Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 9 de maio de 2016

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe




"De expressão moderna, com volumes de silhueta triangular, em articulação com um expressivo corpo troncocónico em betão aparente, onde se rasgam pequenos vãos de modo irregular, no tipo da Igreja de Romchamp, por Le Corbusier.  Foi projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960. "
José Manuel Fernandes, professor catedrático na Faculdade de Arquitectura da UT
 










 

 
 

 

 
 Como Ronchamp, a Igreja de S Pedro,  de um branco brilhante em sua fachada, paredes em ângulos rectos, curvos, a um tempo triangular,  redonda, alongada, baixa,  alta, vasta, fechada, aberta sobre exterior, com pequenas janelas irregulares que permitem  e penetração de jogos de volumes de luz.


 

OLHAR A IGREJA DE S. PEDRO DE MOÇÂMEDES/NAMIBE, SOB UMA PERSPECTIVA DIFERENTE...



Regra geral, olhamos superficialmente os edifícios, sofremos o impacto daquilo que eles a nossos olhos  representam, gostamos, não gostamos, fazemo-lo empiricamente, apoiados exclusivamente na experiência e na observação, sem quaisquer análises estética ou ideológica do edifício em si, sem nos preocuparmos com correntes arquitectónicas, nem com aquilo que eles representam, a menos que tenhamos uma formação académica ligada às coisas da arquitectura.

A Igreja de São Pedro na cidade de Moçâmedes, actual Namibe, em Angola, projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960, tem algo mais a nos transmitir. Ela segue a arquitectura modernista da Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), mais comumente Igreja de Ronchamp,  projectada por Le Corbusier, considerado o farol da modernidade, reconhecido por alguns dos cometimentos arquitetónicos mais extraordinariamente significativos do século XX, e decisivo para o desenvolvimento da arquitectura da segunda metade do século.

Debrucemo-nos um pouco da  Igreja Ronchamp, situada no alto de uma colina vasta e verdejante, a sudeste de Paris, ocupa um lugar que desde há muito de peregrinação católica,  e que fora destituído de seu principal símbolo de comunhão, a sua Igreja, atingida por um bombardeamento alemão, no Outono de 1944. Esse mesmo edifício já havia substituído outro anterior, destruído por um incêndio em 1913. http://www.archdaily.com.br/…/classicos-da-arquitetura-cape…".

Construída na década de 50, a Notre Dame du Haut foi desenhada para "criar um local de silêncio, oração, paz e alegria interior", segundo Le Corbusier. Classificado como monumento histórico desde 1967, o edifício atrai anualmente cerca de 80 mil turistas.

 Ronchamp foi uma obras polémica, tanto por parte dos arquitectos, quanto pelo público.  Uns viram em Ronchamp  quer um regresso ao passado, quer à plasticidade, outros um indício da crise do racionalismo. Com Ronchamp, a reprodutividade e a  estandardização cedem espaço à experiência singular,  arquitectura e história relacionam-se, ergue-se o valor da dimensão simbólica, social e cultural. De um branco brilhante em seus muros externos, paredes grossas e curvilíneas, a um tempo quadrada e redonda, alongada e contida, baixa e alta, vasta e aberta sobre o exterior, com pequenas janelas irregulares que permitem o jogo dos volumes sobre a luz. Ronchamp foi depredada numa tentativa de furto e sofreu um dano irreparável,  o único vitral assinado pelo grande mestre foi completamente destruído.



 Ronchamp


Quanto à Igreja de S. Pedro de Moçâmedes/Namibe, de Taquelim, inspirada em Romchamp de Le Corbusier, esta foi construída no quadro do Estado Novo, ela faz parte do conjunto de edifícios modernos que vieram  romper com numa época em que a arquitectura portuguesa era condicionada à vontade do Estado e da ditadura vigente, que se impunha incluso ao nível do gosto e da estética dos cidadãos, com reflexos na arquitectura e no urbanismo. (1) E não  romperam apenas com a tradição estado-novista,  mas também com a  arquitectura eclesiástica  ligada ao dogmatismo religioso, opostas à linguagem moderna de Le Corbusier,  que se  vai revelar em terras da África portuguesa, pela mão de  alguns arquitectos que para lá "emigraram",  munidos de uma nova visão fortemente influenciada pela produção da arquitetura brasileira,  que preconizava uma linguagem internacional.
 Inicialmente conformados,  com o advento do modernismo e o forte impacto da arquitectura brasileira junto às novas gerações de arquitectos, os arquitectos portugueses acabam influenciados.
Em terras de África, mais libertos de condicionalismos ideológicos,  desde a década de 40, vários arquitectos formados em Portugal puderam levar a cabo um conjunto de intervenções arquitetónicas e urbanísticas influenciadas pelo modernismo, uma vez que do ponto de vista climático o Brasil era semelhante ao continente africano, com soluções e técnicas já experimentadas e saberes sedimentados que poderiam ser transpostos para aquele contexto. Eles construíram edifícios modernos em Angola, acontecendo porém que décadas após a independência, aquele que era provavelmente o mais emblemático de todos, o Mercado do Kinaxixe, foi demolido e no seu lugar viu  nascer um centro comercial com seis pisos e duas torres. 
Com a independência, a generalidade dos arquitectos regressaram a Portugal, mas alguns partiram para o Brasil, estabelecendo a sua actividade naquele país. Em Moçâmedes/Namibe, esse "modernismo tropical" para além da Igreja de S. Pedro, deixou algumas outras obras de um modernismo de ponta que muito dignifica aquela cidade, quer por aquilo que representam do ponto de vista histórico-ideológico, quer pela contribuição estilística para a paisagem urbana.

