Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Calipalula o soba que foi guia excepcional em 1906, sob o comando do major Alves Roçadas

 
Calipalula, guia da colunna [coluna] fidalgo que serviu de guia à colunna com o seu sobrinho e criado


A aceitação da bandeira portuguesa no Cuamato Grande, foi o culminar de uma série de campanhas militares – 1891, 1906, 1907, 1914 e 1915 – que terminaram com a ocupação definitiva, em 1915, efectuada sob comando do General Pereira de Eça. 

 Marino F. Pollatos Angola Collection: Guerra dos Cuamatas   Instituto de Investigação Científica Tropical
 
Sobre este assunto:
[De José Augusto Alves Roçadas em O Portal da História].



Ver AQUI  e também AQUI 
Ver AQUI    PORTAL DA HISTORIA
e também AQUI 
o Boletim Geral das Colónias 

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Os primeiros militares que formaram os corpos expedicionários no Cuamato, em 1906, sob o comando do então major Alves Roçadas, tiveram guias excepcionais como Calipalula, personagem que o tenente coronel Luna de Carvalho, então chefe do concelho do Humbe, teve a boa fortuna de descobrir, conhecedor profundo da região. Orientava Roçadas não só em momentos próprios de paragem da coluna como conhecia as veias de água mais próximas, aconselhando permanentemente o comandante sobre os movimentos do inimigo. Naquele tempo, estes factores eram incontornáveis para o necessário descanso de uma pequena unidade militar, que quase sempre só parava já exaurida. Demoravam em marcha forçada (sem impedimentos de qualquer ordem como por exemplo ataques inimigos ou chuvadas torrenciais), entre quatro a cinco dias, para perfazer entre 50 a 70 quilómetros, com a agravante de terem de levar todo o material às costas.
 
http://kingscarbine.blogspot.com/feeds/posts/default?orderby=updatedhttp://www.archive.org/stream/acampanhadocuam00castgoog/acampanhadocuam00castgoog_djvu.txt

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(*) Legislação Portugueza de 1910. — Pagina S79.

 In "A REVOLUÇÃO PORTUGUESA PRIMEIRA PARTE. A QUEDA DA MONARCHIA, ARMAMDO RIBEIRO

"...esse tempo acabava seus dias no Cuanhama, o regulo Calipalula, que tantos serviços prestou ás tropas portuguezas, servindo de guia nas campanhas do Cuamato, em 1907. Calipalula, fidalgo das tribus do Cuamato, era um verdadeiro heroe de romance. De estatura gigantesca, e com conhecimentos litterarios, impuzera-se ao gentio e o soba Chaula, receoso, julgou vêr nelle um pretendente. Um conselho secreto resolvia a sua morte e nas florestas era o negro atacado á zagaia, escapando porém e sendo tratado na missão allemã do Cuanhamo, onde novos elementos de instrucçao lhe fôram ministrados. De regresso ao território do Cuamato, sem no coração reter ódios, teve logo novas investidas contra a vida e o gentio, levado pelo soba, revoltava-se, dizendo-o traidor, amigo dos brancos A tuga impoz se e Calipalula, dessa vez cheio de ameaças, resolveu procurar os portuguezes a despeito do tio lhe predizer má recepção, visto ter sido um dos auctores do desastre de 1 904 das forças lusitanas.

O que foi esse desastre?

N'um acto de reconhecimento aos negros revoltados do Cuamato, feito por 16 officiaes, 2 primeiros sargentos, 10 segundos sargentos e 9*7 praças europeas com o appoio de 146 indígenas, o inimigo, apparecendo ao transpor do Cunene. trucidava a columna do commando do capitão de artilharia Pinto de Almeida, sendo 1.  victimas o tenente de marinha João de Faria Vlachado Pinto Roby de Miranda Pereira e o medico naval dr. Manuel João da Silveira, e escapando apenas pequeno numero de praças irregulares que lograram fugir, aos primeiros tiros. No Cuamato pereceram 254  heroes da Atrica. Levado pela sua ideia, Calipalula, monta a cavallo e parte. No caminho, um troço de cuamatos, assalta-o. Dcstroça-o e é ferido, conseguiu passar o Cunene c abrigar-se no Calú, donde transitou para o Humbe, apresentando-se ao commando portuguez. Era a vingança de Calipalula.

