Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 12 de dezembro de 2015

Cuisses-Tua. Que povo é esse que acolheu no seu seio "o branco da casa de barro"?






 
Os Cuissi-Tua,  conhecidos também por Mu-tuas e o "branco da casa de barro"
 

Que povo é este?


Em finais do século XIX,  as terras entre a Baía dos Tigres e Oncócua, onde as distâncias eram enormes e o acesso difícil, eram pouco conhecidas dos portugueses , e foi no primeiro quartel do século XX que a atracção pela caça levou até elas os primeiros brancos, num tempo em que o acesso se fazia através de picadas  improvisadas,  nos transportes existentes que exigiam do condutor grande perícia, já que cada digressão se transformava numa verdadeira aventura.  Água, gasolina, rancho, peças sobressalentes, prontos socorros, que incluíam quinino, soro antídoto, etc, eram condições sem as quais nenhuma viagem se podia fazer. E como não havia hipótese de, a partir do deserto, comunicar com as família, convinha não exceder o tempo programado para não as atormentar, se o regresso tardasse. E o mesmo em relação à durabilidade dos mantimentos. As dificuldades eram tantas que poucos caçadores  se aventuravam a penetrar em terras do Iona, excepto uma elite de verdadeiros profissionais, bem conhecida em Moçâmedes, que dispunham de tempo e possibilidades financeiras pata tal,  entre os quais, Vasco Ferreira, Teodósio Cabral, Tito Beires de Gouveia, Matos Mendes, e poucos mais. Por vezes aderiam à aventura um ou outro administrativo interessado em conhecer melhor a área da sua jurisdição, mas era raro que tal acontecesse.

O traçado da primeira picada para transportes rodoviários entre Moçâmedes, a foz do Cunene  e a Baía dos Tigres, atravessando terras do Iona, foi feito apenas em 1928, por uma missão chefiada por Bobela da Mota, mas o trabalho era dirigido apenas para o terreno mais aconselhável, e só mais tarde a referida picada foi seguida e corrigida, em parte, por uma outra missão chefiada pelo Administrador Cid, de Porto Alexandre, conforme consta em relatório nos Annais Pecuários de Angola, de 1930.



Alfredo Bobela da Mota, jornalista e poeta
 1905 (f. 1978)




 A sul e sudoeste do Iona (1) encontram-se vários maciços montanhosos. entre quais o  Tchamalinde, um dos mais propalados pela imprensa na década de 1960  por terem sido observados fenómenos sísmicos naquela região. A imprensa chegou mesmo a difundir a ideia de um vulcão no Iona, mas acabou desmentindo.  Aconteciam de facto desabamentos de rocha que se desprendiam das escarpas e dos picos  e se despenhavam a centenas de metros nas gargantas e vales, seguidos de estrondoso ruído. A imprensa também noticiou  a inacessibilidade do maciço de Tchamalinde, em alguns pontos extremamente perigosos, e noutros impossível de transpôr.  Era pois difícil a penetração nestas regiões montanhosas, que apenas nas últimas décadas da colonização foram penetradas por uma ou outra autoridade, por algum caçador atraído pela abundância de elefantes, rinos e outras espécies.(2)

Mas para além destes fenómenos Tchamalinde foi de facto amplamente noticiado na imprensa, em Angola,  pela inacessibilidade do maciço, tido como perigoso em alguns pontos, e noutros, por ser impossível de transpôr. Dizia-se também que os habitantes dessas serranias eram pigmeus, gente de pequena estatura, mas este dito acabou também desmentido. 


Na verdade o povo negro que habitava as serranias de Tchamalinde, do sub-grupo dos Cuissi-Tua, era de estatura pouco desenvolvida dada as suas condições de suas vidas, pois viviam como se vivia na Idade da Pedra.