Não queremos terminar sem integrar aqui um texto relacionado com o projecto desta nova igreja então a construir em Moçâmedes, de acordo com o plano de urbanização da cidade de Moçâmedes, aprovado pelo Ministro do Ultramar, Sr. Comandante Sarmento Rodrigues. Reproduziremos, para tal, a crónica da Agência Geral do Ultramar, distribuída pela Casa da Metrópole de Luanda e publicada no Diário de Luanda de 19 de Janeiro de 1952.


"A fachada principal do novo templo, de grande beleza arquitectónica, apresenta dois baixos-relevos com cenas da vida de S. Pedro, e  é dominada por uma cruz alta, de bronze, iluminada com tubos de neon  que projectarão um cruzeiro com 14 metros e 50.


"A nova Igreja, em cuja planta foram rigorosamente observados os preceitos litúrgicos, tem a configuração de cruz latina. De nave única, permite, de qualquer ponto do seu interior, uma visão perfeita sobre o altar-mor, destacando-se, entre outros pormenores,  a localização do baptistério,  de forma a que o neófito não entre na Igreja antes de baptizado, e a da câmara mortuária, com entrada independente, o que permite a normal celebração do acto do culto.


"Tanto a escultura, como a pintura a fresco, contribuem para realçar a beleza do magnífico conjunto arquitectónico, dando-lhe a dignidade e imponência próprias do elevado fim a que se destina esta nova obra. No topo de uma das naves haverá um carrilhão e um indicador das condições atmosféricas, de grande utilidade, especialmente para a população piscatória da cidade, e na torre  um relógio e um sino de grandes dimensões.


In Conspecto Imobiliaário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres

Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.


MariaNJardim







(1) Trata-se de um tema pouco debatido, o da Arquitectura Moderna desenvolvida nas antigas colónias. Durante a vigência do Estado Novo, a arquitectura era usada como um instrumento de propaganda do Regime. A Exposição do Mundo Português em 1940, marcou a viragem para uma produção com características nacionalistas e monumentais, e no ano seguinte é apresentada em Lisboa a Exposição da Moderna Arquitectura Alemã, organizada pelo arquitecto Albert Speer, o preferido de Hitler. O Estado passou a impor os seus próprios valores na arquitectura, e os arquitectos que anos antes tinham seguido os princípios do Movimento Moderno passaram, salvo raras excepções, a instrumentos da criação dos modelos da ditadura, sendo toda a encomenda pública centralizada no Ministério das Obras Públicas, e controlada pelo ministro Duarte Pacheco. Os edifícios públicos (universidades, cine-teatros e tribunais) aproximavam-se dos exemplos alemães e italianos da época, com um forte carácter monumental e clássico, cujo objectivo era transmitir aos cidadãos a ideia de autoridade e ordem. Nos edifícios de menores dimensões nas pequenas cidades era escolhida uma linguagem mais regional ( em escolas primárias, pousadas, edifícios dos Correios e da Caixa Geral de Depósitos e nos bairros de habitação social). Em Lisboa raros arquitectos se opunham às imposições do Estado Novo. No Porto logo ao nível das escolas notava-se a diferença, alí o mestre, o arquitecto Carlos Ramos, apesar de adepto do regime, mantinha uma postura mais liberal, e incentivava os alunos a descobrirem outros caminhos na arquitectura, em constante mutação. Com o fim da II Guerra Mundial Salazar foi proporcionando uma maior abertura no campo cultural, e o I Congresso Nacional de Arquitectura, promovido pelo Governo para celebrar os “15 Anos de Obras Públicas”, na verdade, foi o início da contestação da classe de arquitectos. Ao longo dos nos 50 assiste-se a uma progressiva libertação da arquitectura portuguesa que se vai aproximando dos circuitos internacionais.







2 comentários:

  1. Gostaria de saber como fazer contato com essa igreja de São pedro. Estamos tentando localizar a certidão de nascimento de meu pai Antonio Lages da Cunha, que nasceu em Namibe em 1906 e possivelmente foi registrado ai.
    meu e-mail é rosalina.queirozdacunha@gmail.com. Se puder me ajudar desde já agradeço.
    Rosalina Cunha Rio de Janeiro- Brasil

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  2. Exma Sra. Penso que ainda continua a ser na Igreja Paroquial de Santo Adrião, e terá que ser através do consulado ou Embaixada.

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