Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 30 de agosto de 2014



Cuisses no Deserto do Namibe, em foto da década de 1960 de Vitor Mendonça Torres



Cuisses no Deserto do Namibe. 1935-1939 ICCT 
(foto colocada à margem do texto) 



Curocas no Deserto do Namibe em 1935-1939 ICCT
(foto colocada à margem do texto) 




“No tempo do kulukulo,osbosquímanos da Camilunga ameaçaram matar todos os Kuroca. Só o feitiço os pôde travar. Os Kuroca falaram com os antepassados, e de manhã pegaram numa criança com cerca de sete anos e foram a uma montanha do Chitete, levando a criança, um caniço como uma lança. Lá, a criança apontou o caniço e fez o gesto de o atirar, dizendo «tu». No mesmo dia o chefe dos bosquímanos sentiu-se mal e morreu; depois morreram os outros todos. Os Kuroca depois foram lá enterrá-los. Nesta guerra (a de Angola,a última)
muitos Kuroca foram,mas ninguém
morreu de bala; aqui só há cemitério de doença não há cemitério de bala”.
Mito dos Mukuroca
 
O sul de Angola era por volta de 1910 habitado por individuos da raça negra e alguns milhares de brancos portugueses e uns poucos estrangeiros, ali estabelecidos desde meados do século XIX.


Transcrevo, de JOÃO DE ALMEIDA in Sul d'Angola, o Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910):

"os indígenas não pertenciam à mesma tribo e dificilmente se poderia determinar a sua quantidade e a povos pertenciam, dado que a sua expansão para terras do sul  tem sido gerada  por invasões e emigrações violentas de variadas tribos, pelo espírito de domínio e superioridade, ou por necessidade da vida que os levou a se deslocarem, a se fundirem com outras tribos, ou a sobreporem-se a elas, misturando qualidades e caracteres de todos os povos envolvidos na acção. Importante seria estudar a marcha dessas diferentes emigrações, destrinçar as diferentes tribos, a pureza da sua origem, a proveniência dos povos que sucessivamente tem vindo a habitar esta parte da província de Angola, de que nos estamos ocupando. Estudo difícil e complexo para o qual faltam os elementos mais essenciais, uma vez que os povos indígenas não tendo escrita, também não possuem documento, como também não ergueram edifícios, monumentos, etc, e só puderam os factos históricos através da tradição oral."

"... Pelas suas narrações os povos gentios dos Cubaes, Dombe, Giraullo e Quipolla, pertencem todos á mesma raça, e os três últimos formaram por muito tempo um só povo o qual por dissenções occorridas com o soba do Dombe se refugiou para a Huilla, e indo ali mesmo uma guerra man- dada pelo dito soba a perseguil-o, de novo emigrou, vindo parar em um logar denominado pelo gentio Lutunda, entre o Bumbo e a Pedra Grande, donde se dividiu, indo uns habitar no paiz dos Mucubaes e os outros vindo aqui estabelecer as duas tribus do Giraullo (fim do caminho) e do Quipolla, hoje também já separadas, mas antes e desde a sua descida do centro do paiz reunidas no sitio Quissongo. Tendo-se retirado deste ponto alguns para o Coroque ali formaram a tribu d'esta denominação, alliando-se com os Muximbas. Esta ultima tribu dos Coroques é assaz notável pela sua linguagem gutural, talvez resultado da mistura do primitivo idioma com o dos Muximbas. Estando ainda reunidos os Quipolas e Giraullos, diz a dita preta, dera á costa nesta bahia um navio, que se presume era hollandez, do qual ficou aqui parte da tripulação e a outra parte seguiu para Benguella por terra acompanhada pelo pae do actual soba do Giraullo. Dali voltaram os ditos náufragos com o soba e uma força militar commandada pelo capitão-mór de Benguella que era o Thomaz dc tal, o qual veiu outra vez por mar em um navio grande, talvez a fragata Loanda. Na occasiao da ida do soba a Benguella, deu-lhe o governador daquella cidade sementes de leijão, canna, mandioca, um gallo e uma gallinha, dizendo-lhe que o gallo era para lhe annunciar a manhã. No Quissongo existe uma pedra com inscripções já inintelligiveis, que se affirma terem sido feitas pelo dito capitão-mór Thomaz. O sino e o caldeirão do navio naufragado existem ou existiram no Jáu, tendo sido dados de presente pelo soba do Giraullo ao d'aquelle logar. Se se obtiver informação exacta do tempo da estada daquelle capitão-mór em Benguella, conhecer-se-ha a data primitiva da povoação deste districto no seu litoral, pelos indigenas, pois que antes era deserto. . . 
 E mais adiante:

"...só, typos muhimbas-Mutucua 1909,  portanto, o estudo etnographico e linguistico, comparando os usos e costumes de uns e outros e os dialectos por elles fallados, auxiliados pelos estudos antropológicos, etc, nos poderão levar a resultados concludentes; mas sabe-se também que estes estudos não estão entre nós sequer esboçados.
 De todos os dados que podemos colligir, parece poder concluir-se que os mais antigos povos que habitaram a região Sul d'Angola fôram os matchonas (talvez próximos parentes dos matchenos, habitantes do Congo, antes da invasão dos jaggas), e se estendiam na depressão central de entre o Cunene e Baixo Cubango e embucadura dos seus afluentes. Para sul daquelle rio estavam as tribus dos bushmans. Numerosas tribus dâmaras invadem aquelle estado e forçam os seus habitantes, os que não sucumbiram ou não cahiram na escravidão, a internar-se nas regiões vizinhas. Ao mesmo tempo incursões de hottentotes impelliam os bushmans para norte, forçando muitos a passarem o Cunene. Os dámaras não satisfeitos com a aridez das terras conquistadas, cederam-nas a novas migrações emquanto elles, seguindo o caminho dos vencidos, com estes se misturavam. Da fusão de matchonas, kushumans, dámaras e hottentotes, resultaram varias tribus que povoaram toda a região, desde a embocadura do Cunene e da cordilheira da Chella até ao Cubango. Essas tribus tomaram vários nomes conforme o da terra em que habitavam ou o dos seus chefes, e a predominância de um ou outro sangue. E dentre ellas, uma mais importante fundou um estado nas margens do Cunene, conhecido com o nome de Mataman e os seus habitantes com o de hacuanaibas. Pelos meados do século xvi foi este povo invadido pelos bancumbes ou baumbes e que, oriundos do norte, haviam vindo do oriente; e, expulsando e avassallando parte dos habitantes, fundaram o grande estado do Humbe-Onene, cujos limites iam desde a curva do Cunene na Chabicua e do Ovampo até ao Bihé, onde então acabavam também de aparecer os nanos e banhanecas, fixando-se estes ao sul dos primeiros. * Dos bacuanaibas expulsos, uns passaram pela Chabicua para sul do Cunene, e outros juntaram-se aos seus irmãos bandimbas ou muximbas, que habitavam a cordi- lheira da Chella. Espalhados estes e recebida nova migração de dámaras alastraram-se pelos Valles do Curoca, Béro, Giraul, formando os bacubaes, bacurocas, bacuanhócas, giraues e quipolas, vindo também para ali os expulsos pelos nanos e banhanecas, os badombes e bacuissos, que se fixaram no Giraul e Muninho, imprimindo nelles traços característicos que ainda hoje claramente se evidenciam. Pelo norte, ao longo da Chella, penetraram em seguida os banhanecas, mais ou menos impeli idos pelos nanos e ganguellas. Depois de fundidos um tanto com os habi- tantes que, como vimos, expulsaram serra abaixo, constituíram os baquipungos, baum- patas, bcdupollas ou muhillas, bangambués, bakihitas, etc.   Pelo sul novas correntes dámaras do Caoco vêem juntar-se aos que primiti- vamente se haviam fundido com os matchonas, bushmans e hottentotes, formando as varias tribus da Chabicua, e as do Ovampo, conhecidas com o nome de banctubas — baclongas, bagangellas, bacuanhamas, muvales, etc. — e os das margens do Cubango iam subindo o seu curso e dos seus afluentes, misturando-se muitos com os mambun- das, mambuellas, etc, formando os banhembas, bacuangares, bacuatires, bacuitos, etc. — taes são os povos que hoje habitam a Angola do Sul, e cujos característicos prin- cipaes vamos apontar."

