Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Uma perspectiva de Moçâmedes, in Navegação de Paz e de Glória, de Dutra Faria

Navegação de paz e de glória.: FARIA, Dutra, 1910-1978












"SUBINDO A SERRA DA CHELA"


..."Cidade de pescadores,em seu aspecto portuguesíssima e paupérrima,com sua população humilde formada por algarvios e outros homens do litoral metropolitano , laboriosos, tenazes,com o gosto, o amor, a paixão do mar,proprietários e tripulantes de trezentos barcos -- Moçâmedes há muito que ficou para trás entalada entre as ondas do Atlântico sulcadas de velas,as rochas da Torre do Tombo esburacadas de cavernas e as areias e pedregais do mais feio, mais árido e mais monótono deserto do mundo,através do qual as cabras de leque galopam,tímidas e airosas,numa fuga desabalada e pânica...

... De novo desembarcados, o nosso automóvel galga já os contrafortes da imensa e agressiva serra da Chela. Os olhos descobrem,na estrada, as primeiras curvas perigosas;alcançam da estrada os primeiros abismos tenebrosos. Lá em baixo,é o deserto que se alonga até aos confins do horizonte"....."Sucedem-se, essas ruínas, por assim dizer de quilómetro em  quilómetro, nuas, desamparadas, esquecidas, sem uma lápida, sem um placa que fale da sua história aos que passam, trágicas como túmulos abandonados. Páginas apagadas -- desfeitas -- de uma epopeia silenciosa e anónima. Marcos de um esforço e de uma vontade animados por uma esperança e por instinto de império. Passos de um lento calvário. Outras tantas experiências de colonização ao longo dos caminhos da serra, na marcha para os planaltos de Angola"...

...A terra parecia fértil, luxuriante, a vegetação dócil, o gentio. Detinha-se numa daquelas clareiras, uma família de colonos. Desengatavam-se os bois da "espana".Amassavam o barro.Punham os tijolos a secar ao sol. Derrubavam árvores. Desbastavam troncos. Levantavam as paredes da casa, cobriam-nas de capim bem seco. E mal o fogo crepitava na pedra da lareira, afugentando para longe as sombras e os pavores da noite africana, o colono voltava-se para a terra, ateando queimadas, arrancando raízes,abrindo canais de irrigação, revolvendo endurecidos torrões a golpes de enxada,deitando,enfim,nos primeiros sulcos do arado,os primeiros grãos de trigo ou de milho. Mas a terra negava-se. Não era,afinal o que parecia. Novamente o colono engatava os bois, novamente partia, comprido chicote em punho, deixando a casa,voltando-se as costas... Mais adiante !...mais adiante !..."

...Entrámos nós também no planalto. Entretanto anoiteceu, e por cima das nossas cabeças parecem mais perto de nós as estrelas. Acabou-se a estrada tormentosa, íngreme,ladeada de precipícios. Rectas agora sucedem-se às rectas. Depois, ao longe, avistam-se luzes como de uma grande cidade. Mas aquelas luzes movimentam-se, deslocam-se, avançam, correm -- vêm ao nosso encontro. São archotes, milhares de archotes empunhados por milhares de pretos. A uma luz vacilante e vermelha destacam-se da treva, por entre a fumarada, tatuagens medonhas, colares e pulseiras de luzidio cobre, facas e azagaias que reluzem, carapinhas emplumadas, bocas abertas, escancaradas num pasmo selagem. " (pgs.: 142-143-144-146) 

(Transcrições parciais da obra: "A NAVEGAÇÃO DE PAZ E DE GLÓRIA" , de DUTRA FARIA (1910-1978) em "ANTOLOGIA DA TERRA PORTUGUESA - O ULTRAMAR PORTUGUÊS - ANGOLA" - 1961  
Agência Geral das Colónias, 1945 - 165 páginas

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As colonias portuguezas no seculo XIX, by Manuel Pinheiro Chagas




Pinheiro Chagas um dos mais importantes e influentes políticos do seu tempo (1842-1895)




