Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 19 de dezembro de 2015

"Mossamedes 1914" : a marcha de regresso a Moçâmedes histórias sobre a guerra


O Tenente-Médico António Monteiro de Oliveira (à direita)
e um companheiro de armas, numa foto tirada em Moçâmedes, em 1915.



Sobre esses momentos históricos que ficaram a marcar a História da colonização de Angola,  encontrei no site http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/CEP Marco Oliveira,  material interessante colocado pelo autor, que procura deste modo dar a conhecer essa parte do espólio do seu avô, o Tenente-Médico António Monteiro de Oliveira, que participou nas marchas no Sul de Angola, e  nas trincheiras em França, e  deixou, entre outras recordações, postais, incluso de Moçâmedes,  que  são testemunhos silenciosos do mundo em que ele viveu. 

Procurando introduzir o tema, direi que , na Europa tinha estalado a I Grande Guerra (1914-18). As operações militares no sul de Angola (1914) tinham conduzido à acção indecisa de Naulila, que teve como consequência a inutilização da soberania no Cuamato, no Humbe e no Evale. Nova expedição metropolitana chegou a Angola em 1915, sob comando do General Pereira d’Eça e desta vez a ocupação atingira a actual fronteira a sul, abrangendo os territórios perdidos no ano anterior e o Cuanhama até então impenetrável.

Eis alguns aspectos retirados ao referido site, relacionados com os incidentes na fronteira sul de Angola, na fase final das Campanhas, em que o Tenente-Médico António Monteiro de Oliveira participou, e que passo a transcrever:

 ... O meu avô contava muitas histórias (na próxima semana espero publicar aqui algumas) e trouxe vários postais. Num envelope com a inscrição "Mossâmedes 1914", encontrei duas colecções de postais sobre esta cidade. Hoje fica aqui a primeira dessas colecções. http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/Angola

 ...Em 1915, com a rendição das forças alemãs do Sudeste Africano ao exército sul-africano e a destruição de vários aldeamentos cuanhamas no sul de Angola, a expedição comandada pelo general Pereira d’Eça devia agora iniciar o regresso ao ponto de embarque. Esgotadas pelas constantes movimentações, pelas condições do território (onde grassava uma seca há mais de quatro anos) e por alguns confrontos, o regresso foi uma longa e penosa marcha que as tropas tiveram de realizar em direcção a costa.

...Os dias do regresso sucederam-se monotonamente e sem grandes sobressaltos. Das memórias desses dias, o meu avô repetia com frequência o episódio em que se perdeu numa caçada. Foi durante a marcha de regresso a Moçâmedes que decidiu acompanhar um companheiro de armas numa caçada. Levando um cão que farejava possíveis presas, percorreram a savana devastada pela seca sem nada encontrarem. Ao fim de algumas horas, o meu avô – que não era caçador - desistiu da caminhada e regressou ao acampamento. O seu companheiro que persistia em incitar o cão a procurar alguma pista Caminhando sozinho pelo mato, percebeu ao fim de algumas horas que não encontrava vestígios do acampamento. Estava perdido no mato. Sem quaisquer referências resolveu parar. Talvez não estivesse longe do acampamento, mas caminhar ao acaso podia levá-lo a afastar-se cada vez mais. A sorte sorriu-lhe ao fim de algum tempo quando ouviu o ecoar de um clarim. Felizmente nos acampamentos militares tudo funciona a toque de clarim; e este ouve-se a grande distância. Correu na direcção do som enquanto o ouviu, e voltou a parar; pouco depois um novo toque, proporcionou-lhe uma nova corrida. Ao fim de várias corridas, foi-se apercebendo do tropear de milhares de homens e cavalos. Acabou por entrar no acampamento em passo acelerado. Tanto quanto sabemos, o meu avô não voltou a participar em mais caçadas.