Descrevia a chacina de 1904: nem um branco escapara, visto os de Cuamato não perdoarem vidas; as armas apprehendidas tôram para o Cuamato grande e dos guerreiros da época, muitos ambicionavam nova guerra, estando o armamento 14 ARMANDO RIBEIRO já todo no matto. Fornecia elementos para a incursão, traçou itenerarios e a expedição de 1907, fazia-se servindo elle de guia, levado pelo ódio, pelo espirito de revindicta. O expatriado, poz-se á frente da columna que ia para o Cubango e guiou-a pelos meandros mysteriosos de Africa, até que Portugal se apossava do Cuamato grande. Ao içar a bandeira azul e branca, o capitão Alves Roçadas, investia solenemente no sobado. O reconhecimento pelo gentio, consistiria na entrega duma negra, a mais linda da tribu. Os vassallos trouxeram-lhe comtudo uma velha horrivel, leia, entre os esgares irónicos de uns e o voltar das costas de outros. O desprestigio era patente e Calipalula tentou suicidar-se, desfechando um tiro sob o queixo. Voltava ao Humbe, ferido e sem esperanças. O regulo vencido atormentava-o nos seus sonhos e Calipalula, gosando a sua vingança ao mesmo tempo que o intimo lhe censurava a traição aos seus, recusava continuar a viver com os portuguezes e internando-se no Cuanhama, ahi fallecia ignorado e solitário, íim predicto pelos «quimbandas» como recompensa ao seu acto. A sua attitude nas campanhas de 1907, foi relembrada n'uma conferencia realisada em 31 de Maio de 1908, na Sociedade de Geographia, pelo então já tenente coronel, Alves Roçadas e exaltada, como a de um auxiliar precioso dos portuguezes para a conquista do Ovampo....


http://booksnow1.scholarsportal.info/ebooks/oca9/20/revoluoportu02ribe/revoluoportu02ribe_djvu.txt


Segue outro texto

HISTÓRIA DO SUL DE ANGOLA: O SOBA CALIPALULA

"(...) XIII — CALIPALULA.