Pinheiro Chagas viveu uma época de grande tensão, em que Portugal era confrontado com crescentes problemas levantados pelas potências europeias, especialmente a Grã.Bretanha e a Alemanha, interessadas na "Partilha de África", para além das pressões anti-esclavagistas lideradas pela potência britânica, que punha em crise a velha partilha de esferas de influência naquele continente, e ameaçava a manutenção do controlo luso sobre boa parte dos territórios tradicionalmente reclamados como estando sob soberania ou protectorado português.
Estas e outras questões, levaram à convocação da Conferência de Berlim, que decorreu de Novembro de 1884  a Fevereiro do ano seguinte, num ambiente de grande exaltação patriótica em Portugal, em boa parte preparado. Foi neste contexto que Pinheiro Chagas se associou a um grupo de intelectuais e políticos para fundar, à imagem das sociedades de exploração britânicas, a Sociedade de Geografia de Lisboa. O objectivo era dar corpo a um conjunto de viagens de exploração em África que rivalizassem com as realizadas sob a égide britânica, francesa e belga. Foi assim que nasceu o mapa cor-de-rosa e se realizaram as grandes viagens de exploração entre 1884 e 1885. 

Pinheiro Chagas  manteve sempre uma muito activa presença parlamentar e na imprensa, para além de ser à época considerado como um dos mais conceituados escritores portugueses.  Faleceu em Lisboa a 8 de Abril de 1895. Foi um dos grandes vultos da história portuguesa, tendo sido vítima de uma odiosa agressão, mal esclarecida, da qual nunca se recuperou.

Eis como Pinheiro Chagas encararava o estado de abandono em que se encontravam as colónias africanas às vésperas da Conferência de Berlim (1884-5), onde, excepto a acção de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes, pouco mais se fazia !


"...As colónias africanas eram um vazadouro para onde despejávamos todas as fezes que tínhamos no reino. Com degredados as povoávamos, com degredados formávamos o seu exercito e, quando não eram degredados, que o compunham, eram batalhões expedicionários que levavam do continente os mais torpes elementos das tropas nacionaes."

Em 1817, quando acabou a guerra peninsular e se tratou de mandar uma expedição para Montevideo, organizou-se com a flor dos nossos regimentos, pozeram-se à sua frente officiais como Lecou, Saldanha, Azevedo e Claudino.

Em 1835, pouco depois de ter acabado a guerra da liberdade, quando se quiz mandar uma expedição para Cabo-Verde, organisou-se um batalhão com os soldados mais ruins e indisciplinados que havia, não no exercito vencedor mas no exercito vencido. Por isso, a façanha que esse batalhão praticou foi matar todos os seus officiaes, á excepção de um ou dois alferes, que escaparam por milagre t

Se essas "colónias não eram senão ninhos de escravos, e era a escravatura a única fonte da sua receita ! . . . Sá da Bandeira appareceu, esse animo generoso. Promulgou a lei de 1836 que abolia a escravatura, e procurou fazel-a cumprir. Mas todos os interesses feridos se sublevavam contra elle. Alcunhavam-no de utopista, accusavam-no de arruinar as colónias. Os governadores que iam para o ultramar, com ordem expressa de acabar com o odioso trafico, viam-se obrigados a transigir, ou a fugir.
Em Moçambique, o marquez de Aracaty, um Oeynhausen, tinha de suspender a lei de 1836  porque os escravistas não a deixavam executar. D. António de Noronha em Angola, depois de uma lucta formidável, tinha de fugir quasi para a Europa. Joaquim Pereira Marinho, em Moçambique, via-se salteado por toda a espécie de calumnias, e por uma guerra ferocíssima, porque effectivamente debellava os escravistas. O tratado com a Inglaterra concluído em 1842 impunha-nos sacrifícios enormes, sujeitava-nos a continuados vexames, e a tudo nos resignávamos para cumprir lealmente a nossa missão emancipadora. E, emquanto o cruzeiro portuguez se mostrava implacável com os navios que transportavam escravos, emquanto as nossas colónias definhavam porque perdiam uma receita que não era substituída, os navios inglezes tomavam os negros escravos não para os libertar, mas para os levar ás suas colónias, e estas floresciam com o trabalho gratuito dos braços que à escravatura deviam.

De vez em quando algum estadista, algum governador do ultramar pensava nas colónias, muito de relance comtudo, que as guerras civis absorviam-nos. Bonitas palavras na camará de vez em quando, actos raríssimos. Apparecia Pedro Alexandrino em Angola, procurando explorar e conhecer a província, implacável com a escravatura, mas tentando deveras fazer alguma coisa útil.