 

Caçador e Pigmeus
Cuisses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis) no Deserto do Namibe e Huila. ICTT

 
 Cuisses



Desconhece-se a existência de quaisquer referências a este povo, em relatos efectuados por exploradores ou viajantes no decurso dos tempos, o que talvez encontre justificação no isolamento em que viviam, evitando todo o tipo de convívio com povos de outras etnias,  e mais ainda com europeus.  Encontra-se, nos Annaes do Município de Moçâmedes, transcritos nos do Conselho Ultramarino (1839/1849), a seguinte anotação:

«Na costa ao Norte e Sul desta Vila, diz o cronista, encontram-se os Mucuissos, que é uma raça de gentio nómada, que se supõe provir da nação mecuando, que demora ao sul de Dombe, num lugar chamado Munda dos Huambo. Vagueiam pelas pedras e rochedos da costa em pequeno número, sustentando-se de mariscos e de peixe que, industriosamente, colhem com pregos, ou qualquer bocado de ferro, à falta de anzol, não fazendo parada certa nem demorada em parte alguma, sendo bastante tratáveis.»

A ausência de referências aos Cuísses pode justificar-se também pela rejeição daquela denominação pelo grupo "Cuandos" ou "Cuambúndios", vocábulos etnonímicos que surgem referidos nos finais do século XVIII, num mapa de Pinheiro Furtado. Porém, é interessante notar que a designação "Mucuíxes" surge também, referindo um agregado etno-linguístico, no mesmo mapa.
  
 Segundo o Pe. Carlos Estermann,  in "Os Povos Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós", eram Vátuas do sul de Angola, conhecidos também por Mu-tuas pelas tribos vizinhas, designação que eles próprios aceitavam, embora depreciativa. Eram os mais antigos habitantes de "raça" negra classificada no tempo colonial, faziam parte do sub-grupo não banto, dessas vastas regiões que se estendem ao distrito Moçâmedes, desde o Cunene à serra da Neve, já a entrar pelo Distrito de Benguela. Eles assistiram à chegada, há mais de 400 anos, de um povo vindo do norte, pastores criadores de gado, do grupo etnolinguístico banto, que ocupou todas as terras onde era possível a pastorícia para as suas manadas. 
Redinha refere também que a designação Cuissi lhes é atribuída por povos vizinhos envolvendo uma conotação pejorativa, e que os próprios Cuissis atribuem a si mesmos a designação Ova-mbundia ou Ova-Kwandu, e teriam adoptado a língua dos Cuvales, do grupo Herero, de quem se tornaram escravos.  
A generalidade dos autores situam os Cuísses como fazendo parte dos povos negros não banto que já se encontravam no território ocupado por Angola, quando os invasores banto o penetraram e  avançaram para o Sul,  onde chegaram no século XVI, estendendo-se até às proximidades do Cunene, tendo um número elevado atravessado a correnteza, fixando-se nas paragens áridas do Norte da Namíbia (antigo Sudoeste Africano, colónia alemã).

Entre esses povos invasores, contam-se os Chimbas, que obrigaram os Cuisses-Tua, para fugirem à escravidão, a se refugiarem nas  serranias vizinhas, tal como acontecera aos seus irmãos de "raça",(3),  em regiões mais a norte. Os Cuísses, que reconheciam essa superioridade, isolavam-se também das restantes etnias em zonas geográficas bem definidas, no interior do Deserto do Namibe, que constituíam o seu habitat e o limite para a sua vida errante e bem adaptada às condições climatéricas daquele deserto. 
Os Chimbas eram um povo mais evoluído e poderoso, e tinham pelos Cuisses uma repugnância atroz.  Quer os Chimbas quer os Cuissis-Tuas, viviam num lado e outro das margens do Cunene,  mas com maior preponderância os primeiros. Os Chimbas viviam mais na anhara e na encosta da serrania.  Os Cuissi-Tua viviam na montanha. São povos que não respeitavam nacionalidades, rejeitavam leis e conceitos como cidadania, que implicava o pagamento de impostos, desconheciam a identificação, desdenhavam a civilização ocidental,  contavam o tempo pelas cheias dos rios, pelas luas e pelas chuvas, não conheciam o relógio, nem o calendário. Alguns Chimbas aproximavam-se dos europeus mas não abandonavam nunca seus usos e costumes. O homem da montanha vivia ainda em estado primitivo, e muitos nunca tinham visto um branco, desconheciam o dinheiro e o mais elementar principio da civilização.  Foram sempre inacessíveis  à acção dos missionários, adoravam a liberdade, gostavam de ter várias mulheres e de viver a seu modo.