A embala de Naloeque que, finalmente, marcava o limite na nossa penetração nas terras do Cuamato, deve ficar aproximadamente a sessenta kilometros do Forte Roçadas, no Cunene, na direcção sul-sueste. Que trabalhos passamos para a alcançar, que sacrifícios fizemos para attingír este ponto e n'elle afirmar a nossa soberania, vingando ao mesmo tempo a desfeita que sofreramos três annos antes, acabamos de os ver rapidamente esboçados nas ligeiras paginas que acabam de ser lidas e nas quaes procurei relatar com a maior fidelidade todos os sucessos d'essa memorável jornada, pelos seus aspectos geraes, que devem ter ficado bem gravados na memoria de todas. Agora resta-me dar conta do modo como se terminou a nossa missão no Cuamato, tão depressa e ligeiramente como rápidos e precipitados foram os sucessos que se seguiram, até que a columna voltou ao ponto da sua concen-tração no Cunene, Aquelles sessenta kilometros de caminho, que percorremos em constante guerra, entre o Cunene e Naloeque, posso aqui muito grosseiramente traça-los de memoria, tendo em vista o tempo que gastamos na travessia do regresso, do seguinte modo: Do Forte a Chahafenda ú kilometros, d'aqui a Mufilo 3, a Aucongo; total 10 kilometros, Direcção, sul. 224 De Aucongo a Chamuinde 4 kilometros, a Aiicar 3, a Damequer 5; total 12 kilometros. Direcção, sul. De Damequer a Aluende 8 kilometros, direcção sul-sueste; d'aqui a Inhoca 7 kilometros, direcção sueste. Total i5 kilometros. Direcção, sueste. De Inhoca á grande chana 4 kilometros, direcção oeste; n'esta chana 6 kilometros, direcção sul-sueste, até ao limite sul d'ella; d'aqui á embala de Mogogo 2 kilometros, direcção sul. Total 12  kilometros de percurso e 10 de distancia na direcção sul. De Mogogo a Naloeque, 12 kilometros. Direcção, também sul. Total geral: cincoenta e nove kilometros na orientação aproximada de sul-sueste. Em quasi todo este percurso o paiz do Cuamato era muito povoado, como temos visto. Desde Aucongo até perto de Inhoca atravessamos ao longo de  uma serie quasi ininterrupta de libatas c n'ella apercebemos as principaes agglomerações de povoados em Aucongo c arredores, em Aiicar, Damequer e Aluende. Desde Inhoca até perto da embala o caminho que seguimos era despovoado, mas em Mogogo c toda a zona limitrophe a população devia ser muito densa. D'aqui até Naloeque o caminho voltou a ser povoado, mas poucas foram as libatas que appareceram sobre o nosso trajecto. Já vimos que o typo de povoação no Cuamato é a libata, uma palissada de troncos defendendo um pequeno agglomerado de construcções acanhadas, que consistem simplesmente n'uma cobertura de colmo sobre paredes circulares de troncos, desprovidos de qualquer revestimento. A cubata, ou habitação do indígena, é também circular, tem pouco mais de um metro de altura nas paredes, é provida interiormente de um estrado de troncos, a meio metro do solo, onde mal se podem accommodar duas ou três pessoas; e a entrada é baixa e estreita, tanto quanto o podem permittir as dimensões das paredes. Alem d'estas cubatas ha em cada povoação um certo numero de alpendres, também circulares e portanto de coberturas cónicas, com diversas applícações: logares de reunião, Jogares de trabalho, preparação das comidas, resguardo dos depósitos de mantimentos, capoeiras, cortes para gado miúdo. Existem também, descobertos, dentro de cada libata, curraes para o gado. A defeza de cada povoação, obtida pela palissada que a cerca, é augmentada por outras palissadas interiores, também de troncos, que fecham cada uma das divisões internas da libata, onde estão agrupadas, segundo os seus fins e applicaçao, todas aquellas construcções; cada família das que constitue o grupo de parentes habitando a mesma libata, também tem dentro tfella as suas cubatas e dependências separadas por palissadas. As principaes partes da libata são divididas por
corredores de uso commum a todos os habitantes; as communicações entre as divisórias secundarias são feitas por aberturas praticadas nas palíssadas respectivas e que mal dão passagem a uma pessoa. Estas aberturas encontram-se nos logares escusos e em posições desencontradas, tornando os recantos da libata difticilmente praticáveis para quem não a conheça bem. De modo que tudo isto augmenta consideravelmente o systema defensivo da libata, tornando-a inexpugnável para quem 226 não possua outros meios de ataque, alem daquelles de que o próprio gentio dispõe para a defeza. Estas medidas de defeza eram de imprescindível necessidade num paiz que andava em constante guerra com os visinhos, saqueando uns, sendo saqueado por outros, pois que é uma das occupações usuaes entre os povos do Ovampo a ladroeira á mão armada, que praticam por indole e por habito, tão naturalmente como uma partida de caça. A embala de Naloeque, onde estávamos a 3 de outubro, era uma das construcções que acabo de descrever, mas de dimensões colossaes em relação a outras que melhor conhecíamos dos logares de bivaques anteriores, tanto pela vastidão das suas divisórias e numero- sos alojamentos dentro d'ellas, como pela altura dos troncos das suas grandes palissadas. Já descrevi a entrada, que era voltada ao norte e formada por um largo caminho ladeado de troncos, entre a porta principal e o cercado próximo, de abatizes, que limita os terrenos cultivados. Creio que a única differença que havia entre esta embala e a do Cuamato Pequeno era a natureza d'esse cercado exterior, de troncos em Mogogo e munido de um fosso, que aqui não havia, assim como não havia o fosso junto á palissada interior; além d'isso esta devia ser um pouco maior que a outra. A entrada era logo seguida por um amplo pateo de que também já fallei; aos lados d'elle havia alguns al- pendres e varias cubatas que eram os alojamentos dos servicaes do soba. D'este pateo partia para o interior um corredor amplo bastante em relação aos demais, porque tinha uns dois metros de largura, o qual conduzia aos aposentos do soba, na parte leste da embala. Aos lados d'elle havia cavallariças e curraes bastante espaçosos. Ao fundo, este corredor irradiava para varias direcções, fraccionando-se em passagens estreitas e tortuosas onde apenas se podia transitar a um de fundo, sendo ainda preciso qualquer pessoa de estatura regular encolher-se e passar de Hanco em certos pontos. De onde a onde a passagem era cortada por pesadíssimas portas formadas por um taboão enorme. Uma d'estas portas, que entre todas era grande, fechava uma parte da embala exclusivamente reservada ao soba e aos seus parentes Íntimos e  grandes da terra; parte que não podia ser impunemente devassada senão por aquclles magna-
Entrada na emhala tes. N'ella havia um recinto cercado de bancadas de troncos, com um alpendre espaçoso c alto, que nos disseram ser a sala de reunião dos conselheiros do soba, quando discutiam os interesses do Estado. N'esta parte da embala, como nas que de perto a cercavam ao fim do corredor principal, multiplicavam- se os corredores secundários, cada vez mais subdivididos e cada vez mais tortuosos, onde nenhum de nós se orientaria as primeiras visitas, e de onde nos era impossível sair sem guia.Por aqui existiam espalhadas nos seus recintos especiaes para cada uma, as habitações das mulheres favoritas do soba. Do lado poente da embala, para onde se penetrava por um corredor secundário em communicação directa 228 com o pateo de entrada, ou por alguns corredores interiores que p vivenda de outras mulheres, de serviçacs, de visitantes. Havia por aqui outros curraes e o grande celleiro que era formado por numerosos quimbundos de dimensões colossaes, alguns de três metros de altura com dois de diâmetro no bojo, todos a abarrotar de mantimentos.

