Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A petição de 13 de Julho de 1848 de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
















A petição de 13 de Julho de 1848
llmo e Exm.º Snr.:

As divisões politicas da nossa Pátria me obrigaram a sahir d’ellla, e a vir em terra estranha procurar subsistência por meio do trabalho. Não me posso absolutamente queixar da sorte por ter vindo de Pernambuco, onde resido há nove anos, e tenho vivido, e tenho vivido, senão bem, ao menos soffrivelmente;  mas já há tempos desejava sahir em razão de observar que se promovia guerra acintosa aos Portugueses, oferecendo-os, como cavallos de batalha, os partidos, em que se acha dividida esta Província, para chegarem aos seus fins. Bem via eu o perigo que corriam todos os Portugueses, os quais  pela maior parte faziam chamar sobre sí as vistas ambiciosas d’aquelles que nada possuem, porque não empregam o trabalho e a indústria, fontes seguras da riqueza, mas os horrorosos acontecimentos do dia 26 e 28 do mez passado me fizeram tomar a resolução de sahir sem demora d’uma terra, em que na presença das auctoridades e da tropa se arrombam a machados as portas das habitações, se arrancam homens inermes e sem crimes do seio das suas famílias, e se assassinam a pancadas, chuçadas, golpes, facadas e baionetadas, arrastando seus cadáveres ensanguentados pelas ruas, roubando-se-lhes os seus haveres, sem que se dê uma outra razão sino o de terem o crime de merecerem em Portugal, o nome que por despreso denominaram marinheiros. Os gritos que retumbaram do meio das turbas que pelas nove horas da manhã do dia 28 começaram a inundar um dos bairros d’esta cidade, eram de –mata marinheiros—não escape um só--.      A perseguição se predispunha pelas folhas, planos infernaes se urdiam em nocturnos clubes, contra os Portugueses, e si não acontecesse uma rixa entre um estudante do lyceo e um caixeiro Portuguêz, o qual depois de dar uma bengalada atirou aquelle com um peso de 4 libras, não abortaria a perseguição, que se foi medonha, e mais que muito demonstrou quam bem dispostos estavam os ânimos contra nós, seria ainda mais temível, si aparecesse com a canalha regularmente armada: devo porem dizer, em abono da verdade, que, com poucas excepções, o grande numero de turbulentos e perpetradores dos horrendos crimes era gentalha e escravatura.

Tinha pois resolvido sahir com brevidade, mas deteve-me a consideração de que podia fazer um serviço aos meus Patrícios e à minha Pátria, procurando um meio de fazer sahir d’aqui um grande numero de Portugueses para as nossas possessões da Azia ou da Africa. D’accordo com o Consul, o Snr. Joaquim Baptista Moreira, que não fez mais em favor dos seus, porque desgraçadamente as nossas divisões, nos tem reduzido alem de pequenos a zero: a não termos o menor respeito; e andarmos pelo mundo, como judeos, que sofrem toda a quallidade de injurias, sem ninguém tomar d’ella satisfação, lembrei-me de fazer publicar, que representava ao Governo Portuguez, a nossa situação, e que se pediam providencias, entre as quaes o enviar transportes para serem conduzidos a um ponto das nossas possessões da Azia ou da Africa, como colonias, aquelles que ahi quisessem estabelecer-se. Todos ao principio repelliam esta idea, opondo a insalubridade do clima, argumentando com o facto de que já d’este império havia sahido para Africa no tempo da Administração do Exm.º Sá da Bandeira,  um grande número a convite dos Consules por ordem do Governo, e que todos haviam sido victimas de moléstias, que alli grassa. . Com geito se há rebatido a tal oposição, e hoje vejo os ânimos inclinados tendo muitos dado já o seu nome como prontos a seguir para qualquer ponto que o Governo determine, uma vez que envie com urgência transporte,  e empregue medidas de interesse e comodidade que chamem e atraião os colonizadores: e julgo de grande utilidade aproveitar a ocasiam, pois que sendo estes bem sucedidos, para o que deverám tomar medidas, não só irám outros d’aqui e de todo o imperio e com fundos, mas se mudara a mania de só virem os Portugueses procurar fortuna no Brasil.

Dar-se-ha direcção a essa grande emigração anual para as nossas possessões, e virám ellas em poucos anos a tornar-se proveitosas a metrópole, e a entreter um commercio nacional que tornara a elevar a nossa dechaida marinha.

O Snr. Consul remettera por copia a redacção dos que já deram o seu nome, os quaes sam o dos residentes na cidade, a quem particularmente se comunicou a medida que hia adoptar-se por quanto se julgou politico não dar porosa publicidade pellas folhas.

Eu que livre de orgulho afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, e a ir compartilhar dos trabalhos e revezes que acompanham o estabelecimento de uma colonia, só porque vejo que comigo acarreto algum numero, mormente dos mais uteis, porque sam os que entendem do fabrico dos assucares, e plantações das canas, e mesmo do tabaco e café, pois que vivo em relação com muitos engenhos, tengo neles arranjado vários e me hei dedicado a conhecer como fundamento o modo mais profícuo de fazer o assucar, e de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno, e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente em as distilações, que bem dirigidas sam de sumo interesse.

Nas considerações que a esta acompanham, não só explico a razão porque digo que os que entendem dos trabalhos agrícolas sam os mais uteis, mas exponho alguns alvitres que me ocurreram. V. Ex.ª me desculpara na certeza de que o não faço, porque não seja persuadido do seu profundo saber; mas porque muitas veses uma lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas.

Approveito esta ocasião para offerecer a V. Ex.ª o meu diminuto prestimo.

Deos Guarde a V. Ex-ª por muitos anos – Recife de Pernambuco, 13 de Julho de 1848.

Lllmo e Exm.º Snr. Ministro e Secretario d´Estado dos Negocios  da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, cidadão portuguez.

À margem:  N.º  582 – A 848 /  5 8.º s
(1.ª suplica que veio dos Portugueses em Pernambuco).
(A lapis está a seguinte notação): Approvado este plano no seu ponto essencial em Concelho de Ministros no dia 30 d’Abril de 1848 redigir-se-há uma série de Instruções que serão cometidas conjuntamente ao Consul, e ao proponente no sentido que abaixo vai notado.

Convem principiar por lhes declarar que se ordenou ao Governador Geral de Angola ( e eu direi verbalmente os motivos desta preferência que é condicional) que pozesse à disposição da Colonia com as formalidades da Lei um ou mais treactos de terreno bem situado e salibre, e a mais próprias a produzir os géneros a cuja cultura vai acostumado segundo esta exposição.

N.B.—Seguem as notas no papel das considerações.

CONSIDERAÇÕES

Portuguezes mais habilitados pela sciencia do que eu, teem de há muito clamado contra o desleixo e a indiferença, com qua a nossa Administração hãm olhado para as nossas possessões. Temos na Azia e na Africa uma superfície de quatro cenras e settenta e tres mil milhas, donde podíamos tirar innumeras vantagês, e que so nos acarretam despezas, e fornecem provas da nossa incúria e ignorância

Ninguem há ahi que não saiba que a falta de braços inteligentes é a causa primaria de nenhuma vitalidade




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