O nome deste povo surge intimamente ligado ao Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchidundulo, local por eles venerado.

Mas passemos a descrever a odisseia do homem branco que se refugiou no seio dos Cuissi-Tua,  conhecidos também por Mu-tuas, o "branco da casa de barro".
 


 
 
             Chimbas no Deserto do Namibe. Foto de Elmano Cunha e Costa ICCT (1935-1939)


Foto:  Tito Beires de Gouveia (pai), pessoa muito conhecida e estimada em Moçâmedes, posa para a posteridade nos rochedos de Tchamalinde (?), tendo à sua esq. um autóctone da região

Tchamalinde.  Do livro Angola: Dever de Memória


"O fugitivo do Iona"


Cecílio Moreira relata no seu livro "Baía dos Tigres", Cap XIV, sob o título "O fugitivo do Iona", que em 1934 as autoridades tiveram conhecimento que ali, nos penhascos de Tchamalinde, vivia clandestinamente, um branco estrangeiro cuja identidade e actividades eram desconhecidas,  e foram levadas a tomar as precauções necessárias, no posto administrativo do Parque Nacional de Caça Iona, para esclarecimento do que efectivamente a passava.




Por se tratar de uma região abundante em caça e espécies raras,  a  dada altura, naquele mesmo ano, um funcionário administrativo de nome Bartolomeu de Paiva, juntamente com o caçador Teodósio Cabral  e mais dois europeus, enquanto exploravam junto do Cambeno, encontraram um estrangeiro clandestino que estava transformado num verdadeiro "homem da selva", com hábitos e costumes dos Mu-tuas, que haviam consentido que ele vivesse no seio da sua tribo, onde se manteve acompanhado de uma  mestiça, que lhe dera uma menina de olhos azuis e cabelos louros.  Seu nome era Daniel Dixon. Tinha fugido  às leis do seu país para não ser condenado por uma falta que cometera, preferindo afastar-se da civilização e ali viver no seio daquela tribo, onde se manteve por longos 11 anos. Dixon fora funcionário no Sudoeste Africano, talvez súbdito britânico, e no decurso da sua vida em meio àquela tribo, tornara-se admirado e querido.


Bartolomeu de Paiva e o caçador Teodósio Cabral ficaram impressionados ao verem aquele homem levando o tipo de vida  da selva, no  seio daquela tribo primitiva, dispondo apenas de uma casa rudimentar, feita de pedra e barro , embrenhado numa agricultura rudimentar que não era mais que um ténue sinal de civilização. Era conhecido na tribo pelo "branco da casa de barro", e acabou por se naturalizar português com nome de Dixon Ferreira.

O conhecido caçador Vasco Ferreira, de Moçâmedes, que pertencia a uma família  ligada a empresas agrícolas e comerciais,  tornou-se amigo de Dixon,  desde que ele fora descoberto, após ter descido a montanha. Teria  sido essa amizade que levou Daniel Dixon  a adoptar o nome e apelido Dixon Ferreira?  

