Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Concha Pinhão, in Sabor Amargo Amargo Sabor





Moçâmedes, a minha terra e suas suas gentes, foram fonte inspiradora de poetas que por ali passaram, ou que ali nasceram, e nos legaram poemas tocados pelo sentimento e pelas emoções sentidas e vividas pela acutilância da mensagem que procuraram passar, dignos de serem dados a conhecer ao mundo.
 
Tinham passado 33 anos sobre a independência de Angola. Num dos encontros anuais na mata de Caldas da Rainha voltei a ver a poetisa Concha Pinhão, esposa do Dr. Pinhão de Freitas, que foi médico em Moçâmedes. Estava ali a oferecer aos moçamedenses interessados na sua poesia alguns exemplares do  seu livro de poemas «Sabor Amargo, Amargo Sabor». Tive o prazer de ser uma das contempladas com um exemplar desse livro onde a poetisa nos mostra  toda exuberância de artista, numa Angola que a fascinou, quer pela sua majestática beleza, quer pelas suas gentes, com quem partilhou os anos mais dourados  de sua vida.

A Concha Pinhão que me habituei a ver em Moçâmedes, era  uma mulher de altura mediana, magra, tez clara e cabelo negro penteado ao alto, que emanava uma certa exuberância que dava nas vistas.  Quem não conhecesse a sua faceta intelectual e de poetisa, era o penteado que a distinguia das demais mulheres da terra. Fazia lembrar uma típica sevilhana.

Em 1971, Concha Pinhão foi contemplada com o 1º prémio dos Jogos Florais das «X Festas do Mar». Aliás, o diploma e a medalha que lhe foram entregues na altura pela Câmara Municipal de Moçâmedes, ilustram a última página deste seu livro.


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Concha Pinhão ( a meio da foto, de óculos escuros) participando num almoço de confraternização do pessoal da Casa de Saúde do Sindicato dos Empregados do Comércio e Industria de Moçâmedes,  juntamente com o marido, Dr Pinhão, Delegado de Saúde



Desconhecia o tom suavemente provocatório da sua poesia, de onde emana uma velada critica social com apelos tocantes e só por si reveladores da sua fina sensibilidade. Fiquei maravilhada com a erudição, simplicidade e  ritmo dos seus escritos, cuja grande parte dos quais nos remetem para os últimos anos da colonização, e  despertam em nós sensações de toda a nostalgia que Concha sentiu ao escrevê-los. Eis alguns dos seus poemas:




AQUELA ANGOLA



Aquela Angola Mulata!...
Aquela Angola Mestiça!...
Beleza que às vezes mata
E se não mata enfeitiça!...


"Sabor Amargo, Amargo Sabor"
de Concha Pinhão
Poesia Angolana



NAMIBE


Por tê-lo assim tão perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.

E viver ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.


Angola 1968
Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»)



MAR DESFEITO

Na praia das Conchas, fito
O mar revolto, infinito,
Bater nas rochas, desfeito...
E olhamo-nos, tanto, tanto,
Que suas ondas são pranto,
Que vem bater no meu peito...

Angola, 1968
(Concha Pinhão)

 

EMBONDEIRO  

Irei amar-te,
Embondeiro
Meu tronco seco no teu,
Braços que vão procurar
Outros que buscam o céu,
que nesse monte cimeiro
onde vives desolado,
Vou cobrir teu peito nu.
Com o meu cabelo enrolado!


Na solidão... eu e tu.


Estendo tuas raízes
A dar seiva a quem passa,
Agente que passa a rir,
Fingindo que são felizes
Num mundo todo a ruir.


Ao menino deserdado,
mais pobrinho,
mais sozinho,
Que brinca lá na lagoa,
Dou teu fruto aveludado
Para fazer uma canoa.


Dou o teu ventre fibroso,
A mendigo desditoso,
Por abrigo em noite fria;
E as feras mansas, tremendo,
No medo sem companhia.


Nós vamos rindo embondeiro
Desse teu monte cimeiro,
De quem ri da solidão.
De ti, que não vales nada,
Nem dás tábua para caixão


Como é bom ser esse nada!...
Não dar tábua serrada,
Não ser madeira forrada,
A transportar podridão!...



Concha Pinhão foi a vencedora do 1º prémio dos Jogos florais das «x Festas do Mar» 1971, com o poema «Embondeiro».  Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»)




A LISONJA



É a lisonja nefasta
Quando a verdade se afasta
Da verdade que nós somos
Nosso ego cria sonhos
De bergantim* sobre o mar.

Com o falar lisonjeiro
Tem cautela marinheiro
não te deixes afundar.

Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»). Estoril 2002

* O bergantim era o mais subtil e veloz dos navios de remo, tipo galé, utilizados pelos portugueses. 


Esse médico...que conheci



Corria na madrugada
Sempre que alguém gritava
Por um filho que nascia
Na mata verde parava
Cubata se iluminava
O milagre acontecia

Exausto mas deslumbrado
Sorvia cheiro a molhado
Do capim rasgando o chão

Só quem viu terra-parida
Conhece a força incontida
Nessa terra em convulsão

Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»)

  

BRUMA

Chora minha bandeira,
Chora
Que o teu corpo de quinas
Vai amanhã enrolar
Como trapo no mercado
Dos sem fé a governar.

Chora minha bandeira,
Chora
Pelo vermelho sangrento
Do gentio abandonado
De gente que deu suor
Foi escravo,
Foi senhor
E foi evangelizado.
Chora minha bandeira,
Chora
Por portugueses, corsários
Aventureiros,
Audazes
Negreiros
Homens rapaces
Homens que rasgaram mares
Descobriram continentes
Juntaram sangues diferentes
Inventaram essas gentes
Portugueses d'Além Mar

Os homens passam
Pequenos
tempo curto no viver
Ficarão no pó da estrada
Sem merecimento ter

Nossa bandeira irmanada
Há-de brilhar desfraldada
Nos mundos que viu nascer

Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»). Estoril, 1976

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