Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A AVENIDA DE MOÇÂMEDES












O despontar de uma cidade adormecida...


Manuel Júlio de Mendonça Torres, na obra intitulada « O Distrito de Moçâmedes nas Fases da sua Origem e Primeira Organização», considera  Moçâmedes, a cidade capital do Distrito do mesmo nome, que já então apresentava um índice económico apreciável, como um grande triunfo da colonização portuguesa, obra dos corajosos emigrantes de Pernambuco e dos seus esforçados continuadores, que a ergueram e alindaram no deserto do Namibe, arrepiante e hostil.

Segundo Mendonça Torres, os  colonos de 1849 e 50 efectuaram uma ocupação pacífica e vitoriosa, sem feitos militares a registar, apesar de áspera e tormentosa, atravessada por infortúnios tais como fomes, doenças, inquietações, misérias, mortandades.

Referindo-se aos «delineamentos da planta tipográfica da povoação», distingue uma fase atabalhoada (1850 a 1852) em que os trabalhos do levantamento da povoação haviam sido feitos sem respeitar os elementares preceitos de construção, e uma outra fase, a partir da tomada de posse do Fernando Leal, a 16 de Fevereiro de 1854, na qual é patente a preocupação do Governador em delinear a planta da futura povoação, indicando já a abertura de ruas e travessas alinhadas em geométricos paralelismos, que imprimiram a Moçâmedes a sua fisionomia característica.

Mas Moçâmedes após o primeiro impulso sobre humano e dinamizador passou por uma estagnação imobilizadora, um processo evolutivo demasiado lento do qual só conseguiu sair no pós guerra 1939-45, altura em que resolutamente avançou para o progresso. Manuel Júlio de Mendonça Torres adianta também que  por essa altura notícias publicadas no Diário de Notícias davam conta que a cidade e o distrito iriam ser objecto de grandes melhoramentos que antecipariam as comemorações do seu 1º Centenário, em 1949, de entre os quais, a construção de casas de habitação para funcionários públicos e de um edifício grandioso para instalação da Estação dos Correios Telégrafos e Telefones, na Avenida da República, a construção de Escolas nos bairros da Torre do Tombo e da Aguada, a instalação de repartições públicas, a construção de casas para indígenas, a construção de delegações marítima e aduaneira em Porto Alexandre, e a construção dos postos de despacho escolar na Lucira. 

Aliás, a fase entre 1945 e 1949 é assinalada pelo autor como uma fase de engrandecimento e embelezamento através de novas construções efectuadas com «inteligência e ponderação», a construção de «edifícios bem proporcionados, de linhas elegantes e harmoniosas que imprimiam  à cidade uma fisionomia conveniente e aprazível: o Cine Moçâmedes, o Grande Hotel, o Clube Nautico (Casino), o Sporting Clube de Moçâmedes, e vários prédios para moradia, como o da Intendência do Distrito, o da gerência da Sociedade Oceânica do Sul (SOS), o de João Bento, os de Augusto Rosa, os de Raul Radich, etc etc.  Referia também os estudos para elaboração do futuro cais acostável , aquando da visita do governador Silva Carvalho ao sul da Colónia, bem como os planos examinados pelo major Sarmento para o campo de aviação do Posto Experimental do Caraculo, que se pretendia munido de uma pista de mil e duzentos metros, de modo a permitir a aterragem de aviões destinados a prestação de assistência técnica e sanitária rápida a toda a região definida como ideal para a produção de gado Karakul.   Do ponto de vista económico, Manuel Júlio de Mendonça Torres citava as indústrias marítimas como aquelas que à época apresentavam o maior desenvolvimento no Distrito, atingindo exportações em números elevados, e também a indústria do Karakul que estava despertando o interesse dos criadores, a quem os poderes publicos conferiam facilidades, sector para o qual, à data, tinham sido feitas quinze concessões de cinco mil hectares cada uma, e com possibilidades de se criaram mil cabeças por concessão, ficando outros cinco mil hectares reservados a cada concessionário para expansão futura da sua indústria, segundo informações colhidas no Diário de Notícias da época. Salientava ainda o impulso dado pelo governador Silva Carvalho, sob a égide do capitão Teófilo Duarte, o Ministro das Colónias.
 Um momento das obras que decorreram na Avenida de Moçâmedes, que integraram trabalhos de terraplenagem, destinada a desbastar o morro, que da Fortaleza se prolongava pelo topo sul da Avenida, que após estas obras se tornou mais vasta.



