Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Fauna no Sul de Angola conforme relatório do governador de distrito da Huila (1908-1910), João de Almeida

 

Fauna

Na zona do litoral, a não ser nas margens dos rios e dambas, pode dizer-se, não ha vida animal, devido á sua grande aridez; e o Zebras único animal que caracteriza esta região, é uma cobra branca, pequena, mas venenosa. Perto dos povoados vagueia a quimalanca (hyena fusca). Na faixa contigua dos cursos inferiores dos rios abundam os antílopes 


Primeira exposição districtal em 1910
Gado caprino — Um 1. premio — cabra das pedras (que passa por não beber agua), gazellas, alguns macacos e no Curoca e Cunene aparece o cínocephalo, o moloque, talvez o gnutte das pedras. Para o sul aparece também o leão. Entre as aves ha mais variedade, aparecendo os patos, pernaltas, garças, flamingos, pelicanos, rolas, milhafres, cor- vos, etc.

Na zona contigua à Chella a vida centuplica-se, abundando mais o leão, o leopardo; e para Sul do Béro, a zebra das pedras, o elephante — do Curoca ao Cunene — , bambis, e muita outra caça grossa. As aves são talvez menos variadas que em muitos pontos da zona do litoral junto dos rios, mas abundam extraordinaria- mente as rolas, perdizes, galos das pedras, pintadas, tuas — espécie de perus — , águias, abetardas, andorinhas de côr de tijolo, pássaros a^ues, etc. Aparece grande variedade de reptis: cobras venenosas e grandes lagartos de varias côres.
Entre os insectos ha uma variedade infinda, não esquecendo a mosca do gado, terrível, e nas baixas dos rios, especialmente nos afluentes do Giraul e Béro, os mosquitos culex e anaphelios que originam a malária. Abunda também o salalé que destroe as construções, as culturas, e ataca mesmo muitas arvores. Ratos de cauda trepadores das arvores, e variedades de macacos desde o sagui pequeno até ao grande, negro. Na vertente da Chella, a caça desaparece e apenas abunda muita variedade de pássaros de variegadas côres, muito lindos, as águias e abetardas, e muitos saurios e ophideos, arachnidios e um dourado que, talvez, conviesse explorar para cultura da seda. Os macacos abundam sempre onde ha fructos.

No planalto, nas zonas ha- bitadas pelos brancos, a caça grossa desaparece quasi de todo. Apenas alguns bambis, porcos ou cabras, ainda existem, e já raras vezes aparece o leão e o leopardo. Abunda a hyena, a onça e o cão de matto-molôsso. Entre as aves abundam muito, especialmente, as de pequeno tamanho e variada plumagem, desde a rola e perdiz, á linda viuva de 4 


Primeira exposição districtal Gado lanígero

 — Um carneiro de quatro chifres 5o Cabra das pedras comprida cauda, aos gallos do matto e aos milhafres; abundam também as rãs, sapos,, as cobras pythons e outras espécies, todas mais ou menos venenosas, variedades de lagartos, escorpiões, etc. Não há amphibios. Nos rios ha variedades de peixes, bagres, teinhas, etc. Nalguns annos aparecem os gafanhotos, oriundos das faldas da serra, margens da Béro e Curoca, devastando por completo todas as culturas. Para sul de Vana-Velombe e norte da Mupaca, abunda muito a caça grossa, zebras, palancas, cabras, etc. Entre os habitantes ha todos os animaes do- mésticos, desde os de simples regalo aos indispensá- veis ao trabalho.

