Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 10 de março de 2015

Arsénio Pompílio Pompeu Carpo

 Arsénio Pompílio Pompeu Carpo



A História de Angola, desde o século XVII até bem dentro do século XIX, foi marcada pelo tráfico de escravos para o Brasil e Américas ( o Novo Mundo), pela deportação ou degredo (1) de criminosos dos mais diversos graus, e pela projecção das famílias criolas, no seio das quais emergiram as famosas "donas",  Dona Ana Francisca Ferreira Ubertaly e Dona Ana Joaquina dos Santos Silva, (2)  frequentemente referidas nos textos de George Tams (1), juntamente com outros grandes negreiros, tais como Arsénio Pompílio Pompeu Carpo, Pinto da Fonseca, Nicolau Tabana. 

George Tams considera-os: «Todos eram iguais, porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura e que recusasse entrar em qualquer transacção criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros». Tams foi um médico alenão que visitou Angola em  meados do século XIX, e descreve pormenorizadamente a vida económica e social de cidades como Benguela, Luanda e Novo Redondo». De acordo com as suas observações, as movimentações dos núcleos litorâneos animavam-se a cada dia com a chegada de caravanas vindas do interior, carregadas de marfim, de cera e de urzela, mas também de escravos que entravam à noite em surdina, em razão das interdições que já se faziam sentir. Ao longo dos trajectos pela costa, entre o sul de Benguela e Ambriz,  para onde se deslocaram os embarques então na clandestinidade, deparava-se com situações características de um comércio considerado ilegal, marcado por uma dinâmica imposta pela presença do esquadrão britânico e pelas leis europeias antitráfico. Tams «localiza agentes, feitorias de várias nacionalidades e barracões improvisados que se espalhavam por praias ermas e pequenos ancoradouros em zonas quase despovoadas, “essas belas solidões” que, só eram atravessadas quando os apanhadores de escravos as atingiam ». Os grandes negreiros (Arsénio Carpo, Pinto da Fonseca, Nicolau Tabana e, ainda, as negras Ana Francisca Ferreira Ubertaly  e Ana Joaquina dos Santos Silva) aparecem frequentemente nos textos de Tams, que escreve: «Todos eram iguais, porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura e que recusasse entrar em qualquer transação criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros».

Os homens que a partir de 1820, na era abolicionista, dominaram o odioso comércio eram  na maioria, recém-chegados que até então não haviam tido tinham qualquer papel  relevante na época do tráfico legal. Eles trouxeram consigo novas condições de risco e de lucros desmesurados que levaram ao afastamento dos investidores tradicionais, e abriu a porta a aventureiros insensíveis à causa da humanidade e atraídos pela promessa de ganhos. Eles viviam instalados no Rio de Janeiro ou na Baía, em Havana ou Nova Iorque, praticavam o tráfico ilícito, construíram fortunas meteóricas, a partir de seus parcos haveres, e num curto intervalo de meia dúzia de anos, dispunham de plantações, riquezas, influência política, por vezes títulos de nobreza. Mas havia outros que seguiram trajectórias lentas e sinuosas,  iniciando-se pelos elos mais difíceis e penosos da cadeia, como capitães dos tumbeiros ou como agentes das casas escravistas na costa africana, e que subiam a pulso, até à qualidade de líderes do tráfico transatlântico.  Havia os perdedores de quem ninguém falava. O tráfico ilícito recorria aos mais sofisticados  meios de comunicação e de financiamento, operava através de sociedades com accionistas espalhados por vários países, apoiado numa rede de participantes que se estendia da Europa à África e às Américas, cada uma das quais envolvia gente com funções e objectivos diferentes que, desde o soba negro, vendedor de escravos, até ao plantador americano que os utilizava, se constituía numa infinidade de intermediários e coniventes (mercadores, autoridades coloniais subornadas que permitiam a exportação ou importação de escravos, marinheiros que os transportavam através do Atlântico, etc, todos quantos actuavam no circuito).
E


Arsénio Pompílio Pompeu Carpo nasceu no Funchal em 1792, onde foi baptizado com o nome de Arsénio dos Santos. Seguiu a profissão de seu pai, trabalhando como pedreiro. Em 1817 encontrando-se em Lisboa, foi aprisionado no Castelo de S. Jorge, como protagonistas da conspiração de Gomes Freire. Diz-se que estava na hora errada no local errado. Algum tempo depois foi recambiado para a Madeira, e em Março de 1820 partiu para o Rio de Janeiro (Brasil), onde teria mudado os  sobrenomes para Pompilio Pompeu do Carpo. 