Cecilio Moreira procurou saber a verdade sobre o caso do "branco da casa de barro",  o que o levara de facto a fugir para ali,  palmilhando mais de 2.500  quilómetros por terras inóspitas, em busca de um lugar seguro, que veio encontrar naquele maciço. A que ficou a dever-se o sigilo da autoridade? Ele, Dixon, que tinha um filho e duas filhas, onde estavam? Quem eram? Porque não o repatriaram? O jornal havia dado a notícia mas nada esclarecera. Moreira contactou velhos amigos de Dixon, comerciantes isolados na selva, consultou livros de assentos em repartições, vasculhou velhos arquivos,  consultou documentos oficiais,  deslocou-se ao sudoeste africano, e acabou com um maior conhecimento sobre  o " branco da casa de barro", das região montanhosa do maciço de Tchamalinde, mas mesmo assim nunca conseguiu saber a sua verdadeira naturalidade. Inglaterra, talvez, e não Cabo como consta dos assentos existentes no Tribunal Judicial da Comarca de Moçâmedes, onde sequer existe menção que Dixon tenha ido para a União Sul Africana em serviço oficial como funcionário.
Não soube ao certo a sua idade, mas soube que quando se acoitou junto dos Mu-tuas já não era muito novo. Quanto às motivações que o levaram para ali, Matos Mendes e Bartolomeu Paiva tinham a sua opinião: dada a situação, as autoridades portuguesas não fizeram grandes interrogatórios, aceitaram a versão que ele mesmo lhes deu da sua presença ali, mas estes dois companheiros afirmavam  que Dixon,  de viva voz, nunca lhes tinha revelado o seu segredo. Talvez porque eles também não o instaram para isso. Mas quando no mato sentados à volta da fogueira, nas longas noites de cacimbo, tiveram conhecimento que a sua fuga para Angola estava ligada a uma desavença entre ele e o chefe da repartição onde trabalhava, no Cabo, que teria dado lugar a uma luta violenta, falta que era severamente punida pelas leis inglesas, na sua antiga colónia. Punição que considerava injusta e que o teria levado a embrenhar-se na floresta até encontrar refúgio seguro. Dixon tinha trabalhado no Sudoeste, em Sesfontein e no Kookoveld, sabia portanto, quando abandonou o Cabo que encontraria refúgio fácil naquelas montanhas. Ele devia saber que as autoridades portuguesas não apareciam por ali, naquele maçiço, e naquelas regiões inexpugnáveis. Ele contactou depois a tribo dos Mu-tuas que o aceitou. E mais tempo teria ali ficado no seu secreto esconderijo, se não tivesse descido,  naquele dia,  do cimo das cerranias, para admirar as chanas verdejantes, os animais selvagens no seu pastar pachorrento, sem serem incomodados, afastando-se daqueles amigos que o acolheram em TCHAMALINDE, local onde podia viver e morrer em paz, ter sua familia e os Mu-tua.

 O fino trato que os dois caçadores moçamedenses viram em Dixon impressionou-os, e deve ter impressionado a autoridade portuguesa quando  falaram pela primeira vez. Os 11 anos com a tribo não tinham demolido a sua esmerada educação, a sua elegância de trato à boa maneira inglesa.  Tudo isso teria levado ao silenciamento do facto e à concessão da nacionalidade portuguesa. Tudo isso se passou à margem da imprensa angolana, na época mais voltada para assuntos sociais da vida luandense.  E o Iona estava a 1700 km distância...para sul. Os meios de comunicação ali não chegavam e praticamente não existiam.

Naturalizado português a partir 1934,  Dixon Ferreira tornou-se um óptimo criador de gado, foi caçador guia-oficial para as várias entidades nacionais e estrangeiras que se deslocavam a Angola, a convite do governo da Província, ou do Governo Central. Dominava o português e a língua da sua pátria,  era culto e possuía longa experiência, seu saber era tido em alta consideração. A vida selvagem não tinha para ele segredos.

