Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Subsidios para a História de Moçâmedes, hoje Namibe: 1869 Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando





Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando


Em 1869 estava aquartelado na Fortaleza de S. Fernando um contingente de 100 praças pertencentes ao Batalhão de Caçadores 3, na sua quase totalidade criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas. Na noite de 14 de Novembro daquele mesmo ano, essas praças amotinaram-se para protestarem, segundo afirmavam, contra os serviços violentos a que eram obrigados, contra os castigos rigorosos que sofriam, e contra os descontos excessivos que eram feitos nos seus prés. Acusavam o capitão Miranda como responsável de toda aquela situação. Avisado o chefe do Concelho, Major Joaquim José da Graça do que se estava a passar, este dirigiu-se à Fortaleza, onde, perante o seu espanto, os soldados já pegavam em armas. O Major Graça foi alvejado pelos amotinados, com um tiro de pistola, mas sem consequências. Contudo o oficial em causa conseguiu dissuadi-los dos seus intentos, e prometeu, recebê-los no dia seguinte, na secretaria do Concelho, a fim de apresentarem as suas queixas.  Após o diálogo apaziguador, o Major Graça retirou-se, parecendo tudo estar debelado. Porém os soldados voltaram mais tarde a sublevar-se e convenceram-se que os habitantes da vila se preparavam para os dominar pela força. Assim, armados de novo, carregaram as peças, e apontaram-nas para a vila, prontas a fazer fogo. Afirmavam a sua intenção de destruir a povoação e incendiar as casas de seguida. Os moradores apavorados, receando toda a espécie de atrocidades, abandonaram as suas habitações e procuraram refúgio nas Hortas, que ficavam a três quilómetros do aglomerado populacional.  No meio de tão dramática situação, e quando parecia estar tudo perdido, a Sra D. Maria do Carmo Lobo de Ávila, esposa do chefe do Concelho, saiu resolutamente da sua casa, encaminhou-se ligeira para a Fortaleza, e confiada, corajosa, varonil, aparece de improviso perante a turba arrogante e impetuosa dos revoltados. A gentileza senhorial do seu porte e o excesso prestigio das suas virtudes, contiveram-lhes os rancorosos impulsos. Tomados do espanto que o imprevisto lhes causara, e confundidos pela severidade que resumbrava do nublado rosto da dama, receberam-na com todo o respeito, formando fileiras, e apresentando-lhe armas. Perante a atitude de acatamento das praças, a Senhora Dona Maria do Carmo pôde plenamente desempenhar a nobre missão que se impusera: a de os vencer pelo sentimento. Para o conseguir, mostrou-lhes, dominada por irreprimível eloquência, a hidiondez do crime que iam cometer, e dirigiu-lhes, numa inflexão de voz, tocantemente angustiosa, suplicas ardentes e afervoradas. Comoveram-se. Os revoltosos, em cujos olhos borbulhavam lágrimas de arrependimento, protestaram, em seguida, inteira obediência. O Chefe do Concelho, que durante a alocução estivera sempre junto da sua esposa, ordenou-lhes então, como lhe cumpria, que descarregassem as peças e as espingardas e recolhessem a pólvora. Tinham-se entregado. A vila estava salva. O espírito de rancor, de violência e de rebeldia que desorientara as praças, que por pouco as não levou à destruição da mesma vila, fora inteiramente subjugado pela palavra enternecedora duma dama fraca e delicada.




MariaNJardim. 





Bibliografia consultada:
(1)Torres obra cit 2 vol pp. 201 a 206
Separata n.8 da Revista Africana Universidade Portucalense, Porto, 1991.Cecilio Moreira : "Fortalezas, Fortes, Fortins e Fazendas de Moçâmedes no Sul de Angola". Subsidios para a História de Portugal em Angola. 



Ver aqui: Portugal século XIX  http://comum.rcaap.pt/bitstream/123456789/3551/1/NeD03PedroCardoso.pdf


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