 Descendo a vertente interior da Chella, a fauna augmenta em variedade de exemplares até nos aproximarmos do Cunene. O elephante abunda nas mattas da Cahama ao Capelongo e do Quipungo ao Cafu,. assim como na zona meridional da Chella, do Otchinjau ao Cunene. Para oeste da Dongoena, até aos rios Cacuio e vertente oeste da Chella, aparece também em grande abundância o avestruz assim como a caça grossa, zebra, pacaça, palanca, girafa, ja- vali, etc. Em toda a região, da Chella ao Cunene, abunda o lobo, hyena, chacal, puabus, o leão, especialmente na região leste de Quipungo, gazellas, bambis, javalis e orlongos. As aves escasseiam nesta região, em- quanto são abundantes no valle do Caculovar e muito mais no Cunene. E' sem duvida a região do Humbe e a das margens do Cunene, do Capelongo á Dongoena, espe- cialmente do Quitêve á fóz do Caculovar, a mais rica em animaes alados. Alli abunda toda a . variedade de patos, umas 2 3 variedades, desde os marrecos, pequeninos patos aveludados até aos ganços, blandiras, elegantes pernaltas, como a tua, o secretario, a janda, a panda (grus carunculata), corvos de peito branco, anduas, gan- gas, águias e grande quantidade de pássaros pequenos de linda plumagem, como pombos verdes, periquitos, viuvas, peito celeste, bico de lacre, cardeaes. As pintadas, rolas, perdizes, gallos, etc, abundam por toda a parte.

 No Humbe abundam os periquitos verdes, muito ruidosos, aos bandos, vivendo no telhado das casas. Entre os saurios, lagartos variados, a linguana (varaims arenariosj de côr verde-negra com um metro e meio de comprimento, o crocodillo, abundan- tíssimo em todas as aguas fundas e pa- radas dos rios, lagoas e mulolas, chegando a atingir cinco metros de comprimento e mais, o sengue, que caça os ovos do jacaré, desenterrando-os da areia ; nos ophidios, grande variedade de cobras, algumas venenosas, como a cuspideira e outras.

No Cunene consta haver uma cobra d'agua negra, que attinge vários metros de compri- mento, mas nunca tivemos occasião de a observar. No Cunene ha o cavallo marinho ou hypopotamo. Um avestruz domesticado 5i Boi do matto Como peixes o bagre existe em todas as aguas; e nos fundões do Caculovar e no curso do Cunene, variedade de peixes de escama, que os indigenas pescam de agosto a novembro com uns funis de verga, espécie de galripos, emquanto o pequeno é agarrado em sebes cravadas transversalmente ás margens dos rios, nas depressões das mulolas, contra as quaes é arrastado pelas cor- rentes das chuvas. Os indigenas caçam pouco, e empregam a espingarda caçadeira ordinária e mais geralmente a armadilha. Para os pássaros empregam a „, flecha ou o próprio purrinho. Resta-nos indicar como existindo até ás margens do Cunene os molluscos gastrópodes, kagados — estes são grandes e andam mesmo pelo meio das mattas — , morcegos, muita variedade de formigas e entre ellas o salalé, moscas e mosquitos — culex e anophelis, na proximidade de algumas lagoas e mulolas — , gafanhotos, cigarras, abelhas, borboletas, ara- cnidios, myriapodes, etc.

Para além Cunene estes animaes vão rareando, especialmente as aves e os saurios, dominando o aves- truz e aves de rapina, e augmenta extraordinaria- mente a caça grossa nas grandes mattas e chanas onde tem magnificas pastagens, sendo caracterizada toda a zona do Capelango ao Umbalé e do Cunene ao Cubango fóra dos centros povoados pelo elephante que vive em manadas, girafas, gungas, enorme boi de matto, reed-buck, waterbuk, krin-kaf, burro enorme, o rinoceronte, etc. Em compensação os carnívoros abundam também muito, como os leões, leopardos, hyenas, chacaes, lobos, etc. Em todos os rios, lagoas e mulolas que com elles communicam ha peixes, especialmente ba- gres, que chegam a attingir mais de um metro de comprimento e são apanhados a cacete no lôdo dos pântanos. Como regra geral em todas as aguas fundas e permanentes abunda o crocodilo. No Cuvelay ha o cavallo marinho. Se a caça grossa é abundante nas exten- sas regiões do Ochitanda, Cuvelay, Tchimporo, etc, onde raras vezes os caçadores a vão perseguir, nas extensas zonas marginaes do Cubango e do Cuito, entre estes rios e os seus affluentes nos cursos inferiores, na bacia do Luiana e do baixo Cuando, a riqueza da vida animal excede tudo quanto se pôde imaginar. As palancas, os bambis, os guelengues, os búfalos, as cabras, os elephantes, tudo vive em grandes manadas. Extensos e verdejantes prados dão alimento a numerosos rebanhos e a que nada impede a pocreação, a não serem os carnívoros. E estes, como as suas victimas, andam também em grupos, gordos e anafados. Por mais de uma vez tivemos occasião de atravessar manadas de palancas, pacaças e bufa-Palanca 52 los, sem manifestarem o menor receio, assim como passarem por nós, em passo lento, de dia, bellos exemplares de leões ( i ).

