dos barcos da pesca às baleias, pertencentes a uma empresa norueguesa que se instalou na «Praia Amélia» (1), a seis quilometros a sul da cidade, com uma fábrica de grandes proporções para a época.Resta referir que os noruegueses que trabalhavam nessa fábrica da Praia Amélia marcaram uma época. Eles praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro, canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso.Partiram e não voltaram. As gentes pacíficas da terra não perderam, entretanto, as esperanças de um breve regresso. Mas em vão. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. Também permaneceram as memórias desses tempo romântico, nas ossadas desses grandes animais por todo o litoral, especialmente na «Praia das Conchas».



(2) Praia Amélia, assim chamada porque em l842 ali encalhou a escuna Amélia da Marinha de Guerra Portuguesa. A este respeito transcrevo parte de um texto do Blog Tropicália: "...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, forma uma enseada, que termina da banda do Sul na ponta da Anunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e só a custo se percebe do mar. Fica em 15° 16' Sul. A uma milha e seis décimos para ONO. da ponta do Noronha, fica o extremo setentrional do baixo da Amélia, nome que lhe foi posto por ter naufragado ali, em 1842, a escuna de guerra portuguesa Amélia, muito perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns 3 metros de água, em alguns sítios.É todo de rocha e areão, tem na fralda ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional; perto dele e da banda do Oeste se encontram 22 m e mais, separa-o do continente um canal por onde só devem navegar lanchas.Por alturas do ano de 1840, a quem afirme ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira; julgamo-lo porém muito arriscado, assim por poder acalmar ali o vento e encostarem as águas para cima do baixio, por haver sempre seu rolo de mar. Dilata-se o baixo da Amélia por entre 15°14' e 15º18' Sul, vai até a umas 3 milhas da costa. Pode-se navegar por aquelas paragens, enquanto estiver a ponta Negra descoberta da ponta do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito décimos de milha para Norte dele."



No livro, intitulado "Demonstração geográfica e politica do território portuguez na Guiné inferior que abrange o Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .."  escrito em Lisboa em 1846 e publicado no Rio de Janeiro em 1848, portanto, às vésperas do início da colonização de Moçâmedes.
o seu autor, Joaquim Antonio Menez escreveu este livro no desejo de chamar a atenção dos portugueses sobre as vantagens e recursos que a Metrópole poderia recolher do vasto e rico território de Angola, e lamenta que Portugal após a administração vigorosa e civilizadora de Pombal em pouco tempo tenha destruido as benéficas disposições que podiam tornar florecentes as Provincias d'além mar, que se estavam  mal,  pior ficaram, agravando a sua decadência.  O autor esteve em Angola no ano de 1842, dezesseis anos após a sua última estadia no território, e ficou surpreendido com a decadência. Viajou na escuna Amélia que naufragou em Moçâmedes, esse célebre episódio que deu o nome à Praia Amélia. Percorreu  pontos da costa até Luanda, que nessa altura apresentava já os sintomas de uma vida quasi extinta. Acabou por regressar a Lisboa em 1845, atrozmente perseguido, devido ao conceito que fazia da administração e a vontade de prestar algum serviço à Nação.


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Baleias na Praia Amélia, em Moçâmedes
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2007/08/caa-baleia-na-praia-amlia.html
Fotos/fonte - Blog Kadypress: clicar AQUI.
Aero Clube de Moçâmedes AQUI



Nota da autora do blog:

As fotos de familia gentilmente cedidas e aqui expostas, pertencem a albuns particulares, e não podem nem devem ser daqui retiradas por gente estranha ao assunto, tendo em vista outras publicações, excepto com a expressa autorização daqueles a quem as mesmas dizem respeito.
Muito obrigada






1 comentário:

  1. Uma história comovente... Grandes homens, grandes espíritos... O que faria hoje essa família se lhes tivessem devolvido a possibilidade de continuar essa epopéia de pesca em Moçâmedes..?

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