Depois em 1849 appareceu também um homem dedicado, enérgico, de verdadeira iniciativa, Ber- nardino Freire de Abreu e Castro, que era o verdadeiro fundador da colónia de Mossamedes. Lu- ctava com innumeras dificuldades, mas a colónia lá ia rompendo lentamente, até que afinal se trans- formou na villa, que é hoje uma das nossas glorias ultramarinas. Ha quarenta annos ! E pouco mais se fazia ! 

Em 1852 appareceu um decreto, em cujo preambulo se dizia pomposamente que, sendo notório e incontestável que innumeros emigrantes portuguezes iam procurar trabalho no Brazil, sonhando phantasticas riquezas e não encontrando afinal senão a miséria e a morte, sendo incontestável ainda que os madeirenses iam procurar em Demerara, nos climas inhospitos da Guyana ingleza, as febres que faziam d'essa colónia britânica um cemitério para os portuguezes, era indispensável que se tratasse de derivar para as nossas colónias africanas essa emigração nacional, e com esse louvável intuito de crear um imposto nas colónias sobre a importação dos vinhos e aguardentes de Portugal. Palavras, e só palavras. 

Trinta e três annos depois é que o auctor destas linhas fundava n'esse districto de Mossamedes, tão claramente indicado para a colonisação portugueza, as auspiciosas colónias Sá da Bandeira e S. Pedro de Chibia !"


As colonias portuguezas no seculo XIX (1811 a 1890)

https://archive.org/details/ascoloniasportu00chaggoog

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A AVENIDA DE MOÇÂMEDES, A SALA DE VISITAS DA CIDADE E EVENTOS REALIZADOS EM SEU REDOR AO LONGO DOS TEMPOS...




Postal da Avenida de Moçâmedes, minha colecção, nos tempos do CORETO. Data provável: anos 1920
 






 




















O despontar de uma cidade adormecida...


Manuel Júlio de Mendonça Torres, na obra intitulada « O Distrito de Moçâmedes nas Fases da sua Origem e Primeira Organização», considera  Moçâmedes, a cidade capital do Distrito do mesmo nome, que já então apresentava um índice económico apreciável, como um grande triunfo da colonização portuguesa, obra dos corajosos emigrantes de Pernambuco e dos seus esforçados continuadores, que a ergueram e alindaram no deserto do Namibe, arrepiante e hostil.

Segundo Mendonça Torres, os  colonos de 1849 e 50 efectuaram uma ocupação pacífica e vitoriosa, sem feitos militares a registar, apesar de áspera e tormentosa, atravessada por infortúnios tais como fomes, doenças, inquietações, misérias, mortandades.(1)

Referindo-se aos «delineamentos da planta tipográfica da povoação», distingue uma fase atabalhoada (1850 a 1852) em que os trabalhos do levantamento da povoação haviam sido feitos sem respeitar os elementares preceitos de construção, e uma outra fase, a partir da tomada de posse do Fernando Leal, a 16 de Fevereiro de 1854, na qual é patente a preocupação do Governador em delinear a planta da futura povoação, indicando já a abertura de ruas e travessas alinhadas em geométricos paralelismos, que imprimiram a Moçâmedes a sua fisionomia característica.

Mas Moçâmedes após o primeiro impulso sobre humano e dinamizador passou por uma estagnação imobilizadora, um processo evolutivo demasiado lento do qual só conseguiu sair no pós guerra 1939-45, altura em que resolutamente avançou para o progresso.

Manuel Júlio de Mendonça Torres adianta também que  por essa altura notícias publicadas no Diário de Notícias davam conta que a cidade e o distrito iriam ser objecto de grandes melhoramentos que antecipariam as comemorações do seu 1º Centenário, em 1949, de entre os quais, a construção de casas de habitação para funcionários públicos e de um edifício grandioso para instalação da Estação dos Correios Telégrafos e Telefones, na Avenida da República, a construção de Escolas nos bairros da Torre do Tombo e da Aguada, a instalação de repartições públicas, a construção de casas para indígenas, a construção de delegações marítima e aduaneira em Porto Alexandre, e a construção dos postos de despacho escolar na Lucira. 