Perto d'este celleiro, n'um recanto a sudoeste, tinha a embala uma porta falsa de dimensões acanhadas, como convinha á sua natureza. Em volta d'isto lavras extensas, prados que deviam ser viçosos na epocha própria, agua em abundância com os seus bagres, arvoredo sombroso e pittoresco, fruetos comestíveis, palmeiras que forneciam bebidas. Emfim, era esta uma residência principesca onde ao potentado indigena nada faltava, nem a submissão incondicional do seu povo, que punha á disposição d'elle, com a sua vida, os seus haveres próprios e o seu trabalho, licito na labuta das terras e na creação do gado, ou criminoso nas sortidas á mão armada a espoliarem os povos visinhos. Para isto, para que o soba do Cuamato recebesse da sua gente a vida que lhe appetecesse, os haveres que cubicasse ou o trabalho que lhe aprouvesse, bastava um simples gesto ou uma simples palavra expedida da embala de Naloeque pela voz de um dos séculos, que são os chefes das terras. Ora esta residência de Naloeque com todas as suas riquezas e privilégios, assim como a autoridade de soba do Cuamato Grande com os respectivos poderes, cerceados ao limite do justo e rasoavel, segundo os progressos da civilisação e a humanidade dos nossos costumes, foram offerecidos nesse dia a Calipalula, o guia da columna, que tão bem e lealmente se desempenhara do encargo que voluntariamente tomara sobre si. 

Quem era porém este guia ? 