Regressado de novo à Madeira, envolveu-se em 1823 numa conspiração contra o governo central, e foi deportado para Angola para cumprir um pena de cinco anos,  onde como era habitual, foi obrigado a servir nas forças militares, que não impedia os deportados de desenvolver actividades paralelas como negociantes, incluindo o tráfico de escravos para o Brasil e Américas.  

No final da década de 1820, depois de ter cumprido a pena, voltou ao Brasil e fixou residência no Recife. Pensa-se que teria sido aí que começou a dedicar-se ao vil negócio, numa época em que já havia sido abolido (1836) no quadro da revolução setembrista, e  entrara na clandestinidade.  

Em meados da década de 1830,  Carpo era já proprietário de vários navios negreiros que frequentarem as rotas de Angola para o Brasil, Cuba e Uruguai. 

Em 1837 regressou a Luanda, Angola, onde foi considerado o maior negreiro em acção no território, e onde ganhou influência no meio político da capital, tendo contribuído, com uma missiva enviada às cortes, em 1839, para a demissão do almirante António de Noronha, que na época estava a pôr em prática a lei da abolição do tráfico, contra os traficantes locais, publicada por Sá da Bandeira.  

Em Luanda a sua influência estendeu-se a negociações com os ingleses que resultaram em acordos, que  possibilitavam um fim do tráfego de escravos demorado e por fases.  Foi presidente da Câmara Municipal de Luanda, e a 10 de Dezembro de 1842 foi nomeado coronel comandante dos distritos do Bié, Bailundo e Huambo. Títulos puramente honoríficos. 

Em 7 de Março de 1843 foi condecorado e nomeado comendador da Ordem Militar de Cristo.
Apesar de traficante foi considerado, diz-se, um activista setembrista, em oposição ao cabralismo  que o perseguia. 

Com a crescente pressão política internacional sobre o tráfico e sobre o governo português, sobretudo a partir de meados de 1845, foi a boa relação de Carpo com militares e negociantes ingleses da região que foi adiando a sua prisão, até que, com a tomada de posse do novo governador de Angola, Pedro Alexandrino da Cunha, foi preso acusado de ligações ao tráfego de escravos ilegal, a fraudes fiscais e a incumprimentos legais enquanto presidente da câmara de Luanda e como vereador. 

Transferido para Lisboa, amigos ligados aos negócios e à maçonaria, conseguiram criar  nos meios políticos, económicos, e na imprensa, um clima em sua defesa. Motivo, a forte ameaça de Carpo de publicar os nomes de quem com ele tinha colaborado no negócio lucrativo.

A 20 de Março de 1846, o Supremo Tribunal declara ilegal prisão de Carpo e manda anular o processo. Dois juízes consideraram  a acusação  nula por falta de material apreendido, enquanto os outros decidiram que o tribunal lisboeta não era competente para o caso. Também a acusação de desobediência às ordens da rainha não foi provada pelo Conselho de Guerra. 

Depois de liberto  Carpo tentou voltar a Angola, procurando que lhe fosse concedida influência junto do  governo em Angola. 

Com a perda de todos meios económicos e com o alastrar da Guerra das Patuleias, refugiou-se nos Açores, em Fevereiro de 1847, onde tentou ganhar nova influência política e económica. 

Com o fim da guerra e o restauro do governo Cabral, muda-se para Londres, onde com os seus relacionamentos económicos com empresários portugueses, e buscando apoio junto do General Sá da Bandeira, cria a ideia de uma Companhia Africana Ocidental Portuguesa com sede em Luanda. 

Em 1848 procurou construir a primeira ligação ferroviária em Angola, plano que não foi concretizado, e que consistia em unir, por caminho de ferro, Luanda e Calumbo, na margem do Cuanza, utilizando locomotivas a vapor.