Reconhecido a Portugal, por várias vezes manifestou seu apreço e seu orgulho em viver à sombra da bandeira lusa. Também os portugueses nunca o abandonaram até ao último minuto da sua vida. O Governo de Angola, em 13.03.1941, como forma de gratidão pelos serviços prestados na Província, fez-lhe a oferta de uma espingarda para a caça grossa, que era o sonho de todos os caçadores. E ainda de 200 cartuchos. Era uma Mauser em cuja coronha ostentava uma chapa de prata com uma inscrição dedicada ao homenageado. Foi-lhe entregue em Sá da Bandeira pelo tenente-coronel de infantaria José da Cunha Amaral Belo.

Muíla Sá da Bandeira

 Rapariga Cuisse


Quando Dixon abandonou Tchamalinde, teve de deixar a mulher Mu-Tua com quem viveu , que preferiu ficar na sua tribo com a linda menina  loura, filha de ambos. Dixon viveu depois com Ema Wustron, filha de uma senhora mestiça e de um boer,  que vivia nas terras do Otchinjau, de quem teve dois filhos, o Jaime e o Pedro. Não eram perfilhados. Foram-no  após a morte dos pais, pelo Tribunal da Comarca de Moçâmedes, onde correram os autos de inventário orfanológico. Quanto à perfilhação dos dois orfãos, o Tribunal declarou: " E porque os pais se encontravam muito longe do local onde podiam efectuar o assento relativo ao registo civil, não os perfilharam..." .  Ema Wustron tinha falecido no Otchinjau, em Dezembro de 1941, tendo as crianças ido para casa de um tio, boer, Ernesto Wustron, onde ficaram até ao falecimento de seu pai, Dixon Ferreira,  por volta  de 1945.

Depois do falecimento de Ema,  a antiga mulher Mu-tua ainda chegou a estar com Dixon. Sabe-se que ele queria tirar a filha daquela tribo que vivia na Idade da Pedra, e pensou levá-la para Moçâmedes para ser criada e educada junto da família de Vasco Ferreira,  seu bom amigo, então já falecido. Mas não conseguiu porque Mu-tua ao aperceberem-se da sua intenção, pegaram na menina  e levaram-na para junto da sua gente, no maciço onde era impossível localizá-la. Mais tarde a "rapariga branca", filha de Dixon, como era conhecida pelos nativos, foi vista numa zona junto da margem esquerda do rio Cunene,  para sudoeste, onde havia também zonas rochosas, mas à aproximação de qualquer europeu refugiava-se na montanha.

Cecílio Moreira que nos fornece todas estas informações, refere que nunca um branco conseguiu aproximar-se dela. E que quando em 20 de Setembro de 1945 Dixon faleceu, em casa do seu amigo administrador da  Circunscrição do Coroca Norte, Nolasco da Silva, foi no Otchinjau que ficou sepultado. Conforme escreveu a esposa do Administrador, D. Marilia Aguiar Nolasco da Silva, nos últimos momentos da sua vida Dixon agarrou-se ao seu marido e pediu-lhe para criar e educar as suas crianças. Foi a extremosa D. Marília quem olhou pelas duas crianças, que as baptizou em 13 Setembro 1947, na Missão da Quihita, e que lhes ensinou a falar português  e as primeiras letras, porque em casa dos tios apenas se falava boer.  O Jaime e o Pedro ficaram dois anos com o casal Nolasco mas  estes entenderam mandá-los para a Casa Pia em Lisboa, em 1948, para serem educados,  uma vez que  no mato, em Angola, não havia condições. Ali concluíram os cursos secundários.Ainda de acordo com Cecilio Moreira, o Jaime foi mais tarde funcionário da Fazenda, e nunca o conheceu, mas o Pedro  escreveu-lhe uma carta para Nova Lisboa referente à reportagem do "Homem da Casa de Barro", e falou com ele em Luanda, onde era um conceituado comerciante da praça. Mostrou interesse em querer saber tudo sobre o pai por quem tinha admiração e respeito.  Manifestou desgosto por não conhecer a irmã.