Calipalula era um grande do Cuamato, parente dos sobas de Naloeque e pretendente antigo ao sobado. Por isto fora perseguido pelos amigos de Chaúlo e, conquanto tivesse entre o povo do Cuamato partidários e afeiçoados de valor, não dispunham estes de tanta força que podessem assegurar as pretensões do seu idolo. Vendo-se portanto perseguido, este fugiu. Refugiou-se com os seus parentes mais próximos e a sua família no Cuamato Pequeno, vivendo ao tempo do desastre de 1904 muito próximo do vau do Pembe onde tinha a sua libata; ultimamente, sendo também perseguido pelo povo entre quem procurara asylo, abandonou o paiz e partiu para os lados do Cuanhama, onde também não o deixaram em socego. De modo que se decidiu a passar para o Humbe. Quando punha em pratica esta ideia, os seus inimigos, que talvez antevissem um perigo para elles na deserção de Calipalula, procuraram oppôr-se-lhe, mas já não foram a tempo. Encontrando-o a caminho do Humbe já muito próximo do Cunene, não conseguiram alcançal-o senão com dois tiros, que não impediram que o perseguido passasse o rio, mesmo ferido, e procurasse novo refugio na libata próxima de um seu amigo. Comtudo os ferimentos que recebeu eram graves e a cura d'elles demorada. Isto passava-se no anno de 1907 ao mesmo tempo que no Lubango se organisava a columna expedicioná-ria. O tenente-coronel Luna de Carvalho, muito conhecedor d'aquellas regiões e dos seus habitantes, tendo conhecimento d'esses factos, logo viu o proveito que podia tirar d'elles em favor da columna expedicionária, offerecendo-lhe um guia na pessoa do refugiado do Cuamato. Procurou logo informar-se do estado d'elle e da sua situação, fornecendo-lhe os primeiros recursos para a cura. E quando, pouco depois, chegou ao Humbe o chefe do estado maior da columna, pol-o ao facto da sua descoberta. O capitão Eduardo Marques, vendo apparecer aquella luminosa estrella do oriente no ceu mysterioso do Cuamato, para onde tínhamos em breve 23o de caminhar, nao perdeu um só momento. Correu logo ao seu encontro; fallou-lhe, informou-se, registou as suas palavras e traçou as suas indicações preciosas. Demoradamente, minuciosamente, para mais tarde poder tirar d'cllas, em presença dos factos que se fossem passando, as necessárias illações. Mandou tratar com carinho e amor do precioso ferido, que jazia ainda, incapaz de se mexer, sobre as palhas de uma libata infecta. Mandou transportai- o para o Humbe, encarregou peritos de cuidarem d'elle com interesse; curaram-no em  ppouco tempo. E Calipalula, a 26 de agosto, tomou, como sabemos, o seu logar de guia da columna. Como este homem se desempenhou do cargo que a si próprio impoz, temol-o visto pelo decorrer dos acontecimentos. Foi um guia, antes de tudo, leal, que nos levou pelo caminho mais curto, provido de agua, até aos pontos que pretendíamos alcançar. Em segundo logar, á medida que foi ganhando entre nós animosa confiança pelo exemplo do nosso procedimento de que admirava e apreciava os menores actos, era-nos verdadeiramente affeiçoado: contente e radiante quando nos via alegres, entristecido quando nos via pesarosos; e a sua dedicação, de que tem continuado a dar provas no Cuamato durante os últimos tempos, não tinha limites. Calipalula era estimado entre os officiaes pelas suas qualidades de intelligencia e argúcia, de que dava a cada passo provas, e pela facilidade com que acceitava e se accommodava aos nossos hábitos, parecendo extraordinário que, tendo elle vivido sempre no meio de um povo selvagem, desconhecendo os costumes euro- peus, a elles se adaptasse com tanta facilidade. Por isso, se por um lado o seu despeito para com os conterrâneos que o haviam perseguido, despeito que o lançara no caminho das represálias, era censurável, a sua culpa foi largamente redimida, pelo menos entre nós, pelas suas qualidades de gratidão e de lealdade aíi para
comnosco e pela intelligencia com que compre- henderia os benéficos resultados da nossa intervenção. Calipalula, sem dar exemplos de coragem a ninguém, como já ouvi dizer levianamente algures, nunca se mostrou receíoso do perigo, provou que era destemido combatendo, quando, na sortida de Aucongo a 28 de setembro, teve que se bater com alguns dos seus patrícios,  ficando ferido; e mais tarde, cm outro ^combate, foi novamente ferido. Os primeiros apresentados Por iodas estas razões era justo que, em premio do grande serviço que elle prestara da columna, Calipalula fosse investido no sobado, tanto mais que, sendo elle fidalgo da terra, ou parente dos sobas, o que é o mesmo, esta qualidade o punha nas circumstancias de receber a investidura segundo as próprias regras e pre- ceitos gentílicos. Assim lhe estava promettido e assim se ía fazer em Naloeque, já que a embala de Mogogo fora encontrada destruída.  Para isto tudo se estava preparando em Naloeque, com grande regosijo de Calipalula, que
exultava de contentamento c fazia os maiores protestos de reconhecimento e incondicional submissão ao governo. Tomaram-se medidas attinentes a conservar intacta a embala, livre do furor destruidor dos auxiliares indi- 232 gerias, que a tudo pretendiam lançar a mão. Consultá-ra-se Calipalula sobre a construcção do posto militar junto á embala: se o desejava ali ou se preferia que elle fosse estabelecido mais longe, em qualquer outro ponto favorável. Calipalula preferia o posto perto de si, para lá ter a dita do convívio do senhor commandante, porque, já agora, parecia-lhe impossível viver bem, longe dos brancos. Protestava conformar-se gostosamente com as ins- trucções e ordens que d'elle recebesse e affirmava que n'aquelle paiz haviam de terminar de vez os costumes bárbaros, o sacrifício de creaturas humanas nas varias ceremonias de caracter politico ou religioso, em que era uso immolar gente; e ao mesmo tempo affirmava . que terminariam lá os roubos á mão armada entre o povo, que o commercio seria exercido com liberdade, quer entre elles, quer pelos brancos que lá quizessem ir. De resto ali ficavam as forcas destacadas da columna vencedora, para garantirem a execução d'este program- ma. O povo entregaria as armas a pouco e pouco, ficando apenas alguns dos mais importantes da terra com as suas; entregar-se-ia o gado que o governo indicasse para indemni-
