Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 4 de setembro de 2014

BAIA DOS TIGRES e a origem do nome


 


A hiena castanha

BAIA DOS TIGRES: a origem do nome


Três versões existem  sobre a origem do nome da “Baia dos Tigres”. Uma delas está relacionada com a coloração "tigrada" que as altas dunas do lado continental da baía apresentam quando vistas à distância, a partir do mar. É a versão defendida por André Guilcher, Carlos Alberto Medeiros, José Esteves de Matos e José Tomás de Oliveira, em “Les Restingas (Flèches Littorales) d’Angola, spécialement Celles du Sud et du Centre” Finisterra, vol. IX, nº 18, Lisboa 1976, pp. 171-211.

Segundo os defensores desta versão, a areia das dunas que são geralmente claras, possui minerais pesados em abundância  --granada, a, magnetite, ilmenite, zircão, anfibólio, turmalina verde—metais que o vento concentra em grandes faixas nas partes baixas das mesmas dunas, e que vistas do mar, ao ganharem o aspecto riscado avermelhado, fazem lembrar a pele de tigres. Como se sabe, na Baía dos Tigres não há tigres.

 O efeito de luz e sombra sobre as altas Dunas
O efeito de luz e sombra sobre as altas Dunas




A 2ª  versão é a de que o nome Baía dos Tigres está relacionado com o ruido causado pela fricção que o vento sul exerce quando sopra com violência sobre a areia no alto das dunas, ruido que fez levantar a crença de que ali houvesse tigres. Esta versão é defendida por J.Pereira do Nascimento no seu livro Exploração Geográphica e Mineralógica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895.

A 3ª versão deve-se a notícias da existência na Baía dos Tigres  de cães de grande porte que faziam lembrar tigres, quando lá chegaram os primeiros portugueses. Henrique Abranches escrevia no seu livro Senhores do Areal, sobre esses cães, em relação aos quais se contavam versões diversas, uma delas referia que no século XVIII um navio não identificado naufragara ao largo dos Tigres, e os cães que vinham a bordo, únicos sobreviventes, nadaram rumo à  costa, e fixaram-se naquela região desértica e sem água,  onde tiveram que se adaptar meio,  comendo o peixe morto que vinha dar à praia, ou caçando raposas, cachalotes, aves marinhas utilizando técnicas de guerrilha. Ou ainda a versão de que em tempos recuados houvera uma epidemia de raiva em Moçâmedes, tendo a autoridade mandado matar todos os cães, havendo gente que deles se apiedou, meteu-os a bordo de uma barcaça e foi depositá-los na Baía dos Tigres, onde esses animais tiveram que aprender a sobreviver  em meio adverso,  lambendo a  espuma menos salgada da superfície das ondas que molhavam a areia da praia, comendo peixe que dava à costa, incluso cetáceos, tornando-se eles próprios nesse ambiente cruel, tão cruéis como o meio.

No livro "Africana" Universidade Portucalense 1991 encontrei as seguinte passagens:

"...Sobre o nome dado às enseadas e depois  atribuido à aldeia, deve-se à presença do rei da selva naquele local em certo dia, no início do povoamento da Grande Restinga, que também era de vez em quando frequentada por sua magestade"

"...Também o rei leão com certa frequência fazia visitas aos Tigres, onde encontrava boa alimentação, nas hienas e nos cães que em quantidade razoável povoavam a restinga", para além, é claro, dos flamingos, das garças, das gaivotas, dos patos e dos pelicanos.

Muito recentemente o nosso conterrâneo Aurélio Baptista,  como conhecedor da região, avançou uma 3ª versão que nos parece digna de ser apreciada e levada em consideração. Baseia-se na leitura e na interpretação  que fez do depoimento do explorador inglês Willian T Messum  que referencia deste modo a presença de hyenas de que a Baía dos Tigres seria   infestada : “Aqui acendemos lume e nos preparamos para ficar a noite, mas tivemos sempre sentinela, porque, nas minhas viagens, nem antes nem depois, eu nunca senti tão espantosas vozes de hyenas ou lobos, e toda a noite em roda de nós; que só se dispersaram exactamente quando o dia estava para romper”.  Refere Aurélio: Ora, para um leigo, estas palavras teriam passado despercebidas, mas não passaram a Aurélio Baptista, conhecedor da região, logo se lembrou das hienas que por ali habitam, ou seja da “hiena castanha”  cujo  habitat se resume ao deserto do Namibe e Kalahari. Trata-se de um animal que pode atingir 1,40mts de comprido, 90cm de altura e pesando até 60kgs, que possui uma pelagem tigrada, e, por tal, poderiam ser tomados por tigres pelos exploradores e marinheiros do séc. XVII e XVIII,  nessa época de informação escassa. Este o ponto de vista de Aurélio Baptista :  foram estes animais , as hienas castanhas, que originaram a denominação de Baía dos Tigres à Enseada das Areias/Grande Baia dos Peixes! Ainda relacionado com este assunto, Alexandre Magno de Castilho, que passou pela Baia dos Tigres em 1867, referiu: “Só vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes



Baia dos Tigres, a "Manga das Areias" começou a ser designada por Tigres no mapa de Pinheiro Furtado, em 1790. Grande Baía dos Peixes, Great Fish Bay para os ingleses. É limitada a norte pelo limite sul  de Porto Alexandre, a leste pela cumeada que, partindo da Garganta do Diabo, vai ao Cunene nas Quedas de Montenegro,  a sul pelo rio Cunene; a oeste pelo mar.

Acrescento ainda um pequeno texto com alguns aspectos relacionados com as hienas castanhas:

Habitat e distribuição

Hienas-castanhas podem viver em áreas onde o índice de chuva não seja maior que 100 mm por ano. Além de sobreviverem com pequenas quantidades de água, elas também conseguem um pouco de líquido das carcaças e das frutas que comem. Um dos alimentos principais das hienas em áreas semi-áridas são os vários tipos de melão, que suplementam a necessidade de água do animal. Sua predileção por melões às vezes as leva a conflitos com fazendeiros, que às vezes matam hienas-castanhas apesar de serem protegidas em alguns países. As hienas-castanhas são encontradas em todo o sul da África, e particularmente na Angola, Namíbia, África do Sul, Botswana, Lesotho, Moçambique, Malawi, Suazilândia e Zimbabwe.

MariaNJardim

Ver também:
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5fhF0x7FHSQJ:xamalundo.blogspot.com/2014/08/o-meu-ponto-de-vista-da-origem-do-nome.html+&cd=6&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a


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