A Senhora Nolasco num escrito de que Cecilio Moreira possui cópia,  manifestou pena por não ter conhecido Dixon, porque quando o inglês faleceu ela era ainda solteira. As referências que tinha de Dixon foram-lhe dadas pelo seu marido, quando já era casada. Por ele soube que se tratava de um velho inglês de carácter intensamente cortês,  que veio a falecer na  sua casa e na sua própria cama que a cedera,  na doença,  ao amigo  e companheiro de trabalho no mato e nas estradas que ambos marcaram e fizeram abrir durante meses. 

Daniel Ferreira, ainda viveu em terras do Namibe vários anos, após ter deixado a montanha,  como criador de gado.

Cecilio Moreira refere ainda a mágoa dele próprio por não ter conseguido saber da "rapariga Branca", e lembra-nos que foi Dixon quem ensinou a Teodósio Cabral os segredos da caça. Os Mu-tuas mantiveram por ele extrema consideração, mesmo depois de ter ido viver junto dos brancos. Foi sempre lembrado com respeito, como  o primeiro branco a fazer parte sua tribo. Ultimamente Dixon foi capataz na circunscrição do Curoca Norte, usufruindo de um útil vencimento.

Estas são historias reais de uma terra velha e sem idade, com recantos infinitos ainda por explorar, a que chamaram Namibe!


Pesquisa e texto de MariaNJardim


(1) As terras do Iona, que se estendem desde na margem direita do rio Cunene para norte, e formam a transição das grandes dunas do Namibe, para a encosta sul das regiões planálticas, compõem-se de várias planícies, interrompidas aqui e além por aglomerados rochosos e por uma vegetação arbustiva, raquítica e rara,  que luta contra a secura da terra e contra o calor, especialmente nos meses de Novembro a Março, a época do Verão no hemisfério sul.  Mas à medida que se vai avançando para a encosta da montanha até quase do topo, a vegetação vai-se tornando cada vez mais atraente  e verdejante. Foi o reconhecimento das condições excepcionais de habitabilidade daquelas terras para da fauna africana, que  levou a Administração Portuguesa a criar  em  1944, o Parque Nacional do Iona, na  região mais aconselhável, onde se encontrava uma equipa de pessoal técnico, que a  partir 1966 passou a ser chefiada por um médico veterinário que o habitava permanentemente. 

(2) três tipos de vegetação: anharas, dunas com arbustos e planície de savana com pequenos arbustros. Em substratos de cascalho abunda a welwitschia mirabilis, planta que pode atingir mais de mil anos de vida.  Mas a vegetação vai-se tornando cada vez mais verdejante consoante se avança para o topo da serra.

(3) O antílope emblemático do Parque é a palanca negra gigante, praticamente extinta, mas existem outros mamíferos como o elefante, olongo, leão, rinoceronte negro, onça, hiena, guelengue e várias espécies de zebras.


(3) Na faixa semidesértica do Deserto do Namibe, entre o mar e os contrafortes da Serra da Chela, segundo o etnólogo José Redinha, viviam os  Cuepes e  Cuisses, povos "pré-banto ou Vátua", eram também conhecidos por Curocas (nome do rio que lhes cruza o território, ocupado por populações que a elas mesmo se chamaram  mucurocas) embora conhecidos pelos demais como Cuissis. Cuepes seriam outros Curocas, considerados os "puros", por serem os primeiros a se estabelecerem às margens deste rio, e ter-se-iam misturado aos Cuissis.  Redinha cita Estermann (1960) ao afirmar que por este motivo tem-se admitido uma dupla origem para os Cuepe – Khoisan e Cuissi.  Este povo seria, pois, anterior à presença banto, e o grupo impreciso Vátua, define, do ponto de vista linguístico como Hotentote-Bosquímano (Khoisan), com alguns elementos bantos. 