sação das despezas da guerra ; e todo o povo prestaria o seu trabalho pessoal quando o governo d'elle carecesse. Comtudo, uma ceremonia havia de que não se podia prescindir para assegurar a
auctoridade d'elle, Calipalula. Eram as festas gentílicas da investidura, que ha- viam de fazer-se ao modo da terra, para que a sua au- ctoridade fosse acatada. Não era preciso realisal-as já. Convinha addial-as para mais tarde, quando toda a gente do paiz estivesse socegada e tivessem voltado todos aos seus lares. Todavia promettia que não se fariam durante ellas sacrifícios humanos. Quando estes cálculos eram feitos, já se tinham apresentado muitos cuamatos, e dia a dia continuavam a apresentar-se mais, vindo cada grupo acompanhado de um presente de gado. O batuque continuava a tocar-se á porta da embala; Calipalula, que deixara de parlamentar desde a primeira vez em que fora ouvido e obtivera resposta, o que aconteceu logo no dia da nossa chegada ali, recebia agora i gente no pateo da entrada da embala e recebia-a solemne e gravemente, jã conscio da sua auctoridade, mostrando para com cila, na atti^^Pi^B tuas e nas falias, modos soberanos. Parecia que todos acatavam com o maior respeito a sua pessoa. A gente do Cuamato accorría cada vez mais a chamada do batuque, estabelecido ti idos os dias á porta da embala, e não entrava n'esta sem o cere- monial que era de uso fazer-se sempre, nos dias das grandes solemnidades, quando os prin- cípaes chefes se reuniam com a sua gente na residência do soba. Assim, caminhavam em pequenos grupos até perto da embala e ali paravam, assentavam-se de cócoras e aguardavam que o homem encarregado de bater o batuque também  uma espécie de tambor feito de um tronco perfurado, como a cua, mas tocado de modo differente lhes fizesse signal de chamada, por certas pancadas especíaes. Então approsimavam-se da entrada, cada um como seu po linho, que era indispensável trazerem, e postavam-se na frente do batuque, constantemenle tangido. IVliIi avançavam até junto d'elle, soltavam alguns grilos batendo com a mão na bocca, afastavam-se e repetiam itllfillulíl 234 estas mesuras três vezes. Da ultima vez terminavam por lançar os porrinhos no chão em signal de submissão. Retomavam os porrinhos e entravam então na embala, em fila, uns atraz dos outros; emquanto que um dos seus servos conduzia o gado para um logar reservado. Todos penetravam no pateo, onde os aguardava Calipalula, deante de quem repetiamas mesmas manifes- tações de submissão. Calipalula conversava com elles no grande pateo, expunhalhes as suas opiniões sobre os últimos suecessos, ordenava-lhes obediência ao Mueneputo, o branco agora senhor das terras e que ia exercer n'ellas a sua auetori- dade. Fallava a muitos com sobranceria e a outros diri- gia reprimendas; entrava emfim no exercício do seu papel. Depois de alguma demora, esta gente rctirava-se para dar logar a outros que vinham e repetiam a Ca- lipalula iguaes protestos de submissão, despedindo-se todos com a promessa de voltarem no (lia da sua in- vestidura no sobado e affirmando que por todo o paiz espalhariam a fama do nosso generoso procedimento para com elles, pobres creaturas que haviam sido arras- tadas á guerra pelo soba fugido. De facto, no  dia aprasado, juntou-se na embala e nas suas proximidades grande quantidade de cuama- tos, tudo homens validos, cujo numero eu talvez não exagere avaliando em um milhar. Ia por todo o
acampamento, fora do quadrado, um grande movimento de gentio que, sendo os nossos inimigos
de hontem, agora quasi confraternisavam com os nossos soldados, admi- rando socegadamente
a grande machina humana que os levara de vencida e os seus engenhos poderosos, taes como
eram as peças, entre tudo dignas de admi- ração para elles. Aquella pobre gente estava pasmada da nossa clemência. Era a primeira vez que viam fazer a guerra assim ! Era a primeira vez que se viam generosamente poupados, depois de cruzarem os braços e de deporem 235 as armas, vencidos. Nem uma só libata arrazada, nem os seus armazéns de mantimentos saqueados, nem os seus gados procurados ! Então os brancos eram inimigos muito diversos do que elles imaginavam! Talvez fossem mesmo amigos, como se incalculavam ! Era necessário darem a mão á palmatória e submetterem-se incondicionalmente. Assim o principiavam fazendo n'aquelles dias, e assim o continuaram a fazer depois, cada vez mais confiados. Entretanto, no bivaque, dava-sc a ordem de forma- tura para aquelle dia (creio que 8 de outubro) á uma hora da tarde, afim de a columna assistir com pompa á imposição da bandeira na embala e á sua entrega a Calipalula, deante de toda aquella gente reunida. Era um acto
a que o commandante Roçadas queria justa- mente imprimir toda a solemnidade e para esse  fim já ali estava a bandeira, hasteada numa das lanças do valoroso 2.° esquadrão de dragões. De repente ouviu-se a detonação de um tiro, vinda de dentro da embala. Corremos para lá. Calipalula, n'um lago de sangue, com os queixos di- lacerados, jazia estendido no chão, amparado por seu sobrinho Samuel. A principio julgamos que alguém do Cuamato o tivesse  assassinado. Não fora isso. Calipalula, no meio de toda aquella gente, momen- tos antes de ser investido na auetoridade que tanto am- bicionou, tomara uma espingarda e tentara acabar com a vida. Impedira-o de disparar segundo tiro o sobrinho, que estava a seu lado.