Retenha-se que o plano quinquenal assinado pelo Presidente Carmona que visitou as colónias e esteve em Moçâmedes em 1838, contemplava grandes melhoramentos para Moçâmedes, mas por força da 2ª Grande Guerra (1839-45) , as fábricas europeias que eram as fornecedoras de material deixaram de responder às encomendas,  concentradas que se encontravam ao serviço da guerra.




A AVENIDA DE MOÇÂMEDES

Nesse contexto de mudança e melhoramentos, quem muito beneficiou foi a Avenida da República de  Moçâmedes, aquela mesma que no início do século XX, era  ainda denominada "Avenida D. Luis" em homenagem ao rei consorte de Portugal, esposo da rainha D. Maria II, e que passou a "Avenida da Republica" após a queda da Monarquia Constitucional, em 1910. Uma Avenida que desde logo transformou num vasto espaço de confraternização e lazer que importava melhorar sempre mais e mais. Afinal era ela a sala de visita da cidade. 

Aliás, Moçâmedes  desde o seu traçado inicial, possuiu as características do conceito moderno das cidades-jardim, conceito surgido a partir do século XVIII, com as más condições encontradas  nas cidades por força da revolução industrial, do êxodo dos campos para as cidades na busca de emprego e fuga da crise no sector agrícola, e ausência de planejamento. Foi na Europa e EUA que o urbanismo moderno surgiu , para solucionar esse caos urbano que então se verificou, e diversos urbanistas projectaram seus planos de cidades ideais. Surgiu então o conceito cultural de cidade, propostas de uma cidade funcional e geométrica,  com linhas rectas que se cortam em ângulos retos, em que a estética passa a ser um imperativo tão importante quanto a eficácia, num tempo em que a grande cidade industrial é acusada de alienar o indivíduo no artifício, e só o contacto com a natureza podia devolver o homem a si mesmo e permitir um harmonioso desenvolvimento da pessoa como totalidade. Foi neste contexto que surgiu a a moda do "Passeio Público", vinda de Paris,  à qual os portugueses aderiram, após a reconstrução da cidade de Lisboa, em consequência do terramoto, quando foi rasgada a Avenida da Liberdade. Moçâmedes herdou um pouco de tudo isso, para bem de todos nós que lá nascemos, ou que lá nos foi dada a oportunidade e o privilégio de viver.



A este respeito, uma referência merecida deve ser feita ao grande governador de Moçâmedes, Fernando da Costa Leal, o quinto governador de Moçâmedes (1854-1959). um  visionário de espírito jovem e empreendedor, pessoa cheia de ideias a quem Moçâmedes ficou a dever a planta da cidade, e o rasgar desta bela e longa Avenida.

A moda do "Passeio Público" enraizou-se nas gentes de Moçâmedes, e a tal ponto que ainda é confirmada nos anos 1940 e na década de 1950, como local de preferência da população jovem principalmente, mas também da menos jovem e das crianças, que enchiam a Avenida, aos domingos, ao entardecer e após as matinées do Cine Teatro de Moçâmedes (o popular Cinema do Eurico). Nada melhor do que ir até à Avenida da República "para ver e para ser visto". Na realidade até finais da década de 1950, os jovens da terra tomavam conta da Avenida, davam voltas  e mais voltas, andavam para frente e para trás, elas com suas roupas coloridas inspiradas na moda-burda, eles com a descontração natural, aproveitando o encontro para flirtar, enquanto a partir do Coreto ali existente, mesmo no epicentro do Jardim, o Rádio Clube, sob a direcção de Carlos Moutinho, lançava para o ar programas de rádio que eram transmitidos através de altifalantes pendurados  nas árvores, que transmitiam as músicas mais em voga, com especial realce para canções portuguesas, tangos de Gardel, modinhas brasileiras e outros géneros musicais que faziam partir de emoção os jovens corações. E também entrevistavam pessoas, e lançavam para o ar música a pedido: "Alguém oferece a alguém como prova de amor", e Tony de Matos cantava as  suas" Cartas de Amor" que ecoavam por toda a Avenida.   Na década de 1960 o passeio na Avenida entrou em declínio com o inicio das "Festas do Mar".