Aliás, a fase entre 1945 e 1949 é assinalada pelo autor como uma fase de engrandecimento e embelezamento através de novas construções efectuadas com «inteligência e ponderação», a construção de «edifícios bem proporcionados, de linhas elegantes e harmoniosas que imprimiam  à cidade uma fisionomia conveniente e aprazível: o Cine Moçâmedes, o Grande Hotel, o Clube Nautico (Casino), o Sporting Clube de Moçâmedes, e vários prédios para moradia, como o da Intendência do Distrito, o da gerência da Sociedade Oceânica do Sul (SOS), o de João Bento, os de Augusto Rosa, os de Raul Radich, etc etc.( 2)


Um momento das obras que decorreram na Avenida de Moçâmedes, que integraram trabalhos de terraplenagem, destinada a desbastar o morro, que da Fortaleza se prolongava pelo topo sul da Avenida, que após estas obras se tornou mais vasta. Foto cedida por um conterrâneo.

Retenha-se que já o plano quinquenal assinado pelo Presidente Carmona que visitou as colónias e esteve em Moçâmedes em 1838, contemplava grandes melhoramentos para Moçâmedes, mas por força da 2ª Grande Guerra (1839-45) , as fábricas europeias que eram as fornecedoras de material deixaram de responder às encomendas,  concentradas que se encontravam ao serviço da guerra.  Foi com o fim da guerra que a Avenida da República de  Moçâmedes, assim denominada após a queda da monarquia constitucional em 1910 (antes era a "Avenida D. Luis", em homenagem ao rei consorte de Portugal, esposo da rainha D. Maria II), se transformou num vasto espaço de confraternização e lazer que importava melhorar sempre mais e mais. Afinal era a sala de visita da cidade. 

Moçâmedes  desde o seu traçado inicial possuiu as características do conceito moderno das cidades-jardim surgido a partir do século XVIII, em consequência das más condições encontradas  nas cidades e da ausência de planejamento, quando por força da revolução industrial aconteceu o êxodo dos campos na busca de emprego fugindo da crise no sector agrícola

Foi na Europa e nos EUA que o urbanismo moderno surgiu para solucionar esse caos urbano que então se verificou, e diversos urbanistas projectaram seus planos de cidades ideais. Surgiu então o conceito cultural de cidade, propostas de uma cidade funcional e geométrica,  com linhas rectas que se cortam em ângulos retos, em que a estética passa a ser um imperativo tão importante quanto a eficácia, num tempo em que a grande cidade industrial é acusada de alienar o indivíduo no artifício, e só o contacto com a natureza podia devolver o homem a si mesmo e permitir um harmonioso desenvolvimento da pessoa como totalidade.


A este respeito, uma referência merecida deve ser feita ao grande governador de Moçâmedes, Fernando da Costa Leal, o quinto governador de Moçâmedes (1854-1959). um  visionário de espírito jovem e empreendedor, pessoa cheia de ideias a quem Moçâmedes ficou a dever a planta da cidade, e o rasgar desta bela e longa Avenida.

Na década de 1950 a Avenida de Moçâmedes foi objecto de novos e grandes melhoramentos, a juntar aos conseguidos na década anterior, como a 2ª foto mostra, (1) e  transformou-se  num local ainda mais atraente, rodeado de canteiros cobertos de flores das mais diversificadas cores, que eram um encanto ver, com bancos de jardim em maior número, num verdadeiro culto ao divertimento e ao lazer.

Com o embelezamento da Avenida a moda do "Passeio Público" vinda de Paris chegou a Moçâmedes. Essa mesma moda à qual os portugueses aderiram após a reconstrução da cidade de Lisboa, em consequência do terramoto, quando foi rasgada a Avenida da Liberdade.   E enraizou-se nas gentes de Moçâmedes a tal ponto que ainda é confirmada nos anos 1940 e na década de 1950, como local de preferência da população jovem principalmente, mas também da menos jovem e das crianças, que enchiam a Avenida, aos domingos, ao entardecer e após as matinées do Cine Teatro de Moçâmedes (o popular Cinema do Eurico). Nada melhor do que ir até à Avenida da República "para ver e para ser visto". Na realidade até finais da década de 1950, os jovens da terra tomavam conta da Avenida, davam voltas  e mais voltas, andavam para frente e para trás, elas com suas roupas coloridas inspiradas na moda-burda, eles com a descontração natural, aproveitando o encontro para flirtar, enquanto a partir do Coreto ali existente, mesmo no epicentro do Jardim, o Rádio Clube, sob a direcção de Carlos Moutinho, lançava para o ar programas de rádio que eram transmitidos através de altifalantes pendurados  nas árvores, que transmitiam as músicas mais em voga, com especial realce para canções portuguesas, tangos de Gardel, modinhas brasileiras e outros géneros musicais que faziam partir de emoção os jovens corações. E também entrevistavam pessoas, e lançavam para o ar música a pedido: "Alguém oferece a alguém como prova de amor", e Tony de Matos cantava as  suas" Cartas de Amor" que ecoavam por toda a Avenida.   Na década de 1960 o passeio na Avenida entrou em declínio com o inicio das "Festas do Mar".