Porque procedera assim o guia ? Disse-se que um dos nossos auxiliares indígenas o convencera de que nós estávamos preparando todo aquelle apparato para lhe mandarmos cortar a cabeça deante de toda aquella gente, agora que já não precisávamos d'elle. Ora Calipalula, durante todo o tempo que comnosco passou, deu mostras de sufficiente intelligcncia para admittirmos que desse credito a uma tal insinuação, sem primeiro fallar com o commandante, que sempre o tratara com affectuoso cuidado, e em quem elle parecia muito confiar. O auxiliar a quem se attribui essa insinuação malvada foi preso no mesmo dia, mas conseguiu escapar-se de noite. A versão que me parece mais plausível a respeito deste caso, que impressionou muita gente na columna, foi outra que correu também n'esse momento. Calipalula eminentemente supersticioso como toda esta gente é, teria sido mal recebido por parte do povo, talvez a de mais peso no paiz; estes, ou por gestos ou pela voz de algum dos seus feiticeiros, ter-lhe-iam feito ver que, partindo a columna, a sua vida não estava segura (e os que entre o gentio teem aquella profissão sabem bem liquidar uma existência sem rumor). De modo que o antigo guia e futuro soba, apprehensivo e desgostoso, teria feito por suas próprias mãos aquillo que mais tarde suppunha não poder evitar — a vingança dos seus patrícios. Assim, Calipalula encontrou em Naloeque, em vez de um throno que ambicionava, a morte que o perseguia. Salvamal-o desta, sem o restaurarmos naquelle
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XIY — O FIM