Os Mucubais (Ova-kuvale), do grupo etnolinguistico banto, povo vizinho, que ocupa a área que envolve o município do Virei, ao norte,  são a população emblemática do sudoeste de Angola, juntamente com os Ova-himba e outros subgrupos Herero, de quem os Curocas desde há séculos incorporaram a língua, as vestes e  uma cultura pastorilm de que são a principal referência, e que se expandiu para além das fronteiras territoriais e étnicas. As populações do Curoca muitas vezes reivindicam para si a identidade Mucubal, nas negam a identidade Cuissi, ressaltando o carácter pejorativo e discriminatório do termo. Também Redinha refere a origem desconhecida dos Cuisses, povo que  teria passado por uma pesada dependência dos Hotentotes, de quem teriam adoptado a língua, antes de se terem submetido aos Cuvales.  Detentores de uma cultura muito primária, viviam o ciclo da caça e da colheita. Quanto aos Cuepes, a sua origem é "extremamente confusa", já que ao contrário de toda a lógica em relação ao local que habitam, seu idioma não era o dos Hotentotes, mas outra variação das línguas do grupo khoisan.
  Redinha não se refere,  contudo, ao facto de os Cuepes terem adoptado a lingua cuvale,  há já cerca de quatro gerações.




O termo Curoca é, pois, uma designação mais de ordem geográfica do que étnica, conforme Estermann (1960) e Cruz (1967), dado que todos os povos que se estabeleceram nas proximidades deste rio podem ser assim chamados. Refere ainda que na chegada ao Curoca, os


Alguma bibliografia:

-Moreira, Cecílio, Baia dos Tigres, Universidade Portucalense
-Annais do Clube Militar Naval Lisboa N. 86 Jan e Março 1956
-Annais Pecuários de Angola, de 1930.
- Redinha, José. “Etnias e Culturas de Angola”, de 1974.
-Estermann, Carlos (Padre) - Os Povos não Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós"
- Seligman (1935).  “Les races de l’Afrique”
- Deniker (1926) em “Les races et les peuple de la terre”,
 




Dos Anais do Clube Militar Naval Lisboa N. 86, segue outro texto que aborda um assunto interessante e fala de gente ligada à caça, que bem conhecemos ou de quem ouvimos falar,  em Moçâmedes:

(3) O Morro de Tchitundu-Hulu, que traduzido para português se chama «Morro Sagrado do Céu», ou «gruta Sagrada dos Mucuísses», fica situado a cerca de 130 km a leste da cidade de Moçâmedes/actual Namibe, na região de Capolopopo-Deserto do Namibe, faixa semi-desértica da área do posto administrativo do Virei e nas fronteiras da concessão do Caraculo, um pouco ao Sul do Paralelo de Porto Alexandre. Trata-se de um fantástico conjunto arqueológico de gravuras rupestes infelizmente pouco ou nada estudado, e cujo estado de conservação já nos tempos da colonização portuguesa se encontrava bastante danificado, e tão pouco possuía a dimensão que actualmente se impõe. A importância de Tchitundu-Hulu para a História e a Cultura angolanas encontra-se no facto de nelas existirem gravuras rupestres talhadas a sílex na dura rocha granítica, no grande morro que dá acesso à chamada Casa Maior que se abre sobre a falésia em forma de anfiteatro. São, na maior parte círculos que se encontram, por vezes, ligados por um traço, existindo também figuras de animais e de astros como a do famoso Sol, representado em círculos concêntricos com seus raios estilizados e constelações, onde podemos distinguir Orion e o Cruzeiro do Sul. No interior das Covas surgem, contudo, pinturas rupestres que se afiguram mais recentes, apesar da semelhança do estilo com o das gravuras. Tchitundulo parece ser de facto a estação de arte rupestre de Angola com maior número de desenhos, apresentando representações de pequenos animais, como um chacal no início da vertente norte do Morro, figurações cruciformes, desenhos "radiográficos”, etc.  Quanto à idade, os fragmentos das gravuras executadas sobre as placas de granito, atestam a existência de homens sobre o Tchitundulo anteriormente à clivagem da rocha, pelo que a história geológica da região e do Morro pode vir trazer dados concretos para a história dos primitivos homens das cavernas do Capolopopo. Dizem alguns especialistas que estas gravuras têm mais de 30.000 anos tratando-se valioso património de Angola e da Humanidade, em risco de desaparecer, ameçadas de degradação e desaparecimento dadas as amplitudes térmicas entre dia e noite que fazem estalar o interior das grutas, para além, é claro, da actividade humana. Desconhece-se qual foi o povo que imprimiu estas gravuras, pensam os antropologistas que terão sido, muito provavelmente, os ancestrais do povo Khoisan, conhecidos em Angola por Ovassekele ou Mukankalas (vulgo bosquímanes). Quanto à relação entre gravuras e Mucuisses, estes parecem não fazer a mais pequena ideia sobre a autoria das mesmas, embora persista neles uma certa veneração pelo local, identificando os círculos concêntricos gravados no Tchitundulo com os astros, principalmente, com o Sol. Existe um POEMA que passarei a transcrever, da autoria de Namibiano Ferreira, natural de Porto Alexandre:

Quando passei por Tchitundu-Hulu
tinham acabado de gravar as paredes.
terminados os rituais de consagração,
cá fora, o povo mágico dançava,
comemorando alegremente.

Depois, o povo mágico partiu
subindo o Kane-Wia*
 – a montanha sagrada onde Deus dorme
– e não mais voltou.

Entretanto, diariamente,
sucederam aos dias o veludo negro das noites e,
anualmente, os cacimbos trouxeram as chuvas
e as chuvas devolveram os cacimbos...
 sopraram ventos ventando
num dorido e constante lamento.

Houve chuvas ansiadas,
esperadas em vão
no desejo árido do umbigo dos deuses
e o Tempo, vento de nada, passou leve
e mangonheiro inspirando o Infinito...

expirando o Esquecimento sobre as gravuras
sagradas acabadas de gravar
quando por lá tinha passado naquele dia.

Tchitundu-Hulu rodopiou na bruma
esquecida no regaço do Tempo,
encoberto e misterioso...

Um dia, no espreguiçar sem depressas,
o Tempo acordou os Kwissis
e eles vieram
e sem entender ou perguntar o quer que fosse
acreditaram
e adoraram a Gruta do Morro Sagrado do Céu
fazendo de Tchitundu-Hulu o mistério de sua Fé.

Poema de Namibiano Ferreira (In No Vento e No Tempo) 

   Sobre o morro dos mucuisses e as gravuras pg 206/7 Rorison «Angola» por Mike Stead, Sean Ver também AQUI




(2)





Os Cuísses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis)



Tal como os cuvale ou mucubal, povo herero do grupo etnolinguístico banto, também os Cuísses são povos resistentes à integração.









 Casal Mucuisse Oncocua


No tempo colonial, era conhecido por um povo monogâmico e monoteísta, organizava-se vivendo em grupos de um máximo de duas famílias, em céu aberto, resguardavam-se das chuvas e dos ventos enquanto podiam, sob formações rochosas, sendo o vestuário reduzido a duas pequenas peles de animais, sobretudo antílopes, para taparem os órgãos genitais, indumentária que nas mulheres era completada por pequenas fiadas de missangas de cor branca, após a festa da puberdade. Alimentam-se exclusivamente de frutos silvestres e da caça, em que são exímios, servindo-se para tal de arcos e flechas envenenadas. Chegavam a atacar animais de grande porte, como elefantes e rinocerontes, e dominavam como autênticos mestres o emprego de sistemas de armadilhas. Conta-se que em tempos mais atrás, quando o território era atravessado por um ribeiro, chegaram a praticar a agricultura, cultivando milho?. 

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