Vamos continuar transcrevendo a  parte do Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), de João de Almeida, a este respeito:

"...Typo muhumbe. 
-Macuissos ou bacuissos.Não se sabe de onde são originários os macuissos que habitam as serras pedregosas da faixa do litoral — habitantes das pedras — onde vivem miseravelmente. È raro terem cubatas, vivendo nas furnas; e sustentam-se de pequenos animaes e raizes que apanham e da pesca de moluscos e alguns peixes que con- seguem agarrar. São verdadeiramente miseráveis. 
- Curocas. Os bacurocas habitam parte do valle superior do rio Curoca e o do seu terço inferior — a parte média é desabitada — e uma parte da falda da Chella e os Montes Negros, nos valles do Saiona e Béro. Originários da Chella, da região dos Gambos, predomina nelles o sangue dámara e bushman, conservando ainda o dique (i) dental estalado em todas as palavras. São pastores e caçadores. Não enterram os mortos, abandonando os cadáveres ás feras; praticam a circumcisão, mas já quando próximos da virilidade; e untam-se com manteiga, mas sem tacula. Usam panos á cinta, amuletos e liadas de missanga e busios ao pescoço, braços e cinta. As mulheres usam um penteado, amassando os cabellos com barro e manteiga, dando-lhe a fórma de uma cabaça. E' frequente o adultério, que se paga com bois, dando depois o direito ao instigador de o repetir. Os rapazes, antes da circumcisão, usam uma faixa de cabello no alto da cabeça, da testa á nuca, rapando o resto da cabeça. Os homens usam trunfa como os muximbas, apertada atraz das orelhas com uma correia ou mettida numa bexiga de boi. Têem um deus, siica, a quem ligam uma ideia muito vaga e que em nada se prende com a do Creaclor. Usam armas de fogo e azagaias. Habitam em cubatas muito mise- ráveis, ás vezes uns simples ramos cobertos com um braçado de capim.
- Giraus e Quipolas. Os gíraus e quipolas habitam o valle do Giraul e do Béro, nos Cavalleiros; originários das faldas da Chella, são irmãos dos bacubaes, dos quaes conservam os característicos. São um pouco agricultores, embora tendam mais para a vida pastoril, alimentando-se de leite azedo. Usam pelles ou panos e vários adornos no pescoço, braços e cinta. Habitam em cubatas miseráveis, que é geral- mente uma pernada de carrapateiro enterrada no solo, dobrados os ramos e presos ao mesmo, coberta com capim e barrado exteriormente com bosta de boi, deixando um buraco como entrada, que faz lem- brar a porta de um forno. São muito supersticiosos e falam também no ente supremo, o suca. 
-Mondombes. Originários da região do Dombe, no districto de Benguella, irradiaram para o sul, entre a Chella e o mar, e habitam hoje os valles da Bentiaba, a Montipa e as bacias do Giraul e Béro, desde as suas cabeceiras nas faldas daquella serra. 
-Banhanecas. Originários do norte e aítns dos nanas e talvez dos jaggas, habitam o valle do Caculovar, desde a Cahama e os seus afluentes até ao vértice da Chella, o valle do Sinde e Quê, e a vertente norte e oeste da serra da Chella até á Bentiaba e Munhino. Typo macuisso — Ovampo ( I ) Os bushmans ou mucancalas dão um estalo com a lingua no meio de certas palavras ou no fim delias. 70 Typo curo ca Dividem-se em varias tribus, cujas principaes são as de Quipungo, Biballa, Hum- pata, Muillas, Hae, Kihita e Gambos. São todos agricultores e pastores. Usam como distinctivo principal cortar os dois dentes incisivos médios de cima. Enterram os mortos e fazem sacrifícios humanos, muito bárbaros, por actos de feitiçaria e praticam a prova da casca. Têem varias associações ou seitas misteriosas, distinguindo-se os filiados por tatuagens e amulêtos assim como os que tenham dado certas provas ou assistido a determinadas cerimonias. As características de cada uma destas tribus serão adeante indicadas, ao tratarmos da parte etnographica dos concelhos. São dos mais rebeldes ao contacto e á assimilação dos hábitos dos brancos. 
-Cubaes. Os bacubaes são descendentes dos mundimbas e habitam a vertente oeste da serra da Chella, desde o Chacuto até ao Otchinjau. São essencialmente pastores, mas dedicam-se também um pouco á agricultura. Enterram os mortos. Usam pelles como adorno, e outros, panos. Usam farta cabelleira e arrancam os dois incisivos médios de cima e de baixo. Bandimbas ou mundimbas. — Dos mais antigos habitantes da vertente leste da Chella, descendem dos matchonas, dámaras e hottentotes, tendo vivido muito tempo na Chabicua, desde o Cunene ás cabeceiras do Curoca. Hoje habitam a região dos Gambos, desde o Hae, o Valle do Guroca, no terço superior e inferior, e as margens do Caculovar, desde a Gahana á Bella-Bella; estão fixados ali ha pouco tempo, depois de novas migrações de dámaras e das frequentes razzias dos hottentotes. São pastores e agricultores, Alimentam-se de leite azêdo, pirão de milho ou massambala e berlunga. Vestem-se com pelles de boi preto ou animaes bravios; e adornam-se com missangas e braceletes de ferro e cobre. As mulheres usam uma pelle comprida que lhe chega ao joelho. O Cabello é rapado nos lados e crescido no vértice da cabeça. As raparigas e algumas mulheres usam o Cabello em tranças car- regadas de missanga. Os homens trazem suspenso do pescoço uma pinça de ferro para arrancar os pellos. Limam os dois dentes incisivos médios de cima. São muito supersticiosos. Enterram os mortos e collocam provisões junto das sepulturas para as almas dos defuntos lhes não fazerem mal.