 

 A Avenida era  o local privilegiado para fotografias... Aqui estou eu a posar para a posteridade. 1956

 A minha filha e as primas...

Década de 1950. Junto a um dos tanques da Avenida, com repuxos de água e onde nadavam vermelhos peixinhos. Foto cedida por um conterrâneo.



 Década de 1960. Manuel Barbosa e neto. Foto cedida por um familiar e conterrâneo.

Carlos Alberto Cacella de Vitoria Pereira. Foto cedida por um conterrâneo.


 

Quatro amigos relaxam num banco dos jardins da Avenida. Foto do meu albúm.

 Carlos Moutinho do Rádio Clube de Moçâmedes, num programa em que simula entrevistar a foca que à época (finais da década de 1950), era o encanto de crianças e adultos. Foto Salvador.
 A "Foca" que um dia vinda do polo a nós a viera...No tanque do Jardim aprisionada... Foto Salvador.


 Esplanada do Quiosque, vendo-se o Cine Moçâmedes ai fundo. Foto cedida por um conterrâneo.



Mas a Avenida da República não servia apenas de "picadeiro" aos domingos ao entardecer, após o matinées no Cinema do Eurico.  Era o centro em volta do qual iam acontecendo inúmeros eventos no decurso dos tempos. Um desses eventos foi um "corso" de carros alegóricos ali realizado em 1955, por ocasião do Carnaval, periodo em que também ali aconteciam as célebres "batalhas de cocotes de farinha" que  deixavam a Avenida irreconhecível, como mostram as fotos que seguem,



 
Corso em Moçâmedes. 1955. Foto do meu álbum.

                                                     O carro vencedor: Banco de Angola
Foto do meu albúm. Espóleo de Florinda Jardim
 
Foto do meu albúm. Espólio de Florinda Jardim
Foto do meu albúm. Espólio de Florinda Jardim
  
Foto do meu albúm. Espólio de Florinda Jardim
 
Foto do meu albúm. Espólio de Florinda Jardim
 

 
 Bilibaus e Tragateiros, os foliões do Carnaval, cujo desfile acontecia à volta da Avenida.Foto do meu albúm. Espólio de Florinda Jardim
Doto cedida por um conterrâneo

 Fotos das batalhas de cocotes que deixavam a avenida toda enfarinhada. Foto do meu albúm. Espólio de Florinda Jardim

Mas também passavam por aqui, desfilando, cantando e batucando, os kazekutas do Carnaval... Ou seja as chamadas danças indígenas. Foto do meu albúm. Espólio de Florinda Jardim

E também  Gigantones e Cabeçudos  a anunciar o inicio das Festas do Mar...
 
...e os carros alegóricos que desfilavam exibindo  a jovem em cada ano eleita a "Miss Mar" , que em  1971 foi Paula Chalupa, que na foto se encontra ao lado de Riquita, a moçamedense que foi  Miss Portugal 1971
 
E a  recepção a Riquita, em 1971


Seguem fotos do último desfile ocorrido na Avenida da República na era colonial: 1974

 
1974. Passando pela Rua da Praia do Bonfim... Foto cedida por um conterrâneo

 
1974. Foto cedida por um conterrâneo
 
1974. Foto cedida por um conterrâneo
Desfile em 1974. Foto cedida por um conterrâneo.

Postal da minha colecção


Mas esta Avenida foi em outras eras palco de eventos militares, ligados à fase da ocupação do sul de Angola e da definição de fronteiras, de que restam estas recordações. Na foto podemos ver a passagem de revista efectuada pelo Governador Geral a um contingente militar  desembarcado em Moçâmedes, em trânsito para a fronteira sul.

Já em 1907, por ocasião da subida da vila de Moçâmedes a real cidade, a Avenida tinha sido palco de uma grande recepção ao Príncipe D. Luiz Filipe, filho do rei de Portugal, D. Carlos I, e da Rainha D. Amélia.

