Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 29 de julho de 2015

Chilongos: habitações dos indígenas. Usos e costumes.

 



"...Vivem em habitações em forma circular ou chilongos, dentro de cada um dos quais, cercados de pau a pique, existe um número variável de cubatas, cada uma correspondente a cada mulher, com sala de visitas, celeiros arrecadados, ficando em volta os currais de gado, e tendo comunicações internas em complicado labirinto, propositadamente, para defesa da casa face possíveis assaltos de povos estranhos. São corredores estreitos onde só cabe uma pessoa de cada vez, e aquele que lá entra dificilmente consegue sair não, sendo possível o encontro entre pessoas que entram e pessoas que saem do chilongo, tal a disposição do corredor.

O Soba pode escolher as consortes que quizer, e como não existe a fase do namoro, utiliza um estratagema quando visita as povoações, ou seja, como todas as pessoas têm o dever de correr às portas das casas para o cumprimentar, ele vai com toda a atenção verificando à passagem quais as casas onde encontra uma ou outra rapariga que lhe agrada, cala-se, deixa passar um tempo, pede formações ao seu ministro confidente (o lenga) acerca dos donos das referidas casas, se ricos em gados, e após ter feito escolha que mais lhe convém comunica ao lenga para a transmitir ao pai da jovem o seu interesse e avisar que em tempo oportuno a levará a casa do soba para lhe falar, não tendo os pais nem os tios maternos o direito de escusar a proposta. Então o soba manda entregar aos pais da rapariga três ou quatro vacas a título de doação temporária, só para lhe aproveitar o leite. Se a rapariga for filha de pobres, então o soba antes de qualquer contacto manda oferecer à escolhida 10 a 12 vacas e faz o pedido só algum tempo depois.

O soba não se limitam a fazer apenas uma festa de noivado para uma única rapariga, mas sim para o grupo das raparigas suas escolhidas, realizando casamentos em série. O bem estar do soba e dos seus súbditos está dependente do maior número de mulheres possíveis pois são elas que cultivam as terras, asseguram os mantimentos para sustento de todos, e com elas pode ter os filhos em grande numero que constituem grande riqueza destes povos. Trata-se de uma poligamia organizada segundo costumes com força de lei, pois não só não destrói como fortifica a família, porque dá aos chefes maior abastança, maiores mantimentos e proventos, mais relações, mais alianças, mais autoridade. Mas nestas tribos há uma diferença entre a primeira mulher escolhida e as que se seguem, pois é ela a confidente dos seus segredos, nada resolve sem sua consulta, é quem dirige e olha pelos haveres do chilongo, e em caso de morte é ela que evita o desaparecimento dos elementos que constituem a riqueza que legalmente lhe pertençam. Apesar de disputas frequentes nestes lares múltiplos tudo se resolve bem dado o interesse do chefe que reconhece ser esta a melhor forma de viver tranquilo, dando até licença alternadamente às mulheres para visitar parentes e amigos, sendo curioso se a primeira mulher o exorta a procurar e trazer mais mulheres suas companheirasa só esta gosa de prestigio outras mulheres do marido procuram assim ser venerado pelo maior numero de companheiras, e ver diminuido o seu trabalho com entrada de novos obreiras. Para o chilongo, em tudo parecido com uma colmeia, sendo seus filhos para todos os efeitos os que dentro dela nascem. O soba passa o dia a fumar o cachimbo seu cachimbo e toma apenas alem do mata-bicho, uma refeição diária sendo á noite que esta tem lugar rodeando-se da mulher e filhos e de cuidados especiais para grantir a sua vida. Este chefe sai dos seus aposentos para a sala de visitas 8  (Olupal) serve também de casa da mesa, senta-se no lugar ocupa desde feito soba, entram a seguir os filhos dá boa noite e senta-se também Depois entram , uma após outra as mulheres trazendo cada uma cesta de pirão e a mais antiga das suas mulheres a panela com molho de carne.

Esta senta-se a seu lado, mais próximo dele que as outras, sobre troncos de árvores em semi-circulo. Então soba, rodeado da mulher e filhos, e tendo perto de si as cestas do pirão e a panela do molho tira um pouco de pirão, mistura bem formando uma bola com os dedos, ensopa no molho e dá um pouco a cada mulher, espera que comam (o seguro morreu de velho, pensa ele) e só depois de ter verificado que todas comeram é que faz a distribuição da comida, começando pela primeira mulher, em seguida serve-se a ele próprio, e depois serve cada uma das outras, e fica para o fim, os filhos e os cães, que são sempre em grande numero."



SOBA Costumes gentílicos in Cadernos Coloniais 02 António Lebre, 1939

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