Teve ainda outros planos que não tiveram apoio oficial.


Com o fim do mandato de Pedro Alexandrino da Cunha como governador, voltou a Luanda em Março de 1849, onde depois de restabelecidos os seus velhos contactos e recuperado parte do seu património, partiu para o Brasil onde também recuperou os seus bens e ligações. Porém chegado ao Rio de Janeiro, em Junho de 1849, foi preso palas autoridades brasileiras, que após várias acusações, o extraditaram em Setembro de 1849, regressando a Luanda com a família, em Novembro de 1849.

 Em finais de 1851, estando falido, foi acusado por um negociante daquela cidade, de nome António Lopes da Silva, de falência culposa e fraudulenta, levantamento de fazendas alheias, escrituras simuladas, burla e estelionato. Julgado, foi condenado a dez anos de degredo em S. Tomé, tendo-lhe sido retiradas todas as graduações, patentes, honras e títulos honoríficos. Após um apelo a Lisboa, foi transferido de novo para o Castelo de São Jorge no final de 1852, mas novamente a sentença foi anulada por motivos processuais, sendo em Junho de 1853 libertado. 

Regressou a Luanda, mas nessa altura vivia-se a decadência total do comércio de escravos, e não conseguiu relançar-se nas suas actividades económicas, porém em final de 1853 conseguiu ser nomeado governador do presídio de Ambaca, no extremo leste de Angola, onde permaneceu pelo menos até Maio de 1854, data em que Livingston por lá passou. 

Carpo obteve ainda entre 1854 e 1857 a exploração de uma mina de cobre no distrito do Golungo Alto, e uma mina de prata no presídio do Duque de Bragança, porém com resultados muito aquém das expectativas, tendo caido numa situação precária que o obrigou a solicitar à Coroa «qualquer emprego civil». Valeu-lhe uma antiga relação familiar e comercial com os Oliveira Machado, que em Maio de 1857 o tornou administrador ou representante em Luanda da casa comercial de José Joaquim de Oliveira Machado, de Lisboa. Integrou ainda a comissão de onze membros que em meados de 1861 começava a organizar a representação de Angola à Exposição Internacional de Londres, realizada no ano seguinte. Mas sua actividade não para a aqui, e ainda conseguiu manter actividades como benemérito local em Luanda. Aliás Carpo teria apoiado financeiramente muitos projectos de utilidade pública e culturais em Luanda, sobretudo na década de 1840, e continuava a desenvolver actividades beneméritas, tendo em 1858, juntamente com outros comerciantes de Luanda, promovido uma angariação de donativos em Lisboa, tendo em vista o combate a uma epidemia de febre amarela. Nos últimos anos da sua vida ainda investiu fortemente no comércio com o interior angolano. Faleceu em Luanda em 1869.



Para mais informação sobre Arsénio Pompílio Pompeu Carpo :

http://www.redalyc.org/pdf/770/77021122002.pdf

http://analisesocial.ics.ul.pt/…/1218728170D4mJR8cg0Tq46KK0…


http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-87752013000300003&script=sci_arttext





(1) A deportação e o degredo foram, no século XIX e princípio do século XX, uma poderosa arma ao serviço dos regimes políticos em todo o mundo. Uma forma de migração forçada, como meio para impedir a acção dos opositores políticos, e lugar de castigo para condenados por delito comum, assassinos, etc, enfim, a escória que Portugal nem o Brasil queriam fora dos seus territórios. A prática já vinha da Grécia e da Roma antiga, e a partir de 1797 é testemunhada com a ida dos opositores da Revolução Francesa para a Guiana, prática que os franceses mantinham a partir de 1852 com as chamadas ilhas presídio, como foi o caso das ilhas do Diabo, Caiena, e de Saint-Laurent-du-Maroni. Esteve ligada aos colonialismos. Em Portugal a conjuntura politica oitocentista post revolução liberal, e post independência do Brasil, provocou perseguições e migrações forçadas para as ilhas da Madeira, Açores, Cabo Verde e Angola, de políticos e militares não gratos aos diversos regimes políticos, que se serviram desses espaços de deportação . Angola tornou-se um lugar de castigo, chegando a receber centenas de deportados por ano. Era considerada a pena mais severa, remetê-los para espaços conflituosos e incertos, como era o caso de Angola, a nova «joia da corôa». Com a Conferência de Berlim (1884-5), a imposição do aumento da presença europeia e a conversão económica em que se insere a abolição do tráfico de escravos, explodiu o número de degredados em Angola. Impunha-se a Portugal a tarefa povoar, e as famúlias portuguesas preferiam outras paragens menos doentias para emigrar. Mas os degredados não foram passivos, eles actuaram no território angolano, na politica portuguesa para Angola. Foram usados como grupo marginal, e como importantes instrumentos no processo de povoamento tomaram parte no processo de embate e diálogo cultural, intensificado na segunda metade do século XIX. No dia 6 de Maio de 1847 desembarcou na Angra do Negro, Moçâmedes, um importante degredado político. Era o conde do Bonfim, José Lúcio Travassos Valdez, que na batalha de Torres Vedras, em 22 de Dezembro de 1846, no decurso do governo de Costa Cabral, fora feito prisioneiro e enviado com outros deportados políticos para Angola. Ver aqui: "O Conde do Bomfim: noticia dos seus principaes feitos":