...A chegada a Moçâmedes e o embarque para Lisboa não tiveram história. Regressando no mesmo navio que o general Pereira d’Eça, várias vezes lhe chamou a atenção para uma bronquite que se agravava. De nada adiantou, porque pouco depois de chegar a Lisboa, o general viria a falecer. Espero na próxima semana poder começar a publicar postais que o meu avô adquiriu durante a sua presença na frente ocidental (1916-1918).http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/Angola

.... Ele contava sempre as mesmas histórias sobre a guerra". É bem possível. Uma experiência tão intensa como uma guerra deve deixar muitas recordações bem gravadas na memória. O texto que se segue foi preparado com a preciosa colaboração do meu pai, que reuniu algumas dessas histórias repetidamente contadas pelo meu avô.

...Em 1915, depois de desembarcar em Moçâmedes, a expedição de Pereira d’Eça subiu ao planalto e prosseguiu para Leste, mantendo-se a alguns dias de marcha do Cunene, para evitar incidentes na preocupante fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano. Nas deslocações de uma coluna militar, a cavalaria tinha por missão explorar o terreno na vanguarda e nos flancos, em constante movimentação, procurando evitar que a infantaria fosse surpreendida.


O tenente-médico Monteiro d'Oliveira, em Moçâmedes, 1915

...O tenente-médico Monteiro d’Oliveira, integrado num esquadrão de dragões, acompanhava as deambulações da cavalaria, mas naturalmente a um médico não se considerava necessário fornecer um bom cavalo. O médico deveria colocar-se na retaguarda, para acudir aos feridos que ficassem para trás, ao contrário do comandante, que deveria preceder todos os outros, para ter visibilidade que lhe permitisse avaliar a situação.

Naturalmente que cada cavaleiro teria que conhecer bem o seu cavalo, e o meu avô foi informado que o cavalo se recusava a saltar, além de uma certa tendência para tomar o freio nos dentes. Isto chegou a causar várias vezes uma situação caricata, em que o médico aparecia a galopar à frente de todos, para grande escândalo do comandante. Mas também foi motivo de um pequeno acidente, quando ao tentar contornar um obstáculo, o meu avô foi projectado da sela, porque o cavalo resolveu saltar a par dos outros. Apesar de ter recuperado trabalhosamente a sua posição na sela sem maiores problemas, sofreu uma fractura de um dedo que nunca pode ser bem tratada, e lhe deu uma maneira de escrever muito característica.

O itinerário da expedição tinha sido preparado pelo “serviço de etapas”, fixando os locais de abastecimento, em especial os cursos de água, onde homens e animais poderiam dessedentar-se. No entanto uma seca rigorosa gorou as expectativas, e depois de atravessarem vários leitos secos, houve que inflectir para o Cunene. Foi uma longa marcha, sempre a passo para evitar a transpiração, mas sem paragens, até porque nos últimos quilómetros nada detinha os animais, nem os fazia desviar do caminho do rio. Apesar de toda a sua fidelidade, os cavalos podiam virar a cabeça, apertados pelo freio dos cavaleiros, e tentavam acelerar o passo na direcção da água que já pressentiam, e a que conseguiram chegar nos limites da desidratação.

A cavalaria era uma arma fundamental nas vastidões africanas, mas seguindo o ditado português de que “quem não tem cão caça com gato”, quando não havia cavalos, os dragões montavam muares. Naquelas condições a sua segurança era dramaticamente reduzida, porque a vantagem da cavalaria era a rapidez. Com as mulas não se pode andar a “mata cavalos”, porque quando estão cansadas empinam-se, escoucinham, mas não avançam. Os dragões que só conseguiam mulas para as suas missões de patrulha despediam-se em grande pranto dos camaradas, porque dificilmente conseguiriam regressar.


Militares Portugueses no Lubango, Janeiro de 1915

.... Reagrupada e reabastecida a expedição, foi decidido que só uma progressão muito rápida sobre os objectivos conseguiria surpreender o inimigo, e concluir com sucesso a expedição. Rapidez significava naquelas circunstâncias, significava andar a mais de 30 quilómetros por dia, que era a velocidade de transmissão das mensagens dos “tantans” africanos. Assim os soldados, subalimentados e desidratados, foram obrigados a uma marcha forçada, que provocava frequentes desfalecimentos.