E outras recepções mais foram tendo lugar, como as fotos a seguir testemunham. Foi o caso em 1938 da calorosa recepção ao Presidente da República, Óscar de Fragoso Carmona,  que envolveu, de entre outros eventos, um desfile de povos indígenas das mais diferentes etnias, um desfile dos alunos de todas as escolas do Distrito de braços esticados para a frente, em saudação olímpica (vulgo saudação nazi), enquanto o Presidente e Comitiva assistiam do alto da Tribuna ali erguida para o efeito. E também uma festa com distribuição de brinquedos e gulodices ás crianças do Distrito.



 
 


Para ver mais, clicar  AQUI. 


Nesta altura a ll Grande Guerra, de 1939-45, aproximava-se a passos largos, a Alemanha de Hitler manifestava intenções expansionistas,  quer em relação à Europa quer em relação aos territórios africanos ocupados por Portugal que faziam fronteira com o Sudoeste Africano alemão (actual Namibia). O Sul de Angola estava em perigo, caso a Alemanha nazi viesse a ganhar a guerra.  O Presidente Carmona procurava mostrar ao mundo que portugueses e africanos estavam ao lado do Portugal! A situação política em Angola, obrigava a estas exibições.

  1º Centenário: 04 Agosto 1949. Foto cedida por um conterrâneo

Onze anos mais tarde, esta Avenida encheu-se de barracas e pavilhões, para comemorar esse evento singular e inesquecível, para quem a ele assistiu, que foram as festividades do Centenário da cidade, iniciadas no dia 04 de Agosto de 1949.  Por mais de uma semana decorreu na Avenida um festivo e bem organizado arraial, que atraiu para ali gente vinda de todos os cantos da cidade e de todo o Distrito. Na foto vê-se ao fundo o velho Coreto, e nas laterais, várias barracas e pavilhões, para além de grupos de pessoas deslocando-se na Avenida, para assistir aos eventos.

A foto que segue mostra-nos um dos carros alegóricos que desfilaram à volta da Avenida no dia 04 de Agosto de 1949, integrado no desfile de carros alegóricos ocorrido por ocasião do Centenário. Recorda-se assim a "Tentativa Feliz", a barca brasileira que trouxe até Moçâmedes os colonos fundadores, vindos de Pernambuco, Brasil e ali chegados 100 anos atrás, capitaneados pelo Brigue português "Douro". Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro foi o chefe dessa 1ª colónia, e a personalidade que deu o primeiro impulso à colonização, dando força aos seus companheiros nas horas de desalento.


E outras recepções foram tendo lugar...

 
Na foto, caras conhecidas da Moçâmedes de 1949. Jovens senhoras que colaboraram como puderam e com os meios que tinham à mão para o abrilhantamento das festas. São, da esq. para a dt: ?, Ludovina Leitão, Maria Eugénia Alves, Salomé Inácio, Zuleika cabeleireira, Noelma Veli, Cilinha, Lúcia Gavino e Arminda Alves (pianista). Foto Salvador.
 
Foto Salvador

Carro alegórico por ocasião do Centenário, evocando a fauna do Deserto do Namibe e a caça. Ainda no interior do velho campo de futebol de terra batida, preparava-se para o desfile em torno da Avenida.

Um dos Pavilhões erguidos  na Avenida em 1949, para as festividades do Centenário: o pavilhão  do do BAR com as suas femininas colaboradoras
Foto cedida por uma conterrânea

  O  BAR com sua femininas colaboradoras. Da esq para a dt: Julinha Pestana, Alice Castro, Orbela Guedes, Manuela Bajouca, Fátima Cunha,  Zuleika?, Celeste (Carracinha),  Lizete Ferreira, Etelvina Ferreira, Ruth,  ?, Teresa Ressurreição, Maria Parreira e ?


A página já vai longa. Falta ainda fazer uma referência às procissões,  aos circuitos automóveis, às corridas de bicicletas e a outros eventos mais que tiveram por centro esta Avenida, num tempo que a voragem do tempo levou, e dele hoje em dia apenas restam estas recordações. Eis alguns desses momentos...




Procissão pelas ruas da cidade, por ocasião da peregrinação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima por terras de África, com passagem por Moçâmedes, em 1948

 Procissão por ocasião da peregrinação por terras de África da imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda da Cova da Iria

 Corridas de bicicletas em torno da Avenida, tendo por campeão Marreiros, no início da década de 1950
 
Foto cedida por um conterrâneo
 Manifestação de jubilo  à chegada da equipa de hóquei em patins (Juniores)  do Atlético Clube de Moçâmedes , a "equipa maravilha",  vencedora por 4 anos seguidos da modalidade e categoria em campeonatos em Angola.