 Recuemos no tempo, procuremos saber o que nos diz a História destes povos através do texto que segue retirado de "Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia"


Toda a informação que se segue nos vem da notabilíssima e pouco aproveitada "Memória sobre a Exploração da Costa ao Sul de Benguela na África Ocidental e Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Moçâmedes", de José Guimarães, que ele próprio escreveu e publicou em Lisboa no ano de 1842.

Os primeiros vestígios humanos que encontraram foram  «...ossos de baleia queimados e uma espécie de embarcações, feitas de um pau muito leve chamado bimba, o que evoca a antiga notícia de DUARTE PACHECO PEREIRA. Dias depois apareceram negros e em dias seguintes trouxeram para trocar “milho, feijão e abóboras, algum marfim, pouco gado, e pontas de cabra de mato curiosas pelo seu comprimento».

Viviam os Negros perto e GUIMARÃES decidiu ir ter com eles à sua povoação, o que não faria sem grande perigo, dado que não consentiam que homem branco entrasse nela. Mas tudo correu bem e o explorador dá noticia de ... «...um extensíssimo vale, todo cultivado de milho maiz, feijão, abóboras e uma espécie de milho miúdo”, com margens (...) guarnecidas além d'imensa quantidade d'arbustos e de plantas parasitas, por duas ordens de palmeiras, que se estendem até onde se pode alcançar a vista e que parecem continuar muito parao centro». «...Do lado direito destes arimos ficava uma espécie de seio formado por algum rio, que no tempo das chuvas naturalmente ali desagua, conservando-se agora subterrâneo, pois cavando até dois palmos de profundidade encontra-se agua magnífica, de que os indígenas se servem para beber e à qual é devida a imensa e linda vegetação de que se acha coberta toda aquela planície”.
Com a singela mas exacta descrição do lugar, note-se que especificadamente se mencionam o milho maiz e o milho miúdo, o segundo dos quais será talvez a actual massambala. E aí estavam os renques de palmeiras que os nossos olhos ainda hoje podem ver por toda a Camilunga, nome por que agora se apelida a antiga fazenda de S. Bento do Sul. Eram os Negros governados por um soba e GUIMARÃES tinha-os por povos “de nação mucubal” e de “vida pastoral”, designando-os de Mocorocas, “por habitarem um lugar a que chamam Coroca”.
E prosseguindo na sua informação escreve:

«Sua vida muito pacífica não deixa de ser singular pela sua predilecção pelas mulheres, que escondem com a maior cautela,especialmente dos brancos, sendo igualmente muito ciosos do seu g ado, cuja carne é magnífica e de que possuem grande quantidade de duas espécies, vacum e ovelhum São os Mocorocas muito dados ao exercício da caça e alguns dentre eles ao da pesca crêm muito em feitiços e almas dos seus defuntos; não gostam d'aguardente e preferem o tabaco que eles lã fabricam duma forma singular [similar?] ao de rolo do Brasil; são muito amigos de missanga branca, azul, preta e igualmente estimam muito facas e arcos de ferro para fabricarem flechas e azagaias, enxadas de ferro dumas que fabrica uma nação do interior do sertão, contígua a Benguela, por nome Nanos (o que na cidade de S. Filipe constitui um ramo de negócio); de fazendas preferem zuarte azul, baeta da mesma cor e cobertores, não fazendo apreço de chitas e outras fazendas de cores claras.»

Repete-se, na mesma costa, mais ao norte, decorridos quase três séculos e meio, atrevimento semelhante ao do destemido Fernão Veloso na Baía de Santa Helena; só que aqui não voltou GUIMARÃES tão apressado como o valente homem de armas de Vasco da Gama. Vale a pena talvez contar que o comandante Alexandrino da Cunha ou por impaciente com a demora na baía ou porque o convívio com GUIMARÃES se tinha deteriorado ou porque não queria que gente branca corresse perigo, não permitiu que homens brancos fossem com ele e deu-lhe por companheiros só dois negros da guarnição e um língua também negro.

Repare-se que GUIMARÃES os julga “de nação mucubal” e esta filiação fã-lo-à dizer que têm “vida pastoral”, por ser esta a ocupação tradicional dos Mucubais. Mas a verdade é que estamos em presença de uma população sedentária, ciosa de arcos de ferro para enxadas, praticando uma agricultura variada; em suma, uma população agrícolo-pastoril.

E se estes Mocurocas são aqueles que PILARTE DA SILVA encontrou -GUIMARÃES não se refere aos estalos identificadores - é de estranhar que o sertanejo não tivesse achado entre eles, 70 anos antes, vestígios de agricultura. O relatório elaborado por PEDRO ALEXANDRINO DA CUNHA coincide, no geral, com o de GUIMARÃES, o que não admira. Nem por dizer que os Curocas serão “colónias de Mondombos, dos quais têm a linguagem e os costumes» se afasta da filiação referida por GUIMARÃES: os Mucubais não terão outra origem-também Hereros saídos dos Mondombos das terras do sul de Benguela.

Annais Marítimos e Coloniaís. Parte não oficial, n.” 12, 53* série, pp. 459 e segs., Lisboa, 1845. (”) ESTERMANN refere esta hipótese da origem dos Mucubais na obra citada, vol. III, pp. 29-30:

Parece-me útil dizer que os historiadores do Sul de Angola têm aproveitado, sobretudo, o relato de ALEXANDRINO DA CUNHA, cremos que por ignorância do de GUIMARÃES, mais rico de informação. Soube da existência deste pelo livrinho de CECÍLIO MOREIRA, Entre damas e o mar, atrás citado.

Ocupação portuguesa desta área só se iniciou de Dezembro de 1854 por diante, com a instalação de uma fortaleza num ponto alto, iminente à baía de Alexandre. O capitão de fragata JOÃO MÁXIMO DA SILVA RODOVALHO, que tomou parte no empreendimento, também se deslocou a uma das aldeias dos Curocas, a oito milhas da foz, em 10 de Dezembro do mesmo ano de 1854. Confirma que têm soba, são tratáveis, possuem gado vacum e arimos de milho e abóboras “de que sesustentam” (1°).