Certamente havia macas, mas não havia maqueiros, e o Dr. Monteiro d’Oliveira, movimentando-se na rectaguarda, recolhia os soldados desfalecidos, atravessava-os no cavalo, e levava-os até um carro de bagagem , onde ficavam estendidos o resto do dia. Como medicamentação recebiam um remédio precioso pela sua escassez: ¼ de água das pedras. A terapêutica era eficaz a 100% e no dia seguinte os soldados já marchavam ao lado dos camaradas.

A pronta recuperação de tantas baixas acabou por ser notada pelo general Pereira d’Eça, que mais tarde exarou um louvor ao tenente-médico António Monteiro d’Oliveira.

Finalmente a vila de N’giva (futura vila Pereira d’Eça) surgiu à vista da coluna. Era um dos principais objectivos da missão. Os dragões carregaram, a população fugiu, e quando a infantaria chegou a embala estava abandonada. A tomada de NGiva foi um sucesso, não só pelo reduzido número de baixas, mas também pela captura de documentação, nomeadamente uma curiosa carta de um missionário luterano, desaparecido na confusão do ataque, que comunicava aos seus superiores no Sudoeste Africano que a coluna portuguesa tinha sido totalmente derrotada...


Agradecimento da Câmara de Mossâmedes ao alferes Monteiro (21 de Dezembro de 1909)


© Família de António Aniceto Monteiro
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...Mais uma vez a Câmara da minha presidencia tem o prazer e honra de agradecer a V.Excia. a preciosa coadjuvação que tão gostosa e desinteressadamente de ha muito lhe vem dispensando, quer na elaboração da planta da cidade, trabalho proficiente e completissimo, que só por si representa um alto valor de progresso e melhoramento para este municipio, quer na elaboração da planta do mercado, quer ainda nas varias vezes[?] em que a tem illucidado em trabalhos de especialidade, alta competencia e capacidade de V.Excia.
Tudo isso, que tanto trabalho tem revelado a par de profundos conhecimentos tecnicos, muito calculo, muita ponderação e estudo aturado, esta Camara já mais o esquecerá, e faltaria aos mais sagrados dos deveres de gratidão se lhe não demonstrasse, como demonstra, o seu alto reconhecimento e mais profundo agradecimento.
É para esta Camara de bem intensa magua a retirada de V.Excia d'esta cidade; e fazendo votos por uma feliz viajem, deseja que a fortuna e felecidade o galardôem sempre tão grandemente,  quanto os predicados de V.Excia o exigem.

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Nota: A assinatura que se vê é, muito provavelmente, de Seraphim Simões Freire de Figueiredo, que seria, então, Presidente da Câmara (ver Fernando da Costa Leal, quinto governador de Mossâmedes (1854-1959)). Seraphim Simões Freire de Figueiredo e o alferes Monteiro foram padrinhos de casamento dos pais de Lídia Monteiro.
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(...)
No fim desse ano [1909], dá-se uma viragem na vida de António Ribeiro Monteiro e nunca mais regressou à construção dos caminhos de ferro. Em 27 de Dezembro de 1909, por opinião da junta de saúde, veio para Portugal. Desconheço se a família o acompanhou.
(...)
O relatório finaliza com o parágrafo seguinte:
“Tamanha é a gratidão dos habitantes de Mossamedes e tão profundas simpathias alli deixou que a pedido d’aquella cidade vae o alferes Monteiro, muito brevemente, desempenhar alli uma nova comissão de serviço publico”.
Ao ler estas quatro páginas manuscritas que elogiam o alferes Monteiro, é difícil não ver nos traços de carácter descritos, aqueles que viriam a ser os do seu filho, António Aniceto: a grande inteligência, a versatilidade e a amplidão das suas aptidões intelectuais, o sentido prático aliado à competência teórica, a capacidade de comunicação e transmissão dos seus conhecimentos, a simpatia e a coragem.
Em Dezembro de 1910, o recém promovido tenente Monteiro regressou a Angola, tendo embarcado no dia 2 e chegado a Luanda no dia 16.
(...)




Ver também aqui : http://mocamedesregistosefactos.blogspot.pt/2012/11/o-batalhao-de-marinha-expedicionario.html

 http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_10_Marinha.htm

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