Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A AVENIDA DE MOÇÂMEDES




 

A AVENIDA DE MOÇÂMEDES


Era assim a Avenida de Moçâmedes no início do século XX, então ainda denominada "Avenida D. Luis" em homenagem ao rei consorte de Portugal, esposo da rainha D. Maria II, e que passou a "Avenida da Republica" após a queda da Monarquia Constitucional, em 1910. 

Uma Avenida que desde logo transformou num vasto espaço de confraternização e lazer. Não admira, naquele tempo estava em voga o "Passeio Público", uma moda vinda de Paris à qual os portugueses aderiram, após a reconstrução da cidade de Lisboa, em consequência do terramoto, quando foi rasgada a Avenida da Liberdade.



Uma referência merecida deve ser feita ao grande governador de Moçâmedes, Fernando da Costa Leal, o quinto governador de Moçâmedes (1854-1959). um visionário de espírito jovem e empreendedor, pessoa cheia de ideias a quem Moçâmedes ficou a dever a planta da cidade, e o rasgar desta bela e longa Avenida.


A moda do "Passeio Público" enraizou-se nas gentes de Moçâmedes, e a tal ponto que ainda é confirmada nos anos 1940 e na década de 1950 como local de preferência da população jovem principalmente, mas também a menos jovem e a crianças, para passearem aos domingos depois da sessão do Cine Teatro de Moçâmedes (o popular Cinema do Eurico). Nada melhor do que ir até à Avenida "para ver e para ser visto". Na realidade até finais da década de 1950, os jovens tomavam conta do jardim, davam voltas  e mais voltas andando para frente e para trás, com suas roupas coloridas inspiradas na moda-burda, aproveitando o encontro para flirtar.


 No Coreto implantado no epicentro da Avenida, o Rádio Clube, sob a direcção de Carlos Moutinho, lançava para o ar programas de rádio que eram transmitidos através de altifalantes ali pendurados que transmitiam as músicas mais em voga, com especial realce para canções portuguesas, tangos de Gardel , modinhas brasileiras e outros géneros musicais que faziam partir de emoção os jovens corações. E também entrevistavam pessoas, e lançavam para o ar música a pedido: "Alguém oferece a alguém como prova de amor", e Tony de Matos cantava as " Cartas de Amor" que ecoavam por toda a Avenida.


Na década de 1960 , a década em que o passeio na Avenida entrou em declínio com o inicio das "Festas do Mar", a Avenida foi objecto de grandes melhoramentos e  transformou-se  num local ainda mais atraente, rodeado de canteiros cobertos de flores das mais diversificadas cores, que eram um encanto ver, com bancos de jardim em maior número, num verdadeiro culto ao divertimento e ao lazer.



 

 A Avenida era  o local privilegiado para fotografias... Aqui estou eu a posar para a posteridade. 1956

 A minha filha e as primas...

Década de 1950. Junto a um dos tanques da Avenida, com repuxos de água e onde nadavam vermelhos peoxinhos



 Década de 1960. Manuel Barbosa e neto

Carlos Alberto Cacella de Vitoria Pereira


 

Quatro amigos relaxam num banco dos jardins da Avenida

 Carlos Moutinho do Rádio Clube de Moçâmedes, num programa em que simula entrevistar a foca que à época (finais da década de 1950), era o encanto de crianças e adultos
 A "Foca" que um dia vinda do polo a nós a viera...No tanque do Jardim aprisionada...
 
 


 Esplanada do Quiosque, vendo-se o Cine Moçâmedes ai fundo



Mas a Avenida da República, a sala de visitas de Moçâmedes, não servia apenas de "picadeiro" aos domingos ao entardecer, após o matinées no Cinema do Eurico , ela era a sala de visitas da cidade, o centro em volta do qual aconteciam inúmeros eventos, tais como "corsos" de carros alegóricos, tal como mostram as fotos que seguem, geralmente por ocasião do Carnaval, onde também ali aconteciam as célebres "batalhas de cocotes de farinha" que  a deixavam irreconhecível.  Este corso realizou-se em meados da década de 1950.



                                                     O carro vencedor: Banco de Angola


 
 

 

 
 Bilibaus e Tragateiros, os foliões do Carnaval, cujo desfile acontecia à volta da Avenida


 Fotos das batalhas de cocotes que deixavam a avenida toda enfarinhada

Mas também passavam por aqui, desfilando, cantando e batucando, os kazekutas do Carnaval... Ou seja as chamadas danças indigenas. E também  Gigantones e Cabeçudos  a anunciar o inicio das Festas do Mar...


 
 
E o
ainda em carro alegórico  a "Miss Mar 1971, Paula Chalupa, à dt, na companhia de Riquita, a moçamedense que foi  Miss Portugal1971
 
 
E a  recepção a Riquita, em 1971
 


A seguir vêm as fotos do último desfile da era colonial: 1974

 

 


Desfile em 1974



E em outras eras (1938) esta Avenida foi palco de uma recepção calorosa ao Presidente da República, Óscar de Fragoso Carmona, que por o texto já estar longo, aconselho vejam AQUI. 
Não foi a única recepção, já em 1907, por ocasião da subida da vila de Moçâmedes a real cidade, tinha recebido a visita do Principe D. Luiz Filipe. E outras recepções mais foram tendo lugar...
 


Nesta altura a situação politica obrigava a estas exibições. No 1º caso indigenas de todas as tribos do Distrito desfilando na Avenida junto da Tribuna onde  estava Carmona.No segundo, alunos e alunas das escolas do Distrito desfilando em frente da tribuna em saudação olimpica, A guerra 1939-45 aproximava-se a passos largos, a Alemanha de Hitler manifestava intenções expansionistas  quer em relação á Europa quer em relação aos territórios africanos ocupados por Portugal. O Sul de Angola estaria pois em perigo caso a Alemanha nazi viesse a ganhar a guerra. A visita do Presidente visava mostrar ao mundo que portugueses e africanos estavam ao lado do Portugal!



E recuando no tempo, não podia deixar passar em claro o desfile de carros alegóricos na Avenida, por ocasião do Centenário, em 04 de Agosto de 1949, bem como o arraial  que se desenrolou em plena Avenida que se encheu de barracas e pavilhões.

 

 

Um dos Pavilhões e suas representantes





A página já vai longa. Faltava ainda fazer uma referencia às procissões e aos circuitos automóveis , corridas de bicicletas , desfiles de desportistas, e tudo quanto  em volta desta Avenida se desenrolara...






 Procissão por ocasião da peregrinação por terras de áfrica da imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda da Cova da Iria

 Corridas de bicicleta tendo por campeão Marreiros, no início da década de 1050
 

 Manifestação de jubilo  à chegada da equipa de hóquei em patins (Juniores)  do Atlético Clube de Moçâmedes , vencedores por 4 anos seguidos dos da modalidade e categoria em campeonatos em Angola.


 

 







 À volta da Avenida corriam várias provas aitomobilistas, sobretudo antes da construção da pista asfaltada da marginal, já no inicio dos anos 60.


Belos tempos!

MariaNJardim

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