Logo no mês seguinte esteve entre os Curocas o navegador e viajante inglês WILLIAM MESSUM. Sentando-se à sombra de uma palmeira e podendo repousar os olhos no verde das hortas, sentia-se recompensado dos vários meses de aridez ao longo da costa: "Aqui me deleitei pela primeira vez, depois de muitos meses que tinha deixado o Cabo, de achar alguma coisa como vegetação, porque os naturais têm em considerável extensão hortas cultivadas de milho, grãos e abóboras. Era um regalo, depois de tanta areia, sentar-se à sombra de uma palmeira”. E noticia ainda: "As choupanas desta gente pareciam construídas para aturar e eram habitações cómodas Os naturais possuem numerosos rebanhos de gado grosso e miúdo. Tinham também marfim de elefante e de cavalo marinho Vi maças feitas de corno de rinoceronte e grande abundância de mel e cera de abelha. Festejamos muito algum leite, milho e bolos feitos não sei de quê, com mel Perguntaram por aquadenti mas quando lhe dei alguma, depois de a provarem, não quiseram beber» (“).

E acaba aqui o que podemos chamar a história antiga do povoamento do Baixo Curoca, uma história cheia de hiatos, de dúvidas, de perplexidades. Pelo que os textos nos dizem-e não esqueçamos sua imprecisão e mutismo , uma população mal definida de pescadores, no'início do século XVI; de pescadores, caçadores ou pastores e provavelmente agricultores no último quartel do século XVII; de pastores e recolectores (caça e apanha de vegetais) nos fins do século XVIII; de pastores, agricultores, pescadores e caçadores na primeira metade do século XIX. E a que etnias pertenciam e que etnias hoje lhes correspondem? São todos negros; os de Duarte Pacheco (século XVI) porventura Cuissis, antepassados dos actuais recolectores Cuissis, na opinião de ESTERMANN; os de Joseph Rosa (1681) falam por cliques e ESTERMANN quere-os da raça Khoisan, misturados com Cuissis, hipótese arriscada a que já aludimos, e serão ascendentes dos poucos Cuepes que sobrevivem; os de PILARTE DA SILVA (1770) parecem ser a mesma gente de Joseph Rosa e aquele sertanejo designa-os de Macorocas; GUIMARÃES, ALEXANDRINO DA CUNHA (1839), RODOVALH0 (1854) e MESSUM (1855) chamam também aos seus visitados Mocorocas; o primeiro diz que são de nação mucubal e o segundo de origem mondombe, todos, portanto, Hereros.

Cabe perguntar se os Macorocas de PILARTE DA SILVA são os Mocorocas de GUIMARÃES, CUNHA, RODOVALHO e MESSUM. E se sim, temos então de admitir que estes asso-ciavam já à pastorícia a prática da agricultura, a menos que na mesma região houvesse pastores-agricultores concorrendo com pastores, todos apelidados de Mocurocas, por viveremjunto do rio; os primeiros naturalmente Hereros e os segundos, os tais antepassados dos Cuepes. Mas se é cómodo libertar assim os Cuepes da agricultura, que seria conforme ao depoimento de PILARTE DA SILVA e conclusões de ESTERMANN e estaria de acordo com a actual tradição dos poucos Cuepes existentes que afirmam terminantemente que aprenderam a arte de cultivar a terra com os Brancos, não se fica em menor constrangimento em relação com Hereros: também estes são tidos por puros pastores e só recentemente lavradores.

Mas conceber no Baixo Curoca ainda outra etnia, agora de bantos agricultores, é que ultrapassará a legitimidade das conjecturas.