Na década de 1950 a Avenida de Moçâmedes foi objecto de novos e grandes melhoramentos, a juntar-se aos conseguidos na década anterior, como a 2ª foto mostra, (1) e  transformou-se  num local ainda mais atraente, rodeado de canteiros cobertos de flores das mais diversificadas cores, que eram um encanto ver, com bancos de jardim em maior número, num verdadeiro culto ao divertimento e ao lazer.



 

 A Avenida era  o local privilegiado para fotografias... Aqui estou eu a posar para a posteridade. 1956

 A minha filha e as primas...

Década de 1950. Junto a um dos tanques da Avenida, com repuxos de água e onde nadavam vermelhos peoxinhos



 Década de 1960. Manuel Barbosa e neto

Carlos Alberto Cacella de Vitoria Pereira


 

Quatro amigos relaxam num banco dos jardins da Avenida

 Carlos Moutinho do Rádio Clube de Moçâmedes, num programa em que simula entrevistar a foca que à época (finais da década de 1950), era o encanto de crianças e adultos
 A "Foca" que um dia vinda do polo a nós a viera...No tanque do Jardim aprisionada...


 Esplanada do Quiosque, vendo-se o Cine Moçâmedes ai fundo



Mas a Avenida da República, a sala de visitas de Moçâmedes, não servia apenas de "picadeiro" aos domingos ao entardecer, após o matinées no Cinema do Eurico.  Era uma verdadeira sala de visitas da cidade, o centro em volta do qual aconteciam inúmeros eventos no decurso dos tempos. Um desses eventos foi um "corso" de carros alegóricos ali realizado em 1955, por ocasião do Carnaval, periodo em que também ali aconteciam as célebres "batalhas de cocotes de farinha" que  deixavam a Avenida irreconhecível, como mostram as fotos que seguem,



                                                     O carro vencedor: Banco de Angola


 
 

 

 
 Bilibaus e Tragateiros, os foliões do Carnaval, cujo desfile acontecia à volta da Avenida


 Fotos das batalhas de cocotes que deixavam a avenida toda enfarinhada

Mas também passavam por aqui, desfilando, cantando e batucando, os kazekutas do Carnaval... Ou seja as chamadas danças indígenas.

E também  Gigantones e Cabeçudos  a anunciar o inicio das Festas do Mar...
 
...e os carros alegóricos que desfilavam exibindo  a jovem em cada ano eleita a "Miss Mar" , que em  1971 foi Paula Chalupa, que na foto se encontra ao lado de Riquita, a moçamedense que foi  Miss Portugal 1971
 
E a  recepção a Riquita, em 1971


Seguem fotos do último desfile ocorrido na Avenida da República na era colonial: 1974

 
Passando pela Rua da Praia do Bonfim...


Desfile em 1974


Mas esta Avenida foi em outras eras palco de eventos militares, ligados à fase da ocupação do sul de Angola e da definição de fronteiras, de que restam estas recordações. Na foto podemos ver a passagem de revista efectuada pelo Governador Geral a um contingente militar  desembarcado em Moçâmedes, em trânsito para a fronteira sul.

Já em 1907, por ocasião da subida da vila de Moçâmedes a real cidade, a Avenida tinha recebido a visita do Príncipe D. Luiz Filipe, filho do rei de Portugal, D. Carlos I, e da Rainha D. Amélia.

E outras recepções mais foram tendo lugar...



 
 
Em 1938 a Avenida de Moçâmedes foi palco de uma calorosa recepção ao Presidente da República, Óscar de Fragoso Carmona,  que envolveu, de entre outros eventos, um desfile de povos indígenas das mais diferentes etnias, um desfile dos alunos de todas as escolas do Distritom de braços esticados para a frente, em saudação olímpica, enquanto o Presidente e Comitiva assistiam do alto da Tribuna ali erguida para o efeito.