Todos os animaes que habitam a região do Cunene ali se encontram largamente representados. E em toda essa vasta região da de- pressão central a mesma constância que já notámos na orographia, na constituição do sólo e na própria flora, se nota também na fauna. E apenas uma ou outra espécie tem seu habitat mais particular. Assim o elephante vive de preferencia nas grandes mattas cerradas de espinheiros, das margens do Cubango, da confluência do Umbaé para sul, no baixo Cuito, nos territórios dentre este rio e o Luiana e margem direita do Guando. O avestruz vive nas margens do Cubango do Dondi para jusante e nos territórios deste rio ás nascentes de Luiana. As manadas de búfalos abundam mais nas margens do baixo Cuito, afluentes do Luiana e da margem di- reita do Guando. O rinoceronte vive solitário nas mattas da Gatíma e Ghimporo, bem como nas inter- fluviaes do Gubango ao Guando, na zona sul. As girafas estão mais largamente espalhadas, attingindo a zona do norte, nos cursos médios das linhas d'agua. O cavallo marinho é muito mais frequente no Gubango e Guito do que no Gunene, onde está quasi extincto, assim como em todos os outros grandes rios. O crocodilo abunda menos nestes rios, especialmente nos troços com fundos de rocha e faha de areia tão essencial á reprodução destes animaes, onde enterram os ovos para chocar. No curso médio do Cuito e Guando e nas campinas marginaes d'algum dos seus afluentes, existem os bissus, capadgis e as cabras dos pântanos. Estas apa- recem também no baixo Gubango e baixo Guito. Nos terrenos arenosos do rio Lomba aparece também uma cobra branca, venenosa, similhante á dos desertos arenosos de Mossamedes. Característica do Baixo Cuito e do Guando e dos seus afluentes da margem direita é a cabra d'agua, de pêlo cinzento, comprido, e de vida similhante á do hypopotamo. Gunga-Eland M'pala (macho) (i) Quando fomos reconhecer o Cuito e retirávamos do mesmo, vindo apenas quatro pessoas. 53 Capadjí — Cabra dos pântanos Pasta nas chanas e ao menor signal de perigo, muito timida, corre a mergulhar na agua, permanecendo largo tempo nos fundões; quando vem acima respirar dá uns assobios muito agudos. Entre as aves encon-tram-se também as pernaltas e as palmipedes não em tanta variedade como no Cunene, mas em grande abundância as de rapina e próprias dos pântanos. No baixo Gubango encontra-se também a pôpa, perfeitamente simiihante á da Europa. As aves canoras escasseiam bastante. O salalé abunda também muito, levantando altos montes de terra, especialmente nas chanas onde pre- domina a argila. Nos terrenos arenosos raras vezes aparece. Ha bastantes mosquitos, culex e anophelis, nos terrenos pantanosos, e uns muito pequeninos, característicos das mattas de mupandas em terrenos arenosos que incomodam extraordinariamente os viandantes e os animaes. Nunca encontramos a tzé-tzé, nem nos consta que exista, a não ser nas regiões dalém Guando.

Nas grandes florestas e altos capins das cha- nas marginaes abundam as grandes serpentes; e nos rios, segundo informação dos indígenas, abundam muito umas cobras pretas, grossas e muito compridas, que já dissemos existirem no Cunene, mas que nunca tivemos occasião de vêr. Todos os rios são abundantes em peixe, bagres, cacussos, uma espécie de pargo, e tainhas, de que os indígenas ribeirinhos fazem largas provisões, seccando-os ao sol e guardando-os em quinbunclos. O peixe, a cebollinha silvestre arrancada nas chanas, o nucibe e algum massango, constituem a reserva alimentar dos indígenas das regiões alagadiças na época das grandes cheias. Bambi Caama (antilopei 54 



https://archive.org/details/suldangolarelatr00alme

Sul d'Angola; relatório de um govêrno de distrito (1908-1910)


Published 1912

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