 À volta da Avenida disputavam-se também a partir do início da década de 1950 várias provas automobilistas, sobretudo antes da construção da pista asfaltada da marginal. Após a construção da referida pista as provas passaram também a fazer-se  desde o início dos anos 60.
Foto cedida por um conterrâneo
 
Foto cedida por um conterrâneo
 
Foto cedida por um conterrâneo
Foto cedida por um conterrâneo
Foto cedida por um conterrâneo


 
Vista para o topo sul da Avenida, a partir da década de 1950. Foto cedida por um conterrâneo.





MariaNJardim




(1) Dedicados inteiramente ao trabalho e à gana de vencer que os movia, parece terem passado ao lado dessa fase menos simpática que foi a dos desembarques da soldadesca metropolitana, na ponte de Moçâmedes, com  armas e munições, rumo à fronteira sul. Desde a Conferência de Berlim, iniciada em 1884 onde foram definidas as regras para a partilha de África pelas potencias europeias, tivera inicio a  corrida desenfreada para a ocupação daquele continente riquissimo de solo e subsolo, e isso implicou o envio maciço de tropas e a consequente escalada dos conflitos, principalmente com as tribos africanas. Portugal enviou tropas para todas as regiões de África que reivindicava na altura. As populações do sul de Angola eram um mosaico de pequenos núcleos de origem europeia, que coexistiam com a esmagadora maioria de populações negras de diferentes etnias. Estavam os boers, instalados na Huíla, e também colonos idos da ilha da Madeira; em Moçâmedes os luso-brasileiros de 1849-50 e os algarvios de Olhão que desde 1861 tinham começado a chegar. Várias correntes religiosas procuravam exercer a sua influência: católicos, protestantes, espiritanos franceses, luteranos, e outras. Havia o tráfico de armas, como as Martini-Henry e as Westley Richards, algumas provindas da guerra civil americana, outras da África do Sul. As tribos africanas não só estavam organizadas – possuindo meios rudimentares de comunicação militar, por exemplo – como estavam armadas com armas de fogo das mais diversas origens. Não era fácil  a vida dos soldados portugueses, obrigados a longas caminhadas muitas vezes a pé pelo terreno desértico ou semi-desértico, ou a cavalo, carroças boer, etc,  a teram combater os alemães (1914), por estes terem invadido o sul de Angola, mas continuavam a ser os negros os piores adversários. Os soldados quando não morriam nos combates, morriam de sede e de doenças provenientes, muitas vezes, de beberem água inquinada.  Destacam-se as revoltas do Humbe (1885-1886 , 1891, e 1897-1898). Sofreram a vitória dos Cuamatos (uma tribo Ovambo), na batalha do Vau de Pembe, cujas baixas portuguesas foram centenas, entre mortos e desaparecidos.





(2)

Manuel Júlio de Mendonça Torres, na obra intitulada « O Distrito de Moçâmedes nas Fases da sua Origem e Primeira Organização» refere também os estudos para elaboração do futuro cais acostável , aquando da visita do governador Silva Carvalho ao sul da Colónia, bem como os planos examinados pelo major Sarmento para o campo de aviação do Posto Experimental do Caraculo, que se pretendia munido de uma pista de mil e duzentos metros, de modo a permitir a aterragem de aviões destinados a prestação de assistência técnica e sanitária rápida a toda a região definida como ideal para a produção de gado Karakul.   Do ponto de vista económico, Manuel Júlio de Mendonça Torres citava as indústrias marítimas como aquelas que à época apresentavam o maior desenvolvimento no Distrito, atingindo exportações em números elevados, e também a indústria do Karakul que estava despertando o interesse dos criadores, a quem os poderes publicos conferiam facilidades, sector para o qual, à data, tinham sido feitas quinze concessões de cinco mil hectares cada uma, e com possibilidades de se criaram mil cabeças por concessão, ficando outros cinco mil hectares reservados a cada concessionário para expansão futura da sua indústria, segundo informações colhidas no Diário de Notícias da época. Salientava ainda o impulso dado pelo governador Silva Carvalho, sob a égide do capitão Teófilo Duarte, o Ministro das Colónias.