Para ver mais, clicar  AQUI. 
Nesta altura a ll Grande Guerra, de 1939-45, aproximava-se a passos largos, a Alemanha de Hitler manifestava intenções expansionistas,  quer em relação à Europa quer em relação aos territórios africanos ocupados por Portugal que faziam fronteira com o Sudoeste Africano alemão (actual Namibia). O Sul de Angola estava em perigo, caso a Alemanha nazi viesse a ganhar a guerra.  O Presidente visava mostrar ao mundo que portugueses e africanos estavam ao lado do Portugal! A situação política em Angola, obrigava a estas exibições.

Onze anos mais tarde, esta Avenida encheu-se de barracas e pavilhões, para comemorar esse evento singular e inesquecível, para quem a ele assistiu, que foram as festividades do Centenário da cidade, iniciadas no dia 04 de Agosto de 1949.  Por mais de uma semana decorreu na Avenida um festivo e bem organizado arraial, que atraiu para ali gente vinda de todos os cantos da cidade e de todo o Distrito. Na foto vê-se ao fundo o velho Coreto, e nas laterais, várias barracas e pavilhões, para além de grupos de pessoas deslocando-se na Avenida, para assistir aos eventos. 

A foto que segue mostra-nos um dos carros alegóricos que desfilaram à volta da Avenida no dia 04 de Agosto de 1949, integrado no desfile de carros alegóricos ocorrido por ocasião do Centenário. Recorda-se assim a "Tentativa Feliz", a barca brasileira que trouxe até Moçâmedes os colonos fundadores, vindos de Pernambuco, Brasil e ali chegados 100 anos atrás, capitaneados pelo Brigue português "Douro". Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro foi o chefe dessa 1ª colonia, e a personalidade que deu o primeiro impulso à colonização, dando força aos seus companheiros nas horas de desalento.


E outras recepções mais foram tendo lugar...

 
Na foto, caras conhecidas da Moçâmedes de 1949. Jovens senhoras que colaboraram como puderam e com os meios que tinham à mão para o abrilhantamento das festas. São, da esq. para a dt: ?, Ludovina Leitão, Maria Eugénia Alves, Salomé Inácio, Zuleika cabeleireira, Noelma Veli, Cilinha, Lúcia Gavino e Arminda Alves (pianista).
 

Carro alegórico por ocasião do Centenário, evocando a fauna do Deserto do Namibe e a caça. Ainda no interior do velho campo de futebol de terra batida, preparava-se para o desfile em torno da Avenida.

Um dos Pavilhões erguidos  na Avenida em 1949, para as festividades do Centenário: o pavilhão  do do BAR com as suas femininas colaboradoras


  O  BAR com sua femininas colaboradoras. Da esq para a dt: Julinha Pestana, Alice Castro, Orbela Guedes, Manuela Bajouca, Fátima Cunha,  Zuleika?, Celeste (Carracinha),  Lizete Ferreira, Etelvina Ferreira, Ruth,  ?, Teresa Ressurreição, Maria Parreira e ?


A página já vai longa. Falta ainda fazer uma referência às procissões,  aos circuitos automóveis, às corridas de bicicletas, aos circuitos automóveis, e a outros eventos mais que tiveram por centro esta Avenida, num tempo que a voragem do tempo levou, e dele hoje em dia apenas restam estas recordações.




Procissão pelas ruas da cidade, por ocasião da peregrinação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima por terras de África, com passagem por Moçâmedes, em 1948

 Procissão por ocasião da peregrinação por terras de África da imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda da Cova da Iria

 Corridas de bicicletas em torno da Avenida, tendo por campeão Marreiros, no início da década de 1950
 

 Manifestação de jubilo  à chegada da equipa de hóquei em patins (Juniores)  do Atlético Clube de Moçâmedes , a "equipa maravilha",  vencedora por 4 anos seguidos da modalidade e categoria em campeonatos em Angola. Também desfilou à volta da Avenida


 

 




 À volta da Avenida disputavam-se várias provas automobilistas, sobretudo antes da construção da pista asfaltada da marginal, já no início dos anos 60.




 
Vista para o topo sul da Avenida, a partir da década de 1950



Belos tempos!

MariaNJardim

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