 


(2) Ana Francisca Ferreira Ubertaly, viúva de um médico natural da Sardenha, um degredado que se estabelecera em Luanda, «tinha nascido no interior da África e havia sido trazida como escrava para Luanda, onde vivia. Seria  uma das pessoas que maior negócio faria com escravos. Ana Joaquina dos Santos Silva, a «Rainha do Bengo» como era chamada pelos oficiais franceses que se hospedavam junto da sua casa, a sua riqueza teria resultado «não apenas dos benefícios alcançados através do tráfico, como da prática de comércio lícito e da exploração de terras que lhes pertenciam por herança ou por doação, recorrendo ao trabalho escravo» Ambas «possuíam plantações de açúcar na região do rio Bengo, ao Norte de Luanda e em Moçâmedes, e tanto uma como a outra subscreviam novos projectos. Ambas estabeleceram-se  em Moçâmedes no início da colonização, onde mantinham agentes de suas firmas luandenses, para tocarem propriedades, mas também "para gerenciarem a mercadoria recebida em barracões escondidos longe do mar" refere Tams, As Anas negreiras seriam, também, senhoras de roças em S. Tomé.  O viajante alemão George Tams, refere em  Visita às possessões portuguesas na Costa Ocidental da África, p.111 a existência de 300 brancos em Benguela no início de 1840. A maioria desses indivíduos viveria em regiões próximas à cidade, como mostrado mais tarde por um censo, que listou 78 brancos em Benguela propriamente dita em 1860.





Ainda sobre Pompeu do Carpo...

 

Um Jornalismo de Combate pela Liberdade ­­e Autonomia




"...Pedro Alexandrino da Cunha tomou posse em 6 de Setembro de 1845 e no dia 13 do mesmo mês, era publicado o primeiro exemplar de um jornal em Angola. É evidente que o novo governador, que substituíra Lourenço Possolo, trazia ordens rigorosas para dar cumprimento ao despacho do ministro das Colónias. Mas em Luanda existia um prelo muito mais moderno, com tipos de excelente qualidade, servido por oficiais tipógrafos, com o armazém cheio de papel do melhor e tintas de fino pigmento, tudo importado de Londres, na época o centro mundial da Imprensa, onde se destacava o circunspecto Times. Essa tipografia particular estava nas mãos erradas de um libertário madeirense, deportado para Luanda “por crime revolucionário”. Era ele Arsénio Pompílio Pompeu de Carpo.
O deportado era um intelectual e homem de cultura. Assim que foi libertado das celas da fortaleza de S. Miguel logo dinamizou um grupo de teatro amador onde era actor principal. Ele acrescentou ao seu nome verdadeiro, Pompeu de Carpo, mais os nomes de Arsénio e Pompílio, nomes de personagens que ele havia representado como actor amador. A comunidade europeia, na época, era muito pequena e maioritariamente analfabeta. Até os oficiais das tropas de ocupação eram analfabetos, porque nas leis de então, só o sargento-mor era obrigado a saber ler e escrever. Os oficiais, muitos deles oriundos de famílias nobres, não precisavam de se submeter à aprendizagem da leitura e da escrita. Deportado mas longe da cela do presídio, Pompeu do Carpo começou a trabalhar e em tempo de árvore das patacas fez fortuna rapidamente. Dominava perfeitamente o inglês e essa particularidade permitiu-lhe iniciar uma bem-sucedida carreira de agente comercial, representando as melhores casas de Londres. Foi esta relação que lhe permitiu adquirir um moderno prelo mecânico e excelentes tipos. De Portugal importou os mestres tipógrafos.