(1°) ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELNER, Angola. Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos ..., Lisboa, Agência Geral das Colônias, 1940. vol. II, pp. 285-286. (U) Anais do Conselho Ultramarino. Parte não oficial, 1.* série,

De tudo isto, e com as reservas colocadas, parece poder-se concluir que desde épocas recuadas povoaram o vale inferior do Curoca populações de diferentes origens, provavelmente Cuissis, Hereros e Cuepes. Se em períodos recuados da sua História foram recolectores e pastores, vieram todos a cultivar a terra, sob a influência de povos agricultores, o que ja aconteceria no referido século XVII. E não é mista a civilização dos Hereros, na qual se caldeiam pastores camitas com plantadores bantos (...) Se língua, crenças e instituições sociais bantas invadiram os domínios dos pastores camitas, porque não aceitar que cedo tenham recebido dos plantadores negros as técnicas da agricultura? E em uma vale de terras aluviais e água abundante, como é o do Curoca, como não responder adequadamente às solicitações do ambiente?
(12) O Rev.” P. ESTERMANN diz-me que terão sido Cuanhocas

E os Cuepes, vizinhos dos Hereros, imita-los-iam, se por outras vias lhes não chegou este modo de vida. E o viverem em aldeamentos mais ou menos fixos parece também conferir à cultura dos Mocurocas uma forte e antiga base rural. Tipos puros de civilização existem mais na imaginação dos estudiosos do que implantados na terra. Mas passemos a moderna história da ocupação do vale.

Funda-se a colónia de Porto Alexandre em 1854, cinco anos depois de se instalar em Moçâmedes o primeiro grupo de colonos portugueses, vindo de Pernambuco (Agosto de 1849). Só em começos de 1861 se inicia, porém, a ocupação branca do vale do Curoca, com a fazenda de S. João do Sul, do agricultor João Duarte de Almeida. A ocupação progride nos 10 anos que se seguem; em 1871 o número de propriedades era de 12. Mas daqui por diante a agricultura entra em fase de contínua decadência: primeiro o algodão perde o preço, proíbe-se depois, em 1911, o fabrico de aguardente de cana, verdadeira moeda corrente nas transacções com os indígenas. Pereira do Nascimento conta apenas 5 fazendas em 1892. Em 1932 as terras do Curoca já só fornecem alimentos aos habitantes de Porto Alexandre; e o que hoje produzem nem chega para abastecer a vila: sob a orientação de Brancos não se exploram mais que três fazendas-S. João do Sul, Pinda e Camilunga.

No período afortunado da exploração cultivavam-se como principais produtos de rendimento o algodão e a cana-de-açúcar e, como alimentos de base, a batata-doce, o feijão e a abóbora; e ainda a palmeira tamareira, a massambala, a mandioca milho, trigo, e nem faltavam os estimados mimos europeus como laranjeiras, pereiras, macieiras e videiras. A mão-de-obra abundante que tais empresas reclamavam buscar-se-ia inicialmente em escravos e depois em libertos e livres de vária procedência, desde Luanda-Malange e Nova Lisboa a Benguela e Novo Redondo, incluindo vizinhos Curocas Cuissis e Hereros ou os mais distantes Nhanecas-Humbes Ambós e Ganguelas (W). Para a manter, sobretudo depois da abolição da escravatura em diante, distribuiram os agricultores brancos algumas courelas por trabalhadores pretos. que as cultivavam para si, em certos dias da semana, enquanto outros amanhariam terras sem dono, do Governo, no seu modo de dizer, contíguas às fazendas.

Com o colapso da plantação empresarial o vale despovoa-se praticamente de Brancos; ficam, em parte, os Pretos, uns, a título precário, nas glebas onde labutavam, outros em terrenos do Governo, para onde transitam ou em que já estavam.

E nesses espaços de ninguém entram em mais vivo com a com os antigos habitantes da região. Ora é exactamente do estudo do estilo de vida dos povoadores de um destes lugares a Onguaia que passarei a ocupar-me.




(') H. BAUMANN & D. WESTERMANN, Les peuples et les civilisations de l'Aƒrique..., Paris, Payot, 1948, pp. 117 e segs. (“) CECÍLIO MOREIRA, op. cit., pp. 23-24.(15) Idem, op. cit., pp. 25-26


ORIGEM Texto: Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia :  http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:vWR6KIP1BQoJ:www.ceg.ul.pt/finisterra/numeros/1971-11/11





-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Sem comentários:

Enviar um comentário