Talvez tenha merecido reparo o facto de se haver fallado tanto de Calipalula que, apesar da sua qualidade de pessoa importante no Cuamato, não passava de um simples guia, como os que sempre ha a tomar em território inimigo pouco conhecido. Porém esta figura de Calipalula teve tanta importância na campanha e durante cila tanto prendeu as nossas attenções: quer por ser o primeiro individuo que conhecemos do pais que iamos bater e o único com quem tratamos quasi até ao fim da lueta; quer por ter tão capital importância para o êxito das operações a sua presença numa columna que ia atravessar um paiz apenas conhecido por vagas in- formações; quer pelo desenlace sensacional que teve o seu papel, que eu não resisti ao desejo de pormenorisar a sua historia. O guia foi logo retirado para a ambulância, onde recebeu promptamente os primeiro soccorros médicos. Tinha o maxilar inferior completamente dilacerado, e á tarde foi demoradamente operado pelo doutor Fonseca Costa, que ficou com esperanças de o salvar. Entretanto, logo apoz esta tentativa de suicídio, a maior parte d'aquella gente do Cuamato que ali aguardava a ceremonia da investidura de Calipalula no sobado, principiou a debandar: uns tristes e pensativos, outros 240 indifferentes, muitos com um grande ar de satisfação, trocando todos entre si commentarios em voz baixa. O commandante, que via n'aquelle êxodo talvez o o risco eminente de caírem por terra todos os seus planos de occupação pacifica da região com o assentimento e o auxilio do próprio povo, risco que convinha evitar a todo transe, mandou propôr-lhes a nomeação de Samuel, o sobrinho de Calipalula, para soba. Esta proposta não foi porém bem recebido, antes pareceu augmentar o descontentamento entre elles. Então facultou-se-lhes a escolha de um soba de seu agrado e esta decisão mudou a face dos acontecimentos, muita gente da que saía retrocedeu e em todos transpareceram signaes evidentes de alegria. Como já se tinham retirado muitos dos principaes chefes da terra, declararam os presentes que precisavam consulta-los a todos e que por isso só no dia immediato poderiam dar a sua resposta, e com ella apresentar o individuo de sua eleição para o sobado, porque com certeza esta nova generosidade de Mueneputo deixaria a todos satisfeitos e contentes na terra. Assim foi. Logo no dia immediato foi apresentado ao commandante o novo soba, Popiene, escolhido pelas principaes personagens que se tinham apresentado do Cuamato Grande, e logo se tomaram as medidas necessárias para que a este fosse dada posse da embala, o que aconteceu dois dias depois. Não se realisou, todavia, a parada solemne qued'antes estava preparada, nem o acto teve aquella imponência que a principio se pretendeu dar-lhe. Todos ficaram contrariados com o caso acontecido a  Calipalula, e sem enthusiasmo para outras festas. Por isso se limitou o ceremonial a
lavrar-se um auto de vassallagem, nos termos em que estes são ordinariamente feitos, consignando as obrigações do novo soba para com os representantes do governo, os direitos com que ficava á nossa protecção nas suas relações com os povos visinhos, e os deveres da sua condueta no exercício do seu cargo. Entregou-se-lhe também a bandeira nacional, que respeitaria e faria respeitar pelo povo do Cuamato. As clausulas do auto, lidas e explicadas perante todo o gentio ali reunido, foram de boamente acceites e acompanhadas de vivos protestos de annuencia; por ultimo foi o auto assinado pelas partes contractanies e por todos os officiaes da columna e principaes auxiliares que ali
se apresentaram para assistir ao acto.
cont...
Este Texto doi retirado do livro
"A campanha do Cuamato em 1907: breve narrativa acompanhada de photographias"


Para mais onformações, ver também:
http://www.revistamilitar.pt/artigo.php?art_id=591
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