O prelo da Imprensa Nacional era de má qualidade e os tipos ainda piores. O Boletim Oficial ressentia-se dessa debilidade técnica. Pompeu do Carpo viu aí uma forma de adquirir a liberdade plena. E ofereceu a Pedro Alexandrino da Cunha a sua oficina completa e trespassou para o Governo-Geral os mestres e sabedores tipógrafos. Pedro Alexandrino da Cunha pagou-lhe, levantando a pena de degredo que impendia sobre o libertário madeirense. Para mostrar o seu patriotismo ao representante do rei de Portugal na terra, Pompeu do Carpo fez-se coronel de segunda linha e chegou a comandar as guarnições do Bailundo e do Bié. O Governo do Reino fez dele comendador. Mais livre para os negócios, Pompeu do Carpo em breve era um dos homens mais ricos de Luanda. E enquanto a sua maquinaria gráfica imprimia a folha oficial, ele já congeminava com outros libertários a importação de mais prelos mecânicos.

O governador mandou prender Pompeu do Carpo e o revolucionário fez o percurso inverso, seguiu a ferros para a Metrópole e chegado a Lisboa foi encarcerado no castelo de S. Jorge. O libertário estava de novo a conspirar e desta vez criando na sombra uma indústria gráfica para imprimir jornais que proclamavam a liberdade de Imprensa e a autonomia de Angola. Pompeu do Carpo tinha muito dinheiro e em breve comprou a sua liberdade. Em 1848, já estava em Londres a negociar com os seus parceiros ingleses a construção de uma via-férrea entre Luanda e Kalumbo. O comboio era na época um transporte moderno e revolucionário. No coração da sociedade industrial, Pompeu do Carpo também comprou máquinas a vapor para uma serração de madeiras, a instalar nas matas do rio Kwanza. E encomendou aos engenheiros ingleses um projecto arrojado para canalizar a água do Kwanza até Luanda. Os seus sonhos foram atirados por terra pelo poder instituído, que lhe moveu uma perseguição impiedosa até conseguir aniquilá-lo social e economicamente. Em 1854, a Junta de Justiça de Luanda dava Pompeu do Carpo como indigente. Mas enquanto não sucumbiu, ele escreveu e pôs a circular na cidade de Luanda panfletos ácidos, textos de fino recorte literário que demoliam o poder, o governador e a sua corte corrupta e analfabeta. Pompeu do Carpo foi, nesta época, o mais temido dos panfletários. Mas todos os intelectuais do seu tempo, europeus ou africanos, eram terríveis polemistas e panfletários. Foi assim que nasceu a Imprensa Angolana. Num clima panfletário e libertário.

O Boletim do Governo seguia os seus passos, distintamente impresso na tipografia oferecida por Pompeu do Carpo. Em 1845, a folha oficial dava uma notícia social. A Assembleia de Luanda, onde se juntava a alta burguesia europeia e africana, ia dar um baile em homenagem ao governador Pedro Alexandrino da Cunha. Mais tarde, publicava um anúncio comercial. O comerciante Valentim José Pereira dava nota pública de que era comprador de todas as folhas de tabaco que lhe aparecessem. Em 1846, o Boletim Oficial (em 13 de Setembro de 1845, mudou de nome) dava a sua primeira notícia cultural. O Teatro Providência, ali na Rua dos Mercadores, levava à cena a peça “O Fugitivo da Bastilha”. Desde então, o Boletim Oficial passou a ser um verdadeiro jornal mas controlado pelo Governo-Geral. Por isso, os intelectuais da época, decidiram criar a Imprensa Livre, em oposição à Imprensa Oficial. E não demorou muito tempo. Tirado DAQUI
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